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Robert Kurz
Em maio de 1944, durante o exílio
californiano, Max Horkheimer e Theodor W. Adorno concluíram, sob o título
''Dialética do Esclarecimento'' (''Dialektik der Aufklãrung''), um manuscrito
redigido em comum frase a frase, que só seria publicado em 1947, em Amsterdã.
Sobre esse texto pode-se dizer, sem hesitar, que introduziu uma mudança de
paradigma rica de consequências para a teoria social. Pois, até então, o
pensamento do Esclarecimento, da forma como se desenvolvera no século 18, era
tomado como o legado positivo comum da modernidade. Liberais e marxistas
reportavam-se igualmente às conquistas desse período, uma vez que o marxismo
resultara do liberalismo e, este, da filosofia do Esclarecimento anglo-escocês,
francês e alemão.
As ideologias do progresso concorrentes no século 19 e início do século 20
batiam-se em torno da interpretação e evolução do pensamento do Esclarecimento;
o marxismo aparecia, por assim dizer (e também compreendia a si próprio), como a
sua ''segunda transição'', que, após a crítica do despotismo absolutista, da
religião e da superstição, queria executar a ''missão histórica'' do
Esclarecimento por meio da crítica das relações sociais e econômicas. Uma
crítica contrária aos fundamentos do Esclarecimento só parecia possível nos
horizontes do pensamento reacionário, misantropo e irracional, que preparara e
munira ideologicamente o regime fascista e a sua barbárie moderna. Um ano antes
do fim da Segunda Guerra Mundial, quando ainda vigorava a coalizão anti-Hitler
entre a União Soviética e as potências ocidentais, seria natural reproduzir
intelectualmente, num maniqueísmo filosófico, as frentes de guerra e identificar
a coalizão antifascista ao lado bom na tradição do Esclarecimento, e, o
fascismo, ao lado mau na tradição romântica e reacionária do
contra-Esclarecimento. Essa interpretação, no horizonte compreensivo de um
liberalismo banal e um não menos trivial marxismo democrático, que vegetaria até
os anos 80 e, de bom grado, teria insistido para sempre na constelação que há
muito se tornara histórica da coalizão anti-Hitler, foi, todavia,
fundamentalmente recusada pela ''Dialética do Esclarecimento''. Mas Horkheimer e
Adorno também não forneciam nessa obra teórica uma filosofia para o conflito
entre Ocidente e Oriente, que dominaria metade do século seguinte _filosofia
esta que se interessava simplesmente pelos pressupostos ideológicos do mercado e
se antecipava ao espírito do tempo como ''trendsetter''. A mera excomunhão do
marxismo dos limites da ''boa'' modernidade e a glorificação da democracia
ocidental supostamente ''pluralista'' como a única herdeira legítima do
Esclarecimento, em oposição às ditaduras fascistas e stalinistas, qualificadas
igualmente como ''totalitárias'', remonta a uma literatura acadêmica barata,
que, com exagerada condescendência, servia ideologicamente ao próprio sistema de
dominação durante o período da ''Guerra Fria''.
A ''Dialética do Esclarecimento'', ao contrário, mergulhava raízes muito mais
profundas: pela primeira vez, de uma perspectiva crítica e emancipatória, a
tradição do Esclarecimento como tal foi posta em tela de juízo. O fascismo, diz
a revelação chocante de Horkheimer e Adorno, não foi um monstro alheio, que
irrompeu de forma atávica do subterrâneo pré-civilizatório da história, mas um
legítimo descendente do próprio Esclarecimento. ''O Esclarecimento é
totalitário'' _essa frase cortante delineia o programa de uma crítica social
nova e diversa, que até hoje aguarda o seu cumprimento. O conceito de
''totalitarismo'' caracterizava, desse prisma, não somente o fascismo e tampouco
o fascismo e o stalinismo tomados em conjunto, mas, em última instância, a
própria democracia ocidental. De certo modo, era a perspectiva de um futuro
antecipado, a partir do qual as ideologias modernas mutuamente antagônicas, os
movimentos políticos e os sistemas sociais eram, de forma inopinada, percebidos
num sistema de coordenadas comum, para o qual elas próprias eram cegas, mas cujo
reconhecimento crítico relativizava, de um ponto de vista superior, seus
antagonismos. Por isso, ambos os autores desse livro admirável não se deixavam
embair pela situação histórica concreta do ano de 1944. Era indispensável, na
prática, derrubar o fascismo, que corporificava as possibilidades e
consequências mais fatídicas do Esclarecimento e da modernização. Mas isto não
significava subordinar a Teoria Crítica a tal objetivo imediato. O conhecimento
teórico, para além da política antifascista do dia-a-dia e das necessidades de
guerra, não podia calar e reprimir que o próprio fascismo era farinha do mesmo
saco do Esclarecimento e que a lógica da desumanização espreitava os próprios
pilares da democracia ocidental.
Mas no que consistia esse momento totalitário comum da modernidade esclarecida,
que o fascismo representava numa forma extremamente irracional e equívoca, o
stalinismo numa forma historicamente extemporânea (tardia) e a democracia
ocidental numa forma madura, em inúmeros aspectos (pelo menos nos Estados
Unidos) já quase pós-moderna? Horkheimer e Adorno tiveram sérias dificuldades
para formular, em 1944, o problema que farejavam. O salto por sobre a própria
época os tinha conduzido aos limites do pensamento moderno em geral, ou seja, ao
terreno para o qual ainda não havia nome nem conceito. A fim de poder designar o
totalitarismo da modernidade, eles lançaram mão do conceito de ''dominação da
natureza'', que se transforma, em sociedade, na ''dominação sobre os homens''.
Na medida em que se rebaixa a natureza a ''uma mera objetividade'', e o objeto
isolado a um mero ''exemplar'' de uma espécie (e, portanto, a uma abstração), o
sujeito onipotente, por sua vez, torna-se ''mero possuir, mera identidade
abstrata'', que só enfrenta o mundo, a fazer cálculos, com a pretensão de
submetê-lo e dominá-lo. A fim de possibilitar o distanciamento necessário em
face da natureza, tem de surgir na sociedade humana uma classe dominante, que
intercala entre si e a natureza ''os trabalhadores'' enquanto dominados sociais:
''A distância entre sujeito e objeto, pressuposto da abstração, radica na
distância com relação à matéria, que o senhor ganha por meio dos dominados''.
A dominação da natureza por intermédio dos homens-senhores pressupõe que o homem
degrade o próprio homem a mero objeto da natureza: ''O despertar do sujeito é
comprado com o reconhecimento do poder como princípio de todas as relações''.
Ora, isso, sem dúvida, descreve uma correlação negativa que possuía validade
muito antes da sociedade burguesa moderna.
Disso têm plena consciência Horkheimer e Adorno: ''De fato, as linhas de razão,
liberalidade e burguesismo estendem-se incomparavelmente mais do que supõe a
noção histórica, que data o conceito de burguês só a partir do fim do feudalismo
da Idade Média''. Os mais antigos esboços de vontade (ainda impotentes) de
dominação sobre a natureza remontam à pré-história _no próprio ''pré-animismo''
já se acha ''a separação entre sujeito e objeto''. Mas se o homem pré-histórico
ainda se enchia de um implacável medo diante da natureza predominante e buscava
conjurar sua impotência com assimilações mágicas de objetos naturais (mimese), o
mito, por sua vez, dá início à objetivação: ''O mito já é Esclarecimento'', e
''Esclarecimento é a angústia mítica tornada radical''. Essa angústia deve ser
extinta no mito pelo fato de se objetivar a natureza e, na medida do possível,
''não existir mais nada desconhecido''. Nesse aspecto, as figuras mitológicas
aparecem como os arquétipos do sujeito burguês, abstrato e objetivante.
Horkheimer e Adorno tentam mostrá-lo no exemplo do mito de Ulisses _e, isso,
lastreados inconfundivelmente na teoria da cultura de Sigmund Freud. O herói
homérico das aventuras tem de reprimir os seus próprios impulsos, a fim de se
tornar sujeito da dominação. A sedução dos impulsos naturais, representados
mitologicamente pelo canto envolvente das sereias, é emudecido para os servos
pelo fato de lhes tamparem os ouvidos com cera; Ulisses, como dominante,
permite-se, no entanto, ouvir o canto, previamente atado com cordas ao mastro da
nau, para que não sucumba ao chamariz.
Tal arquétipo mostra como a própria subjetividade, em última instância, tem de
se tornar objeto, a fim de poder objetivar a natureza e os outros homens por
meio da dominação. Já o mito, portanto, ''pôs em cena o processo infinito do
Esclarecimento''. Nesse processo, são progressivamente destruídas, junto com os
deuses, as qualidades do mundo, pois o ''programa de desencantamento do mundo'',
que repousa na dominação, decompõe, com o seu ''pensamento ordenador'', tudo o
que é próprio e o que, nos homens e nas coisas, não se resolve na investida
objetivante: ''O que não se quer adaptar à medida da calculabilidade e da
utilidade é tomado como suspeito pelo Esclarecimento''. Ele é por princípio
totalitário, na medida que submete a natureza e a sociedade despidas de
qualidade ao cálculo da mera quantificação, à matemática da dominação: ''A
lógica formal foi a grande escola da uniformização.
Ela forneceu aos esclarecidos o esquema da calculabilidade do mundo (...), o
número tornou-se o cânon do Esclarecimento''. A modernidade esclarecida, como
herdeira da história ocidental, é caracterizada segundo Horkheimer e Adorno, por
uma contradição insanável. De um lado, ela prometeu liberdade por intermédio da
desmitologização, ou seja, a superação da própria dominação, que seria
substituída, em nome dos direitos humanos universais, pela razão discursiva do
mercado. De outro, todavia, ela não só conservou o programa da dominação
objetivante da natureza como também o agravou. Por meio do mercado, justamente,
a dominação pessoal foi substituída por uma ''dominação da reificação'', ou
seja, não se superou a ''injustiça social'', que foi apenas objetivada pela
mediação universal da concorrência a um grau de abstração mais elevado do que
antes. Com a equivalência abstrata da troca mercantil, que o capitalismo
totalizou e dinamizou, consumou-se a redução do mundo a grandezas abstratas.
Desse modo, o Esclarecimento moderno foi condenado à autodestruição. Com efeito,
ao ampliar a desmitologização com base na dominação reificada e
despersonalizada, ele obrigou-se a destruir o seu próprio conceito teórico _o
conceito universal em geral_ como pretenso conceito mitológico: ''Com suas
próprias idéias de direito humano não se passa algo diverso do que com os
antigos universais''. Porém, quando a metafísica é consumida até a última gota,
''o pensamento se coisifica num processo automático, de curso independente, que
imita a máquina'' e perde, assim, a capacidade de reflexão crítica. O que resta
é uma ciência rebaixada a ''mero expediente do aparato econômico'': o
positivismo, como ''mito daquilo que é o caso''. O Esclarecimento, assim,
transforma-se novamente em mito _um mito tanto banal quanto nocivo a todos. A
promessa de liberdade converte-se em ''total empulhação das massas''. Se o
liberalismo, ligado à dominação da reificação econômica, degradou o
Esclarecimento a um sistema de concorrência e, assim, a uma cega ''empresa de
autoconservação'', o fascismo, por sua vez, deduziu a última e a mais terrível
consequência: a mitologização racista e anti-semita da concorrência converteu-se
na ''apreensão total do homem''. E, com ''o fim da livre-troca'', o capitalismo
foi falsamente superado nos moldes autoritários e bárbaros. Lido meio século
depois de sua primeira edição, a ''Dialética do Esclarecimento'' provoca uma
sensação contraditória. A sua idéia básica de que o próprio Esclarecimento
transforma-se em barbárie é mais atual do que nunca. O totalitarismo, que se
manifestara em primeiro plano nas ditaduras fascistas e stalinistas, mergulhou
no fundamento da democracia liberal do Ocidente e mostra-se hoje em sua forma
mais pura e desenvolvida: como totalitarismo do mercado global e onipresente,
que faz dos homens marionetes de seu princípio econômico, executado pelas
coações da concorrência total.
Só agora se torna claro quão justo e, por assim dizer, profético foi o fato de a
''Dialética do Esclarecimento'' ter incluído as sociedades ocidentais em sua
teoria da fatalidade histórica. Se, há mais de 50 anos, a democracia liberal
subjugou militarmente seu irmão inimigo, o fascismo, e, na década passada, bateu
pela concorrência econômica seu outro irmão antagônico, o stalinismo, no fim do
século 20, por sua vez, ela mostra, como única sobrevivente da família do
Esclarecimento e da modernização, a carranca da barbárie. Todas as
monstruosidades da história, que deviam ser banidas pelo princípio esclarecido
dos direitos humanos, retornam sob a máscara das ''coerções'' liberais. Por
maiores que sejam os acertos da ''Dialética do Esclarecimento'', hoje ela tem
eficácia limitada. Horkheimer e Adorno não cruzaram a porta por eles franqueada.
Sua recorrência quase supra-histórica ao problema da dominação da natureza põe
em curto-circuito dois planos diversos, o condicionamento de toda história da
humanidade pela dominação socialmente inconsciente e o fetichismo
especificamente econômico da modernidade. A ''Dialética do Esclarecimento''
ganha, com isso, algo de inevitável e supratemporal, ao passo que,
simultaneamente, concede à falsa promessa da liberdade burguesa um resto de
dignidade. Horkheimer e Adorno incorrem na contradição de reconhecer na troca
mercantil a redução a quantidades abstratas e irracionais e, ao mesmo tempo,
desejar preservar, na liberdade dessa troca, a razão discursiva da circulação de
mercadorias. Eles permanecem, nesse sentido, a despeito de sua mudança de
paradigma, filhos do Esclarecimento. Hoje, caberia levar a termo a crítica da
razão esclarecida por meio da crítica da economia moderna. Mas ninguém ousa
cruzar a porta aberta. Parece ser privilégio da filosofia dos anos 90 rastejar
no pó diante das divindades do mercado.
Publicado em 24/08/97 no caderno Mais! da
Folha de São Paulo.
Robert Kurz é sociólogo e ensaísta
alemão, publicou no Brasil, entre outros, ''O Colapso da Modernização'' e ''A
Volta do Potenkim'' (Paz e Terra) e é co-editor da revista ''Krisis''.
Tradução de José Marcos Macedo
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