TEXTOS

Escola de Frankfurt

A “Imaginação Dialética” de Rolf Wiggershaus

 

Jorge Coelho Soares

 

Publicado originalmente em inglês em 1973, TbeDialectical Imagination — A History of the Frankfurter School and the Institute of Social Research 1923-1950 (1), de Martin Jay, permaneceu durante mais de duas décadas como um documento valioso e praticamente sem rival para a compreensão do percurso histórico e filosófico do que hoje se conhece como “Escola de Frankfurt”. Tendo a oportunidade em 1968 de, a convite de Leo Löwenthal, consultar seu extenso arquivo pessoal de matérias do “Instituto de Pesquisa Social”, Martin Jay trouxe a lume informações e dados que se somaram aos de outras estratégias de pesquisa. Entre essas a de entrevistar pessoalmente a maior parte dos membros da ‘primeira geração” da Escola, bem como muitos outros pesquisadores associados diretamente à mesma. Construiu, assim, sua tese de doutoramento — apresentada em Harvard — e um livro que ficou como um marco, traduzido para vários idiomas, incluindo o chinês, que é referência obrigatória para os “neofrankfurtianos”. De 1973 para cá outras tantas contribuições surgiram com o mesmo objetivo, e outros pesquisadores (2) acrescentaram novos detalhes e diferentes perspectivas de interpretação desse movimento de idéias.

Rolf Wiggershaus conseguiu avançar mais ainda nessa mesma trilha ao trazer a lume em 1986 Die Frankurter Schule— Geschichte Theoretische Entwicklung Politische Bedeutung. Esse filósofo alemão, nascido em 1944 e dedicado em sua atividade intelectual principalmente à Teoria da Sociedade, conseguiu ampliar horizontes de investigação criados por Jay e os demais pesquisadores. Agregando novas fontes de pesquisa, construiu um amplo painel da “Teoria Crítica” até o inicio dos anos 80.

Não podendo ter mais acesso direto a Adorno, Horkheimer e Marcuse — os grandes “fiéis depositários” da memória da “Escola” — Wiggershaus se voltou para registrar o depoimento de outros tantos intelectuais que, direta ou indiretamente, estavam ligados a eles, sobretudo em seus desdobramentos teóricos após os anos 60. Entrevistas sistemáticas foram então realizadas com Habermas — principal intelectual da “segunda geração’ da Escola de Frankfurt —, Abendroth, Marie Iahoda, Wittfogel, Moses I. Finley, Walter Dirks, Erica Sherover, Leo Löwentlial, entre tantos outros.

Ao mesmo tempo, incorporou uma análise original das correspondências mantidas em arquivos — muitos dos quais de difícil acesso. São cartas pessoais, memorandos e relatórios de pesquisa que circulavam entre os membros da “Escola”, por meio dos quais emerge gradualmente um certo espaço de relações interpessoais na construção do percurso de construção da Teoria Critica, ao qual raramente temos acesso. São eles que permitem evidenciar as relações tensas e por vezes francamente “paranóicas” que determinavam o comportamento de seus membros, em particular na fase de exílio nos EUA. Ficamos também sabendo como eles se avaliavam mutuamente como intelectuais e corno pessoas e o que esperavam de si e dos outros em momentos de crise.

Wiggershaus lança assim, em muitos momentos, um olhar sobre a Escola que os demais historiadores da Teoria Crítica, incluindo Jay, deixaram quase sempre escapar. O de um movimento de idéias atrás de cujos pressupostos epistemológicos estavam seres humanos não isentos de sentimentos nobres e mesquinhos. Já valeria recomendar a obra por esse olhar psicologicamente tão desvelador do “peso da subjetividade individual de cada membro”, mas Wiggershaus tem também outras ambições. E essas metas foram alcançadas igualmente.

Demonstrando um conhecimento filosófico acurado, quer das principais teses da Teoria Crítica, das filigranas de seus desdobramentos, quer do percurso teórico particular de seus principais membros, ele se lança também na tarefa de avaliar o impacto dessas idéias ao longo do tempo — cobrindo, assim, mais de sessenta anos de história desse movimento de idéias.

O trabalho se encerra com uma extrema e preciosa bibliografia quer do Instituto de Pesquisas Sociais, quer de seus membros mais importantes. É desde já urna fonte de referência obrigatória para todos os pesquisadores interessados na Escola de Frankfurt,

Wiggershaus, por fim, por meio de sua obra, nos leva a perceber com clareza que a Escola de Frankfurt —  “essa etiqueta cômoda” pespegada a seus membros nos anos 60 e a seguir “naturalizada” por eles, apresentando todos como possuidores de uma “realidade histórica evidente” — não pode ser pensada simplesmente como mais um paradigma das Ciências Humanas e Sociais, e como tal constituído. Ele nos mostra que é preciso pensar a Teoria Crítica da Escola de Frankfurt fora dos moldes de constituição que apontam na direção de um sistema ordenado e homogêneo, intersubjetivamente compartilhado por seus membros. Há, somente, pelo contrário, na tessitura de produção teórica de seus membros alguns pontos sempre presentes: uma desobediência à tradição, uma dessacralização do saber naturalizado como única possibilidade de dar conta do real e que se apresenta como única possibilidade de constituí-lo. Todo isso envolvido por uma franca incredulidade que os conduziu sempre à dúvida sistemática, à crítica; que os conduziu por múltiplos caminhos na companhia de Kant, Hegel e Freud, mas também dos teóricos mais significativos da Filosofia e das Ciências Humanas e Sociais. Produziram, assim, um conjunto de reflexões, objetivado em inúmeros livros e artigos, que tentou dar conta, de forma tensional, dos grandes dilemas de nossa vida no momento histórico de radicalidade de uma modernidade que se apresenta como a Esfinge de nosso tempo. E entre os dois pólos — o de emancipação e o de exploração — que essa modernidade nos colocou como seu principal enigma, a Escola sempre optou por apostar na ênfase da contradição e na negatividade, como exercício cotidiano de lucidez. Olhar crítico que tentou sempre transformar a aflição, a angústia da constatação de um “real” cada vez mais administrado em possibilidade de mudança que envolvesse a razão e não se furtasse de manter o coração bem-informado. Foi assim, com esse intuito, que a idéia de “crítica” foi assumida por eles não simplesmente como mero aspecto da teoria, mas também como verdadeira declaração de princípios. É por meio dela e do que se pode distinguir, escolher, julgar e apreciar por um processo de decisão e tomada de posição que eles nos ensinaram a colocar em suspenso, sub judice, qualquer julgamento sobre o mundo, incluindo aí o próprio pensamento que se elabora para dar conta deste.

É esse o tipo de crítica que Wiggershaus procura executar neste livro, constituindo uma trajetória histórica, filosófica e política e, por vezes, psicológica da contribuição de cada um de seus principais membros, que acabou por gerar o que hoje se conhece por Escola de Frankfurt. Movimento de homens e idéias que, procurando dar conta das questões de nosso tempo, delineou para nós um horizonte teórico, alertando sempre, porém, que não existe lugar em que esse horizonte acabe.

 

Notas

 

1 – Boston, Little Brown and Company.

2 – Susan Buck-Morrs, Gilhian Rose, David Held, Alfons Sollner, Douglas Kellner, Richard Wolin, Willem van Rijin, Gunzelin Schmid Noerr, entre outros.

 

 

Publicado como apresentação da obra Rolf Wiggersahus, A Escola de Frankfurt. História, desenvolvimento teórico, significação política. Rio de Janeiro: Difel , 2002.

 

 

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