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A dialética do ofuscamento

 

 

Elvis Cesar Bonassa

 

Para K.

 

O projeto da Dialética do esclarecimento, enunciado pelos autores no

Prefácio escrito em 1947, articula-se em torno de duas teses centrais: “o

mito é esclarecimento e o esclarecimento acaba por reverter à mitologia”.

Assim expresso, o núcleo do texto remete, em primeiro lugar, a uma crítica da

racionalidade e da civilização. É por exemplo a leitura de Habermas, que

procura compreender o livro como uma tentativa – fracassada – de crítica da

civilização em termos semelhantes à que fez Nietzsche a respeito do niilismo

(Habermas 8, p. 140). Uma aproximação tradicional entre os comentadores

da obra, que abre campo para uma série de análises culturais, psicológicas,

históricas, formais. Uma tal leitura da Dialética do esclarecimento permitiria

ver ali a repetição da denúncia nietzschiana de que, por trás das pretensões

éticas e cognitivas, a racionalidade se revela como autoconservação e dominação.

 

Essa análise é redutora; pode levar ao equívoco de supor um objeto

fixado a-historicamente, uma “racionalidade” que se limita a desenvolver, no

transcurso de um tempo linear, os germes da autoconservação e dominação

inscritos desde sempre em sua “essência”. Mas não se trata, como tal interpretação

levaria a supor e como já no título o próprio livro distingue, de uma

dialética da “razão”, e sim do “esclarecimento”. Esses conceitos não são equivalentes.

O capítulo inicial, “O conceito de esclarecimento”, desfaz essa confusão.

O esclarecimento é um processo histórico definido pela busca de “livrar

os homens do medo e torná-los senhores”.

 

Ao se perguntar o que causa medo e sobre o que os homens devem

estabelecer seu senhorio, o caráter desse processo fica mais claro: trata-se da

natureza. “O entendimento que vence a superstição deve imperar sobre a natureza

desencantada” (Adorno e Horkheimer 2, p. 20). Desse modo, o esclarecimento

é, antes de mais nada, no contexto da Dialética do esclarecimento,

uma forma de relação entre homem e natureza. A interpretação começa a

expandir suas fronteiras ao se perceber, então, que essa relação se dá como

trabalho, voltado para o domínio da natureza. No processo de esclarecimento,

dizem os autores, “a natureza não deve mais ser influenciada pela assimilação,

mas dominada pelo trabalho” (idem, p. 32).

 

Adorno e Horkheimer estão longe de ignorar o caráter histórico do trabalho.

As análises marxistas são, a esse respeito, num primeiro movimento

conceitual, o pressuposto do livro. E é dentro dessa historicidade que a razão

é analisada: ela desempenha seu papel como ferramenta inscrita no esclarecimento.

É na história do trabalho que a racionalidade vai tendo seus traços

definidos. O movimento, além de histórico, não se dá desligado das determinações

econômicas. A máxima capacidade de domínio da natureza, o cume

do esclarecimento e da razão matematizada e calculadora que lhe corresponde,

é o capitalismo industrial. “A técnica é a essência desse saber, que não visa

conceitos e imagens, nem o prazer do discernimento, mas o método, a utilização

do trabalho dos outros, o capital” (idem, p. 20).

 

O papel determinante do trabalho, é bom notar, permanecerá constante

nas análises frankfurtianas. em 1937, emFilosofia e teoria crítica”,

Horkheimer afirmava: “Esse pensamento que considera como espiritual a atividade materialmente dada, situando-a na consciência supra-empírica em si,

no Eu absoluto, no Espírito, é geral no idealismo alemão. (...) Para a concepção

materialista, ao contrário, essa atividade fundamental consiste no trabalho

social, cujo caráter de classe imprime sua forma em todos os modos do

reagir humano, inclusive na teoria” (Horkheimer 9, p. 156, grifo nosso). Mais

de 20 anos depois, Adorno retoma o mesmo argumento em “Aspectos”, texto

dedicado a Hegel: “o mundo, enquanto forme um sistema, o fará justamente

por meio da cerrada universalidade do trabalho social, o qual é, de fato, a

mediação radical; e, do mesmo modo que o era entre o homem e a natureza, o

será dentro do espírito para si, que não tolera nada fora” (Adorno 1, p. 44,

grifo nosso)1.

 

A Dialética do esclarecimento, situada cronologicamente entre esses

dois textos, move-se no mesmo terreno. O trabalho como dominação da natureza

gera uma racionalidade também voltada para a dominação. Com respeito

a Marx, o movimento é pelo menos duplo. Em primeiro lugar, aceita-se a

análise marxista do trabalho como forma de relação homem/natureza, de dominação

da natureza, e suas conseqüências para a organização da sociedade.

O segundo passo é crítico: o processo de dominação da natureza desenvolveuse

também como dominação do homem (até aqui ainda não seria preciso separar-

se de Marx), mas de tal forma que em seu ponto de máximo de desenvolvimento

– a sociedade industrial – desaparece a possibilidade da construção

de uma sociedade emancipada.

 

A técnica acoplada ao trabalho atingiu um tal poder que englobou também

os homens sob a forma de natureza, ou seja, como objetos, como seres

destituídos de subjetividade. Esse é um dos sentidos do conceito de “mito”

empregado na Dialética do esclarecimento: se desde o início o trabalho separou

progressivamente homens e natureza, no seu máximo desenvolvimento

ele os reuniu novamente. Em vez da “humanização da natureza”, ocorre a

“naturalização da humanidade”, formando uma totalidade à disposição do único

sujeito, o capital. “A naturalização dos homens hoje em dia não é dissociável

do progresso social. O aumento da produtividade que por um lado produz as

condições para um mundo mais justo, confere por outro lado ao aparelho técnico

e aos grupos sociais que os controlam uma superioridade imensa sobre o

resto da população. O indivíduo se vê completamente anulado em face dos

poderes econômicos. Ao mesmo tempo, estes elevam o poder da sociedade

sobre a natureza a um nível jamais visto” (Adorno e Horkheimer 2, p. 14).

O que Adorno e Horkheimer desenham é um cenário do eterno retorno

da dominação. A passagem para uma sociedade com a produção planificada,

racionalmente gerida, que em Marx aparecia como sinônimo de uma sociedade

liberada2, pode se dar também como perpetuação da não-liberdade. Efetivamente,

a emancipação, de acordo com o próprio marxismo, depende de um

sujeito revolucionário. Marx o via surgir no proletariado. As idéias posteriores

de vanguarda e de consciência de classe procuraram dar solução ao fato de

que, ao invés de buscar uma sociedade mais livre, o proletariado oscilava

entre a apatia e o fascismo. É neste ponto que a análise de Adorno e Horkheimer

toca a questão da racionalidade, dentro do processo do esclarecimento. Para

eles, não é possível surgir um tal sujeito revolucionário liberador porque a

sociedade industrial desenvolveu mecanismos reais de pre-formação dos indivíduos

e das consciências que excluem a priori a possibilidade da liberdade.

Há aqui um forte pressuposto kantiano, que Adorno não cessará de

tematizar em toda a sua obra: é impossível supor uma sociedade livre, uma

verdadeira humanidade, sem que os indivíduos se tornem capazes de uma

subjetividade autônoma3. Esse é o sentido de algumas das principais críticas

levantadas por Adorno contra os partidos comunistas e as organizações

coletivistas – e está também no centro de suas diferenças em relação a Brecht.

A coletividade de proletários acabaria por se reverter no mesmo conjunto totalitário

do qual pretendia se libertar4. Mesmo uma sociedade pós-capitalista

que empregue os mesmos padrões da racionalidade técnica engendrada no

processo de dominação da natureza e faça do trabalho e do desenvolvimento

das forças produtivas seu eixo, ela será uma sociedade não-emancipada. É

necessário insistir em que Adorno não considera a racionalidade desvinculada

dos processos produtivos. O último aforisma da segunda parte das Minima

moralia, escrito em 1945, toca exatamente nesse ponto: “Uma sociedade liberada

das cadeias que a acorrentam poderia bem tomar consciência de que as

forças produtivas não são o substrato último do homem, mas representam tão

somente a forma histórica do homem adequada à produção de mercadorias”.

A possibilidade de “rien faire comme une bête”, afirma Adorno em francês, é

uma das características da sociedade emancipada (Adorno 3, p. 138)5.

 

Um Marx kantiano: crítica e metacrítica

 

Estamos diante de uma espécie de “fim da história”: a sociedade industrial

gera seres humanos incapazes de se organizar de outra maneira a não ser

reproduzindo os mecanismos de dominação dessa mesma sociedade6. Numa

démarche marxista-kantiana, a argumentação da Dialética do esclarecimento

vai operar com a contraposição dos conceitos de autonomia do sujeito e alienação.

O objetivo é mostrar que, levada a seu ponto máximo, a alienação

aniquilou a subjetividade e, com ela, a possibilidade de ações liberadoras. “O

trabalho social de todo indivíduo está mediatizado pelo princípio do eu na

economia burguesa; a um ele deve restituir o capital aumentado, a outro a

força para um excedente de trabalho. Mas quanto mais o processo de

autoconservação é assegurado pela divisão burguesa do trabalho, tanto mais

ele força a auto-alienação dos indivíduos, que têm de se formar no corpo e na

alma segundo a aparelhagem técnica. (...) A subjetividade volatizou-se na lógica

das regras do jogo pretensamente indeterminadas” (Adorno e Horkheimer

2, p. 41).

 

Ao analisar a Crítica da razão pura, os autores insistem em que a

possibilidade de uma sociedade emancipada depende de uma subjetividade

livre: “A razão contém, enquanto ego transcendental supra-individual, a Idéia

de uma convivência baseada na liberdade, na qual os homens se organizem

como um sujeito universal e superem o conflito entre a razão pura e a empírica

na solidariedade consciente do todo. A Idéia desse convívio representa a

verdadeira universalidade, a Utopia “ (idem, p. 83). Mas ocorre que essa

dimensão universalizadora foi dissolvida em favor de uma totalidade não

consciente, controlada. A formulação se completa, em termos kantianos,

delimitando o círculo mágico (Bannkreis) desenhado pela Dialética do esclarecimento:

a passagem para uma sociedade justa depende da subjetividade,

mas esta foi aniquilada. “Aparentemente o próprio sujeito transcendental do

conhecimento acaba por ser suprimido como a última reminiscência da

subjetividade e é substituído pelo trabalho tanto mais suave dos mecanismos

automáticos de controle. (...) O processo técnico, no qual o sujeito se coisificou

após sua eliminação da consciência, está livre da plurivocidade mítica

bem como de toda a significação em geral, porque a própria razão se tornou

um mero adminículo da aparelhagem econômica que a tudo engloba” (idem,

pp. 41-42).

 

O uso do conceito de alienação na Dialética do esclarecimento se aproxima

muito dos Manuscritos econômico-filosóficos de Marx7. A armação

conceitual dos Manuscritos favorece a aproximação com Kant. Ali, Marx expõe

a alienação em quatro níveis: em relação ao produto do trabalho, em relação

ao próprio processo de trabalho e, como conseqüência, em relação ao ser

genérico do homem (Gattungswesen), e finalmente de cada homem em relação

aos outros homens. Tal “ser genérico”, conceito hegeliano filtrado por

Feuerbach, ganha uma definição que engloba elementos de universalidade e

liberdade que caracterizam o sujeito da razão prática kantiana: “O homem é

um ser genérico, não só no sentido de que faz objeto seu, prática e teoricamente,

a espécie (tanto a sua própria como a das outras coisas), mas também – e

agora trata-se apenas de uma outra expressão para a mesma coisa – no sentido

de que ele se comporta perante si próprio como perante a espécie viva, como

ser universal, e portanto livre” (Marx 13, p. 163, grifo nosso). A alienação tira

dos homens a universalidade e a liberdade, rouba-lhes a condição de sujeitos.

Pelos mecanismos da alienação, a atividade humana se converte em mero

interesse individual pela autoconservação, “como o único meio da satisfação

de uma necessidade, a de manter a existência física” (idem, p. 164).

Ora, boa parte do argumento de Adorno e Horkheimer já está exposta

nessa passagem de Marx: a sociedade burguesa substitui a autonomia pela

autoconservação. Os homens se vêem contrapostos a uma totalidade que lhes

aparece como estranha e que os controla. Adorno e Horkheimer se referem

mesmo ao conceito de “ser genérico” na Dialética do esclarecimento, ironicamente:

“A indústria cultural realizou maldosamente o homem como ser genérico.

Cada um é somente aquilo mediante o que pode substituir todos os outros:

ele é fungível, ele é mero exemplar” (Adorno e Horkheimer 2, p. 136).

Mas, enquanto em Marx essa situação lança os indivíduos em um “esvaziamento”

da subjetividade que será superado revolucionariamente, para Adorno

e Horkheimer há um elemento a mais: uma falsa subjetividade, constituída

pelo mecanismos de controle, substitui a subjetividade evaporada e funciona

como bloqueio. Por meio de seu princípio de individuação homogeneizadora,

a sociedade produz subjetividades falsas (porque privadas de liberdade e espontaneidade)

que realizam a universalidade da total adaptação, mediada pelo

trabalho social alienado – “a mediação radical”.

 

Um dos aforismas das Minima moralia inclui mesmo na teoria marxista

da revolução um certo grau de arbitrariedade, ao atribuí-la à “intenção” que a

movimenta: “A verdade ou inverdade da dialética não está no método enquanto

tal, mas em sua intenção no processo histórico. (...) Não é dialética a

doutrina de Marx apenas, segundo a qual o proletariado enquanto objeto absoluto

da história seria capaz de se tornar seu primeiro sujeito social, de realizar

a autodeterminação consciente da humanidade, mas também a anedota que

Gustave Doré atribui a um representante parlamentar do Ancien Régime: que,

sem Luís XVI, jamais teria havido revolução e que, por isso, a ele se deveriam

os direitos humanos” (Adorno 3, p. 214).

 

As considerações feitas até aqui podem servir para mostrar que, se há

igualmente continuidades e rupturas entre a Dialética do esclarecimento e o

marxismo, essas rupturas se dão como radicalização da crítica em um eixo

central da reflexão de Marx. Embora a influência de Max Weber também

pareça determinante, em grande parte devido ao conceito de desencantamento

do mundo, há diferenças metodológicas marcantes em relação a esse autor.

Em A metodologia das ciências sociais, Weber combate o método marxista de

análise, baseado na relação de determinação entre infra-estrutura econômica

e superestrutura política e cultural. Para Weber, a tarefa do conhecimento histórico

ou sociológico pressupõe a eleição de pontos de vista, premissas “subjetivas”,

que se debruçam sobre elementos da realidade “que apresentam alguma

relação, por muito indireta que seja, com o acontecimento a que conferimos

uma significação cultural” (Weber 16, pp. 131-132). Na Dialética do

esclarecimento, o abandono da análise econômica propriamente dita, a escolha

de temas que pertencem igualmente à literatura e à história, o estudo

empírico de casos psicológicos poderiam sugerir que se trata de procedimentos

que optam pela escolha dos pontos de vista que pareceram, ao pesquisador,

mais adequados a seu objeto.

 

Essa seria, no entanto, uma conclusão sujeita a críticas. Adorno e

Horkheimer focalizam, numa análise materialista, um ponto cego do marxismo:

a teoria da revolução, que pressupõe a possibilidade da formação de uma

subjetividade revolucionária, criando uma alternativa para a barbárie dentro

do campo do desenvolvimento das forças de produção capitalista. A Dialética

do esclarecimento procura explorar exatamente as razões pelas quais essa teoria falhou: o desenvolvimento das forças produtivas, em vez de lançar as

bases de uma sociedade justa, tanto sustenta o totalitarismo como perpetua a

injustiça sob a forma democrática. Ou seja, a análise não elege um ponto de

vista entre outros, mas se debruça propriamente sobre o ponto em que a obra

de Marx perde a eficácia teórica. É, nesse sentido, uma metacrítica da economia

política.

 

Relações obscuras

 

Ao inserir a questão da subjetividade na formulação marxista, a Dialética

do esclarecimento abre campo para a análise dos mecanismos concretos de

individuação na sociedade capitalista. É na constituição dessa falsa subjetividade,

por exemplo, que a indústria cultural encontra seu lugar, como alternativa

equivalente, nesse sentido, ao totalitarismo que opera a homogeneização

social pela violência. Se Adorno tinha como exemplos imediatos de totalitarismo

a sociedade soviética e o nazismo, ele estava igualmente convivendo

com a sociedade de consumo nos Estados Unidos, onde se exilou a partir de

1938. A ampliação da esfera de consumo (aí incluída a indústria cultural) e

sua função na sociedade norte-americana forneceram a Adorno elementos

decisivos para a elaboração do conceito de falsa subjetividade. Veja-se, por

exemplo, a “Dedicatória” das Minima moralia, que põe em jogo alguns dos

conceitos centrais da Dialética do esclarecimento: “Aquilo que ‘vida’ significava

outrora para os filósofos passou a fazer parte da esfera privada e, mais

tarde ainda, da esfera do mero consumo, que o processo de produção material

arrasta consigo como um apêndice sem autonomia e sem substância própria”

(Adorno 3, p. 7).

 

Mais do que um mecanismo de controle a posteriori, a indústria cultural

constitui o a priori da falsa subjetividade destinada aos indivíduos. Tornado

sujeito, o capital monopoliza a consciência. “A função que o esquematismo

kantiano ainda atribuía ao sujeito”, dizem Adorno e Horkheimer no capítulo

dedicado à indústria cultural, “a saber, referir de antemão a multiplicidade

sensível aos conceitos fundamentais, é tomada pela indústria. O esquematismo

é o primeiro serviço prestado por ela ao cliente. (...) Ao subordinar da mesma

maneira todos os setores da produção espiritual a este fim único: ocupar os

sentidos dos homens da saída da fábrica, à noitinha, até a chegada ao relógio

de ponto, na manhã seguinte, com o selo da tarefa de que devem se ocupar

durante o dia, essa subsunção realiza ironicamente o conceito da cultura unitária

que os filósofos da personalidade opunham à massificação” (Adorno e

Horkheimer 2, pp. 117 e 123).

 

A argumentação está radicada no cruzamento entre os conceitos de indivíduo,

sujeito e sociedade. Adorno joga com ambigüidades, tendo como

horizonte a impossibilidade da passagem, em Kant, do sujeito transcendental

ao caráter inteligível. Essa impossibilidade (que receberá tratamento extenso

na Dialética negativa – cf. Adorno 4, pp. 283-292), é referida na Dialética do

esclarecimento: “As dificuldades do conceito de razão, provenientes do fato

de que seus sujeitos, os portadores de uma e mesma razão, se encontrem em

oposição uns aos outros, estão escondidas no esclarecimento ocidental por

trás da aparente clareza de seus juízos. Na Crítica da razão pura, ao contrário,

elas se exprimem na relação obscura do ego transcendental com o ego empírico

e nas demais contradições não resolvidas” (idem, p. 83)8.

 

Essas dificuldades conceituais e relações obscuras são, para Adorno e

Horkheimer, a expressão de uma situação social de fato. Se Kant, em seu

rigorismo crítico, acaba por se ver obrigado a “um golpe de força” para tentar

vencer a impossibilidade de fundamentação racional da moral, é porque esse

domínio, na prática, já está vencido. “Sua tentativa de derivar de uma lei da

razão o dever do respeito mútuo – ainda que empreendida de maneira mais

prudente do que toda a filosofia ocidental – não encontra nenhum apoio na

crítica. É a tentativa usual do pensamento burguês de dar à consideração, sem

a qual a civilização não pode existir, uma fundamentação diversa do interesse

material e da força, sublime e paradoxal como nenhuma outra tentativa anterior,

e efêmera como todas elas” (idem, p. 85). A análise da obra do Marquês

de Sade, no “Excurso II”, procura demonstrar a indiferença e frieza da

racionalidade frente aos homens. Levado ao limite, o “entendimento sem a

direção de outrem” converte-se na pura violência. “Ao contrário de seus

apologetas, os escritores sombrios da burguesia não tentaram distorcer as conseqüências

do esclarecimento recorrendo a doutrinas harmonizadoras. Não

pretenderam que a razão formalista tivesse uma ligação mais íntima com a

moral do que com a imoralidade” (idem, p. 111).

 

A subjetividade de empréstimo, ao lado da racionalidade técnica, se

exprime na sociedade e nos indivíduos como barbárie. O anti-semitismo, analisado

no capítulo final da Dialética do esclarecimento, ganha o status de

paradigma. “O comportamento anti-semita é desencadeado em situações em

que os indivíduos obcecados e privados de sua subjetividade se vêem soltos

como se fossem sujeitos” (idem, p. 160, grifo nosso). É um ativismo cego,

privado de experiência, uma regressão ao estado selvagem. Sem capacidade

de reflexão, os indivíduos simulam a subjetividade afirmando a liberdade puramente

física da violência9. O anti-semitismo é o limite da progressão do

esclarecimento: “Não lhe foi concedendo a plena satisfação que os colossos

desencadeados na produção superaram o indivíduo, mas extinguindo-o como

sujeito. É nisso justamente que consiste sua racionalidade consumada, que

coincide com sua loucura” (idem, p. 191). É um contexto geral de ofuscamento

(Verblendungszusammenhang), no qual as pessoas deixam de ouvir a “voz da

consciência” e passam a “ouvir vozes”.

 

Em busca do sujeito, a análise se desenvolve numa contínua troca de

planos. Do mais abstrato sujeito transcendental kantiano, passando por sua

“concretização” na indústria cultural, atinge a psicologia10. Em vez da

interiorização de normas morais – já que, a rigor, não há mais interioridade

subjetiva –, os indivíduos adotam uma “identificação pronta e imediata com

escalas de valores estereotipadas”. É o pensamento por tickets. Essa

conceituação foi desenvolvida por Adorno poucos anos antes da elaboração

da Dialética do esclarecimento para servir de metodologia a uma pesquisa

empírica sobre a personalidade autoritária. O ticket é um conjunto de pontos

ideológicos organizados em bloco. Ao dizer “sim” a qualquer um dos pontos

desse ticket, o indivíduo adere imediatamente, sem reflexão, a todos os outros.

“Quem dá uma chance qualquer ao fascismo subscreve automaticamente,

juntamente com a destruição dos sindicatos e a cruzada anti-bolchevista, a

eliminação dos judeus” (idem, p. 187). O indivíduo dotado da falsa subjetividade

é incapaz de juízo: ele precisa se orientar de acordo com alguma direção

dominante.

 

Esse acolhimento irrefletido de um pacote de valores faz com que seja

de menor importância se o seu conteúdo é progressista ou fascista. O problema,

apontam Adorno e Horkheimer, é que a mentalidade do ticket, por si só,

está ligada à intolerância: “Não é só o ticket anti-semita que é anti-semita,

mas a mentalidade do ticket em geral”. De tal forma que não se trata de uma

verdadeira escolha, mas imperativo da sobrevivência, guiada por critério semelhantes

aos da escolha de um produto para consumo. “A escolha do ticket

comunista ou do ticket fascista depende da impressão que o Exército Vermelho

ou os laboratórios do Ocidente deixam no indivíduo. A reificação, graças

à qual a estrutura de poder, possibilitada apenas pela passividade das massas,

aparece às próprias massas como uma realidade indestrutível, tornou-se tão

densa que toda espontaneidade e mesmo a simples idéia da verdadeira situação

tornou-se necessariamente uma utopia extravagante, um desvio sectarista.

Escolher um ticket significa adaptar-se a uma aparência petrificada como realidade

e que se prolonga a perder de vista graças a essa adaptação” (idem, p.

191). É preciso observar que a conexão da mentalidade do ticket com o trabalho

é afirmada explicitamente: “A base da evolução que conduz à mentalidade

do ticket é, de qualquer modo, a redução universal de toda energia específica

a uma única forma de trabalho, igual e abstrata, do campo de batalha ao

estúdio cinematográfico” (idem, p. 193).

 

Se o processo de perda da subjetividade engolfou a sociedade e chegou

ao ponto de atingir as estruturas psíquicas – “os sujeitos da economia pulsional

são expropriados psicologicamente e essa economia é gerida mais racionalmente

pela própria sociedade” –, onde encontrar os elementos emancipadores

relacionados à autonomia do sujeito, considerados indispensáveis? A Dialética

do esclarecimento traçou um círculo de ferro para o qual não há saída. Trabalho

social alienado, dominação, dissolvimento da subjetividade e racionalidade

técnica engendram uma totalidade que se repõe continuamente, em estremecimentos

que antes expressam os movimentos assustadiços da paranóia

institucionalizada do que qualquer possibilidade de passagem a uma sociedade

justa. Ofuscada, a sociedade mantém sua organização desumana e injusta –

para usar uma expressão de José Arthur Giannotti, em estado de fibrilação11.

 

 

Notas

 

1. O conceito de trabalho social aqui empregado, com sua capacidade universalizadora,

vem do marxismo. Adorno mostra, em “Aspectos”, de que modo a totalidade hegeliana,

“princípio do ser e do pensar”, se revelava, na obra de Marx, como trabalho social. Comentando um trecho dos Manuscritos econômico-filosóficos, ele afirma: “O momento de

universalidade do ativo sujeito transcendental frente ao meramente empírico, isolado e

contingente, não é uma simples quimera, como tampouco o é a validade das proposições

lógicas frente aos atos mentais individuais singulares; pelo contrário, tal universalidade é

a expressão exata, ao mesmo tempo – tendo em conta a tese geral idealista – oculta aos

seus olhos, da essência social do trabalho” (Adorno 1, p. 35). O texto de Marx a que

Adorno se refere é o seguinte: “A grandeza da fenomenologia hegeliana e seu resultado,

a dialética, a negatividade como motor e engendrador, consiste (...) em que capta a essência

do trabalho e concebe os homens objetivos, verdadeiros por serem homens reais,

como resultado de seu próprio trabalho”, de acordo com a citação de Adorno (Adorno 1,

p. 35; cf. Marx 13, p. 245).

 

2. Por exemplo, em A ideologia alemã, um “controle e domínio consciente desses poderes

que, engendrados pela ação recíproca dos homens, impuseram-se a eles como poderes

totalmente estranhos e que os dominaram” (Marx 12, p. 54, grifo nosso),

 

3. Cf., por exemplo, “Educação pós-Auschwitz”: “A única força verdadeira contra o princípio

de Auschwitz seria a autonomia, se me for permitido empregar a expressão kantiana.”

(Adorno 5, p. 110)

 

4. Em carta a Walter Benjamin, em 2 de agosto de 1935, Adorno afirma que o “coletivo”

é uma das razões de sua reserva em relação a Brecht. “Esta tem sido minha atual reserva

sobre Berta [pseudônimo de Brecht na correspondência entre ambos]. Seu ‘coletivo’ e

seu não-mediado conceito de função são suspeitos para mim, como ‘regressão’” (Benjamin

6, p. 498).

 

5. Para uma análise da necessidade de crítica ao conceito de trabalho em Marx, a partir de

Horkheimer, cf. o artigo de Moishe Postone e Barbara Brick, “Critical Theory and Political

Economy” (Postone e Brick 15, pp. 215-250). Nesse artigo, os autores discutem ainda a

influência de Pollock sobre as formulações de Horkheimer.

 

6. Do ponto de vista da economia política, Adorno e Horkheimer podem encontrar sustentação nas análises de Friedrich Pollock, a quem a Dialética do esclarecimento é

dedicada. Para Pollock, o capitalismo atingira uma fase em que o processo econômico

passa a sofrer controle direto das burocracias estatais, possibilitando considerar o primado

da política sobre a economia sob condições não-socialistas. A esse respeito, cf. A

ontologia do estado falso (Nobre 14, capítulo 1) e “Critical Theory and Political Economy”

(Postone e Brick 15, pp. 215-250).

 

7. O Instituto para a Pesquisa Social recebeu uma cópia dos Manuscritos econômicofilosóficos

já na década de 20, por meio de David Ryazanov, diretor do Instituto Marx-

Engels, de Moscou. Ryazanov esteve posteriormente em Frankfurt e publicou um artigo

na revista do Instituto, em 1930 (cf. Jay 11, pp. 13-19)

 

8. Confira-se ainda, a esse respeito, “Sobre sujeito e objeto”: “Em se tratando de considerações

sobre sujeito e objeto, a dificuldade consiste em indicar do que se deve propriamente

falar. É notório que os termos são equívocos. Assim, sujeito pode referir-se tanto a

indivíduo particular quanto a determinações gerais; de acordo com os termos dos

Prolegômenos kantianos, à consciência em geral. A ambigüidade não pode ser eliminada

simplesmente mediante um classificação terminológica. Pois ambas as significações necessitam-se mutuamente; mal podemos apreender uma sem a outra” (Adorno 5, p. 181)

 

9. Essa liberdade puramente física, sem conteúdo moral, está ligada ao totalitarismo pelo

menos desde Hobbes: “Liberdade significa, em sentido próprio, a ausência de oposição

(entendendo por oposição os impedimentos externos do movimento); e não se aplica

menos às criaturas irracionais e inanimadas do que às racionais. (...) Mas sempre que as

palavras ‘livre’ e ‘liberdade’ são aplicadas a qualquer coisa que não seja um corpo, há um

abuso de linguagem; porque o que não se encontra sujeito ao movimento não se encontra

sujeito ao impedimento” (Hobbes 10, p. 130).

 

10. O apelo à psicologia e à psicanálise não pretende ser o fundamento da explicação,

mas um de seus momentos, como afirma Adorno em “Experiências científicas nos Estados

Unidos”: “Os elementos do anti-semitismo enquadraram teoricamente o preconceito

racial no contexto de uma teoria crítica da sociedade objetivamente orientada. Por certo,

ao contrário de certa ortodoxia economicista, não nos tornamos ariscos em relação à

psicologia, mas sim lhe outorgamos em nosso projeto o valor que lhe correspondia como

momento da explicação. Mas nunca duvidamos da primazia dos fatores objetivos sobre

os psicológicos” (Adorno 5, p. 160).

 

11. Em Certa herança marxista, livro em preparação que serviu de base a um curso de

pós-graduação do Departamento de Filosofia da USP (primeiro semestre de 1997), ao

fazer a leitura dos Grundrisse de Marx, José Arthur Giannotti se aproxima das reflexões

dos frankfurtianos. Acompanhemos o texto (as citações seguintes foram extraídas de

Giannotti 7, cap. III, pp. 58-69). Marx afirma que o desenvolvimento tecnológico provoca

uma alteração fundamental na estrutura do capitalismo. (1) A relação do homem com

o trabalho se altera, na medida em que ele se comporta “muito mais como o vigilante e

regulador do processo de produção (...). Ele comparece ao lado do processo de produção

em vez de ser seu agente principal”. (2) O tempo de trabalho deixa de ser medida da

riqueza, já que a tecnologia absorve, na forma de ciência e dominação da natureza, a

força produtiva geral, fazendo com que “o roubo do trabalho alheio, sobre o qual hoje se

assenta a riqueza, pareça um fundamento miserável, se comparado com a nova riqueza

gerada pela nova indústria recentemente desenvolvida”. (3) A explosiva produtividade

tecnológica torna a criação da riqueza independente do tempo de trabalho empregado

para sua produção, gerando tempo livre para os homens. Isso coloca em xeque o próprio

fundamento da riqueza capitalista, a apropriação do sobretrabalho alheio, que deixa de

ser relevante. Para se manter enquanto sistema, o capitalismo enfrenta a contradição de

tornar supérfluo o trabalho humano, mas continuar dependendo dele como medida da

riqueza. Se, como observa Giannotti, essa contradição tende a levar ao “colapso formal

do capitalismo, à indeterminação de suas categorias e a diminuição de seu caráter social,

não é por isso que coloca qualquer obstáculo ao desenvolvimento das forças produtivas”.

Marx acreditava, sublinha Giannotti, que o tempo tornado disponível faria surgir um indivíduo

social como força produtiva em oposição às formas de relação social do capitalismo.

Pela via da sujeito, havia a esperança da passagem ao socialismo. Ora, observa

Giannotti, isso não leva em conta “uma dificuldade que Marx não podia perceber, porquanto

esse fenômeno só se desenvolve muitos anos depois (...): que este indivíduo social

seria ele mesmo apropriado pelo capital pelas garras do consumo”. Assim capturado,

perderia a capacidade de se firmar efetivamente como sujeito, permanecendo como “uma

massa de consumidores vorazes [contexto no qual o conceito de Verblendungszusammenhang

talvez pudesse ser traduzido por “deslumbramento geral”, ECB], que

tudo fazem menos se conformar a uma individualidade social”, ao lado da grande massa

de “miseráveis periféricos”.

 

 

Publicado em Cadernos de Filosofia Alemã 3, PP. 5-20, 1997.

 

 

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