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Crítica de um paradoxo tardo-romântico

 

 

Galvano Della Volpe

 

 

Em poucas palavras, o paradoxo (veja-se Dialektik der Aufklärung, Amstedam, 1947, de Max Horheimer y Theodor W. Adorno) é o seguinte: o Iluminismo, ou Ilustração [1], enquanto redutível ao cálculo cientificista do útil e, portanto, à exata medida dos meios adequados ao fim, se transforma (é a “dialética”) em seu oposto, na arte do domínio e da opressão, com seus modernos mitos funcionais, velhos e novos. “Como... pura construção de meios, o Iluminismo é tão destrutivo como afirmam seus inimigos românticos.. O Iluminismo se consuma e desaparece...”. Esta é a conclusão da primeira parte do volume, dedicada ao “Conceito de Iluminismo” (conclusão hegelianizante, ao menos na forma). E, não obstante esta tese paradoxal, de muito duvidosa consistência, como veremos, não impede aos autores desdobrar a seguinte firme convicção: “o Iluminismo deve tomar consciência de si, se não quer que os homens sejam completamente traídos”, e que “a crítica a que se tem submetido o Iluminismo pretende preparar um conceito positivo do mesmo, que o libere das redes do cego domínio”. (Aqui, e em todo o livro, editado pela primeira vez em 1944, os autores têm presente, sobretudo, o “monstrum horrendum” do nazismo.) Pois esta convicção ou esperança, por nobre que seja, carece de fundamento, se é que este deve se achar nas teses enunciadas. Porque é demasiado unilateral e pobre a noção de Iluminismo que se assume como premissa. Que valha a evidência: o critério de cálculo do útil humano e social é, desde logo, um componente da ideologia em questão, que critica e rechaça todo princípio de autoridade dogmática, começando pela religiosa-eclesiástica; e que diz, por isso, ao indivíduo humano (para usar os clássicos termos kantianos): Sapere aude!, ou “tenhas coragem de servir-te de tua própria inteligência!”; de onde se derivasair do estado de menoridade”, etc. Mas não é o único componente, e sua noção acaba deformada e mutilada se se toma somente em si ou abstratamente, isto é, fazendo abstração da mitologia leiga que a acompanha, o seja, a doutrina dos deveres, da “tolerância”, do “respeito” do indivíduo humano enquantofim e jamais meio”, etc., etc.

Em outros termos, não se faz justiça, nem histórica nem filosoficamente, à Ilustração, acentuando desmesuradamente a contribuição baconiana e cientificista que há nela, e reduzindo portanto a inteligência ilustrada a uma mera “ratio calcolante” e a seus conceitos mais ou menos sinônimos que são “razão formalista”, “ciência natural”, “técnica”, “levantamento estatístico” (dos assassinados nos pogrom, por exemplo), e assim sucessivamente. Resulta, por demais evidente, que tal empobrecimento da noção de “Aufklärung” se deve à generalização extrema (incrível) de sua acepção, pela qual a “Aufklärung” começaria nem mais nem menos do que com a “astúcia” de Ulisses (“Como, dizem eles, “a história das Sereias ensombrece o nexo inextricável do mito e trabalho racional [rationaler Arbeit], assim a Odisséia, sem seu conjunto, dá testemunho da dialética do Iluminismo”: veja-se Excurso I. Odisseu, ou mito e Iluminismo; e – através de Bacon e do advento da ciência experimental – terminaria com Sade e Nietzsche, pois “a obra de Sade e de Nietzsche...eleva o princípio científico à força destrutiva (e veja-se Excurso II. Juliette, ou Iluminismo e moral). No entanto, o velho Hegel, santo patrono de nossos autores, não havia (prescindindo, inclusive, da não-ambigüidade histórica da Fenomenologia em sua seção da “Moralidade” de tipo kantiano, onde se resolvia para ele a consciência, iluminista, de uma liberdade imediata) renunciado à substância histórica do Iluminismo, nem em suas Lições sobre a história da filosofia, onde se lê, por exemplo, que “o que é digno de admiração nos escritos filosóficos franceses... é a assombrosa energia e força que desdobra o Conceito contra o existente, contra a Fé, contra toda a potência milenar da autoridade” (grifo meu); nem tampouco nas Lições sobre a história da filosofia, onde se encontram as conhecidas páginas sobre a “virtude” de Robespierre, etc. Mas dá no mesmo: a “dialética” de nossos cultos autores passa por alto a história, voa. E o final do vôo, por assim dizê-lo, seria a superação da civilização burguesa (nascida com o Iluminismo), ou seja, o ideológico rechaço desta: não resulta difícil adivinhá-lo segundo as razões seguintes. “O Iluminismo burguês havia se submetido ao seu momento positivista [=cientificista] muito tempo antes de Turgot e D’Alembert. Isso sempre esteve exposto na tentação de trocar a liberdade pelo exercício da autoconservação [ou aplicação da categoria do útil]...Pois enquanto mais se realiza este processo de autoconservação, através da divisão burguesa do trabalho, tanto mais exige a auto-alienação do indivíduo, que deve modelar-se, em corpo e alma, segundo as exigências do aparato técnico... Assim, a relação da necessidade no reino da liberdade seria puramente quantitativa, mecânica, e a natureza... se converteria em totalitária e acabaria absorvendo a liberdade... Renunciando o pensamento [que se auto-reflexiona, ou autoconsciência], que se vinga – em sua forma reificada como matemática, máquina, organização – do homem esquecendo dele, o Iluminismo tem renunciado a sua própria realização.” Como se vê, se trata da enésima reação espiritualista, romântica no fundo, contra a técnica e a moderna organização social. O que preocupa a estes críticos românticos, e portanto internos ao mesmo mundo burguês que eles tomam como alvo, é, com efeito, a reificação ou coisificação, não tanto do ser humano, do humano indivíduo real, mas do pensamento ou autoconsciência ou Espírito. “O Iluminismo” – repetem com Schopenhauer – “tem escamoteado a exigência clássica de pensar o pensamento... porque dita exigência o distrai do imperativo de guiar até a práxis”. E “a expulsão do pensamento da lógica [simbólica moderna] ratifica, na aula universitária, a reificação do homem na fábrica e na oficina”; aqui o romantismo se faz confuso e contaminador; pois a reificação do indivíduo real, do homem na fábrica ou na oficina, longe de explicar-se com a decadência do culto do espírito ou interioridade, se explica, depois de Marx, com a economia e com a ética classista-burguesa, ética cuja substância está constituída precisamente pela concepção platonizante ou idealista e espiritualista do ente humano, através da qual se esconde o individualismo possessivo burguês com sua ideal “sagrada pessoa” e a conseguinte e real alienação humana. Tudo, pois, ao revés. A estrutura econômica burguesa, com sua superestrutura cultural, aristocrática e espiritualista, é que explica a reificação do homem na fábrica, etcetera, e sua alienação. A “esclerose” (sich verhärten) ou “reificar-se” do pensamento autoconsciente (ou Espírito) como “matemática, máquina”, etc., não pode explicar aquela alienação. Aparte o fato previsível de que a ciência e suas aplicações (fruto da pretendida “esclerose” espiritual) formam parte do que no legado burguês à civilização futura há de ser o mais positivo. Posto que não é a máquina, a técnica em si, o que ameaça a autonomia do indivíduo humano, senão (e aqui chegamos ao ponto mais importante e que deveria ser o mais óbvio) o uso que delas fazem os próprios homens em suas relações sociais, de classe exploradora e opressora de outra classe. A técnica, em si mesma, é ótima, enquanto instrumento indispensável para uma vida humana progressiva, pois é essencialmente um instrumento social, e sua maior ou menor incidência humana educativa depende da maior ou menor humanidade da sociedade que a emprega. E aqui se insere a única possibilidade do desenvolvimento dialético e da realização do conteúdo moral histórico do Iluminismo (esse “respeito” pelo indivíduo real humano), diante do qual nossos autores têm passado por alto. Porque eles se alinham, em substância, ainda que pretendam distinguir-se, entre as fileiras dos críticos espiritualistas da “crise” da “civilização” (burguesa) como os Huizinga, os Ortega y Gasset e Jaspers, para nomear somente os mais importantes. Todos eles têm em comum uma certa aristocrática intolerância não somente diante da técnica, senão também (naturalmente) diante das “massas” (em geral) e diante da cultura “bárbara” que se agita por atrás dos mass-media.

(“A regressão das massas hoje”, é o lamento dos democratas-estetas como os nossos, “é a incapacidade para ouvir com seus próprios ouvidos algo que não havia ouvido até agora, para tocar com suas próprias mãos algo que não havia sido tocado ainda, a nova forma de cegueira que substitui hoje a qualquer forma mítica superada”).

Críticos inevitavelmente superficiais da “criseporque são suas principais (mais ou menos ilustres) vítimas [2].

Uma observação final de detalhe. A propósito de um tipo esforço “dialético” de um pensamento fundamental de Spinoza. “Commiseratio – dizem nossos brilhantes autores – é a humanidade em forma imediata, e, ao mesmo tempo, “mala et inutilis” (ver Spinoza), enquanto é o oposto da bravura viril”, da “virtus romana”. E “Clairwil (ver Sade) chama afeminada e pueril à compaixão”, etc.

Agora, Spinoza, precisamente na proposição L da IV parte da Ética, diz que a “comiseração é em si mesma má e inútil em um homem que vive dirigido pela Razão”. E explica, na demonstração, que “a comiseração é, com efeito, uma tristeza [isto é, uma peculiar “paixão” ou passividade ou irracionalidade]; por conseguinte, é má por si mesma” e que “quanto ao bem que segue dela, a saber, que nos esforçarmos por livrar da miséria aquele por quem temos comiseração, nós o desejamos fazer só pelo ditame da Razão, e nós não podemos fazer senão pelo ditame da Razão alguma coisa que saibamos com certeza ser boa; a comiseração é, pois, má em si mesma, e inútil em um homem que vive sob a direção da Razão”; e conclui logo, no escólio: que “Quanto àquele que não é movido nem pela Razão nem pela comiseração para socorrer os outros, é chamado justamente ‘inumano’ porque parece não se assemelhar ao homem”[3].

Que tem, pois, que ver o santo Spinoza – para quem, por outra parte, “o que se esforça para guiar os outros segundo a Razão obra não com violência, senão humana e benignamente” – com a virtus romana ou  – ademais inefável – com o cálculo despreocupado, criminal, da educadora, e cúmplice no sadismo de “Juliette”? Como não se dar conta de que as reservas spinozianas sobre a “commiseratio” estão ditadas pelo rigor ético de seu racionalismo, em comparação com o qual o sentimento da comiseração não pode ser mais que um faute-de-mieux? Erros de tal gênero somente se podem explicar – em estudos sérios – por culpa dos vôos de uma dialética fantasiosa e impretérita. O que confirma, por outra parte, tudo o que foi dito antes acerca do paradoxo anti-iluminista e anti-racionalista de nossos dois ideólogos tardo-românticos.

 

 

 

O artigo acima integra o volume de ensaios reunidos de Galvano Della Volpe, Critica de la ideologia contemporânea. Comunicacion 6, Alberto Corazon Editor, Madrid, 1970, pp. 71-78.

 

 

Notas

 

1 – Em virtude do autor fazer referência tanto ao Iluminismo quanto à Ilustração, mas na edição espanhola ser utilizado o primeiro termo ao longo do texto, não vertemos o termo para Esclarecimento, como pede uma tradução mais precisa da obra de Adorno e Horkheimer. A julgar ainda pela crítica limitada aos “erros” e “confusões” dos autores, consideramos que Galvano Della Volpe ignora a singularidade do termo na obra criticada. Dada essa limitação terminológica e conceitual, preferimos traduzir as citações extremamente recortadas da obra sem fazer uso da consagrada tradução de Guido Almeida, seguindo também, nesse caso, os extratos traduzidos no volume dedicado a Della Volpe da coleção Grandes Cientistas Sociais (São Paulo, Ática, 1979, pp. 78-81).  (Nota dos tradutores).

 

2 – Em um interessante artículo em “Quaderni piacentini”, de janeiro de 1967, Cesare Pianciola busca defender os dois autores de minha crítica (publicada em “Rinascita”, Roma, junho de 1966). Mas, depois de haver afirmado, entre outras coisas, quenão é, desde , ‘a máquina, a técnica em si’ o que ameaça, para usar a linguagem da antropologia filosófica, a humanidade do homem, nem tampouco é o simplesuso ouemprego diferente do capitalista o que garantirá a dita humanidade, como conclui às pressas Della Volpe”, Pianciola se obrigado a conceder a quem escreve, tudo o que tem negado, quando fala, a propósito de Horkheimer e Adorno, em sua conclusão, de “um novo acento emotivo da esperança utópica” (grifo meu). Estamos de acordo, no fundo! E veja-se, mas adiante, “Moralismo e utopismo de Marcuse”.

 

3 – As citações de Spinoza foram obtidas da edição brasileira de Ética demonstrada à maneira dos geômetras, Martin Claret, 2002, traduzida por Jean Melville, pp. 332-333 (Notas dos tradutores).

 

 

 

 

 

 

 

 

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