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Outros

O meu livro do século

 

Peter Bürger:

 

 

Dificilmente se pode hoje imaginar o que significou, para a geração que cresceu na República de Adenauer dos anos 50, a descoberta dos textos de Adorno, quando, no início dos anos 60, eles começaram a aparecer na edition suhrkamp e em outras séries de livros de bolso: "Eingriffe", "Drei Studien zu Hegel", "Ohne Leitbild", "Prismen", "Kulturkritik und Gesellschaft". O que, até então, não passava de um abafado mal-estar nas relações, ali era trazido ao conceito. O que vivíamos como falta de ar tornou-se objeto da crítica.

 

Mas com isso não estava ainda aplainado o caminho para a leitura de "Dialética do Esclarecimento". Foi em meados dos anos sessenta, ao folhear, no primeiro ano de sua publicação, a revista "Sinn und Form" (Sentido e Forma), editada em Berlim Oriental por Peter Huchel, que eu - ao lado de textos de Benjamin, Bloch, Lukács e Werner Krauss - me deparei com a passagem sobre o episódio das sereias na "Odisséia". O livro, porém, não podia ser encontrado nem no comércio nem na Biblioteca da Universidade de Bonn; fui lê-lo, finalmente, na Biblioteca Präsenz do Parlamento Federal. É obvio, os pressupostos para a sua compreensão não mos havia transmitido a escola ou a universidade dos anos cinqüenta, sendo obrigado a elaborá-los para mim mesmo com o meu próprio esforço.

 

Mas já então - assim, hoje, quer me parecer - fascinava-me algo que só tornaria a encontrar na "Fenomenologia do Espírito" de Hegel: um pensar que recebia da literatura o seu impulso. A princípio, aliás, irritava-me o gestus da representação que parecia zombar de cada análise histórica, quando os autores comparam o Odisseu atado ao mastro, a espreitar o canto das sereias, com um freqüentador de concertos, mas seus comparsas, que com as orelhas tapadas são obrigados a remar com todas as forças dos seus músculos, com os modernos operários de fábricas. Para mim, foi ficando porém cada vez mais claro: não se tratava, aqui, de interpretação, antes, de adivinhar, na constelação de personagens e acontecimentos do épico pré-histórico, os contornos do sujeito moderno. Abertamente, utilizavam-se os autores de um fato: o épico homérico conjugava uma quantidade de categorias - prazer e renúncia, auto-afirmação e auto-entrega, dominação, trabalho e arte - num contexto complexo e, ao mesmo tempo, dinâmico, que permitia pensar o sujeito como resultado de um processo dialético: O Eu não vive primeiramente na satisfação imediata de suas necessidades, às quais aprende a renunciar; é à renúncia que ele deve, e muito, a sua auto-afirmação, razão pela qual, para ele, a imagem da felicidade está ligada à exigência da perda de si mesmo. "A humanidade teve que se submeter a terríveis provações até que se formasse o eu, o caráter idêntico, determinado e viril do homem, e toda infância ainda é de certa forma a repetição disso. [...] O medo de perder o eu e o de suprimir com o eu o limite entre si mesmo e a outra vida, o temor da morte e da destruição, está irmanado a uma promessa de felicidade, que ameaçava a cada instante a civilização." Frases como esta esclareciam não apenas o mal estar na sociedade, mas, ao mesmo tempo, abriam o acesso às próprias experiências pessoais com a ambivalência, cujas condições sociais elas nomeavam. Logicamente, felicidade só poderia haver na esfera da arte, para fora da qual a práxis havia sido banida violentamente, o que, na época, eu não queria perceber, e, nos escritos dos surrealistas, procurava pelos vestígios de um pensamento para o qual o inteiramente outro sempre era possível.

 

 

Bibliografia

 

- Max Horkheimer/Theodor W. Adorno: Dialektik der Aufklärung. Philosophische Fragmente; Fischer Taschenbuch Verlag, Frankfurt am Main 1997.

- Max Horkheimer/Theodor W. Adorno: Dialética do Esclarecimento. Fragmentos Filosóficos; tradução: Guido Antonio de Almeida; Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro 1985. 

 

(Trad. de José Pedro Antunes)

 

 

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