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A INDÚSTRIA CULTURAL GLOBALIZADA E A POSSIBILIDADE DE REINCIDÊNCIA DO FASCISMO |
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Antônio Álvaro Soares Zuin (UFSCar)
O fascismo também é totalitário na medida em que se esforça por colocar diretamente à serviço da dominação a própria rebelião da natureza reprimida contra essa dominação. ADORNO E HORKHEIMER
Esse artigo possui, como objetivo, fazer uma comparação entre os aspectos psicológicos do processo mimético da coletividade totalitária nazista e a mímesis compulsiva dos consumidores dos produtos da indústria cultural, tal como foi denominada por Adorno e Horkheimer na Dialética do Esclarecimento(1). Além disso, procura-se fornecer subsídios iniciais para a elaboração da hipótese de que, em tempos da indústria cultural hegemônica, tanto a possibilidade da desmitologização do conceito, feita com o auxílio da filosofia, como a realização do momento expressivo da obra de arte falam em nome de uma reaproximação não doentia com o mimético. O conceito de mímesis, como bem observou Jeanne Marie Gagnebin,(2) vai adquirindo diferentes ênfases desde a Dialética do esclarecimento até a Teoria estética. Na Dialética do esclarecimento prevalece um certo sentido de condenação da mímesis, ou seja, da atitude do particular que, para poder livrar-se do medo do desconhecido, primeiramente renuncia a diferenciar-se da entidade da natureza com a qual confronta o seu próprio ego e opta por imitá-la, negando a sua própria identidade. Não obstante, para que ocorra o progresso da cultura, há que se afirmar a negação dessa identidade prazerosa com o natural, engendrando mutilações no corpo e no espírito que engolfam tanto os oprimidos como os opressores. A ilustração desse processo pode ser constatada na interpretação que Adorno e Horkheimer elaboraram do encontro de Odisseus com o cíclope Polifemo, personagens da Odisséia. Para poder vencer o monstro que se alimenta de carne humana, o astuto herói diz que seu nome é Oudeis (Ninguém). É interessante destacar a proximidade sonora de Odisseus e Oudeis, pois são palavras praticamente homófonas. Ora, para que o herói triunfe no final é necessário primeiramente que dissimule a sua rendição ao natural, ao apelo do mimético. E então, Odisseus convence Polifemo a se embriagar com vinho, fere o gigante e consegue escapar, juntamente com seus homens, da armadilha fatal e inexorável do mito. Percebe-se novamente o ardil de negação da própria identidade (quando o senhor se autodenomina ninguém) para logo em seguida afirmar-se como sujeito. Ele introduz a intenção na palavra e o encanto mágico é rompido, pois quando Polifemo grita por socorro seus companheiros não compreendem como pode ter sido enganado por Oudeis e concluem que seu ferimento deve ter sido um castigo dos deuses. Mas o vitorioso Odisseus não pode permanecer mimeticamente atrelado a essa identidade, pois correria o risco de ficar aprisionado ao natural. Sendo assim, quando está já na sua embarcação, grita para o gigante que foi ele, Odisseus, o responsável pela sua decadência, e é quase morto por uma pedra arremessada pelo humilhado Polifemo. De fato, a natureza definitivamente não se aquieta diante do progresso da racionalidade, fundado na sua negação e no seu distanciamento. Se a natureza não sossega, tampouco o pensamento regulador se apazigua e atinge o auge da sua ambição de finalmente encontrar a resolução das contradições entre subjetividade e objetividade por meio da chamada teoria tradicional, sobretudo com o positivismo. A forma como Adorno e Horkheimer, interpretaram a Odisséia possui o mérito de solapar o raciocínio linear de que o progresso do esclarecimento (Aufklärung) sempre caminhou numa só direção, cujo sucesso fundamentou-se no exercício da subjetividade que não se arrefece frente aos obstáculos de origens natural e "sobrenatural". Portanto, tanto a convicção de Bacon de que a instrumentalização do conhecimento produziria uma sociedade de indivíduos emancipados quanto o anseio de Comte de que o positivismo solucionaria as contradições sociais no plano lógico-dedutivo, por exemplo, sofrem sérios abalos frente à denúncia da interdependência entre o progresso e a barbárie(3). Essa relação de interdependência pode ser comprovada, historicamente, com a eclosão da barbárie de Auschwitz e de tantos outros campos de concentração. No texto Indivíduo e terror, Leo Löwenthal faz uma pertinente e atual assertiva, a saber: é ilusório o desejo de que o fascismo possa ser caracterizado como uma fase histórica passageira e fadada ao esquecimento(4). O autor não concorda com essa opinião, pois o terror encontra-se enraizado na dinâmica da civilização moderna. O conhecido processo de arrefecimento da experiência formativa não se restringe ao período histórico da ascensão nazista, mas permanece também presente na sociedades aparentemente democráticas. A experiência formativa, aqui compreendida enquanto processo auto-reflexivo que não se esgota na dimensão subjetiva mas que se forma na tensa relação entre o sujeito e o objeto mediado na construção da sua subjetividade(5), é convertida num feixe de reações fragmentadas e vazias. E a principal conseqüência da fratura da experiência é a conhecida adesão do particular às ordens de uma supremacia coletiva cega. Esse mecanismo psicológico foi muito bem interpretado por Adorno na análise da propaganda americana fascista: ...quando os líderes fascistas expressam sintomas de inferioridade, suas semelhanças com atores canastrões e com psicopatas são ainda mais observadas pela teoria freudiana. Em função dessas partes da libido narcísica dos sequazes – as quais não foram projetadas na imagem do líder, mas permaneceram vinculadas ao próprio ego – , o super-homem deve aparecer como se fosse uma "extensão" deles. Um dos desejos básicos propagados pela propaganda fascista personalizada é o do "pequeno grande homem", uma pessoa a quem se atribuiu um sentido de onipotência e também a idéia de que ele é apenas alguém do povo, um americano de sangue vermelho, purificado pela saúde material e espiritual(6). Essa constatação de Adorno sobre o "pequeno grande homem" faz lembrar a análise da psique dos chamados agitadores fascistas do pós-guerra feita por Leo Löwenthal no livro de sugestivo título Falsos profetas: estudos sobre a agitação fascista(7). Há uma certa convergência do padrão psicológico dos agitadores fascistas norte-americanos com a psicologia nazista. Os pretensos Hitlers norte-americanos procuraram preferencialmente sensibilizar as tendências inconscientes de seus sequazes a justificar a aquiescência generalizada de práticas sadomasoquistas apenas levando-se em conta argumentos racionais. Umas das principais técnicas é a da infindável reiteração dos objetivos fascistas, de tal forma que a monotonia da fala do agitador fascista parece continuamente sancionar a veracidade desses valores que se transformam numa segunda natureza. Nesse livro de Löwenthal, especificamente no tema consagrado à análise do auto-retrato desses "Hitlers", o pesquisador infere a respeito das várias características psicológicas do caráter do agitador fascista norte-americano. Esse agitador se auto-intitula um verdadeiro homem do povo e faz questão de enfatizar continuamente os estorvos e as intempéries que teve que suportar, assim como a maioria da população, durante os árduos tempos da depressão norte-americana. Qualquer semelhança com aquilo que Adorno, no texto Educação após Auschwitz, denominou "educação para a disciplina através da dureza" não é mera coincidência, pois para esse tipo de caráter a grandeza só pode advir da capacidade de suportar a dor. Além do uso contínuo do bordão do "pequeno grande homem", outra das principais técnicas desses agitadores foi a de dicotomizar o mundo entre os bons e os maus. Tal estratagema redundava na concordância de todos os seguidores de que os "eleitos" eram os que se salvariam, enquanto que os considerados "de fora" estariam condenados. Há uma legitimação social da violência, potencializadora da integração e do narcisismo coletivo. É interessante demarcar o suposto arrefecimento de uma postura narcísica, pois o indivíduo subordina a sua vontade e seus desejos aos mandos e desmandos da coletividade à qual pertence. Mas, na verdade, há a intensificação do narcisismo secundário pois, se mesmo na projeção patológica permanece ainda um investimento libidinal no próprio ego, a opulência doentia dessas mesmas capacidades se aferram na veleidade de que as energias investidas no objeto que ocupa o ideal do ego retornem ao próprio ego, fortalecendo as bases narcísicas secundárias. Não há como suportar uma separação duradoura entre o ego e o objeto que ocupa o ideal do ego. Percebe-se que não é casual o fato do líder nazista apresentar-se na forma de um deus humanizado. Desse modo, dificilmente pode-se aferir ou mesmo descrever a sensação de prazer derivada do encontro, ainda que momentâneo, do ego com o seu ideal representado pelo objeto deificado. O que mais se destaca nesse procedimento paranóico é a possibilidade do pseudo-indivíduo ter o contato e o conseqüente prazer derivado da "satisfação" daquilo que é secretamente cobiçado. E isso pode ser feito através da identificação incondicional com a instância recusadora(8). Quando Adorno e Horkheimer investigaram esse processo de projeção paranóica do anti-semita, observaram que as situações nas quais o anti-semita imita os trejeitos do homossexual numa atitude debochada permitem fazer com que eles usufruam do desejo da liberdade sexual que é invejado, mas que só pode ser gozado numa situação social legitimada por outros que sentem o mesmo. De fato, torna-se premente a violência exercida contra aqueles "demônios" que ousaram estimular a reapropriação das pulsões cujas metas originais foram tão dolorosamente derivadas para a construção de uma cultura que, de tanto negar a relação de interdependência com as naturezas externa e interna, culmina na glorificação da sociedade totalitariamente unificada pelos laços dos sequazes do nazismo. Dificilmente poderia haver uma constatação mais explícita desse processo de formação de identidades patológicas do que essa asserção de Hitler: Desejo uma juventude destemida e cruel. Ela deve suportar a dor e aprender a não demonstrar fraqueza e afetividade. A fera, livre e magnífica, deve brilhar nos seus olhos...Os milhares de anos de domesticação humana são eliminados e tenho, diante de mim, o material puro da natureza. Desta forma, posso criar o novo(9). Nesta mímesis perversa, o que importa é que o momentâneo contato com o reprimido precisa ser imediatamente negado após o seu usufruto. Somente deste modo consegue-se alcançar com sucesso o principal objetivo da comunidade totalitária, a saber: promover a união incondicional daqueles que se julgam acima de tudo e de todos. Ora, a existência debilitada do seguidor nazista está condicionada à reprodução da vingança contra aquilo que lhe é negado cotidianamente pelo princípio da realidade. São pessoas que internalizaram, em suas personalidades patológicas, as injunções paternas de tal maneira que a agressividade projetada anteriormente retorna às próprias instâncias psíquicas. E quem já sofreu demais sente-se no direito de fazer com que o outro também experimente a dor que teve que aprender a suportar em silêncio. Esse processo educacional sadomasoquista, que foi tão bem caracterizado no conceito da educação pela dureza, baliza-se, na sociedade contemporânea, na universalização e na introjeção da chamada mentalidade do tíquete, tal como foi destacada por Adorno, Horkheimer e Löwenthal. Há uma alusão ao processo de mecanização e padronização das instâncias psicológicas, já que a autoconservação só é possível quando o indivíduo se habitua a responder imediatamente aos estereótipos e simulacros dos produtos da indústria cultural. A capacidade de identificar algo como bom ou ruim, tão observada nas crianças e que é central para os primeiros passos da afirmação de ego em relação ao exterior, é apropriada pela sociedade administrada para que possa servir aos propósitos da desumanização. Os laços de natureza libidinal são notados tanto nos sequazes do nazismo quanto nos consumidores ávidos por produtos que anunciam a realização imediata de todos os seus desejos. Mas há certas diferenças. É verdade que se observa também na sociedade da indústria cultural hegemônica a gradativa substituição da experiência formativa por aquele feixe de reações fragmentadas e vazias. Contudo, no contexto atual esse processo é bem mais sutil e, muitas vezes, não menos violento, pois apoia-se na mentira da submissão total do princípio da realidade em relação ao princípio do prazer que parece alcançar sua vitória decisiva no consumo dos produtos da indústria cultural. A falsidade da hegemonia do princípio do prazer é construída na verdade de que o pré-prazer substitui o próprio prazer em práticas sadomasoquistas que se fazem presentes tanto no riso da desgraça alheia nos programas de "entretenimento" da televisão quanto na auto-mutilação do próprio corpo feita pelas modelos ou jovens anoréxicas ou pelos rapazes que furam os lábios para colocar um brinco pois se julgam personalidades singulares. O recrudescimento do escárnio ao qual o pseudo-indivíduo é submetido exige uma reação mais enérgica por parte daquele que precisa reafirmar cada vez mais o seu próprio embrutecimento. Nos regimes explicitamente totalitários, a figura do líder ocupava o papel de catalisador do processo de projeção de parte da libido narcísica, permitindo a conseqüente identificação coletiva. Já nos regimes aparentemente democráticos, talvez estejamos diante de uma situação na qual os objetos que ocupam o ideal do ego dos consumidores são incrivelmente fugazes, ou seja, facilmente substituíveis por outros objetos que prometem a resolução de todas as antinomias entre o indivíduo e sociedade. Na sociedade cuja indústria cultural torna-se hegemônica, os objetos que ocupam o ideal do ego são incrivelmente intercambiáveis. Os ídolos do esporte, da música, do cinema e da televisão alternam-se na preferência de indivíduos que se identificam entre si como membros consumidores dos produtos e do estilo de vida dessas "personalidades". Sérgio Paulo Rouanet já havia observado que, na sociedade da produção cultural industrializada, dispensa-se a figura do líder para a obtenção da coesão social dos consumidores. A personalização regressiva ocorre através da identificação com os chamados líderes secundários, tais como os artistas de cinema e televisão. O seu argumento apoia-se na necessária conversão das forças sociais fetichizadas em elementos humanos, daí a importância de que as decisões políticas sejam reduzidas aos dramas exclusivamente pessoais dos líderes, os quais parecem determinar os rumos da própria sociedade. Para Rouanet: Em suma, no fascismo, a identificação com as idéias só é possível através da pessoa do líder; a cultura de massas prescinde da mediação do líder, desde que as idéias se convertam, de alguma forma, em pessoas, e sempre que as relações sociais, forças incompreensíveis, se humanizem, permitindo que as tragédias coletivas sejam vividas como psicodramas(10). Sabemos que Freud destacou em seus textos a relevância da figura do líder para manutenção da coesão da massa. Essa afirmativa pode ser confirmada na análise que o psicanalista elabora das características das massas cujas estruturas fundamentam-se na durabilidade das relações estabelecidas e no alto nível de organização de seus membros participantes. Freud cita organizações sociais que se enquadram bem nessa descrição: a Igreja, especificamente a católica, e o exército. Em ambas as instituições, segundo o autor da Psicologia das massas e análise do ego, impera, a despeito de suas diferenças hierárquicas, uma mesma ilusão, pois a figura do líder – que se faz presente, seja no plano físico ou simbólico – é central para a perpetuação da percepção de seus seguidores de que todos são indistintamente amados por ele(11). A disseminação desse tipo de percepção faz-se possível principalmente pelo fato de que tanto Cristo quanto o general são objetos que passam a ocupar o ideal de ego dos seus respectivos simpatizantes, os quais identificam-se entre si nos seus egos. Se, por um lado, as agruras que são impostas pelo cotidiano muitas vezes obstam o livre exercício da vontade, os seguidores dos preceitos dessas organizações regidas pelos seus líderes encontram o espaço necessário para que as ambições daquele ego – que na infância julgava ser o senhor de si, mas cujas pretensões foram rechaçadas pelas injunções das figuras parentais, pela convivência com as exigências de outros educadores e, portanto, da própria realidade – possam ser novamente satisfeitas no objeto que é posto no lugar do seu ideal de ego, herdeiro daquele narcisismo que prevaleceu durante a infância (12). É verdade que Freud elaborou tais idéias anos antes da ascensão do nazismo. Não obstante esse fato, vale relembrar as palavras de Adorno de que o psicanalista, embora não estivesse interessado na dimensão política concernente ao recrudescimento dos movimentos de massa, ao investigar as relações entre a psicologia das massas e a análise do ego, elaborou um prognóstico do crescimento e da natureza dos movimentos de massa fascistas na forma de categorias psicológicas: De acordo com Freud, o problema da psicologia das massas está intimamente relacionado ao novo tipo de aflição psicológica tão característico da era na qual, por questões sócio-econômicas, testemunha-se o declínio do indivíduo e sua conseqüente debilidade. Embora Freud não tenha se interessado pelas mudanças sociais, pode ser dito que ele revelou, dentro dos confins monadológicos dos indivíduos, as características desta profunda crise, bem como a própria disposição para a entrega inquestionável às poderosas agências coletivas(13). O próprio Adorno, nesse texto, pondera que não deve ter sido obra do acaso o fato de Freud ter voltado sua atenção para o estudo do narcisismo e das questões pertinentes ao ego após a primeira guerra mundial. Talvez uma das principais observações do psicanalista refira-se mesmo à constatação do declínio do indivíduo em decorrência do desenvolvimento do processo de debilitação do próprio ego, o qual se submete aos imperativos da coletividade que pertence. É interessante observar que Freud insiste em enfatizar a distinção entre dois tipos básicos de massas: as que precisam de um líder e aquelas que o dispensam. As primeiras poderiam ser consideradas as mais primitivas e perfeitas, tal como no caso da relação entre os soldados e seu líder; já as outras massas poderiam substituir a figura do líder por uma idéia ou abstração (como no caso dos sequazes de determinada religião, que representariam, de acordo com Freud, um caso de transição) e também por uma tendência ou um desejo susceptíveis de serem compartilhados por um grande número de pessoas(14). Como foi observado, Rouanet, balizado nos escritos de Adorno, Horkheimer e Freud, afirma que, na sociedade do capitalismo tardio, a indústria cultural se faz hegemônica por meio de um processo no qual as relações intersubjetivas reprimidas são falsamente liberadas através do fetiche das relações sociais que são repersonalizadas nos chamados líderes secundários, tais como os artistas e políticos, cujos dramas pessoais parecem determinar a vida de todos em esfera global. Na sociedade cuja idolatria aos objetos de consumo cada vez mais reflete a debilitação do próprio indivíduo é necessário fazer com que a repressão a qualquer tipo de práxis contrária a esse processo seja "compensada" pela promessa de que sempre haverá um "novo" produto mais desenvolvido que proporcionará a superação daquela sensação de mal-estar que teima em persistir quando procuramos desesperadamente a reapropriação do controle da nossa individualidade no consumo ou mesmo no desejo de fazê-lo. Ora, a própria forma como os produtos são facilmente substituídos por outros já é um fator indicativo de que esse processo deificador dissimula algo que é muito mais relevante, tal como foi observado por Robert Kurz: Como a indiferença da forma capitalista a todo conteúdo substancial torna-se insuportável, o elo perdido da qualidade sensível dos objetos tem de ser recriado numa alucinação...Como não se permite que tal irrelevância do conteúdo sensível seja discutida, o substrato alucinatório das mercadorias tem de remeter-se a algo diverso: a qualidade sensível perdida é simulada no plano da forma estética. O totalitarismo da forma é conservado; a indiferença da forma social não é superada, mas encoberta esteticamente(15). É importante mencionar que Kurz está ciente da diferença entre o significado da estética das mercadorias e da estética das obras de arte, as quais nunca deixaram de ser mercadoria, mas conservaram aquele potencial de crítica às condições objetivas ancoradas na dominação e na exploração. A estética da mercadoria da indústria cultural globalizada torna-se fundamentalmente a estética do seu fetiche, cuja função, destacada por Kurz, se refere àquela que foi demarcada por Adorno e Horkheimer na Dialética do esclarecimento: procura-se, antes de mais, nada associar ao produto da indústria cultural a oportunidade de que o pseudo-indivíduo experimente a sensação de que é um atributo seu – a beleza, a inteligência, a simpatia – que está sendo simplesmente confirmado no ato da compra de determinado ícone. De qualquer forma, as características materiais dos ícones de consumo não são assim tão relevantes, pois podem ser modificadas de acordo com a "sensibilidade" do fetiche da mercadoria que sabe muito bem qual é o melhor momento de adquirir outra roupagem mais vistosa. O que importa mesmo é sejam fornecidas as condições para que a catarse regressiva possa ser efusivamente usufruída, quer seja através da projeção do ódio naquele ídolo cuja reverência anterior transforma-se na repugnância diante "consciência" da insensatez do seu "estilo" musical, quer seja por meio da projeção libidinal na "nova" estrela cuja suntuosidade parece redimir a cegueira e a estultice de alguém um dia ter sido um fã daquele que é, nesse momento, considerado por todos um perdedor ultrapassado. Essa situação faz lembrar as palavras de Adorno expostas no texto Educação após Auschwitz: O que a psicologia denomina superego, a consciência, é substituído em nome de um vínculo por autoridades externas, descompromissadas, permutáveis, como foi possível observar após o colapso do Terceiro Reich na Alemanha. É precisamente a disposição de aderir ao poder e, externamente, submeter-se como norma àquilo que é mais forte, à mentalidade dos algozes, que jamais deverá ressurgir(16). Se for verossímil a idéia de Freud de que os indivíduos poderiam se identificar entre si no seus egos através da projeção da libido narcísica num desejo que substituiria a figura do líder, então talvez, na sociedade atual, predomina o desejo de consumo – consubstancializado em algum ícone – que cada vez mais ocupa o lugar do ideal de ego, herdeiro do narcisismo primário, numa dimensão social cada vez maior. O elemento humano, exaltado no produto, serve para obscurecer as próprias relações sociais desumanizadas responsáveis por sua produção. Se essa hipótese for considerada, talvez possamos depreender uma situação-limite cada vez mais comum: a resistência, que muitas vezes pode significar a morte, do adolescente em entregar seu par de tênis de marca conhecida para assaltantes. Nessa situação, o perigo da morte física parece ser amainado, ainda que por um decisivo instante, diante da possibilidade da morte decorrente de não mais ser reconhecido enquanto "sujeito". É possível que, atualmente, este seja o sentido do narcisismo: o indivíduo projeta sua libido narcísica nos valores vinculados às imagens dos objetos de consumo ao mesmo tempo em que são legitimados e reconhecidos como membros de um determinado grupo. A temporalidade do vínculo estabelecido pode variar de grupo para grupo. Não obstante, a tendência é a de que o reconhecimento das debilitadas identidades seja realizado através da exclusão dos "diferentes". De forma geral, esse é o mecanismo psicológico daquele que foi caracterizado anteriormente como o portador da mentalidade do tíquete. Esse pseudo-indivíduo ama não só os outros portadores dos mesmos signos, como também adora sobretudo a si mesmo. Aliás, o estímulo dessa sociedade ao sentimento infantil de onipotência e ao pensamento estereotipado é também relacionado por Adorno com a chamada mentalidade do tíquete da seguinte forma: A opacidade da situação política e econômica proporciona, para a pessoa (portadora da mentalidade do tíquete – AASZ), uma oportunidade ideal para a regressão ao nível infantil da estereotipia e da personalização(17). É um clima cultural específico que reforça tanto a dicotômica e padronizada visão de mundo que divide os indivíduos entre aqueles que são considerados bons ou maus, quanto a personalização que reduz os problemas político-sociais aos dramas pessoais dos dirigentes, por exemplo. Apesar de suas características distintas, tanto a estereotipia quanto a personalização são fundamentais para a fratura da experiência formativa. Diante desse tipo de sociedade, deve-se ter em mente que as práticas preconceituosas, tais como as anedotas racistas ou mesmo a canção de sucesso que destrata as chamadas minorias étnicas, estão longe de representar inocentes brincadeiras. A legítima representante da mentalidade do tíquete é a consciência feliz que se acomodou em lutar com todas as suas energias para que possa ser reconhecida como "sujeito", nem que para isso pague o preço da confirmação da sua pseudo-individualidade. O novo Fausto faz mais do que vender a alma para que possa ser um "interventor". O martírio jamais pode ser encarado como realmente é, pois ele precisa desprender um esforço descomunal para a renovação perene da sua própria debilidade. Definitivamente desmorona a idéia, a qual já indica a banalização do próprio conceito, de que a indústria cultural precisa de consumidores passivos. Na sociedade global, os pseudo-indivíduos necessitam combater, principalmente em si próprios, de forma enérgica, qualquer tipo de práxis contrária à integração pelo consumo. Para poder ser passivo, o pseudo-indivíduo deve antes vivenciar ativamente a negação de si mesmo. O dessabor, derivado da substituição do prazer pelo pré-prazer, é cotidianamente apaziguado pela delirante sensação de poder estar integrado a um grupo e de muitas vezes satisfazer os seus desejos sem a "inconveniência" da obediência das normas sociais. Diante desse contexto social, caberiam as perguntas: será que a reapropriação do mimético encontra-se fadada a ser sempre de uma forma em que prevaleça o embrutecimento e a dessensibilização? Será que, na sociedade da indústria cultural hegemônica, prevalecerá sempre aquela mímesis perversa, tal como foi desejada por Hitler, ainda que esse processo atualmente tenha outras tonalidades? No inicío do texto foi feita uma referência à observação de Jeanne Marie Gagnebin de que há um certa ênfase, na Teoria estética, de uma dimensão não patológica da reapropriação do mimético. De fato, a tensa relação entre a realização das pulsões e a construção da cultura pode ser exposta sem que ocorra uma mútua humilhação. Durante o momento expressivo da obra de arte, há o reconhecimento do doloroso processo pelo qual ambas tiveram que ceder quanto às suas pretensões megalômanas de controle total da situação. E é justamente através dessa dupla atitude de complacência que é oferecida a possibilidade do mimético ser reapropriado não de forma regressiva, mas sim lúdica. A possível reconciliação é exposta por Adorno na Teoria estética, como bem pontuou Gagnebin: ...o conceito de mímesis não pode ser simplesmente reduzido aos de magia e regressão: a mímesis indicaria muito mais uma dimensão essencial do pensar, essa dimensão de aproximação não violenta, lúdica, carinhosa, que o prazer suscitado pelas metáforas nos devolve. Ela aponta para aquilo que Adorno na sua Teoria estética define como o Telos der Erkenntnis, o "Telos do conhecimento": uma aproximação do outro que consiga compreendê-lo sem prendê-lo e oprimi-lo, que consiga dizê-lo sem desfigurá-lo. Essa proximidade na qual o espaço da diferença e da distância seja respeitado sem angústia, esse conhecimento sem violência nem dominação já era a idéia reguladora que já orientava toda a crítica de Adorno na Dialética do esclarecimento(18). Se a experiência formativa ainda conserva a esperança de que esse sentido de mímesis faça parte de nossas vidas, não se pode fechar os olhos para a atual falsa reconciliação entre o particular e o geral. Portanto, a gnose da Dialética negativa expressa, por assim dizer, a falsidade dessa reconciliação que é propiciada pela universalização da indústria cultural. Diante dessas observações, a possibilidade de reconciliação imediata entre sujeito e objeto já está prejudicada de antemão pelo modo de pensar que denuncia a impossibilidade de reconciliação numa sociedade de relações materiais desiguais. Entretanto, vale resgatar o raciocínio dialético de Adorno ao identificar a veracidade de conteúdos ideológicos que são falsamente cumpridos na prática. Quando se denuncia a mentira da troca de equivalentes no transcorrer das relações de trabalho atuais, ao se admitir que "há muito desagregou-se do processo de trabalho aquele conceito de experiência que uma vez a formação designou"(19), fala-se também em nome da esperança de que a abstração da troca de verdadeiros iguais se concretize, de que se efetive aquilo que até o presente momento não passou de uma promessa: A crítica do princípio da troca como instância identificadora do pensamento busca a realização do ideal da troca livre e justa, que até agora não foi mais do que um pretexto. Só assim superar-se-ia a troca. Ainda que a teoria crítica tenha desmascarado a troca do igual que é, no entanto, desigual, a crítica da desigualdade na igualdade busca também a igualdade(20). Ora, há uma grande diferença entre, por um lado, buscar a identidade entre o sujeito e o objeto numa sociedade que ofereça realmente as condições necessárias para que se cumpra efetivamente o conteúdo das promessas ideológicas de uma sociedade mais humana e, por outro lado, promover a apoteose da identidade convertida em acomodação ou, melhor dizendo, integração. O juízo de valor que acompanha o discernimento proveniente desse modo de pensar expressa a falsidade da reconciliação harmônica entre o indivíduo e a sociedade, quer seja na pretensão da ciência, quer seja na aspiração da filosofia. Na Dialética negativa há uma dura mas justa cobrança em relação ao desenvolvimento do próprio conceito. O conceito que se deixa absolutizar, de tal maneira que adquire a presunção de julgar bastar a si mesmo, participa da mentirosa conformidade entre a subjetividade e a objetividade, contribuindo decisivamente para a verdadeira ausência da liberdade e da felicidade. A contestação da pretensa onipotência do conceito é exposta por Adorno no texto de insinuante título: Desmitologização do conceito: A verdade é que todos os conceitos, incluindo os filosóficos, têm sua origem no que não é conceitual, já que são parte da realidade que os obriga a formarem-se, antes de mais nada, com o propósito de dominar a natureza...só a coisificação do conceito é capaz de se isolar dessa totalidade (a totalidade que não é conceitual - AASZ) (21). A auto-reflexão, tal como foi exposta no sentido da experiência formativa, possibilita a superação da apática limitação do próprio conceito proveniente da sua redução ao princípio da identidade. Os conceitos interligados nessa constelação expressam aquilo que o pensamento identificante recusou-se a si mesmo: a necessidade do ajuste de contas com o sofrimento humano. A partir do momento em que a filosofia procede dessa forma, uma vez mais concede-se voz àquilo que foi reprimido mas que nunca deixou de se fazer presente. Para Adorno, é justamente nesse ponto que a filosofia compactua com a grande arte, com a música dodecafônica de Schönberg ou com o texto de Kafka, por exemplo. A dimensão artística desenvolve certa afinidade com a filosófica quando ambas, através de seus constructos, expressam o que não pôde ser expressado – e que permanece presente nas tensas relações do sujeito e do objeto – mas que conserva, na sua transformação, uma possibilidade de realização em um outro contexto. Essa inferência de Adorno sobre o fundamental conceito de expressão também foi desenvolvida na Teoria estética: O instante da expressão das obras de arte não é, porém, a sua redução ao seu material enquanto algo de imediato, mas extremanente mediatizado. As obras de arte tornam-se aparições no sentido mais rico do termo, aparições de um outro, quando o acento incide sobre o caráter irreal da sua realidade...Porque o estremecimento passou e, apesar de tudo, sobrevive, é que as obras de arte o objetivam como suas cópias(22). Dessa forma, há a expressão daquele sofrimento humano que é obstaculizado pela produção cultural cuja dimensão da troca é tão hegemônica que parece não haver outra alternativa a não ser a do gosto pela coisificação. Certamente, um dos ensinamentos que poderíamos destacar nos textos desses autores (Adorno, Horkheimer e Löwenthal) seria a recusa em aceitar a mentira da reapropriação lúdica do mimético numa sociedade calcada na dessensibilização e no sofrimento humano. Se raciocinarmos dessa forma, faz sentido a afirmação de Adorno de que o alegre na arte não se refere ao seu conteúdo, "mas ao seu procedimento, ao abstrato de que sobretudo é arte por abrir-se à realidade cuja violência ao mesmo tempo denuncia...A medida da profundidade da arte mede-se pelo fato de poder ou não, pela reconciliação que suas leis formais trazem às contradições, destacar a real irreconciliação"(23). Talvez, atualmente, nada seja mais significativo do que a crítica da ideologia que denuncia, por mais doloroso que isso possa ser, o prazer que sentimos, e que parece ser o único (quando sabemos que não é), a partir do momento em que nos tornamos indiferentes à crescente reincidência da barbárie. E o recrudescimento dessa indiferença tem relação direta como o esforço feito para que a reapropriação do mimético concentre o seu foco no usufruto do sadismo que se conjuga com o masoquismo numa sociedade simpática à reincidência de práticas fascistas. Porém, o aceno da arte, estimulado pelo auxílio da filosofia, contradiz essa situação e pode fazer vislumbrar a esperança de que ainda não desapareceu o desejo de poder dizer o outro sem desfigurá-lo. Isso pode ser feito, ainda que atualmente não deixe de representar "apenas" um aceno.
Referências bibliográficas: 1) ADORNO, T.W. & HORKHEIMER, M. "A indústria cultural, o esclarecimento como mistificação das massas". In Dialética do esclarecimento, fragmentos filosóficos, tradução de Guido Antonio de Almeida, Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 1986, p.156. 2) GAGNEBIN, J.M. "Do conceito de mímesis no pensamento de Adorno e Benjamin". In Sete aulas sobre linguagem, memória e história, Rio de Janeiro: editora Imago, 1997, p.81. 3)Cf. HORKHEIMER, M. "Teoria tradicional e teoria crítica", tradução de Edgard Afonso Malagodi e Ronaldo Pereira Cunha. In Horkheimer & Adorno, coleção "Os pensadores", São Paulo: Nova cultural, 1991. 4) LÖWENTHAL, L "Individuum und Terror". In Diner, Dan (org.) Zivilisationsbruch: Denken nach Auschwitz, Frankfurt am Main: Fischer Verlag, 1988, p.15. 5) MAAR, W.L. "À guisa de introdução: Adorno e a experiência formativa". In ADORNO, T.W. Educação e emancipação, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995, p.24. 6) ADORNO, T.W. "Freudian Theory and the Pattern of Fascist Propaganda". In Gesammelte Schriften 8 - Soziologische Schriften I, Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1972, p.421. 7) LÖWENTHAL, L. "Falsche Propheten: Studien zur faschistischen Agitation". In Zur politischen Psychologie des Autoritarismos, Schriften 3, Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1982, p.128. 8) Cf. ADORNO, T.W. & HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento, fragmentos filosóficos, op.cit., p.172. 9) Cf. LÖWENTHAL, L "Individuum und Terror", op.cit.p.19. 10) ROUANET, S.P., Teoria crítica e psicanálise, Rio de janeiro: editora Tempo brasileiro, 1986, p.139. 11) FREUD, S. Psicologia de las Masas y analisis del Yo", tradução de Luis Lopez, Ballesteros y de Torres. In Obras Completas, volume 3, Madrid, editora Biblioteca Nueva, 1981, p.2588. 12) FREUD, S. "Introducion al narcisismo", tradução de Luis Ballesteros y de Torres. In Obras Completas, volume 2, Madrid: editora Biblioteca Nueva, 1981, p.2028. 13) ADORNO, T.W. "Freudian Theory and the Pattern of Fascist Propaganda", op.cit., p.411. 14) FREUD, S. "Psicologia de las Masas y analisis del Yo", op. cit., p.2582. 15) KURZ, R. "A estetização da crise", tradução de José Carlos Macedo. In Folha de São Paulo, Caderno Mais!, 23 de novembro de 1997, p.03. 16) ADORNO, T.W. "Educação após Auschwitz", tradução de Aldo Onesti. In Cohn, G. (org.), Theodor W. Adorno, coleção grandes cientistas sociais, São Paulo: editora Ática, 1986, p.37. 17) ADORNO, T.W. "Studiens in the authoritarian personality". In Gesammelte Schriften 9.- Soziologische Schriften II - Erste Hälfte, Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1972, p.346. 18) Cf. GAGNEBIN, J.M. Sete aulas sobre linguagem, memória e história, op. cit., p.103. 19) ADORNO, T.W."Einleitung zu einer Diskussion über die "Theorie der Halbbildung". In Gesammelte Schriften 8 - Soziologische Schriften I, Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1972, p.575. 20) ADORNO, T.W. "Sobre a dialética da identidade". In Dialéctica negativa, tradução de José María Ripalda, revisada por José Aguirre, Madrid: Taurus ediciones, 1975, p.149. 21) ADORNO, T.W. "Desmitologização do conceito". In Dialéctica negativa, tradução de José María Ripalda, revisada por José Aguirre, Madrid: Taurus ediciones, 1975, p.19. 22) ADORNO, T.W. Teoria estética, tradução de Artur Morão, São Paulo: editora Livraria Martins Fontes, 1982, p.97. 23) ADORNO, T.W. "Ist die Kunst heiter?" In Gesammelte Schriften 11, Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1996, p.599-606. Tradução de Newton Ramos-de-Oliveira e revisão técnica de Antônio Alvaro Soares Zuin e Bruno Pucci.
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