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FREUD
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Paulo Bruno Rosa Gomes 1
No entanto, recorrer-se-á também, no decorrer deste, a outros estudiosos que dispõem de trabalhos de reconhecido mérito nas diversas áreas de pesquisa em ciências humanas e sociais, trabalhos estes que serão devidamente indicados ao longo desta investigação. Ademais, cabe ainda ressaltar que a III seção do famoso estudo clínico O Caso de Schreber (1911), no qual Freud diagnosticara como sendo um caso de dementia paranoides a enfermidade que acometera o Dr. em direito Daniel Paul Schreber, e intitulada “ Sobre o mecanismo da paranóia”, fornece elementos substanciais para a elucidação dos processos psíquicos envolvidos no desenlace da afecção (considerada, nesse período, neuropsicótica) conhecida como paranóia. Dito isto, e como já se disse aqui, na IV parte da Dialética do Esclarecimento, cujo título é “Elementos do Anti-Semitismo: Limites do esclarecimento”, Adorno e Horkheimer investigam a questão da “paranóia fascista” de uma forma precisa e muito detalhada. Desse modo, ao longo desta argumentação, procurar-se-á elencar o que, de maneira prática, diz respeito ao desenlace dessa “neuropsicose social”, e, sobretudo, ao conceito de falsa projeção aí introduzido por eles. Vale dizer também que, tal como se vê em O Caso de Schreber, o quadro clínico deste demonstra todo um encadeamento de fatores que culminaram na forma como se constituiu o seu complexo sistema delirante, o qual caracterizava-se principalmente pela idéia de ser transformado em mulher (referente à fantasia de desejo homossexual, e que também estaria associada, segundo defendem vários intérpretes da psicanálise, ao que Freud, posteriormente, denominou complexo de castração) e de ter um vínculo privilegiado com Deus (alusão à figura paterna). Nesse sentido, o “delírio fascista”, segundo Adorno e Horkheimer, apresenta uma estrutura muito peculiar, porém, como tal, é também determinado pelos mesmos mecanismos envolvidos na produção do distúrbio paranóico. Assim, a aproximação entre a enfermidade de Schreber e a calamidade social expressa pelo fascismo não é fortuita. Na sua análise do anti-semitismo, os autores levantam dados que permitem, de fato, que se verifique de que maneira se encontram dispostos o mecanismo da formação de sintomas (a projeção) e os mecanismos repressivos (a fixação, a repressão propriamente dita e o retorno do reprimido, ou seja, o próprio delírio) da paranóia. Também não se pode deixar de considerar ainda o papel decisivo exercido aí pela teoria do narcisismo, bem como pelo conceito de regressão. Ressalta-se ainda que Adorno e Horkheimer têm, nesse momento, a perfeita noção do representava o perigo dessa “patologia coletiva”, pois ambos também foram vítimas da perseguição nazista. No entanto, segundo se constata no percurso por eles traçado ao longo de sua análise do anti-semitismo fascista, pode-se ainda assegurar que toda e qualquer forma de autoritarismo se constitui em um projeto de dominação política que tem uma finalidade intrínseca, e, a qualquer custo, dissimulada: interferir “na economia psíquica das pessoas, com objetivo de desindividualizá-las ao máximo” 2. E é justamente pelo fato de mobilizar elementos que dizem respeito à “economia psíquica das pessoas” que se torna possível empreender um estudo dessa natureza, qual seja, um estudo que se encontra intimamente ligado ao da teoria da libido freudiana. Dada a contundência desse argumento, eles puderam, de fato, afirmar que quanto maior é a força coercitiva impressa nessa interferência sobre os instintos da massa desindividualizada, maiores são as chances dessa massa, na ânsia de imitar o comportamento do opressor –– imitação essa que aqui corresponde ao conceito adorniano de mimese ––, descarregar sua angústia sobre todos aqueles que incitam, de um modo ou de outro, os seus desejos reprimidos pela violência dessa coerção. Assim, não é por acaso que toda forma de totalitarismo, como se vê mais explicitamente no fascismo, consegue a adesão de uma parcela significativa dessa massa para que possa exercer essa mesma violência: através do pacto selado entre dominadores e dominados, faz-se sempre necessária a presença do objeto no qual se possa “corporificar” o desafeto, isto é, aquele que traga consigo as marcas da angústia próprias daqueles que as vivenciam de fato. Dentro desse contexto, por outro lado, pode-se admitir que o esclarecimento também mobiliza o mecanismo da formação de sintomas fundamental da paranóia, a projeção. Como se sabe, no sentido propriamente psicanalítico, a projeção é o mecanismo pelo qual o sujeito expulsa de si e localiza no exterior — pessoa ou coisa — qualidades, sentimentos, desejos que não aceita em si mesmo. É um mecanismo de defesa que se encontra, particularmente, na paranóia, mas também no pensamento normal. Tanto para Freud quanto para Adorno e Horkheimer, o aspecto normal da projeção consiste na tendência a procurar no mundo exterior a origem da sensação de desprazer. Para os referidos autores, o organismo é submetido a duas formas de excitação, geradoras de desprazer: as que vêm do exterior, e podem ser evitadas pela fuga, e as que vêm do interior, e contra as quais não existe, no início, uma proteção eficaz. A projeção aparece assim como o meio de defesa original contra excitações internas excessivamente intensas, pelo qual o sujeito desloca tais excitações para o exterior, o que lhe permite defender-se pela fuga.
A tendência projetiva, que desempenha um papel positivo na medida em que fornece a motivação para traçar as fronteiras entre o mundo interior e o exterior, e como tal exerce uma importante função epistemológica, transforma-se numa fonte de ilusões quando leva, como no animismo, à construção de uma realidade supra-sensível, e torna-se mórbida quando conduz, como na fobia, à fuga diante de um perigo exterior imaginário, ou, como na paranóia, à extrojeção do conflito, sob a forma de um sistema delirante 3.
O anti-semitismo, segundo Adorno e Horkheimer, baseia-se em uma deformação do processo projetivo, a falsa projeção. Diz-se ainda que o anti-semitismo é o reverso da mimese genuína, isto é, aquela que encontra sua melhor expressão na imitação da natureza que é proporcionada pelo mito. A pura e simples mimese expressa pelo impulso mítico que fora, violentamente, recalcado pela civilização esclarecida, constituiu-se em um fator determinante para a eclosão da patologia anti-semítica. É por isso que Adorno e Horkheimer afirmam que, através da mimese, o mundo exterior se torna “o modelo ao qual o interior se ajusta, o estranho tornando-se o familiar”, enquanto que a falsa projeção “transpõe o interior prestes a saltar para o exterior e caracteriza o mais familiar como algo de hostil” 4. Assim, o anti-semita atribui à sua vítima os impulsos próprios, condenados pelo “superego de uma cultura da dominação”: pode-se dizer que, segundo eles, os racistas (die Völkischen), prisioneiros de uma ordem sócio-econômica extremamente expropriadora como é o caso da contemporânea “sociedade da técnica”, e “que não se satisfazem nem econômica nem sexualmente, têm um ódio sem fim; não admitem nenhum relaxamento, porque não conhecem nenhuma satisfação” 5. Tal como se percebe na análise de Freud a respeito do caso de Schreber, os autores confirmam o ponto de vista de que o paranóico não tem mais liberdade para escolher o seu próprio objeto de satisfação, e, desse modo, passa a obedecer às leis de sua doença. E é isso que determina a forma final assumida pelo delírio, onde, no que se refere ao fascismo, o sistema alucinatório torna-se a norma racional do mundo, e, também, onde qualquer “desvio” é tomado como algo insuportável, ou até mesmo como algo aparentado à própria e ameaçadora “neurose”, a qual, de acordo com a Dialética do Esclarecimento, já acometera o próprio fascismo. Sem perder de vista a referida análise freudiana, e graças ao papel desempenhado pelo esquecimento da natureza que precisou ser, violentamente, dominada, recalcada, nos primórdios da civilização, Adorno e Horkheimer denunciam o fato de que os “mesmos impulsos sexuais que a raça humana reprimiu souberam se conservar e se impor num sistema diabólico, tanto dentro dos indivíduos, quanto dos povos, na metamorfose imaginária do mundo ambiente” 6. É justamente de um tal sistema que a ordem totalitária retira toda a energia necessária para a manutenção do seu status quo. Assim, portanto, toda essa energia represada é posta a serviço dessa mesma ordem, só que agora voltada para a destruição de um outro objeto que não seja ela própria. A dominação fascista, segundo a compreensão do significado do delírio para Freud, torna-se necessária na medida em que todo aquele “indivíduo obcecado pelo desejo de matar sempre viu na vítima o perseguidor que o forçava a uma desesperada e legítima defesa, e os mais poderosos impérios sempre consideraram o vizinho mais fraco como uma ameaça insuportável, antes de cair sobre ele” 7. Conforme essa mesma compreensão, Adorno e Horkheimer podem dizer que todo aquele que é escolhido para inimigo, passa, devido à ação da patologia paranóica, a ser percebido como inimigo. E é isso que caracteriza o distúrbio: a “incapacidade de o sujeito discernir no material projetado entre o que provém dele e o que é alheio” 8. Eis o resultado desse processo: o mundo se transforma em um sistema persecutório, povoado de entidades hostis. Na tentativa de tornar isto ainda mais evidente, pode-se sustentar que tanto para Freud quanto para os autores frankfurtianos, nas palavras de Betty B. Fuks, na afecção narcísica paranóide, “a inquietante estranheza (das Unheimliche)” causada pelo outro, pela alteridade, é, na verdade, “uma estranheza intrínseca ao sujeito” 9. Assim sendo, “o estranho é a verdade assustadora do sujeito, que remonta ao que há muito lhe é conhecido e familiar: o desamparo” 10. Visto sob esse prisma, Adorno e Horkheimer concordam com o fato de que a alteridade, o estranho, enfim, o outro, torna-se aquilo que, sendo a um só tempo o mais exterior e o mais íntimo, não permite que o ego delirante se reconheça: “ao contrário, só se diz na angústia e no horror opaco de seu retorno: o face a face com o que não tem nome, o que está para além da fantasia”11. Fica claro, assim, que, tal como destaca Fuks a respeito dessa idéia freudiana que também fora desenvolvida por Jacques Lacan em seu seminário intitulado Angústia (1962-1963), “o afeto do sujeito do inconsciente, que aflora quando esse ego é confrontado com o Estranho, é a angústia” 12. Vê-se claramente que Adorno e Horkheimer, em meio às suas indagações sobre o ódio que o ego angustiado do fascista desenvolve em relação à diferença do outro, podem confirmar uma tal hipótese, na medida em que a violência sofrida pelos judeus na contemporaneidade os autoriza a pensar a destruição destes a partir dessa idéia de que o fascista, inconscientemente, reconhece que um elemento “demoníaco” habita, recôndito, nele mesmo. Curiosamente, ainda no referido texto de Fuks, encontra-se uma passagem que caracteriza muito bem o posicionamento dos frankfurtianos na Dialética do Esclarecimento frente a essa discussão:
No contexto dessa interpretação, o discurso do Führer alemão é exemplar, pois permite perceber com clareza que o judeu era, a um só tempo, o que ele guardava de mais íntimo e o que lhe era mais estranho: um estranho estrangeiro. “O judeu habita em nós; porém, é mais fácil combatê-lo sob sua forma corporal do que sob a forma de um demônio invisível”, confidenciou certa vez Adolph Hitler a Herman Rauching 13.
Assim, na Dialética do Esclarecimento, pode-se afirmar que a massa, quando expropriada da capacidade de discernir entre o que lhe é próprio e o que pertence ao outro, e, ademais, quando é capturada pelas malhas fascinantes dos rituais miméticos expressos na figura do líder, do Führer, persegue o outro movida pela crença na hegemonia do ego e pelo esvaziamento da dimensão da alteridade. Desse modo, a idiossincrasia dos “camaradas de etnia” (Volksgenossen), componentes, por sua vez, da comunidade racial (Volksgemeinschaft), exige, pelo efeito da afecção paranóide que os assola, a hostilidade para com os não-idênticos (que como se sabe, no caso do fascismo, são todos os “não-arianos”), legitimando-se, sob essa condição, o poder de dominação sobre estes. Nesse sentido, o judeu é inventado pelo anti-semita para que seus fantasmas eróticos e agressivos possam encontrar um corpo. Os estereótipos anti-semitas segundo os quais os judeus são parasitários, apátridas, homicidas e sexualmente incontinentes exprimem o velho desejo mimético, reprimido pelo esclarecimento, de um reencontro com a origem, além das fronteiras nacionais, da ética do trabalho, dos tabus culturais que vendam o incesto e o parricídio. O judeu, afinal de contas, é odiado porque encarna os privilégios proibidos, porque tem a insolência de ser aquilo a que todos secretamente aspiram.
Os judeus são acusados em bloco da magia proibida, do ritual sanguinário. É só assim sob o disfarce da acusação que o desejo subliminar dos autóctones de retornar à prática mimética do sacrifício pode ressurgir em sua consciência. E quando todo o horror dos tempos primitivos abolidos pela civilização é reabilitado como um interesse racional pela projeção sobre os judeus, não há mais como parar. Ele pode, agora, ser posto em prática, e a realização do mal ainda supera o conteúdo maligno da projeção. As fantasias racistas sobre os crimes dos judeus, sobre os infanticídios e excessos sádicos, sobre o envenenamento do povo e a conspiração internacional, definem exatamente o desejo onírico do anti-semita e ficam aquém de sua realização. (...) Chamar-se judeu equivale a um convite a seviciá-lo até ficar igual a essa imagem (qual seja, a da “bandeira da cruz gamada — ao mesmo tempo caveira e a cruz esquartejada”) 14.
É óbvio que, como Freud, Adorno e Horkheimer distinguem a projeção “patológica” da projeção “normal”. Ao contrário daquela, a projeção normal permite ao sujeito diferenciar entre a própria contribuição e a do real na estrutura do objeto percebido, haja vista que o mundo dos objetos é constituído pela impressão recebida pelos sentidos, mas também pelo trabalho de reflexão pelo qual o sujeito elabora esse material e o restitui sob a forma de percepção estruturada. Por esse motivo, na Dialética, afirmam:
Entre o verdadeiro objeto e o dado indubitável dos sentidos, entre o interior e o exterior, abre-se um abismo que o sujeito tem de vencer por sua própria conta e risco. Para refletir a coisa tal como ela é, o sujeito deve devolver-lhe mais do que dela recebe. O sujeito recria o mundo fora dele a partir dos vestígios que o mundo deixa em seus sentidos: a unidade da coisa em suas múltiplas propriedades e estados; e constitui desse modo retroativamente o ego, aprendendo a conferir uma unidade sintética, não apenas às impressões externas, mas também às impressões internas que se separaram pouco a pouco daquelas. O ego idêntico é o produto constante mais tardio da projeção 15.
Ademais, seguindo esse mesmo raciocínio, Adorno e Horkheimer na Dialética do Esclarecimento, nas palavras de Sérgio P. Rouanet, alertando para o perigo de toda e qualquer forma de anti-semitismo, dizem:
Na origem, a projeção constitui um instrumento de autoconservação da espécie, na medida em que levava o primitivo, por um lado, a explorar a realidade exterior, a investigar as relações causais externas, e por outro lado a proteger-se contra uma introspecção precoce que só poderia reduzir sua capacidade de evitar, pela fuga, os riscos objetivos do meio. Mas o comportamento projetivo acaba absolutizando-se. É o mundo da subjetividade irrefletida, do domínio pelo domínio: puro poder, transformado-se num fim em si mesmo 16.
Como se constata, segundo Adorno e Horkheimer, a vida da razão consiste nesse intercâmbio entre impressão sensorial e reflexão, pelo qual as informações em si vazias dos sentidos impulsionam o pensamento a toda produtividade de que é capaz, e este se entrega, sem reservas, às impressões do exterior, veiculadas pelos sentidos. O que é doentio, no anti-semitismo, não é, portanto, a projeção em si — o mundo, em um certo sentido, é sempre produzido pelos sentidos — mas a ausência de reflexão. O material subjetivo que o anti-semita projeta na realidade não é o produto de um trabalho reflexivo incidindo sobre impressões originárias da realidade, mas a subjetividade bruta de um puro a priori.
Não conseguindo mais devolver ao objeto o que dele recebeu, o sujeito não se torna mais rico, porém, mais pobre. Ele perde a reflexão nas duas direções: como não reflete mais o objeto, ele não reflete mais sobre si e perde assim a capacidade de diferenciar. Ao invés de ouvir a voz da consciência moral, ele ouve vozes; ao invés de entrar em si mesmo, para fazer o exame de sua própria cobiça de poder, ele atribui a outros os “Protocolos dos Sábios de Sião”. Ele incha e se atrofia ao mesmo tempo. Ele dota ilimitadamente o mundo exterior de tudo aquilo que está nele mesmo; mas aquilo de que o dota é o perfeito nada, a simples proliferação de meios, relações, manobras, a práxis sinistra sem a perspectiva do pensamento 17.
Em vista disso, como se observa na sua análise do delírio de Schreber, Freud se refere à atividade delirante como sendo aquela em que o ego tenta se restabelecer depois de efetivada a dolorosa repressão das moções pulsionais primárias, e, também, a partir da qual ocorre a retirada dos investimentos libidinais do objeto, outrora desejado, por parte do ego. É aí que se encontra a chave para se justificar o porquê de a paranóia ser considerada uma legítima neurose narcísica: a libido que é retirada dos objetos, retrai-se para o próprio ego (referência ao conceito freudiano de libido egóica, o qual já se mencionou aqui). Fundamentando-se nisso, Adorno e Horkheimer sustentam a idéia de que todo sujeito, acometido pela patologia paranóide, tem os seus traços mnêmicos, antes retidos no inconsciente, atuando novamente “contra os homens como a arma cega da pré-história animal, que ele nunca deixou de ser para a espécie, ao se voltar contra todo o resto da natureza” 18. Assim, no fascismo — reino da megalomania e da mania de perseguição — o sujeito é o centro de todas as coisas, e o mundo é apenas o suporte material do seu delírio. Converte-se no conjunto de tudo aquilo que o sujeito projeta nele. Mas esse sujeito, expropriado de si mesmo pelo esclarecimento, é vazio. Não é nada, porque tendo perdido a capacidade de perceber a si próprio, o que projeta é, exclusivamente, esse vazio. Projeta o nada: “finalidade cega, meio sem objetivo, mero pânico, o esquema brutal da simples sobrevivência” 19. Enfim, segundo os frankfurtianos, o fascismo “é a subjetividade de um mundo sem sujeito, o produto paranóico de um delírio interpretativo, numa ordem que anulou a capacidade de interpretar, um sistema, no sentido idealista: criação mental, ens rationis de uma ordem privada de razão” 20. Aqui, precisamente, encontra-se mais um ponto de convergência entre as análises de Freud e dos autores da Dialética: a idéia delirante “que não encontra nenhum apoio firme na realidade insiste e torna-se fixa” 21. Eis a constatação: esse delírio, não encontrando nenhum suporte no mundo exterior, e tendo regredido até um estágio mitológico, no caso do fascismo, o mito da “raça ariana pura”, recheado de elementos da mitologia germânica, fixa-se nesse estágio. Assim o paranóico só consegue repetir o seu ego alienado em uma pura e simples mania abstrata. É o estágio mimético primitivo, e pretensamente ultrapassado, que retorna como o “puro esquema do poder enquanto tal, que domina totalmente tanto os outros quanto o próprio eu rompido consigo mesmo”, e que “agarra o que se lhe oferece e insere-o em seu tecido mítico, com total indiferença por suas peculiaridades” 22. E, em consequência disso, o “ciclo fechado do que é eternamente idêntico torna-se o sucedâneo da onipotência” 23.
O sentido das fórmulas fascista, da disciplina ritual, dos uniformes e de todo o aparato pretensamente irracional é possibilitar o comportamento mimético. Os símbolos engenhosamente arquitetados, próprios a todo movimento contra-revolucionário, as caveiras e mascaradas, o bárbaro rufar dos tambores, a monótona repetição de palavras e gestos são outras tantas imitações organizadas de práticas mágicas, a mimese da mimese. O Führer, com sua cara de canastrão e o carisma da histeria orquestrada, puxa a roda. Sua representação realiza substitutivamente e em imagem o que é vedado a todos os demais na realidade (grifo nosso) 24.
Poder-se-ia dizer, assim, que o paranóico parece não precisar de ninguém e, entretanto, exige que todos se ponham a seu serviço. Isso caracteriza o eminentíssimo papel exercido pelo conceito freudiano de narcisismo no curso do processo defensivo paranóide: segundo Adorno e Horkheimer, a vontade do ego delirado “penetra o todo, nada pode deixar de ter uma relação com ele” 25. E, além disso, para agravar ainda mais um tal quadro clínico, via de regra, os seus sistemas não têm lacunas. Dessa maneira, o sujeito que se encontra sob essa terrível condição procura aniquilar a sua vítima, a qual, pela força do seu delírio, já fora predestinada, “seja mediante um ato de terror individual, seja mediante uma estratégia de extermínio cuidadosamente planejada” 26. Logo, torna-se possível compreender que:
Nas próprias pessoas que se entregam, o elemento paranóico que elas possuem deixa-se atrair pelo indivíduo paranóico como um ser maléfico, e seus escrúpulos morais pelo indivíduo sem escrúpulos, a quem devotam sua gratidão (..) Assim sendo, o olhar não-paranóico, confiante, recorda-lhes o espírito que se extinguiu dentro delas, porque, fora delas, só enxergam a frieza dos meios de sua autoconservação. Esse contato desperta nelas a vergonha e a fúria 27.
Ainda sobre este ponto, na Dialética do Esclarecimento, em uma alusão ao aspecto religioso do anti-semitismo, afirma-se que tal como se fala que a onipotência divina tem o poder de atrair todas as criaturas para si, também assim no anti-semitismo, a potência satânica e imaginária tem o poder de atrair tudo para dentro de sua impotência.
Eis aí o segredo de seu domínio. O eu que projeta compulsivamente não pode projetar senão a própria infelicidade, cujos motivos se encontram dentro dele mesmo, mas dos quais se encontra separado em sua falta de reflexão. Por isso os produtos da falsa projeção, os esquemas estereotipados do pensamento e da realidade, são os mesmos da desgraça. Para o ego que se afunda no abismo de sua falta do sentido, os objetos tornam-se as alegorias de sua perdição encerrando o sentido de sua própria queda 28.
Assentados esses argumentos, remeter-se-á agora a um outro eixo central deste estudo desde o seu início: tanto para a teoria psicanalítica quanto para a teoria crítica da sociedade, segundo consta na Dialética do Esclarecimento, o processo projetivo patológico “consiste substancialmente na transferência para o objeto dos impulsos socialmente condenados do sujeito” 29. Sendo assim, sob a pressão do superego violenta e culturalmente adquirido, o ego se vê obrigado a projetar no mundo exterior, na forma de más intenções, os impulsos sádicos, agressivos, bárbaros, provindos do reservatório pulsional inconsciente, em outras palavras, do, posteriormente denominado por Freud, id. Esses impulsos, por causa de sua força, constituem uma ameaça para o próprio ego, pois, dependendo das circunstâncias, podem tornar possível até a sua própria destruição. Desse modo, o indivíduo procura livrar-se de tais impulsos reagindo cegamente contra o mundo exterior, “seja imaginariamente pela identificação com o pretenso vilão, seja na realidade sob o pretexto de uma legítima defesa” 30. Chega-se, agora, a um tópico de fundamental importância para a própria elaboração deste estudo: a tese defendida tanto pela psicanálise quanto pela teoria crítica de que, nas palavras de Adorno e Horkheimer, o “impulso condenado e transformado em agressão é, na maioria das vezes, de natureza homossexual” 31. Essa constatação, ratificada pelos frankfurtianos, já havia sido destacada por Freud, tal como se expôs anteriormente na primeira parte desta investigação, na sua análise do caso de Schreber. Dada essa confluência argumentativa, na Dialética, eles sustentam o ponto de vista de que, por um horror à idéia da castração, o sujeito torna-se irrestritamente obediente à figura da autoridade paterna, chegando até ao extremo de antecipá-la: assim, ele passa a assimilar “sua vida afetiva à vida de uma menina, e o ódio do pai se vê recalcado como um eterno rancor” 32. O agravamento desse quadro se dá quando, a exemplo da afecção paranóide, esse mesmo ódio leva o indivíduo a ansiar pela castração, revertendo-se esse afeto, pela ação dessa patologia, em um desejo irrefreável de destruição generalizada.
O doente regride (grifo nosso) à indiferenciação (idem) arcaica do amor e do desejo de subjugar. Para ele o que importa é a proximidade física, a posse, a relação a qualquer preço. Como não pode confessar o seu desejo, ele ataca o outro como um ciumento ou um perseguidor, assim como o sodomita recalcado se dedica à caça ou à presa de animais (...) Enfim, os objetos da fixação (também, idem) são intercambiáveis como as figuras paternas da infância; qualquer um serve, desde que ela (a atração) se prenda 33.
Em vista disso, pode-se claramente entender que o delírio paranóico faz com que o indivíduo procure desesperadamente encontrar uma referência sólida na realidade, contudo, ele “volta-se para tudo sem nenhum referencial” 34 real. É por isso que Adorno e Horkheimer ressaltam, textualmente na Dialética do Esclarecimento, que a “projeção patológica é um recurso desesperado do ego que, segundo Freud, proporciona uma proteção infinitamente mais fraca contra os estímulos internos do que contra os estímulos externos” 35. E, em se tratando disso, sob “a pressão da agressão homossexual represada, o mecanismo psíquico esquece sua mais recente conquista filogenética, a percepção de si, e enxerga essa agressão como um inimigo no mundo para melhor enfrentá-lo” 36. Em suma, de modo geral, e tendo contado com as referidas contribuições de Freud, os frankfurtianos querem dizer com tudo isso que a verdadeira projeção consiste em uma estruturação da realidade externa a partir de processos psíquicos internos ao sujeito, mas tais processos devem incluir a capacidade de reflexão sobre as informações vindas de fora, veiculadas através do aparelho sensorial. O exterior é parcialmente modelado pelo interior, mas esse interior não deve ser vazio, isto é, seus conteúdos devem vir do mundo exterior, e tampouco passivo, na medida em que tais conteúdos têm de ser trabalhados, reflexivamente, pelo sujeito. Só desse modo é que o que deve ser posto no real por esse sujeito não correria o risco de ser apenas fruto do poder de sua subjetividade arbitrária: “o sujeito se inscreve no objeto, não para aboli-lo, mas para interpretá-lo, e essa interpretação é em si modelada por um trabalho de reflexão cujo material é fornecido pelo próprio objeto” 37. Se, por um lado, a projeção é falsa quando constrói o real a partir da cega produtividade do próprio sujeito, sem dispor de qualquer material recebido de fora, por outro, segundo Adorno e Horkheimer, é, também, falsa quando recebe esse material, mas não o reflete, e devolve ao mundo exterior os mesmos fatos brutos transmitidos pelos sentidos. Nos dois casos, a projeção constrói uma realidade delirante: o objeto não é compreendido, mas cancelado. A primeira é, como já se sabe, a projeção propriamente paranóide. A segunda constitui o esquema de todo cientificismo, ou, ainda, de todo positivismo. Esse ponto conduz a presente abordagem para as discussões inicias deste estudo como um todo, na medida em faz com que se retome o debate acerca do papel da razão no contexto de uma efetiva teoria crítica da sociedade. Nesse sentido, positivismo é falsa projeção: “registro pontual de dados absorvidos mecanicamente pelo sujeito, que os devolve sem acrescentar nada de seu”, e que “julga com isto está sendo fiel à objetividade do real, quando na verdade, está se limitando a extrojetar impressões informes, desconexas, e descontínuas, recebidas passivamente e restituídas sem aquele mínimo de trabalho crítico que faria dessas impressões uma realidade estruturada” 38. À pura passividade de um sujeito que absorve sem refletir, segue-se a pura produtividade de um sujeito que exterioriza o que nunca chegou a ser apropriado. Assim, só o imediato é verdadeiro; mas o imediato é o fato original, anterior a qualquer mediação (Vermittlung), que acede à existência durante o próprio ato perceptivo, e que depende, para existir, do sujeito do conhecimento. Nas palavras de Rouanet:
O ideal escolástico da “adaequatium rei ad intellectum” é assegurado pelo positivismo através de expediente de banalizar os dois termos da equação: res (a coisa) é redefinida como simples aparência, o intellectus como mero entendimento, o que reduz o ato do conhecimento à simples junção da percepção com o percebido, e em última análise a uma tautologia, pois o sujeito é constituído pela mera reprodução (irrefletida) do fato no aparelho psíquico, que duplica esse fato, sem processá-lo, e o restitui sob forma de ciência 39.
No entanto, esse conhecimento é tão ilusório quanto o ego que lhe deu origem é vazio. Em contraste, a verdadeira ciência se baseia em uma projeção que se poderia denominar, segundo sugere Rouanet, crítica, que também constitui, a seu modo, o mundo exterior, mas sem duplicá-lo, em um processo constitutivo que torna-se, de fato, um desvendamento, porque o que o sujeito passaria a inscrever no real derivaria das estruturas latentes desse real, e não de uma pura e simples fantasia subjetiva. Sem dúvida, de acordo com o que expõem os autores da Dialética, qualquer ciência, mesmo a verdadeira, está sujeita à tentação paranóica. Ela está presente sempre que o espírito tenta impor sua ordem às coisas, transformando-as em um sistema excessivamente coerente, sujeito às leis do mundo subjetivo.
Como o pensamento patológico, o pensamento objetivador contém a arbitrariedade do fim subjetivo que é estranho à coisa; ele esquece a coisa e, por isso mesmo, inflige-lhe a violência a que depois é, mais uma vez, submetida na prática. O realismo incondicional da humanidade, que culmina no fascismo, é um caso especial do delírio paranóico, que despovoa a natureza e, ao fim e ao cabo, os próprios povos. É nesse abismo de incerteza, que todo ato objetivador tem que atravessar, que se aninha a paranóia 40.
Ademais, segundo Adorno e Horkheimer, mesmo o juízo que nega, ou o que se afirma como provisório, tem que afirmar seu próprio conteúdo, no momento em que é enunciado, como positivo e não provisório. Somente assim esse juízo pode ser transcendido pelos subsequentes, e nesse movimento, em que um juízo particular é negado por outro, é que consiste o pensamento normal. Em virtude disso, a doença está na incapacidade de ir além do juízo particular, ou seja, aquele que não consegue ver na positividade do juízo um artifício provisório do pensamento lógico, e, assim sendo, absolutiza essa positividade, transferindo-a ao real. Se o mundo paranóico é perfeitamente lógico, é porque ficou petrificado, fixado, no universo auto-suficiente de um julgamento particular não transcendido. Diante disso, pode-se afirmar que a força alucinatória do sistema delirante deriva justamente dessa positividade autárquica, incapaz de ser relativizada por outros julgamentos. Também nisso, conforme comenta Rouanet em seu referido trabalho, “a diferença entre o pensamento objetivador da ciência e o da doença é apenas de grau” 41. Contudo, também é preciso se reconhecer que a ciência tem de se deter em um ponto dado de sua investigação, se quiser ser, de modo prático, fecunda. Nesse contexto, assim “como, hoje em dia, os projetos científicos práticos e fecundos requerem uma capacidade intacta de definição, a capacidade de imobilizar o pensamento num ponto determinado pelas necessidades da sociedade”, enfim, “de delimitar um campo a ser investigado em seus menores detalhes sem que o investigador o transcenda, assim também o paranóico não consegue deixar de transgredir um complexo de interesses determinados por seu destino psicológico” 42. E eis que, pelo fato de ser a civilização da técnica que caracteriza a contemporaneidade, justifica-se o diagnóstico dos autores da Dialética da Esclarecimento: “A paranóia é a sombra do conhecimento” 43. Cabe ainda, antes de se finalizar este estudo, uma observação de caráter geral que impulsiona a presente discussão para um outro plano (inclusive tendo sido essa observação a própria razão de ser do trabalho de elaboração da temática a ser abordada pelo próximo subprojeto, no decorrer do segundo período do todo desta pesquisa): nas próprias palavras de Adorno e Horkheimer, a qual versa sobre o fato de que “a tendência à falsa projeção é tão fatalmente inerente ao espírito que ela, esquema isolado da autoconservação, ameaça dominar tudo o que vai além dela: a cultura” 44. Prosseguindo-se nessa mesma linha de raciocínio, é atribuído pelos autores frankfurtianos á falsa projeção o poder solapar todo e qualquer legítimo reino da liberdade e da cultura. E mais: é isso que caracteriza a relação entre a concepção freudiana de paranóia e a noção, aí introduzida a esta altura da investigação de Adorno e Horkheimer na Dialética, de semicultura (Halbbildung), pois,
(...) a paranóia é o sintoma do semicultivado. Para ele, todas as palavras convertem-se num sistema alucinatório, na tentativa de tomar posse pelo espírito de tudo aquilo que sua experiência não alcança, de dar arbitrariamente um sentido ao mundo que torna o homem sem sentido, mas ao mesmo tempo se transformam também na tentativa de difamar o espírito e a experiência de que está excluído e de imputar-lhes a culpa que, na verdade, é da sociedade que o exclui do espírito e da experiência 45.
E é justamente por todos esses fatores que Adorno e Horkheimer afirmam que tanto o esclarecimento quanto o fascismo, cada um a seu modo, constituem o protótipo da semicultura. Em última análise, a mera, e cega, positividade do julgamento-síntese (qual seja, aquele que não pode ser relativizado por nenhum outro) é o que serve de base para a falsa constatação de que o imediatamente existente esgotaria toda a realidade possível. Como assim é, torna-se possível compreender o porquê da “necessidade de irracionalidade” de toda forma de anti-semitismo, visto que:
Pouco importa como são os judeus realmente; sua imagem, na medida em que é a imagem do que já foi superado, exibe os traços aos quais a dominação totalitária só pode ser hostil: os traços da felicidade sem poder, da remuneração sem trabalho, da pátria sem fronteira, da religião sem mito. Esses traços são condenados pela dominação porque são a aspiração secreta dos dominados. A dominação só pode perdurar na medida em que os próprios dominados transformarem suas aspirações em algo de odioso. Eles fazem isso graças à projeção patológica, pois também o ódio leva à união com o objeto — na destruição 46.
Notas
[1] E-mail: pxbrunorg@hotmail.com
[2] DUARTE, R. Adornos: Nove Ensaios sobre o Filósofo Frankfurtiano. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1997, p. 58.
[3] ROUANET, S.P. Teoria Crítica e Psicanálise. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989, p. 140.
[4] ADORNO, T.W. e HORKHEIMER, M. Dialética do Esclarecimento: Fragmentos Filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985, p. 174.
[5] Ibid., p. 160.
[6] Ibid., p. 174.
[7] Ibid., p. 175.
[8] Ibid., ibid.
[9] FUKS, B. B. Freud e a Judeidade: a Vocação do Exílio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000, p. 81.
[10] Ibid., ibid.
[11] Ibid., p. 82.
[12] Ibid., ibid.
[13] Ibid., pp. 91-92.
[14] ADORNO e HORKHEIMER, ibid., p. 173.
[15] Ibid., p. 176.
[16] ROUANET, ibid., p. 142.
[17] ADORNO e HORKHEIMER, ibid., pp. 176-177.
[18] Ibid., p. 177.
[19] ROUANET, ibid., ibid.
[20] Ibid., pp. 142-143.
[21] ADORNO e HORKHEIMER, ibid., ibid.
[22] Ibid., ibid.
[23] Ibid., ibid.
[24] Ibid., p. 172.
[25] Ibid., pp. 177-178.
[26] Ibid., p. 178.
[27] Ibid., ibid.
[28] Ibid., p. 179.
[29] Ibid., ibid.
[30] Ibid., ibid.
[31] Ibid., ibid.
[32] Ibid., ibid.
[33] Ibid., ibid.
[34] Ibid., ibid.
[35] Ibid., pp. 179-180.
[36] Ibid., p. 180.
[37] ROUANET, ibid., p. 143.
[38] Ibid., 144.
[39] Ibid., ibid.
[40] ADORNO e HORKHEIMER, ibid., ibid.
[41] ROUANET, ibid., 145.
[42] ADORNO e HORKHEIMER, ibid., p. 182.
[43] Ibid., ibid.
[44] Ibid., ibid.
[45] Ibid., ibid.
[46] Ibid., pp. 185-186.
Revistas Outras Palavras, no. 2, endereço: http://orbita.starmedia.com/outraspalavras/sumario2.htm
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