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A razão como instrumento |
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[O texto a seguir é a terceira seção do Capítulo II (O Iluminismo Francês e Diderot) da obra O fingido e o censor: no Ancien Régime, no Iluminismo e Hoje de Luis Costa Lima, Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1988]
Luis Costa Lima
[...]
3. A razão como instrumento
Dos livros já dedicados ao tema do Iluminismo nenhum mais arbitrário e mais fascinante que o Dialektik der Aufklärung de Horkheimer e Adorno. Terminado em 1944, durante o exílio norte-americano dos autores, só publicado em 1947, em Amsterdam, a Dialética é ensombrecida não só pelo pesadelo do nazismo, como pelo contato ao vivo com o pretenso liberalismo de uma sociedade altamente pragmática e massificada. Se os autores eram quase inertes testemunhas do confronto da bestialidade ariana versus a imbecilização do bubble gum, que esperariam ou que saída poderiam ver para o antigo sonho de liberação humana? Que função ainda poderia ter a teoria crítica da escola a que pertenciam? Sem se preocuparem em fazer distinções que lhes pareceriam adjetivas, os autores incluem as direções presentes na atualidade como inimigas do antigo projeto e disparam contra elas a mesma acusação:
O que os descarados fascistas hipocritamente louvam e os dóceis técnicos humanistas põem em prática — a infatigável autodestruição do Iluminismo — requer que a filosofia se descarte mesmo dos últimos vestígios de inocência a propósito dos hábitos e tendências do espírito da época. (Hohkheimer, M. e Adorno, T. W.: 1947, XI)
O espírito da época a que acusam não é visto como degenerescência ou falsificação do Iluminismo; ao contrário, como sua realização. O Iluminismo traria consigo seu próprio aniquilamento. Nós, os contemporâneos, somos suas testemunhas. Impotente ante as tendências presentes na história ocidental, à teoria crítica estaria limitado o papel de denúncia. Ou, se não apenas isso, de reinterpretação do próprio caráter iluminista. Conforme os autores, isso com que nos defrontamos é bem o resultado cabal de um processo iniciado muito antes do próprio Iluminismo, pois constatável na própria figuração do mito homérico. Dai a estranha igualdade que estabelecem na introdução mesma de seu livro: “o mito já é iluminista; e o iluminismo reverte à mitologia” (op. cit., XVI). Por que assim? A pergunta que deverá espontaneamente surgir em qualquer leitor não será respondida de modo pleno. A escura tragicidade sob a qual a Dialética foi concebida não permitiu aos autores o desenrolar argumentativo que, ao menos alguns de seus leitores, mais desejariam. Em vez desta, deparamo-nos com um tom passional que aproxima o mítico da Aufklärung sem maiores mediações, que toma o positivismo comteano e o neopositivismo contemporâneo como seus sucessores e herdeiros e o império dos media, onde Bach e Beethoven serão interrompidos e deformados pela publicidade de qualquer “bem”, como sua natural conseqüência. As passagens, as possíveis mudanças de sentido desaparecem ante a macabra via imperial desdobrada desde a Grécia homérica. E o livro, que tanto denuncia a razão abstrata, paradoxalmente termina por apresentar uma visão única e abstrata da história. Mas as falhas evidentes, que tornam a Dialética algo de semelhante ao que, no fim da l.a Grande Guerra, fora A Decadéncia do Ocidente, de Spengler, não nos devem impedir de reconhecer o que nele há de agudamente premonitório. Vejamos como podemos sintetizar seu desenho. De acordo com a tese principal proposta pelos autores, mito e Iluminismo são termos conversíveis. Que sustenta a idéia de que o mito já anuncia o Iluminismo? Se bem os compreendemos, os autores se apóiam no seguinte raciocínio: o impulso primordial para o mito resulta do terror pânico da morte. Este terror agarra e dilacera o homem, que então procura descobrir um sentido para o mundo e para a sua existência. O conhecimento, oferecido pela ordenação da narrativa mítica, oferece-lhe essa porta. Esse conhecimnto se especifica pelas idéias de destino e de ciclo. O suceder das estações do ano ascende à condição de alegoria orientadora. A vida contém o crepúsculo dourado do outono e a paz gelada do inverno. Mas esta prepara a terra para o novo nascimento. O ritual do eterno retorno concede ao indivíduo um sentido mais do que particular: um sentido gregário. Com os outros membros da tribo, ele participa de um movimento que a todos empresta significação. Esta, pois, seria a mancha iluminista contida no mito; mancha liberadora do caos agônico. Contudo o mito ainda conteria um segundo e distinto traço: a fatalidade do poder. “Apenas aquele que sempre se submete, sobrevive face aos deuses. (...) A semelhança do homem com Deus consiste na sabedoria sobre a existência, no apoio do mestre e senhor e no comando. (...) Os homens pagam o aumento de seu poder com a alienação daquilo sobre que exercem seu poder” (Op. cit., 9). O mito é simultaneamente liberador e ocultador. Os autores concretizam sua tese pela análise do episódio das sereias, na Odisséia. Para vencer a sedução de seu canto, Ulisses impõe, que os tripulantes ponham cera nos ouvidos, ao passo que ele, o mestre e senhor, é preso ao mastro. Ele escuta a doce sedução das origens, mas é manietado por sua própria vontade, ao passo que seus súditos, presos à labuta cotidiana, sequer a escutam. O mito é liberador e escravizador porque, em suma, recalca, abstrai e universaliza; porque toma como destino o que é conseqüente a um projeto humanamente concebido. O mito se serve do conhecimento para recalcar o conhecimento do particularizado. A medida que este último é esmagado pelo estabelecimento de leis gerais, a vertente mítica do pensamento apresenta, defende e propugna a manutenção do status quo:
O que é abandonado é toda a pretensão e emprego do conhecimento: compreender o dado como tal; não apenas determinar as relações espácio-temporais abstratas dos fatos, que lhes concede Serem controlados, mas, ao invés, compreendê-los como as superfícies, os momentos conceptuais mediados que se completam apenas no desenvolvimento de seu significado social, histórico e humano. (...) Pois em suas figuras a mitologa tinha a essência do status quo: ciclo, destino e domínio do mundo refletido como a verdade e despojado de esperança. (op. Cit., 26-7)
Já ao tentarmos descrever o momento de ida do mito para o momento iluminista implicitamente tocamos no trajeto inverso. Essa regressão não seria menos inevitável pelo caráter ocultador latente no próprio impulso desmitologizante:
O principio da imanêncla, a explicação de cada evento como repetição, que o Iluminismo defende contra a imaginação mítica, é o principio do próprio mito. (op. cit., 12)
Antes, os fetiches eram sujeitos às leis da equivalência. Agora. a própria equivalência se tornou em fetiche. (idem, 17)
Desse modo, por enfatizar a unidade da natureza, a determinação total dos fenômenos humanos, por abstrair-se do particular em prol de pretensas leis universais e, sobretudo, por justificar as ações humanas fundamentalmente enquanto úteis e voltadas para a preservação da existência e o bem estar individual, o pensamento iluminista repetiria o traço negro do pensamento mítico: “O terror mítico temido pelo Ilummismo concorda com o mito. O Iluminismo o reconhece não só nos conceitos e nas palavras não clarificadas, como se demonstra pela crítica semântica da linguagem, mas em qualquer afirmação humana que não tenha lugar no contexto final da autopreservação” (ibidem, 29). Por mais fortes que sejam as objeções que se possam fazer às generalizações dos autores[1], o Dialektik der Aufklärung nomeia um ponto que não pode ser descurado. O Iluminismo, de fato, pensava a razão como instrumentalidade, como forma de domínio da natureza, o que, em última análise, tornava o conhecimento descartável, desde que não fosse útil.[2] Nesse sentido, a arte didática que propunham não era apenas uma arte domesticada, mas ainda que privava da estreita margem de manobra confiada a toda atividade intelectual: aceitável e promovida enquanto auxiliar da proposta de domínio. Não estranha pois o elogio iluminista da ciência, como tampouco desmente a tese de Horkheimer-Adorno o favor crescente que hoje goza mesmo a ciência pura. Esta é fomentada na esperança de que seus resultados possam se converter, dentro de certo tempo, em parafernálias mais eficazes de exercício do poder e de multiplicação do capital. Contudo a paradoxal uniformidade postulada pelos autores não consegue perceber uma tensão existente dentro do próprio Iluminismo. (...)
Notas
1 – Dentro da própria Escola de Frankfurt, destaque-se a análise de J. Habermas (“The Entwinement of myth and enlightnment: reading Dialectic of enlightenment”, in New german critique, 26).
2 – Seria extremamente oportuno aproximar as reflexões de Horkheimer e Adorno da que, mais recentemente, apresenta R. Sennett sobre a sociedade norte-americana de agora (cf. Sennet, R “What Tocqueville feared”, in Partisan review, 1979, XLVI, 3).
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