TEXTOS

Escola de Frankfurt

Adorno Marxista

 

Rodrigo Duarte

 

Mesmo numa abordagem preliminar da obra de Karl Marx, destacam-se nitidamente dois aspectos intimamente entre si relacionados. Em primeiro lugar o lado político concernente à tomada do poder pelo proletariado e ao estabelecimento de um Estado comunista e, em segundo, aquilo que, na verdade, seria pressuposto para o primeiro tópico: a crítica penetrante da infra-estrutura da sociedade capitalista. O primeiro ponto se encontra presente em textos de juventude, como os Manuscritos Econômico-Filosóficos, onde, à mera universalização da propriedade privada característica de um comunismo grosseiro(1) — Marx contrapõe a instituição de um comunismo autêntico, para o qual é condição necessária e suficiente “a superação positiva da propriedade privada como auto-alienação humana e, portanto, enquanto apropriação efetiva da essência humana por e para o homem”(2). Num contexto bem diferente, como o do Manifesto do Partido Comunista, idéia semelhante é defendida por Marx e Engels:

 

A revolução comunista é a mais radical ruptura com as relações tradicionais de propriedade (...) O proletariado usará seu domínio político para subtrair da burguesia cada vez mais capital, centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado, e., do proletariado organizado como classe dominante, e para aumentar a massa das forças produtivas tão rápido quanto possível (3).

 

 

Entretanto, salta aos olhos o fato de o Marx “definitivo”, o de O Capital, ter se concentrado principalmente naquela análise crítica da sociedade burguesa, que se caracterizou como o segundo aspecto destacado de sua obra. De fato, constata-se que o próprio termorevolução socialista” aparece pouquíssimas vezes em O Capital, todas en passant (4). quanto à crítica da sociedade capitalista liberal, a riqueza da malha conceitual da obra madura de Marx dispensa maiores comentários. Nela, todos os termos fundamentais, tais como trabalho, mais­valia, produção, reprodução etc., são conceitos críticos, em virtude dos quais vem à tona o antagonismo infra-estrutural de classe, do qual todos os demais, na sociedade burguesa, decorrem. Nesse sentido, não seria errado dizer que aquele primeiro aspecto da obra de Marx, relativo à tomada do poder pelo proletariado, é muito menos funda­mental portanto mais secundário — do que a profundidade crítica do seu período maduro.

É essa profundidade crítica que Adorno procura conservar na análise da sociedade capitalista tardia, sem, por um lado, abrir mão da noção fundamental de antagonismo de classe, mas interpretando-o, por outro, à luz dos elementos característicos da estrutura social contemporânea. Abstraindo-se de inúmeras passagens, espalhadas por toda a sua obra, em que Adorno reafirma sua convicção sobre a persistência de antagonismos de classe na sociedade tardo-capitalista, destacam-se dois textos particularmente significativos: “Reflexões sobre a Teoria de Classes” (1942) e “Notas sobre o Conflito Social Hoje” (1968). Em função do objetivo primordial deste trabalho demonstrar a influência viva do núcleo do pensamento marxiano sobre Adorno serão ressaltados tópicos fundamentais de um e de outro texto indistintamente, complementando, quando necessário, com referências a outras obras do filósofo frankfurtíano. O caminho trilhado por Adorno delineia-se entre a sociologia americana bem como a européia por ela influenciada, nas quais expressãoconflito social desvia a atenção de seu horror mortal, como de sua base objetiva nos antagonismos econômicos” (5) e a ortodoxia marxista, para a qual “a negação mentirosa das classes motivou os porta­dores responsáveis da teoria a protegerem o próprio conceito de classe enquanto doutrina, sem impulsioná-lo para diante” (6). Trata-se, como diz o próprio Adorno, de “conhecer o novo”, o quenão significa se adaptar a ele e à mobilidade, mas combater a estaticidade” (7).

O “novo” mencionado por Adorno é a situação histórica, segundo a qual a imensa pressão exercida sobre as grandes massas sob o signo do capitalismo tardio, ao invés de atuar como unificaçãonegativa  do ser reprimido, que no século XVIII as tornou em classe” (8), atua hoje muito mais no sentido de esfacelamento e de dispersão. O fenômeno em questão diz respeito ao fato de a luta de classes nos moldes antigos ter se tornado, de acordo com a  expressão tomada emprestada de Brecht “virtualmente invisível” (9). Adorno se propõe a mostrar que essa invisibilidade se liga a questões estruturais, dentre as quais se acha a atuação do neo-sindicalismo, no sentido de integração ideológica dos trabalhadores ao sistema, além de outros tópicos que serão discutidos adiante.

O conceito de classe deve, portanto, ser fixado, pois seu funda­mento, a partição da sociedade em exploradores e explorados, não persiste como aumenta e, simultaneamente, modificado, que os reprimidos — hoje, segundo a previsão da teoria, a imensa maioria não conseguem se experienciar a si mesmos como classe (10). Tal consideração do conceito de classe remonta à sua pré-história enquanto ainda atributo do “terceiro estado”, pois ele foi formado segundo o modelo da burguesia: “esta é, enquanto unidade anônima dos proprietários de meios de produção e seus apêndices, a classe por excelência” (11). Ainda assim, a idéia concebida por Marx e alguns de seus seguidores, segundo a qual “a consciência de classe não está mecanicamente relacionada com a existência de classes”, tendo que ser instituída (12) se aplica também à burguesia, manifestando-se naquilo que Adorno chamou de “duplo caráter da classe”, que “consiste no fato de a sua igualdade formal ter a função tanto da submissão das outras classes, quanto da própria classe pelos seus membros mais fortes” (13).

Numa forma liberal de capitalismo, a inverdade do conceito de classe, relacionada com a sua não-unidade primordial, é apenas latente. Sob o monopólio ela se toma tão visível quanto sua verdade, função da unificação pelo interesse particular burguês, invisível (14). Tal invisibilidade é, na verdade, bastante bizarra, pois, verificados os prognósticos da teoria no sentido do aumento crescente da massa de expropriados, a essência da sociedade de classes não se tornou aviltante aos olhos gerais, mas, pelo contrário, ela foi enfeitiçada pelos processos de massificação.

Convém ainda lembrar a constatação/previsão tantas vezes surgida em O Capital (15), a respeito da crescente pauperização da classe trabalhadora como conseqüência das leis imanentes do processo de acumulação do capital, sintetizada no trecho do Manuscrito transcrito abaixo:

 

O moderno trabalhador, ao contrário, em vez de se erguer com o progresso da indústria, mergulha cada vez mais fundo sob as condições de sua própria classe. O trabalhador torna-se pobre, e o pauperismo se desenvolve ainda mais rápido que a população e a riqueza (16).

 

Adorno procura no aludido duplo caráter da classe, e — principalmente nos seus desdobramentos, as razões para o fato de essa pauperização crescente não ocasionar nem mesmo mediatamente uma subversão da ordem capitalista. Uma vez que a teoria da pauperização se circunscreve nos limites da economia, dependendo da lei de acumulação absoluta do capital (sob o efeito da superpopulação, de um exército industrial de reserva etc,), ela depende também desse duplo caráter da classe, no qual atua a diferença entre uma repressão mediata e outra, imediata. A existência de uma parcela da classe capitalista tornadaclasse para si”, que predomina sobre o restante, menosconsciente”, ocasiona o aparecimento de estratégias no sentido da manu­tenção do sistema, mesmo a um custo relativamente alto. Segundo Adorno, “a classe dominante não é apenas dominada pelo sistema, ela domina através do sistema, e domina, finalmente, ele próprio” (17). Uma pista para se entender por que a pauperização não se efetivou inteira­mente no capitalismo tardio encontra-se no fato de ela implicar imediatamente em categorias de mercado, nas quais a concorrência dos trabalhadores determina uma queda no preço da força de trabalho, numa situação em que tal concorrência, “com tudo que ela significa, se tornou tão questionável quanto aquela entre os capitalistas” (18). Em outras palavras, a estratégia da classe dominante sob a égide do capitalismo monopolista é facultar ao trabalhador a possibilidade de ser amparado pelo sistema econômico, de modo que à pauperização é retirada sua potencialidade explosiva, e a integração da classe trabalhadora ocorre sob os auspícios de um sindicalismo revisado, como se mencionou. Em outras palavras, parodiando o Manifesto do Partido Comunista (19), Adorno lembra que, numa situação assim, “os proletários têm mais a perder do que os seus grilhões” (20). Uma conseqüência dessa “dominação do sistema pela burguesia tardia é a sua consolidação enquanto tal, concomitante, aliás, com uma regressão cultural, na qual a dependência e o horror míticos generalizados não mais se distinguem da liberdade e consciência de uma parcela ínfima da humanidade: “A tendência objetiva do sistema é sempre duplicada, carimbada, legitimada pela vontade consciente daqueles que sobre ele dispõem.” (21). É interessante observar corno essa colocação se aproxima de uma passagem da Dialética do Esclarecimento, obra em que exatamente a interpenetração entre progresso e regressão é exaustivamente examinada. Nela consta: “A decisão consciente dos diretores gerais enquanto resultante, que em coerção nada fica a dever para os mais cegos mecanismos de preços, realiza, antes, a velha lei do valor e, com ela, o destino do capitalismo.” (22). Nesse contexto de frenagem localizada do processo de pauperização, o antagonismo objetivo não desapareceu, tendo sido neutralizada apenas sua manifestação na forma da luta de classes propriamente dita, o que não impede que, em situações de crise, ela venha à tona como tal (23).

Persistem, em todo caso, “conflitos sociais”, nos quais as novas vítimas da pauperização elementos à margem do processo produtivo, tais como aposentados, minorias raciais etc. — expressam desor­ganizadamente sua revolta para com o sistema, inclusive apoiando projetos políticos salvacionistas e autoritários (24). (Vide a ascensão do nazi-fascismo na Europa nas décadas de 20 e 30 e o seu ressurgimento na Alemanha contemporânea.) Dessa forma, toma-se imprescindível a existência de mecanismos de produção e reprodução de uma impotência tal que mantenha o funcionamento do sistema sem maiores sobressaltos (25). Se fosse possível sintetizar esse complexo processo de produção da impotência em uma palavra, ele seria exatamente­te um termo com selo de autenticidade rnarxiana: fetichismo. Em Marx, ele se expressa de um modo bastante inequívoco, enquanto ocultação, na coisa por excelência, num contexto capitalista, na mercadoria, de um sistema de relações sociais fundado na exploração do trabalho Segundo Marx, no âmbito da religião,

 

aparecem os produtos da mente humana dotados de vida própria, formas independentes estando em relação entre si e com os homens. Da mesma forma se movem, no mundo das mercadorias, os produtos da mão humana. A isso chamo de fetichismo, que adere aos produtos de trabalho, tão logo eles são produzidos como mercadorias (...) (26).

 

Em Adorno, o termo fetichismo, cuja importância é atestada por uma insistente aparição em ambos os textos analisados (27), adquire uma extensão insuspeitada na concepção marxiana anterior, uma vez que o caráter fundamental da mercadoria na sociedade burguesa se hipertrofia a ponto de ser co-detenninante no funcionamento da psique: “Na mais recente economia pulsional, a libido deveria se aplicar menos às pessoas vivas do que aos esquemas fabricados do vivente e aos próprios bens de consumo, às mercadorias” (28). A contrapartida dessa pseudo­humanização de objetos inanimados é o fato de o caráter ideológico típico do mundo das mercadorias tender à absorção dos últimos traços de humanidade nos indivíduos, tornando-os, finalmente, coisas: “Que os consumidores sejam propriamente apêndices da produção, os leva, por sua vez, a se equipararem ao mundo da mercadoria, e, a partir disso, objetificar também suas relações a outros indivíduos” (29).

Mas a contribuição adorniana mais interessante à atualização do conceito de fetichismo diz respeito à sua incursão sui generis naquilo que acaba sendo a mais poderosa arma da burguesia tardia na manu­tenção de sua dominação: a indústria cultural. A ocultação do mediato pela ofuscação do imediato, que, de resto, está presente na concepção marxiana de fetichismo, tem aqui a peculiaridade de a mediação — expressa no valor de troca do bem cultural — se realizar primordialmente pela inextricável imediatidade do aparecer no bem cultural, “pois esse âmbito aparece no mundo da mercadoria exatamente como excluído do poder da troca, como um âmbito de imediatidade com relação aos bens, e essa aparência é aquilo somente a que, por sua vez, os bens culturais devem o seu valor de troca” (30).

Nesse contexto de permanência de um profundo antagonismo de classe que, em vez de impulsionar no sentido de sua superação, ardilosamente manipulado pela classe dominante, tende a perpetuar a explo­ração do homem pelo homem em diversos níveis, fica difícil aderir a um ponto de vista de que a derrocada do capitalismo seja iminente. Sobre­tudo quanto se sabia — como era o caso de Adorno que a contra-parte desse capitalismo, o chamado socialismo real, nada ficava a dever àquele em termos de aprisionamento e espoliação da pessoa humana. E em função disso que Adorno assevera, na Dialética Negativa, que a “filosofia, que um dia pareceu ultrapassada, permanece viva, porque o instante de sua realização foi perdido” (31), dizendo com isso que a tarefa de interpretação do mundo está novamente na ordem do dia, que a sua transformação está adiada sem data para efetivação. Tal posicionamento teórico, aliado à desconfiança expressa por Adorno em relação ao movimento estudantil alemão dos finais da década de sessenta, levou muitos intérpretes a considerarem o filósofo frankfurtiano definitivamente rompido com o Marxismo, o que me parece inteiramente equivocado.

Na impossibilidade de demonstrar cabalmente, num trabalho dessa natureza, a profunda identidade de propósitos da filosofia adorniana para com Marx, recorro a umargumento de autoridade”, citando um trecho de uma entrevista concedida por Herbert Marcuse por ocasião da morte de Adorno:

 

Nesse sentido, ele era um marxista ortodoxo: sem uma base de massa nas classes exploradas, a revolução é impensável. E porque essa base de massa na situação dada exatamente nos países capitalistas desenvolvidos não era visível, ele adiou, por assim dizer, a transformação da teoria em práxis. Ele procurou renovadamente uma mediação que sem trair essa transformação ou dela desistir, pudesse pelo menos preparar a transformação da teoria em prática (32).

 

 

Notas

 

1 – MARX, Die Früschriften. Von 1837 bis zum Manifest der Kommunistischen Partei 1948, p. 233.

 

2 – Ibidem, p. 235

 

3 - Ibidem, p. 547.

 

4 – MARX, Das Kapital, v. I, p. 15-16, v. II, p. 274.

 

5 – ADORNO. Gesammelte Schriften 8. Soziologische Schriften, p. 182.

 

6 - Ibidem, p. 381.

 

7 - Ibidem, p. 375.

 

8 - ADORNO. Gesammelte Schriften 8. Soziologische Schriften, p. 377.

 

9 - Ibidem, p. 183.

 

10 - Ibidem, p. 377.

 

11 - Ibidem, p. 378.

 

12 - Ibidem, p. 184.

 

13 - Ibidem, p. 379.

 

14 – Idem.

 

15 - MARX, Das Kapital, v. I, p. 454-455, 602-603.

 

16 – MARX. Die Früschriften. Von 1837 bis zum Manifest der Kommunistischen Partei 1948, p. 538.

 

17 - ADORNO. Gesammelte Schriften 8. Soziologische Schriften, p. 385.

 

18 – Idem.

 

19 - MARX. Die Früschriften. Von 1837 bis zum Manifest der Kommunistischen Partei 1948, p. 560.

 

20 - ADORNO. Gesammelte Schriften 8. Soziologische Schriften, p. 183-184, 384.

 

21 – Ibidem, p. 387.

 

22 – ADORNO, HORKHEIMER. Dialectik der Aufklãrung, p. 55.

 

23 – Cf. ADORNO. Gesammelte Schriften 8. Soziologische Schriften, p. 184-185.

 

24 – Ibidem, p. 188-189-388.

 

25 - ADORNO. Gesammelte Schriften 8. Soziologische Schriften, p. 390.

 

26 - MARX, Das Kapital, v. I, p. 86-87.

 

27 – Por exemplo, ADORNO. Gesammelte Schriften 8. Soziologische Schriften, p. 191, 380.

 

28 – Ibidem, p. 191.

 

29 – Idem.

 

30 – ADORNO. Dissonanzen, Musik der Verwalteten Welt, p. 19. Cf. ADORNO, HORKHEIMER. Dialectik der Aufklãrung, p. 181.

 

31 – ADORNO. Negative Dialetktik, p. 15.

 

32 – Programa levado ao ar em 31 de agosto de 1989 pela televisão educativa alemã.

 

 

Obtido em

Adornos. Nove ensaios sobre o filósofo frankfurtiano.

Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1997.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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