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TEXTOS Escola de Frankfurt |
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Pronto-Socorro para Adorno: Fragmentos Introdutórios à Dialética Negativa |
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No dia-a-dia comum, os acidentados e doentes é que precisam de pronto socorro. No dia-a-dia da filosofia, no entanto, pode ocorrer o oposto. Pensamento crítico, sagaz, vivo, que acerta o ponto nevrálgico de sua época, costuma ser um pensamento que irrita, perturba, é perigoso, e, por isso, coloca-se em perigo. Subentende-se, que o mero fato de ter inimigos não qualifica um pensamento como genial. Há, ainda, inimigos da insensatez. Vale também o contrário. Quanto mais acerta, tanto mais um pensamento se torna objeto da má vontade de todos que se escandalizam com ele. Em termos filosóficos, então, realiza-se aquela previsão de Nietzsche, que se refuta em termos sociais: os fortes estão perecendo, enquanto os fracos se impõem. Sendo assim, o pensamento de Adorno precisa de socorro, justamente por ser um dos mais vivos e atuais.
Um pronto-socorro limita-se a medidas iniciais e elementares. Em termos filosóficos: trata-se de dar um primeiro acesso para iniciantes, servindo-se da linguagem mais simples possível. Ainda assim, cabe lembrar que pronto socorro não é mumificação. Não se explica Adorno ao expressá-lo em termos adornianos. Ou seja, o mero reiterar e parafrasear do original não adianta. Explicação é vivificação, exigindo, portanto, perspectivas e exemplos divergentes do assunto a ser explicado. O objetivo do que se segue é, então, contribuir com alguns fragmentos, surgidos ao longo de um curso ministrado no Departamento de Filosofia da UNICAMP, para uma explicação introdutória, mas não tautológica da obra mestre filosófica de Adorno: a Dialética Negativa. Trata-se de partes de um puzzle, que, quando muito, deixarão vislumbrar uma totalidade, à qual elas não se integram. Talvez, no entanto, consigam instigar à leitura de um texto, cuja tradução portuguesa continua um desiderato.
O
Instante Perdido da Filosofia
Nos departamentos alemães de filosofia há vários colegas, que dizem
clandestina ou abertamente: “No fundo, Adorno não era filósofo”. De certa
maneira, eles têm razão. Para apoiá-los, basta abrir a Dialética Negativa e ler
a primeira frase: “A filosofia que outrora parecia obsoleta, se mantém viva,
pois o momento de sua realização foi perdido.” A filosofia permanece, mas a
permanência dela se deve a uma perda. Mais ainda: A filosofia está conivente com
esta perda. Por quê? Ora, é uma longa história que vamos tratar de modo breve. A razão, aquela entidade específica, que distingue os homens de qualquer outra criatura, é algo de bem particular: Não somente uma disposição, que se encontra, em maior ou menor grau, em todas almas humanas ou uma realidade intrínseca que se expressa exteriormente na fala e no comportamento de cada um: ela contém, além disso, uma promessa. Promessa de que tipo? Ora, ao propor os fins do trabalho humano, ao prestar as categorias do entendimento mútuo, ao formar as estruturas da sociedade, a razão humana se manifesta como força própria capaz de formar, por suas próprias leis, tanto os homens quanto o ambiente humano. Ao mesmo tempo, porém, ela se mostra inesgotável em suas manifestações. Ela poderia conseguir mais do que consegue, promete, então, mais do que realiza, abrindo, desta maneira, a perspectiva de uma vida plenamente dirigida por forças racionais, que se sugere melhor e mais adequada às necessidades humanas do que a existente. A percepção de que as manifestações reais da razão se expressam num papel secundário, fragmentado e confuso inclui a percepção da promessa de sua melhoria. Os primeiros filósofos, o que eram senão os descobridores da autonomia da razão, os elaboradores de suas leis específicas? Na concepção deles a razão humana se encontrava num estado lamentável, pois ignorava suas próprias leis, seu próprio potencial humanizador, suas imensas possibilidades de contribuir para uma vida digna e feliz. Chega desta ignorância; vamos transformar a razão num estado esclarecido, autoconsciente, capaz de desdobrar-se livremente. A princípio, a filosofia é o trabalho desta transformação, que resulta do fato de que a razão humana é contraditória. Ao manifestar-se, ela aponta para além de si mesma. Ao expressar-se, ela mostra se inadequada a suas próprias leis, a suas próprias necessidades. Nos termos de Marx: »A razão sempre existiu, mas não de forma racional.« O trabalho filosófico, então, é levá-la à desejada forma racional, que ela mesma sugere e promete, forma esta, na qual a razão deixa de contradizer a si mesma. Em outras palavras: a razão contém tanto a promessa quanto a exigência de sua forma adequada. A filosofia nasceu a serviço desta exigência, assumindo o papel de advogado da promessa da razão.
Adorno, por sua vez, não discorda de Marx quanto à tarefa e ao destino
da filosofia, somente quanto à avaliação do tribunal. O instante da realização
da filosofia está perdido, i. é, o advogado perdeu o processo. A causa por ele
representada não foi aprovada pelo tribunal da história. O proletariado não se
evidenciou como juiz da sociedade capitalista, mas, ao invés, esta sociedade é
que se evidenciou como juiz do proletariado. O advogado, respondendo pela causa
por ele defendida, encontra-se condenado em sua própria pessoa. As duas guerras
mundiais, o fascismo, os campos de concentração incluem um juízo fatal sobre a
própria filosofia. Ela mesma falhou, não pode lavar as mãos com inocência frente
a tais acontecimentos. Ela é conivente. E qual é o castigo a ela imposto? É a
obrigação de continuar, continuar enquanto advogado da promessa da razão, porém,
na plena consciência de empenhar-se por uma causa perdida.
Tudo isso soa, como se Adorno fosse um flagelante intelectual,
andando descalço com cinza sobre a cabeça. Não era assim. Pelo contrário. Quem
conhece as observações de Nietzsche sobre os ideais ascéticos sabe bem que a
ascese, embora oposto a devassidão, não carece de seus próprios prazeres,
prazeres finos, sublimes, secretos. Sendo assim, a filosofia penitente tem suas
próprias recompensas. Não é à toa que Adorno foi chamado de pensador opulento,
não apenas por causa da riqueza de seus pensamentos e das questões por ele
tratados, como também por causa de seu estilo de pensar. Trata-se de um estilo
ensaístico, que nem se encaixa no procedimento científico, nem no procedimento
artístico, embora nutrido por ambos. O ensaio é uma forma literária
fragmentária, que não se preocupa com totalidades e não tolera prescrições sobre
disciplina, tanto no sentido subjetivo de comportamento como no sentido objetivo
de matéria ou de assunto. O ensaio rejeita ser fixado a um certo campo
(filosofia, sociologia, literatura, arte, música), dispensa-se do aparato
científico de anotações, de enumeração da literatura secundária, de
fundamentação completa de todas observações alegadas etc. Ele trabalha um
pensamento de maneira que é conduzido, ou seja, seduzido pelo próprio impulso
deste pensamento. Pensamentos têm sua própria dinâmica, seu próprio ambiente,
que estimula certas curiosidades, certas associações, certos pulos. Ceder-lhes é
um comportamento nem meramente científico nem arbitrário, e, sim, um
comportamento dançante, que faz lembrar as observações de Nietzsche sobre pensar
e dançar. O elemento deste dançar pensante é, conforme Nietzsche, o aforismo que
não é senão uma subcategoria do ensaio. Todos os aforismos procedem de modo
ensaístico, mas nem todos os ensaios são aforismos. No entanto, o que o aforismo
e o ensaio têm em comum, é aquela maneira dançante, que dá um toque artístico ao
pensamento sem dilui-lo em arte. O referido toque artístico, entretanto, não
invade o pensamento como algo de alheio, mas dá ressonância à própria vivacidade
dele. Com efeito, dar espaço às associações e aos pulos, que um pensamento
concreto inspira, é mantê-lo vivo em vez de aprisioná-lo. O sistema é a prisão
do espírito. Para aprender a andar, precisa-se de instrumentos de apoio como
muletas, coletes etc., mas para movimentar-se livremente, certamente não. Sendo
assim, o pensamento ensaístico é contra qualquer sistema, não, porém, contra
qualquer procedimento sistemático. Pelo contrário. Não é à toa que Adorno se
refere, na Dialética Negativa, à distinção famosa de d'Alembert entre “esprit de
système” e “esprit systematique”. A alusão a esta distinção contém um dos pontos
cruciais de sua conduta teórica. O verdadeiro procedimento sistemático persegue
a própria dinámica da causa em questão. Por isso, ele não chega a um sistema
encerrado em si, enquanto qualquer sistema é forçado, num certo ponto, a
desistir desta dedicação sistemática à causa para ter condições de aprisiona-la
nas suas gavetas conceituais. O sistema tem que interromper o curso sistemático
para encaixar a causa, enquanto a causa, perseguida conforme suas próprias
necessidades, nunca se encaixa no sistema. Tal paradoxo é que domina a Dialética
Negativa inteira. No gesto ensaístico, então, de Adorno, pegamos o nó, no qual
se atam e penetram o lado ascético e o lado sensual de seu pensamento, ou seja,
seu lado marxista e seu lado nietzscheano. Recomenda-se ilustrar este aspecto
com alguns dados biográficos.
Adorno nasceu em 1903 em Frankfurt, onde
cresceu no ambiente judeu-alemão, que trouxe estímulos decisivos à cultura
européia. O pai, um rico comerciante, e a mãe, uma cantora erudita, deram ao
único filho todas as possibilidades de desenvolver seus talentos teóricos e
artísticos. Doutorou-se, com 21 anos, em Frankfurt, em filosofia com o kantiano
Hans Cornelius, e depois tornou-se pianista, compositor e musicista, tendo
estudado em Viena com Alban Berg e Eduard Steuermann. Adorno, como Thomas Mann
observaria mais tarde, rejeitava a opção entre artísta e teórico, como a coleção
de suas obras bem confirma[4]. Numa
avaliação quantitativa das publicações, Adorno é muito mais músico do que
filósofo. Entrou, aliás, no Instituto de Pesquisa Social dirigido por Horkheimer,
não enquanto especialista de filosofia, e, sim, de música. Claro que nenhum de
seus colegas no Instituto deixou de exceder os limites de suas disciplinas
tradicionais, pois, em geral naquela época, a formação nas camadas privilegiadas
tinha um fundo muito mais amplo do que hoje. Faltaram, sobretudo, os atuais
meios de distração. Adorno, no entanto, representou o caso extremo entre seus
colegas, não apenas por viva inteligência, mas também por ligar os campos
culturais distantes. Não era apenas amante da música como somos diletantes em
literatura, arte e música: era músico mesmo, compositor. A música, entretanto, é
um campo muito mais distante do pensamento conceitual do que a literatura,
talvez até das próprias artes plásticas. O ouvido parece um pouco mais distante
do intelecto do que o olho; está mais exposto a influências exteriores, com
menos condições de defender-se contra elas. Precisa de um tipo de inteligência e
de fantasia bem peculiar. São raros os músicos filósofos. Não é à toa que
Adorno, enquanto insider tanto da música como da filosofia contemporâneas,
também fez o papel do outsider em ambas disciplinas. Esta experiência
simultaneamente interna e externa, esta troca da perspectiva, que o fez
considerar a filosofia com os olhos do artísta, e a arte, sobretudo a música,
com os olhos do filósofo, é a experiência chave do jovem Adorno, que o
habilitou, mais tarde, a considerar a cultura inteira com os olhos do sociólogo
e a sociedade com olhos filosóficos. Tal troca de perspectiva, que não carece de
um aspecto artístico, bailarino, respira todos os privilégios da formação
burguesa desta época, mas se mostra plenamente disposta para captar criticamente
a conjuntura social na época do fascismo nascente. Para saber dançar, pensar
etc, todo mundo tem que primeiro aprender . Tem que se submeter às regras
indispensáveis para entrar no assunto. Assim, também Adorno estudou filosofia.
Para poder lidar de modo artístico e ensaístico com a filosofia teve que
estuda-la. Muito antes de compreender a importância do termo marxiano da
realização da filosofia, i. é, o peso e alcance deste termo, Adorno, por suas
pretensões artísticas, já vivia a insuficiência do pensamento
conceitual-filosófico. Sua reserva em relação à filosofia tem um lado moral e
outro estético, um lado penitente e outro sensual, que se reúnem num grande nó
chamado Dialética Negativa. Vamos tentar, a seguir, desatar alguns de seus
pontos.
Dialética Negativa
Dialética negativa ou positiva não é questão de
livre escolha. No fundo, Adorno pretende evidenciar a dialética negativa como
tautológica. A dialética é sempre negativa. Ao tornar-se positiva, ela deixa de
ser dialética.
Como provar isso? Definições não adiantam. Identidade da identidade e da não-identidade (Hegel) ― não explica nada. Recomenda-se lembrar a gênese da palavra “dialegesthai”: dialogar, discutir, debater. As coisas têm que ser discutidas para serem esclarecidas, pois não se subentendem, não são óbvias. O intelecto humano não pode expressa-las de maneira a torná-las unívocas, fixas e identificadas de uma vez para sempre. Ele não se liberta da perspectivas que as coisas lhe impõem, só pode expressá-las da maneira como elas lhe aparecem. Ao mudar a perspectiva, a aparência muda também, e os conceitos não chegam à plena congruência com a realidade que pretendem expressar. Eis a fraqueza original do intelecto, ou seja o lado epistemológico do pecado original. Em outras palavras: a princípio, o intelecto está condenado ao equívoco. É seu elemento. Não tem condições de abandoná-lo até ao juízo final. É esse seu movimento. Eis a ocupação da dialética. Ela não é senão a auto-reflexão do equívoco. O equívoco, por sua vez, tem vários significados. Há equívocos meramente subjetivos, que resultam da falta de precisão conceitual. É fácil corrigi-los. Há, no entanto, também equívocos que não se eliminam nem com o máximo de argúcia: equívocos objetivos, que se devem à incongruência principal entre intelecto e causas. A dialética consiste em desdobrá-los de modo racional evitando cair em suas armadilhas. Os pioneiros idealistas da dialética, no entanto, sobrecarregavam-se pretendendo diluir os equívocos por meios conceituais. O genial em Hegel, mestre deles, foi mostrar a insuficiência do conceito, o que o transforma num método auto-suficiente, ou seja, toma-se uma carência humana como motor do processo inteiro. Sempre que isto ocorre, a dialética pára em vez de aperfeiçoar-se. Dialética negativa não é senão lembrar e enfrentar a insuficiência do conceito.
Procedimento musical
A Dialética Negativa é um tema com inumeras variações. Só que, sendo
música intelectual do século XX, ela não expõe seu tema antes de entrar no cíclo
das variações. O tema não existe sem as variações. São elas que revelam, por
suas voltas e viradas grandiosas, cada vez mais o tema. O tema não se manifesta
senão nas variações; quanto mais variações, tanto mais nítido ele se torna. Mas
a sequência das variações não obedece a uma lógica estrita; não está conduzida
pelos conceitos de fundamento e de consequência, pois o próprio tema questiona a
validade incondicional dos termos. Assim, as variações não resultam uma da outra
com necessidade lógica, , não formam elos de uma cadeia lógica, que ou chega a
um fim ou volta ao início. Formam, antes, o que Adorno, em outro contexto,
chamou de »constelação«. A passagem de uma a outra nunca é coercitiva, não
carece de momentos saltitantes, tampouco é meramente arbitrária. Enquanto a
sequência das variações poderia ter sido, até um certo grau, diferente, o
conteúdo de cada uma está firmemente conjugado ao conteúdo das outras. Cada uma
aponta para as outras, fazendo com que o conjunto de todas forme uma estrutura
de explicação mútua. Só quando uma for capaz de explicar as outras será capaz de
explicar o tema. A explicação mútua das variações e a do tema são a mesma
coisa. Nenhuma deve exceder as outras. No caso ideal, todas se encontrariam na
mesma proximidade do centro. Só que o centro ou seja o tema não se abre senão
mediante as variações que apontam para ele. Não há acesso imediato.
Sendo assim, o método da Dialética Negativa obedece ao próprio
conteúdo desta. O procedimento lúdico-saltitante evidencia-se como altamente
consequente: imanente ao conteúdo. As assim chamadas variações praticam, em
escala macrológica, o que cada uma pretende realizar micrologicamente:
aproximar-se do objeto considerado, que excede sua identificação. Adorno, com
efeito, depara-se, em qualquer conceito simples, com uma ambigüidade abismal. A
função óbvia de cada um é identificar, classificar alguma coisa: apreendê-la em
categorias lógicas. Ao mesmo tempo, cada um quer expressar conceitualmente algo
de não-conceitual, apontando, destarte, para além de si mesmo. Qualquer
conceito, então, não apenas pratica a predicação de algo, mas também a dedicação
a algo. Devido a esta, que cada um deles »sente« sua própria insuficiência em
relação ao objeto, inserindo-se, portanto, no contexto de outros conceitos, que
cerca a coisa em questão ao explicarem-se mutuamente.
O fluxo concreto da linguagem não é senão este processo de explicação
mútua. Não constrói uma hierarquia entre sujeito, predicado e objeto, mas cria
reciprocidade entre todos os elementos linguísticos, que se integram a juízos,
conclusões, tratados, de forma narrativa ou argumentativa. Só enquanto os
elementos conceituais conseguem explicar-se mutuamente, a coisa em questão, i. é
a coisa cercada por eles, se explica. Sendo assim, a explicação excede o ato da
identificação. Não se trata de explicar alguma coisa colocando-a numa gaveta
conceitual, e, sim, de fazer com que alguma coisa se explique a si mesma.
Explicação assume, destarte, as conotações de abertura, até de revelação da
coisa em questão. Só que tal revelação não acontece imediatamente, mas somente
mediante conceitos, em que cada um se apoia no outro e todos apontam para a
coisa cercada. Assim, em vez de encaixá-la, o objetivo é fazê-la sair da caixa
de identidade, retirá-la do processo usual de identificação.
Este processo de abertura recíproca,
entre os conceito, a constelação e a coisa cercada, é visado pelo termo
adorniano da »afinidade«.Nunca a afinidade chega à identidade; consiste, antes,
em elementos diferentes (irredutíveis), em que um carece do outro e se deve ao
outro. A explicação que eles se prestam é comunicação mútua de socorro e
carência, e a constelação conceitual, que é comunicativa neste sentido, incita,
por assim dizer, o objeto cercado para ele se manifestar em sua carência.
A comunicação que, assim, se põe em causa, excede a mera mensagem
lingüística a favor de uma comunicação entre conceito e coisa tendente à
comunhão. A Dialética Negativa pode ser lida como tentativa de desencadear a
inclinação de todo espiritual e material a tal comunhão, e o próprio texto da
Dialética Negativa tenta participar neste processo por seu procedimento em
variações, das quais cada uma explica as outras e se socorre nas outras, para
que o tema se revele através de todas.
O Algo
A segunda parte da Dialética Negativa,
seu núcleo conceitual, começa expondo uma noção que parece um mero fantasma:
»algo«. Nada é mais vago. A realidade concreta consiste em coisas determinadas.
»Algo« é seu extrato conceitual mais abstrato. Mantém-se, nele, no entanto, a
lembrança do não-conceitual enquanto pressuposição de todos os conceitos, ou
enquanto solo alimentício e alvo de qualquer pensamento. Ou seja, pertence ao
pensamento, inextinguivelmente, o impulso que aponta para além de si mesmo.
Assim, o »algo«, atentamente percebido, evidencia-se enquanto fator elementar
que perturba e impede vingar tanto a autofundamentação do pensamento humano
quanto a fundamentação do mundo pelo pensamento. O »algo« ensina que todas as
tentativas a esse respeito vão ser castigadas por abstração demasiada, ou seja,
o pensamento que pretende tal fundamentação, acaba esvaziado em vez de
confirmado.
Em outras palavras: os conceitos “finais”, que pretendem apoderar-se da plenitude do ente, como o absoluto, o ser, o em si, a quintessência, sofrem o castigo de ser os mais abstratos e ocos, maldição que persegue também conceitos finais “de preço reduzido”, apresentados da seguinte maneira: tudo que os homens expressam, já se encontra nas formas lógicas ou nas linguísticas. Então, vamos limitar nossa ocupação filosófica à reelaboração, isto é, à limpeza ou da lógica ou da linguagem. Tal modéstia não desiste de tomar a lógica ou a linguagem pelo primeiro e último - não do mundo, é verdade, mas, sim, da própria ocupação, ignorando o incurável envolvimento metalógico da lógica, metalingüístico da linguagem, que impede, de saída, a subsistência da lógica e linguagem em si mesmas. Todas as pretensões de sustentar tal subsistência desembocarão em conceitos vazios ou falsos.
Resta a pergunta: De onde tais pretensões? Por que não acabam? Porque a razão
humana tem uma inclinação natural para elas. É por seus próprios meios lógicos,
i. é através de conceitos, juízos e conclusões, que a razão chega aos conceitos
finais. Não há nada de insensato nisso. É o próprio curso da lógica que leva o
pensamento a eles. Só que, ao longo deste curso, o pensamento humano tende a
sucumbir às próprias sugestões que sua atividade acarreta. Pensar não é senão
transformar realidade em conceitos. Mas é justamente este processo de
transformação que tende a iludir o pensamento a respeito de seu próprio alcance,
sugerindo-lhe uma capacidade de se encaixar sem resíduo a realidade em suas
gavetas conceituais, ou seja, sugerindo-lhe a congruência de seus conceitos e da
realidade por eles captada.
Tal sugestão ou até auto-sugestão do pensamento representa o germe de
uma tentação diabólica, que a razão contrai por sua autodinâmica, pela »lei de
seu movimento«, como diz Adorno, aludindo a uma colocação marxiana, tentação que
pode ser chamada de inclinação ideológica da própria razão. Ela se manifesta,
micrologicamente, em qualquer ato simples de identificação, que não se pode
eximir da equivalência do não igual, e, macrologicamente, na recondução, quer
dizer redução do realidade inteira a princípios conceituais, que é, em última
instância, redução do universo ao espírito.
Sendo assim, a razão vive sob a sugestão permanente da onipotência dos
pensamentos, tendo, para se defender deles, apenas suas armas. Ou seja, a razão
humana, sempre tentada a iludir-se com seu próprio alcance, contém, não
obstante, a força de desiludir-se dele. Eis a força metalógica da lógica, a
força auto-reflexiva e autocrítica da razão, à qual Adorno apela, força que
habilita a razão a pensar contra sua própria »lei de movimento« sem desistir de
si mesma. O desencadeamento desta força e o desdobramento livre da razão são a
mesma coisa: o empreendimento da Dialética Negativa.
Contradição
A auto-significação mais famosa da Dialética Negativa é »ontologia do
estado falso«. Tal falsidade, o que é? Num outro lugar, Adorno a chama de »coisa
não reconciliada«. Eis sua fórmula negativa para contradição. O mundo continua
»falso« enquanto envolvido em contradições, e a contradição não é senão falta de
reconciliação. Sendo assim, a contradição entre mundo e pensamento revela-se
assunto bem abismal, que se reflete reciprocamente sem se diluir um no outro, e
mostra aspectos lógicos, sociais, ontológicos, até teológicos.
A rigor, a realidade inteira fica num estado contraditório, conforme a
famosa colocação da Minima Morália: »O todo é o falso.« Coisas inorgânicas não
sentem a contradição, mas fazem parte dela. Seres orgânicos, no entanto,
sentem-na. Qualquer carência e dor representam uma forma elementar de
contradição. »A dor diz: esqueça!« reza a fórmula nietzschiana correspondente,
altamente apreciada por Adorno. Em outras palavras: A dor consiste em
contradizer a sua própria existência, sendo, portanto, contradição por
excelência. Conflito pulsional, sofrimento e luta representam formas básicas da
contradição muito antes de penetrar a forma mais abstrata e sublime, que é a
contradição conceitual.
b. Perceber, ou seja refletir esse envolvimento natural contraditório
do intelecto, no entanto, é querer livrar-se dele, é contradizê-lo: contradição
à ruptura, à qual o pensamento humano se deve. Sendo assim, até a auto-reflexão
crítica do intelecto contém um impulso contraditório, que coincide, no entanto,
com seu impulso reconciliador, o que contradiz a contradição do »estado falso«.
A auto-reflexão, no sentido adorniano, é a irmã privilegiada da dor, expressando
por conceito e linguagem, o que a dor exprime por gritos.
Todos estes significados são matizes da »coisa não-reconciliada«,
matizes a serem atentamente diferenciados, mas não separados. Os aspectos
ontologicos, teológicos, lógicos e sociais se penetram mutuamente. A cada um
deles aderem os rastros dos outros, nem fica decidido, qual aspecto precede aos
outros. Claro que a contradição, na qual todos os seres orgânicos se encontram,
existia milhares de anos antes da consciência humana acordar. Assim, a
consciência é bem posterior à realidade contraditória. Por outro lado, aquela
contradição pré-lógica não se dá a entender senão em termos lógicos. Assim,
sendo a força reveladora de qualquer tipo de contradição, o intelecto, embora
posterior em termos de espaço e tempo, mantém o aspecto do anterior. A
contradição o precede, sim, mas só ele é que lhe dá à luz a expressão
consciente. Um trabalho sobre contradição em termos de Dialética Negativa continua um desiderato.
Lógica do desmoronamento
De saída, a Dialética Negativa é lógica
do desmoronamento: sustenta que nenhum conceito é capaz de pousar em si mesmo,
de se manter homogêneo e unívoco, pois todos já se encontram em conjuntos
não-conceituais, não-lógicos, pelos quais estão castigados com mil equívocos. É
aquele »algo«, o último bastião do não-conceitual, que não os deixa em paz
consigo mesmos. O »algo« é o fator perturbador, que põe em marcha o
desmoronamento da suposta pureza e autarquia dos conceitos, da mente, do
espírito. Ainda assim, a lógica do desmoronamento não é o desmoronamento da
lógica; é, ao contrário, sua auto-reflexão, que significa ampliação da lógica
para além de si mesma: sua Aufhebung, quer dizer, seu fim enquanto disciplina
própria, mas, em compensação, a agudização de sua pretensão.
É difícil dizer se a Dialética Negativa
constrói ou deixa desmoronar os conceitos (outra interpretação: “faz ou deixa
desmoronar conceitos”- nota da revisão). Com certeza, ela não está limitada à
destruição. O que ela destrói, sim, é aquela interpretação do mundo concreto por
meio de pares conceituais como sujeito-objeto, conceito-coisa,
fundamento-conseqüência, causa-efeito, essência-aparência, pares
imprescindíveis, mas prestes a serem endurecidos, por sua »lei de movimento«, em
gavetas, isto é, em categorias unívocas, opostas, independentes, em lutas por
primazia. Qual é a gaveta superior? Tal pergunta que, em termos físicos tem
sentido, não o tem em termos filosóficos. Quem é o primordial: sujeito ou
objeto, conceito ou coisa etc.? Eis as alternativas falsas, que levam,
inevitavelmente, ao impasse antinômico entre monismo e dualismo. Neste impasse,
como diz Kant, quem tem razão, é o agressor. É impossível que sujeito e objeto,
conceito e coisa, causa e efeito sejam igualmente originais; um se deve ao
outro, alega o monismo. Supondo um incondicionado primeiro, ninguém tem
condições de explicar a gênese do segundo, a não ser recorrendo ao mistério da
creatio ex nihilo, responde o dualismo. Ambos refutam-se mutuamente, têm razão
ao se refutarem, não têm ao serem refutados. Tal impasse, no entanto, é o
castigo contraído pelo esquecimento do simples fato do entrelaçamento conceitual
não retratar, 1 a 1, o entrelaçamento das coisas, amnésia que faz endurecer os
conceitos em gavetas classificatórias.
Lógica do desmoronamento, portanto, significa fazer desmoronar o sistema de gavetas, isentar os conceitos da gaveta de sua univocidade mentirosa, recuperando sua vivacidade para fazer transparecer sua interpenetração, ou, falando em termos teológicos, sua communicatio idiomatum. Sujeito e objeto, conceito e coisa, essência e aparência etc.: penetram-se mutuamente, comunicam-se um ao outro, a ponto do sujeito, por sua vez, ter o aspecto do objeto e vice versa, e assim por adiante, e a regra para lidar racionalmente com tais equívocos - equívocos inevitáveis, pois devidos a uma realidade não-unívoca - reza: Não confundir e não separar. Eis a regra negativa e reflexiva, que a Dialética Negativa observa da primeira à última frase.
Síntese
Aos estereótipos mais comuns sobre a Dialética Negativa pertence a
suposição de que ela »não tenha síntese«. Adorno diz a respeito: »Ela está
posta à crítica não enquanto ato mental singular, que reune momentos separados
em sua relação, mas enquanto idéia condutora e suprema.« (DN, 158) Quer dizer, a
síntese é um dos fatos mais comuns e cotidianos. Não há identificação conceitual
senão por síntese de inúmeras miudezas sensoriais a um só conceito. e não há
sociedade senão por síntese de seres humanos e seus trabalhos, funções, poderes,
instituções etc. A síntese é condição da possibilidade tanto de qualquer
conhecimento quanto de qualquer estrutura social.
Por outro lado, nunca deixa de ser um
ato violento. Não há síntese senão subsumindo, abreviando, desfigurando alguma
coisa, e subsunção, em termos sociais, é subjugação, abstração e desrespeito,
enquanto desfiguração é mutilação. A síntese, então, sendo um fato tanto
gnoseológico quanto moral e social, revela-se altamente ambígua: tanto
inevitável quanto inadequada. Ela capta as coisas, mas não lhes faz justiça,
encaixando-as em vez de pronunciar sua índole, detendo-as em vez de abrir-lhes o
sentido. O espartilho da síntese não é a voz da coisa espartilhada nem seu
porta-voz. É seu sucedâneo. O mais espantoso, porém, é o fato de a consciência
humana ter condições de perceber isso. A insuficiência da síntese não fica
impermeável a uma virada mental, que pode ser chamada de o milagre da reflexão,
milagre este, que fez Nietzsche exclamar: »Somos seres de antemão injustos e
incompletos e capazes de conhecer isso. Eis uma das maiores desproporções da
existência.« A desproporção não some por ser conhecida; seu conhecimento, antes,
a perfaz. Ainda assim, a tomada de tal conhecimento é um ato iluminador e, por
assim dizer, milagroso, pois consegue dirigir-se contra a síntese com os meios
dela. Abster-se da síntese funciona tão pouco quanto abster-se da alimentação. O
que funciona, contudo, é expressar, por conceitos identificadores e juízos
sintetizantes, os defeitos da identificação e da síntese. Assim se perfaz um
duplo movimento autocontraditório [hipótese 2: Assim se perfaz uma dupla
Aufhebung] : negação e conservação ao mesmo tempo. Ao serem voltadas contra si
mesmas, identificação e síntese são tanto conservadas quanto negadas.
Identificação e síntese formam a condição da possibilidade de tal virada e, ao
mesmo tempo, seu objeto. Claro, que a própria transformação não escapa do
equívoco, mas lhe dá a luz da autoconsciência: a única possibilidade de
movimentar-se nele de modo racional.
Esta transformação implica a voltar a dialética contra o mestre da
dialética: Hegel. Em seu sistema, síntese significa, em última instância,
apoteose. Qualquer síntese é considerada como algo de superior aos elementos
sintetizados, algo que os eleva a um patamar mais alto, digno e verdadeiro.
Contraindo-os a uma unidade superior, a um novo unívoco, a reflexão dá um pulo.
Este pulo representa o ponto crucial e cego no procedimento hegeliano, velando o
fato de a ascensão dialética ― passo a passo, da certeza sensorial até ao
conhecimento absoluto, a um patamar mais alto ― não ter nenhuma necessidade
lógica. Sempre que o ser e o nada, o algo e seu outro, o fundamento e o fundado
parecem se sintetizar, automaticamente, a um estado mais elevado; nada de
automático acontece e, sim, algo de bem arbitrário: um salto para fora da
derivação e mediação dialética. A mediação suspensa recomeça logo que o novo
patamar é alcançado, mas o próprio pulo para lá carece de qualquer necessidade
lógica. Não passa de uma decisão, de um dogma do autor, tendo necessidade
somente de fazer vingar seu sistema filosófico. Não se trata aqui, todavia, do milagre dentro da reflexão, quer dizer, daquela capacidade espantosa e não-derivável, que habilita a consciência humana à virada contra si mesma, senão, pelo contrário, de um milagre fingido, se bem que por um dos maiores feiticeiros intelectuais. Pela sua virtuosidade, a síntese acaba sacralizada, justificada, enquanto motor divino da dialética, ao passo que Adorno não fez senão adiantar sua desmistificação. Hegel, ao considerar a síntese o ponto de fuga do processo dialético, finge a possibilidade de sair dialeticamente do envolvimento dialético. Tal saída, porém, é fictícia, é feitiçaria, tornando Aufhebung um ato unilateral, unívoco, não-dialético de elevação misteriosa, bem correspondente, aliás, ao ato de elevação dos elementos na eucaristia depois de tanto envolvimento preparatório entre sacerdote, coroinhas e comunidade. Em vez de divinizar a síntese a uma Aufhebung não-dialética, Adorno se ocupa com a Aufhebung dialética da síntese, desvelando-a enquanto fato humano demasiado humano, que pode e deve ser excedido pela virada crítica da consciência humana contra si mesma.
Notas
2 - O autor emprega a palavra alemã “Aufhebung”, difícil
de traduzir em outras línguas, mas que podemos indicar como abrangendo o
seguinte campo semântico: eliminação, negação, elevação etc. Neste parágrafo
vamos entende-la por vezes como ascensão e por vezes como realização. 3 - Novamente o jogo com o termo “Aufhebung”:
acima “ascensão”, aqui “realização”.
4
- Cf. volumes de 12 a 19 e de 21 a 23.
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