TEXTOS
A Guerra Civil em França - Karl Marx

Segundo manifesto do Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores sobre a guerra franco-prussiana

 

A todos os membros da Associação Internacional dos Trabalhadores na Europa e nos Estados Unidos

Dizíamos em nosso primeiro manifesto: "Dobraram Já em Paris os sinos pelo Segundo Império. Acabará como começou: com uma paródia. Mas não esqueçamos que foram as classes dominantes da Europa que permitiram a Luís Bonaparte representar durante dezoito anos a farsa cruel do Império restaurado."

Como se vê, mesmo antes de se iniciarem as hostilidades, considerávamos a velhacaria bonapartista como uma coisa do passado.

E se não nos enganávamos quanto à vitalidade do Segundo Império, tampouco nos faltava razão ao temer que a guerra alemã perdesse o seu caráter estritamente defensivo e degenerasse numa guerra contra o povo francês. Em realidade, a guerra defensiva terminou com a rendição de Luís Bonaparte, a capitulação de Sedan e a proclamação da República em Paris. Muito antes, porém, de se produzirem esses acontecimentos, no momento mesmo em que se tornou evidente a profunda decomposição dos exércitos bonapartistas, a camarilha militar prussiana optou pela guerra de conquista. Levantava-se em seu caminho um obstáculo desagradável: as próprias proclamações feitas pelo rei Guilherme ao iniciar-se a guerra. Em sua fala do trono diante da Dieta da Alemanha do Norte, o rei havia declarado solenemente que fazia a guerra contra o imperador da França e não contra o povo francês. E a 11 de agosto dirigiu à nação francesa um manifesto no qual figuravam estas palavras: "Tendo o imperador Napoleão atacado, por terra e por mar, a nação alemã, que deseja e continua a desejar viver em paz com o povo francês, assumi o comando dos exércitos alemães para repelir essa agressão e me vi obrigado, em face dos acontecimentos militares, a cruzar as fronteiras da França." Não satisfeito em afirmar o caráter defensivo da guerra, declarando que assumia o comando dos exércitos somente "para repelir a agressão", acrescentava que unicamente os "acontecimentos militares" o haviam "obrigado" a cruzar as fronteiras da França. E é indiscutível que uma guerra defensiva não exclui a possibilidade de empreender operações ofensivas, quando os "acontecimentos militares" o imponham. Como se vê, o piedoso monarca se comprometera, em face da França e de todo o mundo, a manter uma guerra estritamente defensiva. Como eximi-lo desse compromisso solene? Os diretores de cena tinham que apresentá-lo como se estivesse curvando-se a indeclináveis exigências da nação alemã. Imediatamente, deram a palavra de ordem à burguesia liberal alemã, com seus professores, seus capitalistas, seus jornalistas e seus conselheiros municipais. Essa burguesia que, em suas lutas pela liberdade civil, de 1846 a 1870, dera ao mundo um espetáculo inigualado de indecisão, incapacidade e covardia, entusiasmou-se naturalmente em face da idéia de surgir na cena européia como o leão rugindo de patriotismo germânico. Reivindicou sua independência civil, fingindo obrigar o governo prussiano a aceitar o que eram, em realidade, os desígnios secretos desse mesmo governo. Expiava agora a sua fé perseverante e quase religiosa na infalibilidade de Luís Bonaparte, clamando pelo desmembramento da República Francesa. Ouçamos por um momento os singulares argumentos desses bravos patriotas!

Não se atrevem a afirmar que a população da Alsácia e da Lorena suspire pelo abraço alemão. Precisamente ao contrário. Para punir seu patriotismo francês, uma cidade como Estrasburgo, apesar de dominada por uma cidadela independente, foi bombardeada de modo bárbaro e desnecessária mente, durante seis dias, com granadas explosivas "alemãs", que a incendiaram matando um grande número de habitantes Indefesos. Sim, o solo dessas províncias pertenceu, em épocas remotas, ao antigo Império germânico. Eis porque esse solo e as pessoas que nele cresceram, devem ser confiscados, segundo eles, como propriedade imprescritível da Alemanha. Se se trata de refazer o mapa da Europa com a mentalidade de um antiquário, não esqueçamos de modo algum que o Eleitor de Brandeburgo era, no que se refere aos seus domínios prussianos, um vassalo da República polonesa.

Todavia, os patriotas mais astutos reclamam a Alsácia e a parte da Lorena que fala alemão, como uma "garantia material" contra as agressões francesas. Como esse ignóbil pretexto vem desorientando muita gente de espírito fraco, somos obrigados a considerá-lo mais detalhadamente.

Não há dúvida de que a configuração geral da Alsácia em comparação com a margem esquerda do Reno e a existência de uma grande cidade fortificada como Estrasburgo quase na metade do caminho entre Basilea e Germersheim, favorecem enormemente uma invasão da França pelo sul da Alemanha. Tampouco é duvidoso que a anexação da Alsácia e da Lorena de língua alemã daria à Alemanha uma fronteira muito mais forte, posto que poria em suas mãos a crista das montanhas dos Vosges em toda sua extensão e as fortificações que protegem seus desfiladeiros setentrionais. E se a anexação se estendesse a Metz, a França ficaria indiscutivelmente privada, no momento, de suas duas principais bases de operações contra a Alemanha, o que entretanto não lhe impediria de construir uma nova em Nancy ou Verdun. Uma vez que a Alemanha possui Coblença, Moguncia, Germersheim, Tastadt e Ulm, todas as bases de operações contra a França, plenamente utilizadas nesta guerra, com que vestígios de justiça pode a Alemanha privar a França de Estrasburgo e Metz, as duas únicas fortalezas de relativa importância que tem nesse lado? Ademais, Estrasburgo é um perigo apenas para a Alemanha do Sul enquanto esta for uma potência separada da Alemanha do Norte. De 1792 a 1795, o sul da Alemanha não se viu nunca invadido por esse lado pelo fato de a Prússia participar :ia guerra contra a Revolução Francesa; mas logo que a Prússia, em 1795, concluiu uma paz em separado, deixando o Sul entregue ao próprio destino, começaram, prosseguindo até 1809, as invasões do sul da Alemanha, tendo Estrasburgo como base. É indubitável que uma Alemanha unificada poderá sempre neutralizar o perigo de Estrasburgo e de qualquer exército francês na Alsácia concentrando todas as suas tropas, como se fez nesta guerra - entre Saarlou e Landau, e avançando ou aceitando a batalha na rota que vai de Moguncia a Metz. Com o núcleo principal das tropas alemães estacionado aqui, qualquer exército francês que avançasse de Estrasburgo para o sul da Alemanha seria atacado de flanco e se veria em perigo de encontrar-se com as comunicações cortadas. Se alguma coisa foi demonstrada na atual campanha é precisamente a facilidade de invasão da França pela Alemanha.

Mas, falando-se honradamente, não é ao mesmo tempo um absurdo e um anacronismo adotar as razões militares como o principio que deve presidir o estabelecimento das fronteiras entre as nações? Se prevalecesse tal norma, a Áustria ainda teria direito de pedir Veneza e a linha do Mincio, e a França poderia reclamar a linha do Reno para proteger Paris, que está sem dúvida mais exposta a um ataque pelo nordeste, do que Berlim a um ataque pelo sudoeste. Se as fronteiras devem ser fixadas segundo os interesses militares, as reclamações não terão fim, pois toda linha militar é necessária mente defeituosa, podendo ser melhorada com a anexação de novos territórios vizinhos. Ademais, essas linhas não podem ser jamais fixadas em definitivo e de modo justo, pois são sempre uma imposição do vencedor ao vencido, e em conseqüência são sempre o germe de novas guerras.

Essa é a lição de toda a história. Verifica-se tanto com as nações, como com os indivíduos. Para retirar os seus meios de ataque é necessário privá-los também dos meios de defesa. Não basta garrotear, é preciso assassinar. Se houve alguma vez um conquistador que obtivesse "garantias materiais" para inutilizar uma nação, foi Napoleão I com o tratado de Tilsit e o modo como o aplicou contra a Prússia e o resto da Alemanha. E, não obstante, poucos anos depois o seu poder-gigantesco cala por terra, como um fruto podre, diante do povo alemão. Que significam as "garantias materiais" que a Prússia, em seus sonhos mais fantásticos, possa ou se atreva a impor à França, comparadas com as que lhe foram arrancadas por Napoleão 1? O resultado não será menos desastroso. E a história não dosará o seu castigo pelo número de milhas quadradas arrebatadas à França, mas pela magnitude do crime de fazer reviver, na segunda metade do século XIX, a política de conquistas.

Mas, dizem os porta-vozes do patriotismo teutônico, não se deve confundir os alemães com os franceses. O que nós queremos não é glória, mas segurança. Os alemães são um povo essencialmente pacífico. Sob sua prudente tutela, as próprias conquistas deixam de ser um fator de guerras futuras para converter-se num penhor de paz perpétua. Incontestavelmente, não foram os alemães que invadiram a França em 1792, com o sublime objetivo de acabar a baionetas com a revolução do século XVIII. Não foram os alemães que mancharam as suas mãos com a escravidão da Itália, a opressão da Hungria e o desmembramento da Polônia. Seu atual sistema militar, que divide toda a população masculina adulta em duas partes - um exército permanente na ativa e um exército permanente em reserva, ambos sujeitos igualmente à obediência passiva a seus chefes divinos - é, evidentemente, um "garantia material" para a salvaguarda da paz, sendo, ademais, o objetivo supremo das tendências civilizadoras... Na Alemanha, como em toda parte, os aduladores dos que estão no poder envenenam a opinião pública com o incenso de louvações mentirosas.

Esses patriotas alemães, que fingem indignar-se em face das fortificações francesas de Metz e Estrasburgo, não vêem nenhum mal na vasta rede de fortificações moscovitas de Varsóvia, Modlin e Ivángorod. Arregalam os olhos diante dos horrores de uma invasão bonapartista, mas os cerram diante da ignomínia de uma tutela da autocracia czarista.

Assim como em 1865 houve uma troca de promessas entre Luís Bonaparte e Bismarck, em 1870 houve outra troca de promessas entre Bismarck e Gorchakov. Do mesmo modo que Luís Bonaparte se iludia pensando que a guerra de 1866, levando ao mútuo esgotamento da Áustria e da Prússia. se converteria no árbitro supremo da Alemanha, assim também Alexandre se enganava imaginando que a guerra de 1870, ao produzir o esgotamento mútuo da Alemanha e da França, se erígiria no árbitro supremo do continente ocidental. E assim como o Segundo Império reputava incompatível com a sua existência a Confederação Alemã do Norte, a Rússia autocrática deve-se considerar em perigo pelo fato de existir um Império alemão sob a hegemonia da Prússia. Tal é a lei do velho sistema político. Dentro desse sistema, o que é uma vantagem para um Estado representa uma perda para outro. A influência preponderante do czar na Europa tem raízes em sua tradicional influência sobre a Alemanha. E num momento em que, dentro da própria Rússia, forças sociais vulcânicas. ameaçam sacudir os fundamentos mesmos da autocracia, poderá o czar permitir semelhante quebra de prestígio no estrangeiro? Já a imprensa de Moscou fala na mesma linguagem que era usada pelos jornais bonapartistas depois da guerra de 1866. Por acaso os patriotas teutões crêem realmente que o melhor modo de garantir a liberdade e a paz na Alemanha é obrigar a França a lançar-se nos braços da Rússia? Se a sorte das armas, a arrogância da vitória e as intrigas dinásticas levam a Alemanha a uma espoliação do território francês, diante dela só se abrirão dois caminhos: ou converter-se a todo custo num instrumento aberto da expansão russa, ou, após breve trégua, preparar-se para outra guerra "defensiva", não uma dessas guerras "localizadas" de novo estilo, mas uma guerra de raças, uma guerra contra as raças latinas e eslavas coligadas.

A classe operária alemã apoiou resolutamente a guerra, que não estava em seu poder impedir, como uma guerra pela independência da Alemanha e para libertar a França e a Europa do foco pestilento do Segundo Império. Foram os operários alemães que, unidos aos trabalhadores do campo, deram nervos e músculos às heróicas forças armadas, deixando na retaguarda suas famílias semimortas de fome. Dizimados pelas batalhas no estrangeiro, serão mais uma vez dizimados pela miséria em seus lares. Por seu turno, eles reclamam agora "garantias" - garantias de que seus imensos sacrifícios não foram vãos, de que conquistaram a liberdade, de que sua vitória sobre os exércitos imperiais não se converterá, como em 1815, na derrota do povo alemão; e como primeira dessas garantias, reclamam uma paz honrosa para a França e o reconhecimento da República Francesa.

O Comitê Central do Partido Operário Social-Democrata da Alemanha publicou a 5 de setembro um manifesto insistindo energicamente sobre essas garantias. "Protestamos - diz o manifesto - contra a anexação da Alsácia e da Lorena. ) temos a consciência de falar em nome da classe operária da Alemanha. No interesse comum da França e da Alemanha, no interesse da paz e da liberdade, no interesse da civilização ocidental frente à barbárie oriental, os operários alemães não tolerarão pacientemente a anexação da Alsácia e da Lorena... Estaremos fielmente ao lado de nossos camaradas operários de todos os países pela causa comum internacional do proletariado!"

Desgraçadamente, não é possível haver a certeza de que terão êxito imediato. Se em tempo de paz os operários franceses não puderam deter o braço do agressor, como irão os operários alemães deter o braço do vencedor em meio ao estrépito das armas? O manifesto dos operários alemães reclama a extradição de Luís Bonaparte como um delinqüente comum e sua entrega à República Francesa. Mas os seus governantes estão já fazendo tudo quanto podem para instalá-lo de novo nas Tulherias, como o homem mais indicado para arruinar a França. Aconteça o que acontecer, a história nos ensinará que a classe operária alemã não é feita da mesma pasta maleável que a burguesia desse país. Os operários da Alemanha cumprirão o seu dever.

Como eles, saudamos o advento da República na França, mas ao mesmo tempo nos atormentam dúvidas que, esperamos, sejam infundadas. Essa República não derrubou o trono, mas simplesmente ocupa o seu lugar, tornado vago. Foi proclamada, não como uma conquista social, mas como uma medida de defesa nacional. Acha-se em mãos de um governo provisório composto em parte por notórios orleanistas e, em parte, por republicanos burgueses, em alguns dos quais a insurreição de junho de 1848 deixou o seu estigma indelével. A divisão de funções entre os membros desse governo nada augura de bom. Os orleanistas apoderaram-se dos baluartes do exército e da polícia, deixando aos que se proclamam republicanos os departamentos puramente retóricos. Alguns de seus primeiros atos mostram que eles não herdaram do Império apenas as ruínas, mas também o medo à classe operária. E se hoje, em nome da República e com uma fraseologia desenfreada, prometem-se coisas Impossíveis, não será porventura para preparar o clamor que exija um governo "possível"? Não será que a República se destina, na mente de alguns de seus empresários burgueses, a servir de simples peltilho da monarquia e de ponte para uma restauração orleanista?

Como vemos, a classe operária da França tem que fazer face a circunstâncias extremamente difíceis. Qualquer tentativa de derrubar o novo governo, na crise atual, quando o inimigo bate quase às portas de Paris, seria uma loucura desesperada. Os operários franceses devem cumprir o seu dever de cidadãos; mas, ao mesmo tempo, não devem deixar-se levar pelas recordações nacionais de 1792, como os camponeses franceses se deixaram enganar pelas recordações nacionais do Primeiro Império. Sua missão não é repetir o passado, mas construir o futuro. Que aproveitem serena e resolutamente as oportunidades que lhes oferece a liberdade republicana para trabalhar na organização de sua própria classe. Isso lhes infundirá novas forças hercúleas para a regeneração da França e para nossa obra comum: a emancipação do trabalho. De sua energia e de sua prudência depende a sorte da República.

Os operários ingleses já deram passos no sentido de vencer, mediante uma salutar pressão de fora, a repugnância de seu governo em reconhecer a República Francesa. Com a sua atual tática dilatória, o governo inglês pretende, provavelmente, expiar o pecado da guerra antijacobina de 1792 e a precipitação indecorosa com que sancionou o golpe de Estado bonapartista. Os operários ingleses exigem de seu governo, além disso, que se oponha com todas as suas forças ao desmembramento da França, que uma parte da imprensa inglesa é suficientemente cínica para pedir aos brados. É a mesma imprensa que, durante vinte anos, endeusava Luís Bonaparte como a salvação da Europa e apoiava freneticamente a rebelião dos escravistas norte-americanos. Agora, como então, trabalha sem descanso para os negreiros.

Que as seções da Associação Internacional dos Trabalhadores de cada país conclamem a classe operária à ação. Se os operários esquecerem o seu dever, se permanecerem passivos, a terrível guerra atual não será senão a precursora de novas lutas internacionais ainda mais espantosas e conduzirá em cada país a novas derrotas dos operários pelos senhores da espada, da terra e do capital.

Viva a República!

Escrito por K. Marx e aprovado na sessão realizada em 9 de setembro de 1870 pelo Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores. Publicado na mesma época, como volante, em inglês, alemão e francês. Publica-se de acordo com a edição soviética de 1951, segundo o texto do volante. Traduzido do espanhol, em confronto com a edição francesa (Éditions Sociales) de 1948.

 

 

 

 

 
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