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TEXTOS
A Guerra Civil em França -
Karl Marx
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A
I A 4 de setembro de 1870, quando os operários de Paris proclamaram a República, quase instantaneamente aclamada de um extremo a outro da França, sem uma só voz discordante, uma quadrilha de advogados arrivistas, com Thiers como estadista e Trochu como general, apoderou-se do Hôtel de Ville. Achavam-se então imbuídos de uma fé tão fanática na missão de Paris de representar a França em todas as épocas de crises históricas que, para legitimar seus títulos usurpados de governantes da França, consideravam suficiente exibir seus mandatos Já prescritos de deputados por Paris. Em nosso segundo manifesto sobre a recente guerra, cinco dias depois da elevação desses homens, já vos dizíamos quem eram eles. Entretanto, no torvelinho da surpresa, com os verdadeiros chefes da classe operária ainda encerrados nas prisões bonapartistas e os prussianos avançando a toda marcha sobre Paris, a capital permitiu que assumissem o Poder sob a condição expressa de que seu único objetivo seria a defesa nacional. Paris, contudo, não podia ser defendida sem armar sua classe operária, organizando-a como uma força efetiva e adestrando seus homens na própria guerra. Mas Paris em armas é a revolução em armas. O triunfo de Paris sobre o agressor prussiano teria sido o triunfo do operário francês sobre o capitalista francês e seus parasitas dentro do Estado. Nesse conflito entre o dever nacional e o interesse de classe, o governo da defesa nacional não vacilou um instante em converter-se num governo de traição nacional. Sua primeira medida consistiu em enviar Thiers a percorrer todas as cortes da Europa a fim de implorar mediação, oferecendo a troca da República por um rei. Quatro meses após iniciar-se o assédio da capital, quando se acreditou chegado o momento oportuno para começar a falar em capitulação, Trochu, na presença de Jules Favre e de alguns colegas de ministério, falou nos seguintes termos aos alcaides de Paris reunidos: "A primeira questão que me foi formulada por meus colegas, na própria noite de 4 de setembro, foi esta: Pode Paris resistir com alguma probabilidade de êxito a um assédio das tropas prussianas? Não vacilei em responder negativamente. Alguns de meus colegas, aqui presentes, puderam comprovar a verdade do que disse e a firmeza de minha opinião. Afirmei-lhes, nesses mesmos termos, que, com o atual estado de coisas, seria uma loucura enfrentar um assédio do exército prussiano. Sem dúvida, acrescentava, seria uma loucura heróica, mas nada além disso Os fatos (conduzidos por ele mesmo) não desmentiram minhas previsões".
Assim, na mesma noite da proclamação da República, os colegas de Trochu já sabiam que o seu "plano" era a capitulação de Paris. Se a defesa nacional tivesse sido algo mais que um pretexto para o governo pessoal de Thíers, Favre & Cia., os adventícios de 4 de setembro teriam abdicado no dia 5, teriam informado o povo de Paris sobre o "plano" de Trochu e o teriam convidado a render-se logo, ou a tomar seu destino em suas próprias mãos. Ao invés disso, aqueles infames impostores optaram por curar a loucura heróica de Paris com um tratamento de fome e de cacete e de enganá-la, enquanto isso, com manifestos grandiloqüentes, nos quais se dizia, por exemplo, que Trochu, "o governador de Paris, jamais capitularia" e que Jules Favre, ministro dos Negócios Exteriores, "não cederia nem urna polegada de nosso território nem uma pedra de nossas fortalezas." Numa carta a Gambetta, esse mesmo Jules Favre confessa que se "defendiam" não contra os soldados prussianos, mas contra os operários de Paris. Durante todo o sítio os degoladores bonapartistas a quem Trochu, muito sagazmente, havia confiado o comando do exército de Paris, não cessavam de fazer cínicas pilhérias, em suas cartas íntimas, sobre a evidente farsa da defesa. (Veja-se, por exemplo, a correspondência de Alphonse Simon-Guiod, comandante supremo da artilharia de exército de Paris e Grã-Cruz da Legião de Honra, com Susane, general da divisão de artilharia, correspondência publicada no Journal Officiel da Comuna. Por fim, a 28 de janeiro de 1871, os impostores arriaram a máscara. Com o verdadeiro heroísmo da extrema abjeção, o governo da defesa nacional, ao capitular, converteu-se no governo da França integrado por prisioneiros de Bismarck -papel tão torpe que o próprio Luis Bonaparte, em Sedan, recusou horrorizado. Após os acontecimentos de 18 de março, em sua precipitada fuga para Versalhes, os "capitulards" deixaram nas mãos de Paris as provas documentais de sua traição, e para destruí-las, como disse a Comuna em sua proclamação às províncias,. "aqueles homens não vacilariam em converter Paris num montão de escombros banhado por um mar de sangue". Ademais, alguns dos dirigentes do governo da defesa tinham razões pessoais especialíssimas para buscar ardentemente semelhantes desenlace. Pouco depois da conclusão do armistício, M. Milliére, um dos deputados por Paris na Assembléia Nacional, fuzilado mais tarde por ordem expressa de Jules Favre, publicou uma série de documentos judiciais autênticos demonstrando que Favre, que vivia em concubinato com a mulher de um bêbado residente em Argel, conseguira, por meio das mais despudoradas falsificações cometidas ao longo de muitos anos, abocanhar em nome dos filhos de seu adultério uma enorme herança, com o que se tornou um homem rico, só podendo salvar-se do escândalo, no processo suscitado pelos legítimos herdeiros, graças à conivência dos tribunais bonapartistas. Como não podia desembaraçar-se desses esmagadores documentos judiciais, Jules Favre, pela primeira vez em sua vida, ficou com a língua presa, aguardando em silêncio que estalasse a guerra civil para então, freneticamente, denunciar o povo de Paris como um bando de criminosos evadidos do presídio e amotinados abertamente contra a família, a religião, a ordem e a propriedade. E esse mesmo falsário, imediatamente após o 4 de setembro, mal chegava ao Poder punha em liberdade, por simpatia, Pie e Taillefer, condenados por roubo, mesmo sob o Império, no escandaloso processo do jornal Etendard. Um desses cavalheiros, Taillefer, que teve a ousadia de voltar a Paris sob a Comuna, foi imediatamente recambiado para a prisão. E então Jules Favre, da tribuna da Assembléia Nacional, exclamou que Paris estava pondo em liberdade todos os presidiários. Ernest Picard, o Joe Miller do governo da defesa nacional, que se nomeou a si mesmo ministro da Fazenda da República, depois de ter-se esforçado em vão para ser ministro do Interior do Império, é irmão de um tal Arthur Picard, indivíduo expulso da Bolsa de Paris como trapaceiro (veja-se o relatório da prefeitura de polícia, de 13 de julho de 1867) e convicto, por sua própria confissão, de um roubo de 300 mil francos, quando era gerente de uma das sucursais da Société Générale, rua Palestro no.5 (veja-se o relatório da prefeitura de polícia de 11 de dezembro de 1868). Esse Arthur Picard foi :-nomeado por Ernest Picard diretor do seu jornal l'Electeur Libre. enquanto os especuladores vulgares eram despistados pelas mentiras oficiais dessa folha financeira ministerial, Arthur Picard vivia num ir e vir constante da Fazenda para a Bolsa, especulando nesta com os desastres do exército francês. Toda a correspondência financeira trocada por essa dupla de digníssimos irmãos caiu nas mãos da Comuna. Jules Ferry, que antes de 4 de setembro era um advogado sem causas, conseguiu, como alcaide de Paris durante o sítio, fazer fortuna amassada à custa da fome dos demais. O dia em que tiver de prestar contas de suas malversações será também o dia de sua vergonha. Como se vê, esses homens só podiam encontrar tickets-of-leave entre as ruínas de Paris. Era precisamente de homens assim que Birmarck precisava. Houve um baralhar de cartas e Thiers, até então inspirador secreto do governo, apareceu agora como seu presidente, tendo como ministros ticket-of-leave-men. Thiers, esse anão monstruoso, manteve sob seu fascínio, durante quase meio século, a burguesia francesa, por ser a. expressão intelectual mais acabada de sua própria corrução como classe. Já antes de fazer-se estadista havia revelado o seu talento para a mentira como historiador. A crônica de sua vida pública é a história das desgraças da França. Unido aos republicanos antes de 1839, insinuou-se no ministério sob Luís Felipe, traindo Laffitte, seu protetor. Credenciou-se ante o rei à força de provocar motins do populacho contra o clero - durante os quais foram saqueados a igreja de Saint Germain l'Auxerrois e o palácio do arcebispo - e atuando, como fez contra a duquesa de Berry, ao mesmo tempo como espião ministerial e parteiro de cárcere. A matança de republicanos na rua Transnonain e as leis infames de setembro contra a imprensa e o direito de associação, que a seguiram, foram obra sua. Ao reaparecer como chefe do governo em março de 1840, assombrou a França com o seu plano de fortificar Paris. Aos republicanos, que acusaram esse plano como um complot sinistro contra a liberdade de Paris, respondeu da tribuna da Câmara dos Deputados: "Como! Supondes que possa haver fortificações que sejam uma ameaça contra a liberdade? Em primeiro lugar, é caluniar qualquer governo, seja qual for, atribuindo-lhe a crença de poder manter-se no Poder bombardeando a capital... Semelhante governo seria, depois de sua vitória, cem vezes mais impossível do que antes." Em realidade, nenhum governo teria jamais ousado bombardear Paris de seus fortes senão o próprio governo que antes entregara esses mesmos fortes aos prussianos. Quando o rei Bomba, em janeiro de 1848, lançou-se contra Palermo, Thiers, que se achava há muito tempo sem pasta, surgiu de novo na Câmara dos Deputados: "Todos vós sabeis, senhores deputados, o que está se passando em Palermo. Todos vós vos comoveis de horror [no sentido parlamentar da palavra] ao ouvir que uma grande cidade foi bombardeada durante 48 horas. E por quem? Porventura, por um inimigo estrangeiro, que põe em prática as leis da guerra? Não, senhores deputados, por seu próprio governo. E por quê? Porque essa infortunada cidade exigia seus direitos. E por exigir seus direitos, sofreu 48 horas de bombardeio... Permiti-me apelar para a opinião pública da Europa. Levantar-se aqui e fazer ressoar, desta tribuna que é talvez a mais alta da Europa, algumas palavras [palavras, com efeito] de indignação contra tais atos, é prestar um serviço à humanidade... Quando o regente Espartero, que havia prestado serviços a seu país (o que Thiers jamais fez], tentou bombardear Barcelona para sufocar sua insurreição, de todas as partes do mundo se ergueu um clamor geral de indignação." Dezoito meses mais tarde, M. Thiers se incluía entre os mais furibundos defensores do bombardeio de Roma por um exército francês. O erro do rei Bomba deve ter consistido, ao que parece, em não ter feito durar o bombardeio senão 48 horas. Poucos dias antes da Revolução de Fevereiro, irritado pelo longo afastamento de cargos e de lucros a que lhe havia condenado Guizot, e percebendo no ar a iminência de uma comoção popular, Thiers, naquele estilo pseudo-heróico que lhe valeu o apelido de "Mirabeau-mouche", declarava ante o Parlamento: "Pertenço ao partido da revolução, não só na França, mas na Europa. Desejaria que o governo da revolução não saísse das mãos dos moderados.., mas mesmo que o governo caia nas mãos de espíritos exaltados, inclusive irias dos radicais, nem por isso abandonarei a minha causa. Pertencerei sempre ao partido da revolução." Veio a Revolução de Fevereiro. Mas, em vez de afastar o ministério Guizot para pôr em seu lugar um ministério Thiers, como este homenzinho havia sonhado, a revolução substituiu Luís Felipe pela República. Durante os primeiros dias da vitória popular, manteve-se cuidadosamente oculto, sem dar-se conta de que o desprezo dos operários protegia-o de seu ódio. Entretanto, com sua proverbial coragem, permaneceu afastado da cena pública, até que as matanças de junho deixaram o caminho aberto para o seu tipo de atividade. Então, Thiers converteu-se no espírito inspirador do "partido da ordem" e de sua República parlamentar, esse Interregno anônimo durante o qual todas as frações rivais da classe dominante conspiravam Juntas para esmagar o povo e umas contra as outras no empenho de restaurar cada qual sua própria monarquia. Então, como agora, Thiers denunciou os republicanos como o Único obstáculo para a consolidação da República; então, como agora, falou aos republicanos como o verdugo a D. Carlos: "Tenho que assassinar-te, mas é para o teu bem." Agora, como então, terá que exclamar no dia seguinte ao seu triunfo: "L'Empire est fait", o Império está feito. A despeito de suas prédicas hipócritas sobre as liberdades necessárias e de seu rancor pessoal contra Luis Bonaparte, que se serviu dele como instrumento, dando uma patada no Parlamento (fora de cuja atmosfera artificial o nosso homenzinho fica, como ele mesmo sabe, reduzido a nada), encontramos a sua mão em todas as infâmias do Segundo Império: desde a ocupação de Roma pelas tropas francesas até a guerra contra a Prússia, que ele provocou investindo ferozmente contra a unidade alemã, não por considerá-la um disfarce do despotismo, mas como uma usurpação contra o direito conferido à França de manter a Alemanha desunida. Acostumado a brandir à face da Europa, com seus braços anãos, a espada do primeiro Napoleão, de quem veio a ser o limpa-botas histórico, sua política externa culminou sempre nas maiores humilhações da França, desde o tratado de Londres de 1841 até a capitulação de Paris em 1871 e a atual guerra civil, na qual lança contra Paris, com a especial autorização de Bismarck, os prisioneiros de Sedan e Metz. Apesar da versatilidade de seu talento e da variabilidade de seus propósitos, esse homem esteve toda a vida preso à rotina mais fossilizada. Compreende-se que as correntes subterrâneas mais profundas da sociedade moderna permanecessem sempre ignoradas para ele; mas até as transformações mais palpáveis operadas na superfície repugnavam àquele cérebro, cuja energia se concentrara toda na língua. Por isso não se cansava nunca de denunciar como um sacrilégio qualquer desvio do velho sistema protecionista francês. Sendo ministro de Luís Felipe, mofava das estradas de ferro como de uma quimera; e da oposição, sob Luís Bonaparte, estigmatizava como uma profanação qualquer tentativa de reformar o velho sistema militar da França. Jamais, em sua longa carreira política, foi responsável por uma única medida, por mínima que fosse, de utilidade prática. Thiers só era conseqüente em sua cobiça de riqueza e em seu ódio contra os homens que a produzem. Conseguiu o seu primeiro ministério, sob Luís Felipe, mais pobre do que um rato e o deixou milionário. Seu último ministério, sob o mesmo rei (o de 1o. de março de 1840) lhe acarretou, na Câmara dos Deputados, uma acusação pública de malversação à qual se limitou a replicar com lágrimas, mercadoria que maneja com tanta prodigalidade como Jules Favre ou outro crocodilo qualquer. Em Bordéus, sua primeira medida para salvar a França da catástrofe financeira que a ameaçava foi destinar-se a si próprio um soldo de 3 milhões por ano, primeira e última palavra daquela "República econômica", cujas perspectivas havia pintado aos seus eleitores de Paris em 1869. M. Beslay, um dos seus antigos colegas do Parlamento de 1830 que, anexar de ser um capitalista, foi um membro abnegado da Comuna de Paris, disse ultimamente sobre Thiers, num cartaz público: "A escravização do trabalho pelo capital foi sempre a pedra angular de sua política e, desde o dia em que viu a República do Trabalho instalada no Hôtel de Ville, não cessou um momento de gritar à França: Estes são uns criminosos!" Mestre em pequenas manobras governamentais, virtuose do perjúrio e da traição, artesão experimentado em todos esses mesquinhos estratagemas, manobras abertas e baixas perfídias da guerra parlamentar de partidos; sempre sem escrúpulos para atiçar uma revolução quando não está no Poder e para afogá-la em sangue quando empunha o leme do governo; cheio de preconceitos de classe em lugar de idéias, e vaidade em lugar de coração; com uma vida privada tão infame como odiosa é sua vida pública, inclusive hoje, em que representa o papel de um Sila francês, não pode senão ressaltar o abominável de seus atos com o ridículo de sua jactância. A capitulação de Paris, entregando à Prússia não só Paris, mas toda a França, veio encerrar a longa série de intrigas e traições com o inimigo que os usurpadores do 4 de setembro haviam começado naquele mesmo dia, segundo diz o próprio Trochu. De outro lado, essa capitulação deu início à guerra civil, que agora tinham que fazer com a ajuda da Prússia, contra a República e contra Paris. Já nos próprios termos da capitulação se continham a armadilha. Naquele momento mais de uma terça parte do território estava nas mãos do inimigo; a capital se achava isolada das províncias e todas as comunicações estavam desorganizadas. Em tais circunstâncias era impossível eleger uma representação autêntica da França, a menos que se dispusesse de muito tempo para preparar as eleições. Eis porque o pacto de capitulação estipulava que deveria ser eleita uma Assembléia Nacional no prazo de oito dias; assim foi que a notícia da realização de eleições não chegou a muitos pontos da França senão no dia anterior. Ademais, segundo uma cláusula expressa do pacto de capitulação, essa Assembléia deveria ser eleita com o objetivo único de votar pela paz ou pela guerra, e, eventualmente, para concluir um tratado de paz. A população não podia deixar de sentir que os termos do armistício tornavam impossível a continuação da guerra e de que, para sancionar a paz imposta por Bismarck, os piores homens da França eram os melhores. Mas, não contente com essas precauções, Thiers, já antes de ser o secreto do armistício difundido em Paris, pôs-se em caravana eleitoral através dos departamentos, com o objetivo de galvanizar e ressuscitar o partido legitimista que agora, ao lado dos orleanistas, haveria de ocupar a vaga dos bonapartistas, inaceitáveis no momento. Thiers não temia os legitimistas. Impossibilitados para governar a França moderna e, portanto, desdenháveis como rivais, que partido poderia servir melhor como instrumento da contra-revolução do que aquele cuja atuação, para dizê-lo com as palavras do próprio Thiers (Câmara dos Deputados, 5 de janeiro de 1833), "estivera sempre circunscrito aos três recursos da invasão estrangeira, da guerra civil e da anarquia"? Eles, por sua parte, acreditavam firmemente no advento de seu passado reino milenário, por tanto tempo ansiado. Aí estavam as botas de uma invasão estrangeira pisoteando a França; aí estavam um Império caído e um Bonaparte prisioneiro; e aí estavam eles outra vez. Evidentemente, a roda da história havia girado para trás, até deter-se na Chambre introuvable de 1816. Na assembléias da República, de 1848 a 1851, esses elemento haviam estado representados por seus cultos e experimentados campeões parlamentares; agora irrompiam em cena os soldados de base do partido, todos os Pourceaugnacs da França. Quando essa assembléia de "rurais" reuniu-se em Bordéus, Thiers expôs com clareza aos seus componentes que era necessário aprovar imediatamente as condições de paz, sem conceder-lhes sequer as honras de um debate parlamentar, única circunstância sob a qual a Prússia lhes permitiria iniciar a guerra contra a República e contra Paris, seu baluarte. Em realidade, a contra-revolução não tinha tempo a perder. O Segundo Império havia elevado a mais do dobro a dívida nacional e afogara todas as cidades mais importantes em dívidas municipais gravosíssimas. A guerra aumentara espantosamente os encargos da nação e devastara implacavelmente os seus recursos. E para completar a ruína ali estava o Shylock prussiano, com sua fatura correspondente à manutenção de meio milhão de soldados seus em solo francês e com sua indenização de cinco bilhões, mais 5 por cento de juros pelos pagamentos a vencer. Quem pagaria essa conta? Só derrubando violentamente a República podiam os monopolizadores da riqueza confiar em lançar sobre os ombros dos produtores desta os encargos de uma guerra que eles, os monopolizadores, haviam desencadeado. E assim a incalculável ruína da França estimulava esses patrióticos representantes da terra e do capital a enxergar na guerra exterior uma guerra civil, uma rebelião dos escravistas. No caminho dessa conspiração erguia-se um grande obstáculo: Paris. O desarmamento de Paris era a primeira condição para o êxito. Por isso foi condenada por Thiers a entregar as armas. Paris estava, ademais, exasperada pelas frenéticas manifestações anti-republicanas da Assembléia "rural" e as declarações equívocas do próprio Thiers sobre o fundamento legal da República; pela ameaça de decapitar e descapitalizar Paris; pela nomeação de embaixadores orleanistas; pelas leis de Dufaure sobre as letras e os aluguéis vencidos, que levavam à ruína a indústria e o comércio de Paris; pelo imposto dos cêntimos, criado por Pouyer-Quertier, sobre cada exemplar de todas as publicações imagináveis; pelas sentenças de morte contra Blanqui e Flourens; pela supressão dos jornais republicanos; pela transferência da Assembléia Nacional para Versalhes; pela prorrogação do estado de sítio proclamado por Palikao e encerrado com o 4 de setembro; pela nomeação de Vinoy, o herói de dezembro, para governador de Paris, de Valentim, o gendarme bonapartista, para prefeito de polícia e d'Aurelle de Paladines, o general jesuíta, para comandante-em-chefe da Guarda Nacional parisiense. E agora vamos fazer uma pergunta a M. Thiers e aos cavalheiros da defesa nacional, seus moços de recado. É sabido que, por mediação de M. Pouyer-Quertier, seu ministro da Fazenda, Thiers contratou um empréstimo de dois bilhões. Pois bem, é ou não verdade: 1,. que o negócio foi acertado assegurando-se uma comissão de várias centenas de milhões para os bolsos particulares de Thiers, Jules Favre, Ernest Picard, Pouyer-Quertier e Jules Simon, e 2. que não havia necessidade de nenhum pagamento senão depois da "pacificação" de Paris? Em todo caso, devia haver algo de muito urgente na questão, pois Thiers e Jules Favre pediram sem o menor pudor, em nome da maioria da Assembléia de Bordéus, a imediata ocupação de Paris pelas tropas prussianas. Esse, entretanto, não era o jogo de Bismarck, como declarou ao regressar à Alemanha, ironicamente e sem meios-termos diante dos assombrados filisteus de Francfort. IIParis armada era o único obstáculo sério que se erguia no caminho da conspiração contra-revolucionária. Era preciso por isso desarmar Paris. Nesse ponto, a Assembléia de Bordéus era a sinceridade mesma. Se os bramidos frenéticos de seus "rurais" não fossem suficientes para se fazerem entender, a última sombra de dúvida teria sido - dissipada com a entrega de Paris por Thiers nas ternas mãos do triunvirato de Vínoy, o décembriseur, Valentin, o gendarme bonapartista, e d'Aurelie de Paladines, o general jesuíta. Mas, ao mesmo tempo em que exibiam de um modo insultante o seu verdadeiro propósito de desarmar Paris, os conspiradores lhe pediam que entregasse as armas com um pretexto que era a mais evidente, a mais descarada das mentiras. Thiers alegava que a artilharia da Guarda Nacional de Paris pertencia ao Estado e devia ser-lhe devolvida. A verdade era esta: desde o próprio dia da capitulação, em que os prisioneiros de Bismarck firmaram a entrega da França, mas reservando-se um nutrido corpo de guarda com a intenção manifesta de submeter Paris, esta se pôs em prontidão. A Guarda Nacional reorganizou-se, confiando a sua direção suprema a um Comitê Central eleito por todos os seus efetivos, com a única exceção de alguns remanescentes das velhas formações bonapartistas. Na véspera do dia em que os prussianos entraram em Paris, o Comitê Central adotou medidas no sentido de transferir para Montmartre, Belleville e La Vlllette os canhões e metralhadoras traiçoeiramente abandonados pelos capituladores nos próprios bairros que os prussianos haveriam de ocupar, ou em suas imediações. Esses canhões haviam sido adquiridos por subscrição aberta entre a Guarda Nacional. Foram reconhecidos como propriedade privada sua no pacto de capitulação de 28 de janeiro e, precisamente por isso, foram excluídos da entrega geral de armas do governo aos conquistadores. Tão sem pretextos se achava Thiers para iniciar as hostilidades contra Paris, que teve de recorrer à cínica mentira de que a artilharia da Guarda Nacional pertencia ao Estado! O confisco de seus canhões estava destinado, evidentemente, a ser o prelúdio do desarmamento geral de Paris e, portanto, do desarmamento da revolução de 4 de setembro. Mas essa revolução era agora a forma legal do Estado francês. A República, sua obra, foi reconhecida pelos conquistadores nas cláusulas do pacto de capitulação. Depois da capitulação, foi reconhecida também por todas as potências estrangeiras. e a Assembléia Nacional foi convocada em seu nome. A revolução operária de Paris de 4 de setembro era o único título legal da Assembléia Nacional reunida em Bordéus e de seu poder executivo. Sem ela, a Assembléia Nacional teria tido que dar lugar ao corpo legislativo eleito em 1869 pelo sufrágio universal sob o governo da França, e não da Prússia, e dissolvido pela força a revolução. Thiers e seus homens do ticket-of-leave teria tido que humilhar-se a pedir um salvo-conduto assinado por Luís Bonaparte para livrar-se de uma viagem a Caiena. A Assembléia -Nacional, com seus plenos poderes para fixar as condições de paz com a Prússia, não era mais que um episódio daquela revolução, cuja verdadeira encarnação continuava sendo a Paris em armas que a havia iniciado, que por ela sofrera um assédio de cinco meses, com todos os horrores da fome, e que, graças à sua resistência sustentada apesar do plano de Trochu, assentara as bases para uma tenaz guerra de defesa nos departamentos. E Paris só tinha agora dois caminhos: ou entregar as armas, seguindo as ordens humilhantes dos escravistas amotinados de Bordéus e reconhecendo que sua revolução de 4 de setembro não significa mais que uma transferência de poderes de Luis Bonaparte a seus rivais monárquicos; ou continuar lutando como o campeão abnegado da França, cuja salvação da ruína e cuja regeneração eram impossíveis se não fossem derrubadas revolucionariamente as condições políticas e sociais que haviam engendrado o Segundo Império e que, sob sua égide protetora, amadureciam até a completa putrefação. Paris, extenuada por cinco meses de fome, não hesitou um só Instante. Heroicamente, decidiu correr todos os riscos de uma resistência contra os conspiradores franceses, mesmo com o canhão prussiano ameaçando-a de seus próprios fortes. Entretanto, em sua aversão à guerra civil a que Paris havia de ser arrastada, o Comitê Central persistia ainda numa atitude meramente defensiva, apesar das provocações da Assembléia, das usurpações do poder executivo e da ameaçadora concentração de tropas em Paris e seus arredores. Foi Thiers quem Iniciou a guerra civil ao mandar Vlnov. à frente de uma multidão de guardas municipais e de alguns regimentos de Unha, em expedição noturna contra Montmartre para apoderar-se de surpresa dos canhões da Guarda Nacional. Sabe-se, de resto, como essa tentativa fracassou, diante da resistência da Guarda Nacional e da confraternização das tropas do povo. D'Aureile de Paladines mandara de antemão imprimir o seu boletim de vitória, e Thiers havia preparado já os cartazes anunciando as suas medidas de golpe de Estado. Agora, tudo isso tinha que ser substituído pelos apelos em que Thiers comunicava a sua magnânima decisão de deixar a Guarda Nacional na posse de suas armas, com o que estava certo - afirmava - de que esta se uniria ao governo contra os rebeldes. Dos 300 mil guardas nacionais, somente 300 responderam a esse apelo passando-se para o lado do pequeno Thiers contra eles mesmos. A gloriosa revolução operária de 18 de março apoderou-se indiscutivelmente de Paris. O Comitê Central era o seu governo provisório. E sua notável atuação política e militar parecia levar a Europa à dúvida sobre se o que se via era urna realidade ou simplesmente os sonhos de um passado remoto. De 18 de março até a entrada das tropas de Versalhes em Paris, a revolução esteve tão isenta desses atos de violência, tão freqüentes nas revoluções, é mais ainda nas contra-revoluções das "classes superiores", que seus adversários não puderam denunciar outros fatos além da execução dos generais Lecomte e Clément Thomas e os acontecimentos ocorridos na praça Vendôme. Um dos militares bonapartistas que participaram na intentona noturna contra Montmartre, o general Lecomte, ordenou por quatro vezes ao 81º regimento que fizesse fogo sobre uma multidão inerme na praça Pigalle e como as tropas se negassem, insultou-as furiosamente. Em vez de disparar sobre as mulheres e as crianças, seus homens dispararam sobre ele. Os hábitos inveterados adquiridos pelos soldados na escola dos inimigos da classe operária não mudam, sem dúvida, no mesmo momento em que eles passam para o campo dos trabalhadores. Essa mesma gente executou Clément Thomas. O "general" Clément Thomas, um antigo sargento de cavalaria descontente, insinuara-se, no último período do reinado de Luís Felipe, na redação do jornal republicano Le National, para prestar ali os seus serviços na dupla qualidade de testa-de-ferro (gérant responsable) e de espadachim de tão combativo jornal. Após a Revolução de Fevereiro, entronizados no poder os senhores de Le National transformaram esse ex-sargento de cavalaria em general, nas vésperas da matança de junho, da qual ele, como Jules Favre, foi um dos sinistros maquinadores, para converter-se depois num dos mais ignóbeis verdugos dos sublevados. Em seguida, ele e seu generalato desapareceram por longo tempo, para surgir de novo à tona em 1.º de novembro de 1870. No dia anterior, o governo da defesa, aprisionado no Hôtel de Ville, prometera solenemente a Blanqui, Flourens e outros representantes da classe operária que renunciaria ao poder usurpado das mãos da Comuna que Paris haveria de eleger livremente. Ao invés de cumprir sua palavra, lançaram sobre Paris os bretões de Trochu, que vinham substituir os corsos de Bonaparte. Unicamente o general Tamisier recusou manchar o seu nome com aquela violação da palavra empenhada, demitindo-se de seu posto de comandante-em-chefe da Guarda Nacional. Clément Thomas o substituiu, voltando outra vez a ser general. Durante todo o período de seu comando, não lutou contra os prussianos, mas contra a Guarda Nacional de Paris. Impediu que ela se armasse por completo, açulou os batalhões burgueses contra os batalhões operários, eliminou os oficiais hostis ao "plano" de Trochu e dissolveu com o estigma de covardia aqueles mesmos batalhões proletários, cujo heroísmo acaba de encher de assombro os seus mais encarniçados Inimigos. Clément Thomas sentia-se extremamente orgulhoso por haver reconquistado sua preeminência de junho como inimigo pessoal da classe operária de Paris. Poucos dias antes de 18 de março submetera a Le Flô, ministro da Guerra, um plano de sua criação para "acabar com a fina-flor da canalha de Paris". Depois da derrota de Vinoy, não pôde deixar de surgir em cena como espião amador. O Comitê Central e os operários de Paris são tão responsáveis pela morte de Clément Thomas e de Lecomte como a princesa de Gales pela sorte que tiveram as pessoas que morreram esmagadas entre a multidão no dia de sua entrada em Londres. A suposta matança de cidadãos inermes na praça Vendôme é um mito que M. Thiers e os "rurais" silenciam obstinadamente na Assembléia, entregando a sua propagação exclusivamente à turba de lacaios do jornalismo europeu. Os "homens da ordem", os reacionários de Paris, tremeram ante o triunfo do 18 de março. Era para eles o sinal da vingança popular que afinal chegava. Diante de seus olhos erguiam-se os espectros das vítimas assassinadas por eles desde as jornadas de junho de 1848 até o 22 de janeiro de 1871. Mas o seu pânico foi o único castigo. Até os guardas municipais, que deviam ser desarmados e presos, tiveram as portas de Paris abertas de par em par, fugindo tranquilamente para Versalhes e pondo-se a salvo. Os homens da ordem não só não foram molestados, mas até mesmo tiveram a possibilidade de reunir-se e apoderar-se calmamente de mais de um reduto do próprio centro de Paris. Essa indulgência do Comitê Central, essa magnanimidade dos operários armados, que tão violentamente contrastava com os hábitos do "partido da ordem", foi falsamente interpretada por este como a simples manifestação de um sentimento de debilidade. Dai o seu néscio plano de tentar, sob a capa de uma manifestação pacífica, o que Vinoy não pudera conseguir com seus canhões e suas metralhadoras. A 22 de março, uma turba sediciosa de pessoas elegantes partiu dos bairros de luxo, levando em suas fileiras todos os janotas e, à sua frente, os figurões mais conhecidos do Império: os Heeckeren, Coetlogon, Henri de Pène, etc. Sob o covarde pretexto de uma manifestação pacífica, esses bandos, conduzindo secretamente armas de espadachins, puseram-se em ordem de marcha, agredindo e desarmando as patrulhas e postos da Guarda Nacional que encontravam em sua passagem e, ao desembocar na Rue de la Paix na praça Vendôme, aos berros de "Abaixo o Comitê Central! Abaixo os assassinos! Viva a Assembléia Nacional! ", tentaram romper o cordão de guardas e tomar de surpresa o quartel da Guarda Nacional. Como resposta aos seus tiros de pistola, foram dados os toques regulamentares de atenção e, como não surtissem efeito, o general da Guarda Nacional ordenou fogo. Foi bastante uma carga para pôr em fuga precipitada aqueles estúpidos mequetrefes, que esperavam que a simples exibição de sua "honorabilidade" exerceria sobre a revolução de Paris o mesmo efeito das trombetas de Josué sobre as muralhas de Jericó. Ao fugir, deixaram atrás de si dois guardas nacionais mortos, nove feridos gravemente (entre eles um membro do Comitê Central) e todo o cenário de sua façanha coberto de revólveres, punhais e bastões de estoque, como testemunho do caráter "inerme" de sua manifestação "pacífica". Quando a Guarda Nacional de Paris, a 13 de junho de 1849, organizou uma manifestação realmente pacífica, para protestar contra o traiçoeiro assalto de Roma pelas tropas francesas, Changarnier, então general do partido da ordem, foi aclamado pela Assembléia Nacional, especialmente por M. Thiers, como salvador da sociedade por haver lançado suas tropas, de todos. os lados, sobre aqueles homens inermes, por derrubá-los a tiros e golpes de sabre e por esmagá-los pisoteando-os. Decretou-se então em Paris o estado de sítio. Dufaure fez com que a Assembléia aprovasse a toda pressa novas leis de repressão. Novas detenções, novos desterros; iniciava-se nova era de terror. O Comitê Central de 1871 não se ocupou dos heróis da "manifestação pacifica"; e, assim, dois dias depois, já podiam passar revista ante o almirante Saisset para aquela outra manifestação, já armada, que terminou com a famosa fuga para Versalhes. Em sua repugnância em aceitar a guerra civil, iniciada com o assalto noturno realizado por Thiers contra Montmartre, o Comitê Central tornou-se culpado, dessa vez, de um erro decisivo: não marchar imediatamente sobre Versalhes, então completamente indefesa, acabando dessa maneira com as manobras conspirativas de Thiers e seus "rurais" Em vez de fazê-lo, voltou a permitir que o partido da ordem provasse as suas forças nas urnas a 26 de março, dia em que se realizaram as eleições para a Comuna. Naquele dia, nas municipalidades de Paris, os "homens da ordem" trocaram amenas palavras de conciliação com seus demasiados generosos vencedores, enquanto no fundo do coração faziam o voto solene de exterminá-los no momento oportuno. Vejamos agora o reverso da medalha. Thiers deu início à sua segunda campanha contra Paris em começos de abril. A primeira leva de prisioneiros parisienses conduzidos a Versalhes foi submetida a revoltantes crueldades, enquanto Ernest Picard, com as mãos metidas nos bolsos, passeava em sua frente, escarnecendo-os, e Mmes Thiers e Favre, entre suas damas de honra (?), aplaudiam dos balcões os ultrajes da turba versalhesa. Os soldados dos regimentos de linha aprisionados foram assassinados a sangue frio; nosso valente amigo o general Duval, o fundidor, foi fuzilado, sem sombra de processo. Gallifet, o rufião de sua própria mulher, tão conhecida pelas escandalosas exibições que fazia de seu corpo nas bacanais do Segundo Império, jactava-se numa proclamação por ter mandado assassinar um grupo de guardas nacionais com seu capitão e seu tenente, surpreendidos e desarmados pelos caçadores. Vinoy, o fugitivo, foi agraciado por Thiers com a Grande Cruz da Legião de Honra, em reconhecimento por sua ordem para fuzilar todos os soldados aprisionados nas fileiras dos federais. Desmarets, o gendarme, foi condecorado por ter esquartejado traiçoeiramente, como um carniceiro, o brioso e magnânimo Flourens, que a 31 de outubro de 1870 salvara as cabeças dos membros do governo da defesa. Thiers, com manifesta satisfação, estendeu-se sobre os "reconfortantes detalhes" desse assassinato na Assembléia Nacional. Com a inflada vaidade de um Tom Pouce parlamentar, a quem se permite representar o papel de Tamerlán, negava aos que se rebelavam contra Sua Pequenez todo direito da guerra entre civilizados, até o direito de neutralidade para seus hospitais de sangue. Nada mais horrível do que esse macaco, autorizado por um momento a dar plena expansão a seus instintos de tigre, como Voltaire já havia imaginado. (V. apêndices, pág. 35). Após o decreto de 7 de abril da Comuna, ordenando represálias e declarando que tal era seu dever "pira proteger Paris contra as façanhas canibalescas dos bandidos de Versalhes, exigindo olho por olho e dente por dente", Thiers continuou dando aos prisioneiros o mesmo tratamento selvagem, além do mais insultando-os em seus boletins: "Jamais - escreveu ele - o olhar angustiado de homens honestos teve que pousar sobre fisionomias tão degradadas de uma degradada democracia." Os homens honestos eram Thiers e seus ministros "libertados" do presídio. Contudo, os fuzilamentos de prisioneiros cessaram por algum tempo. Mas, logo que Thiers e seus generais decembristas convenceram-se de que aquele decreto da Comuna sobre as represálias não era mais que uma ameaça inócua, de que era respeitada a vida até dos gendarmes espiões detidos em Paris com o disfarce de guardas nacionais, até de guardas municipais surpreendidos com granadas incendiárias, então reiniciaram-se os fuzilamentos em massa de prisioneiros, prosseguindo sem interrupção até o fim. As casas em que refugiaram guardas nacionais eram cercadas por gendarmes, sobre elas lançava-se petróleo (pela primeira vez empregado nesta guerra) incendiando-as em seguida, sendo os corpos carbonizados retirados logo para o Hospital da Imprensa, situados em Les Temes. Quatro guardas nacionais que se renderam a um destacamento de caçadores montados, a 25 de abril, em Belle Epine, foram imediatamente fuzilados, um após outro, por um capitão discípulo dileto de Gallifet. Scheffer, uma dessas quatro vítimas, a quem se havia deixado como morto, chegou arrastando-se aos postos avançados de Paris e relatou esse fato a uma comissão da Comuna. Quando Tolain interpelou o ministro da Guerra acerca do informe dessa comissão, os "rurais" abafaram sua voz e não permitiram que Le Flô respondesse. Teria sido um insulto para seu "glorioso" exército falar de suas façanhas. O tom impertinente com que os boletins de Thiers anunciaram a matança a baionetas dos guardas nacionais que foram surpreendidos dormindo em Moulin Saquet e os fuzilamentos em massa em Clarmart alteraram até os nervos do Tímes de Londres, que não peca precisamente por excesso de sensibilidade. Mas seria ridículo, hoje, procurar enumerar as atrocidades puramente preliminares levadas à prática pelos que bombardearam Paris e fomentaram uma sublevação escravista protegida pela invasão estrangeira. Em meio a todos esses horrores, Thiers, esquecendo-se de suas lamentações parlamentares sobre a espantosa responsabilidade que pesa sobre os seus ombros de anão, jacta-se em seus boletins de que a Assemblía delibere placidamente, e por seus inacabáveis festins demonstra, ora com os generais decembristas, ora com os príncipes alemães, que sua digestão não foi de modo algum perturbada, nem sequei pelos espectros de Lecomte e Clément Thomas. IIIAo alvorecer de 18 de março de 1871, Paris foi despertada com o clamor: "Viva a Comuna!". Que é a Comuna, essa esfinge que tanto atormenta os espíritos burgueses? "Os proletários de Paris - dizia o manifesto do Comitê Central de 18 de março - em meio aos fracassos e às reações das classes dominantes, compreenderam que chegou o momento de salvar a situação tomando em suas mãos a direção dos negócios públicos... Compreenderam que é seu dever imperioso e seu direito incontestável tornar-se donos de seus próprios destinos, tomando o Poder." Mas a classe operária não pode limitar-se simplesmente a se apossar da máquina do Estado tal como se apresenta e servir-se dela para seus próprios fins. O poder estatal centralizado, com seus órgãos onipotentes- o exército permanente, a polícia, a burocracia, o clero e a magistratura - órgãos criados segundo um plano de divisão sistemática e hierárquica do trabalho - procede dos tempos da monarquia absoluta e serviu à nascente sociedade burguesa como uma arma poderosa em suas lutas contra o feudalismo. Entretanto, seu desenvolvimento foi entravado por todo tipo de rebutalhos medievais: direitos senhoriais, privilégios locais, monopólios municipais e corporativos, códigos provinciais. A escova gigantesca da Revolução Francesa do século XVIII varreu todas essas relíquias de tempos passados, limpando assim, ao mesmo tempo, o solo da sociedade dos últimos obstáculos que se erguiam ante a superestrutura do edifício do Estado moderno, erigido sobre o Primeiro Império, que por sua vez era fruto das guerras de coalizão da velha Europa semifeudal contra a França moderna. Durante os regimes seguintes o governo, colocado sob o controle do Parlamento - isto é, sob o controle direto das classes possuidoras não só se converteu num viveiro de enormes dívidas nacionais e de impostos esmagadores, mas, com a sedução irresistível de seus cargos, proteções e empregos, acabou por ser a maçã da discórdia entre as facções rivais e os aventureiros das classes dominantes; por outro lado, seu caráter político mudava simultaneamente com as mudanças econômicas operadas na sociedade. A medida que os progressos da moderna indústria desenvolviam, ampliavam e aprofundavam o antagonismo de classe entre o capital e o trabalho, o poder do Estado foi adquirindo cada vez mais o caráter de poder nacional do capital sobre o trabalho, de força pública organizada para a escravização social, de máquina do despotismo de classe. Depois de cada revolução, que assinala um passo adiante na luta de classes, revela-se com traços cada vez mais nítidos o caráter puramente repressivo do poder do Estado. A revolução de 1830, ao traduzir-se na passagem do governo das mãos dos latifundiários para as mãos dos capitalistas, o que fez foi transferi-lo dos Inimigos mais remotos para os Inimigos mais diretos da classe operária. Os burgueses republicanos, que se apoderaram do poder do Estado em nome da Revolução de Fevereiro, dele fizeram uso para as matanças de junho, para provar à classe operária que a República "social" é a República que assegura sua submissão social e para convencer a massa monárquica dos burgueses e latifundiários que podia entregar aos "republicanos" burgueses as inquietações e encargos do governo. Entretanto, depois de sua primeira e heróica façanha de junho, os republicanos burgueses tiveram que passar das primeiras linhas para a retaguarda do "partido da ordem", coalizão formada por todas as frações e facções rivais da classe apropriadora, em seu antagonismo, agora franco e manifesto, com a classe produtora. A forma mais adequada para esse governo por ações era a República parlamentar, com Luís Bonaparte por presidente. Foi esse um regime de franco terrorismo de classe e de insulto deliberado contra a "vil multidão". Se a República parlamentar, como dizia M. Thiers, era "a que menos os dividia" (as diversas frações da classe dominante), abria em troca um abismo entre essa classe e o conjunto da sociedade que se situava fora de suas reduzidas fileiras. Sua união vinha eliminar as restrições que as discórdias impunham ao poder do Estado sob regimes anteriores e, ante a ameaça de um isolamento do proletariado, serviam-se do poder estatal, sem piedade e com ostentação, como de uma máquina nacional de guerra do capital contra o trabalho. Mas essa cruzada ininterrupta contra as massas produtoras obrigava-os não só a revestir o poder executivo de faculdades de repressão cada vez maiores, mas, ao mesmo tempo, a despojar o seu próprio baluarte parlamentar - a Assembléia Nacional - um por um, de todos os seus meios de defesa contra o poder executivo. Até que este, na pessoa de Luís Bonaparte, deu-lhes um pontapé. O fruto natural da República do "partido da ordem" foi o Segundo Império." O Império, tendo o golpe de Estado por certidão de nascimento, o sufrágio universal por sanção e a espada por cetro, declarava apoiar-se nos camponeses, ampla massa de produtores não envolvida diretamente na luta entre o capital e o trabalho. Dizia que salvava a classe operária destruindo o parlamentarismo e, com ele, a descarada submissão do governo às classes possuidoras. Dizia que salvava as classes possuidoras mantendo de pé sua supremacia econômica sobre a classe operária; e, finalmente, pretendia unir todas as classes, ao ressuscitar para todos a quimera da glória nacional. Em realidade, era a única forma de governo possível, num momento em que a burguesia já havia perdido a capacidade para governar o país e a classe operária ainda não a havia adquirido. O Império foi aclamado de um extremo ao outro do mundo como o salvador da sociedade. Sob sua égide, a sociedade burguesa livre de preocupações políticas, atingiu um desenvolvimento que nem ela mesma esperava. Sua indústria e seu comércio adquiriram proporções gigantescas; a especulação financeira realizou orgias cosmopolitas; a miséria das massas ressaltava sobre a ultrajante ostentação de um luxo suntuoso, falso e vil. O poder estatal, que aparentemente flutuava acima da sociedade, era de fato o seu maior escândalo e o viveiro de todas as suas corrupções. Sua podridão e a podridão da sociedade que ele salvou, foram postas a nu pela baioneta da Prússia, que por sua vez ardia em desejos de trasladar esse regime de Paris para Berlim. O imperialismo é a forma mais prostituída e, ao mesmo tempo, a última forma daquele poder estatal que a sociedade burguesa nascente havia começado a criar como meio para emancipar-se do feudalismo e que a sociedade burguesa adulta acabou transformando em um meio para a escravização do trabalho pelo capital. Antítese direta do Império era a Comuna. O brado de "República social", com que a Revolução de Fevereiro foi anunciada pelo proletariado de Paris, não expressava mais que o vago desejo de uma República que não acabasse com a forma monárquica da dominação de classe, mas com a própria dominação de classe. A Comuna era a forma positiva dessa República. Paris, sede central do velho poder governamental e, ao mesmo tempo, baluarte social da classe operária da França, levantara-se em armas contra a tentativa de Thiers e dos "rurais" de restaurar e perpetuar aquele velho poder que lhes havia sido legado pelo Império. E se Paris pôde resistir foi unicamente porque, em conseqüência do assédio, desfizera o exército, substituindo-o por uma Guarda Nacional, cujo principal contingente era formado pelos operários. Trata-se agora de transformar esse fato numa instituição duradoura. Por isso, o primeiro decreto da Comuna foi no sentido de suprimir o exército permanente e substitui-lo pelo povo armado. A Comuna era composta de conselheiros municipais eleitos por sufrágio universal nos diversos distritos da cidade. Eram responsáveis e substituíveis a qualquer momento. A Comuna devia ser, não um órgão parlamentar, mas uma corporação de trabalho, executiva e legislativa ao mesmo tempo. Em vez de continuar sendo um instrumento do governo central, a polícia foi imediatamente despojada de suas atribuições políticas e convertida num instrumento da Comuna, responsável perante ela e demissível a qualquer momento. O mesmo foi feito em relação aos funcionários dos demais ramos da administração. A partir dos membros da Comuna, todos que desempenhavam cargos públicos deviam receber salários de operários. Os interesses criados e as despesas de representação dos altos dignitários do Estado desapareceram com os próprios altos signatários. Os cargos públicos deixaram de ser propriedade privada dos testas-de-ferro do governo central. Nas mãos da Comuna concentrou-se não só a administração municipal, mas toda iniciativa exercida até então pelo Estado. Uma vez suprimidos o exército permanente e a polícia, que eram os elementos da força física do antigo governo, a Comuna estava impaciente por destruir a força espiritual de repressão, o "poder dos padres", decretando a separação da Igreja do Estado e a expropriação de todas as Igrejas como corporações possuidoras. Os padres foram devolvidos ao retiro da vida privada, a viver dos óbulos dos fiéis, como seus antecessores, os apóstolos. Todas as instituições de ensino foram abertas gratuitamente ao povo e ao mesmo tempo emancipadas de toda intromissão da Igreja e do Estado. Assim, não somente se punha o ensino ao alcance de todos, mas a própria ciência se redimia dos entraves criados pelos preconceitos de classe e o poder do governo. Os funcionários judiciais deviam perder aquela fingida independência que só servira para disfarçar sua abjeta submissão aos sucessivos governos, aos quais iam prestando sucessivamente, e violando também sucessivamente, o juramento de fidelidade. Assim como os demais funcionários públicos, os magistrados e juízes deviam ser funcionários eletivos, responsáveis e demissíveis. Como é lógico, a Comuna de Paris havia de servir de modelo a todos os grandes centros industriais da França. Uma vez estabelecido em Paris e nos centros secundários o regime comunal, o antigo governo centralizado teria que ceder lugar também nas províncias ao governo dos produtores pelos produtores. No breve esboço de organização nacional que a Comuna não teve tempo de desenvolver, diz-se claramente que a Comuna devia ser a forma política inclusive das menores aldeias do país e que nos distritos rurais o exército permanente devia ser substituído por uma milícia popular, com um tempo de serviço extraordinariamente curto. As comunas rurais de cada distrito administrariam seus assuntos coletivos por meio de uma assembléia de delegados na capital do distrito correspondente e essas assembléias, por sua vez, enviariam deputados à delegação nacional em Paris, entendendo-se que todos os delegados seriam substituídos a qualquer momento e comprometidos com um mandato imperativo (instruções) de seus eleitores. As poucas, mas importantes funções que restavam ainda a um governo central não se suprimiriam, como se disse, falseando propositadamente a verdade, mas serão desempenhadas por agentes comunais e, portanto, estritamente responsáveis. Não se tratava de destruir a unidade da nação, mas, ao contrário, de organizá-la mediante um regime comunal, convertendo-a numa realidade ao destruir o poder estatal, que pretendia ser a encarnação daquela unidade, independente e situado acima da própria nação, em cujo corpo não era mais que uma excrescência parasitária. Enquanto que os órgãos puramente repressivos do velho poder estatal deviam ser amputados, suas funções legítimas deviam ser arrancadas a uma autoridade que usurpava uma posição preeminente sobre a própria sociedade, para restitui-la aos servidores responsáveis dessa sociedade. Em lugar de decidir uma vez, cada três ou seis anos, que membros da classe dominante devem representar e esmagar o povo no Parlamento, o sufrágio universal deveria servir ao povo organizado em comunas, do mesmo modo que o sufrágio individual serve aos patrões que procuram operários e administradores para seus negócios. E é um fato perfeitamente conhecido que tanto as companhias como os indivíduos quando se trata de negócios, sabem geralmente colocar cada homem no lugar que lhe cabe e, se erram alguma vez, reparam o erro com presteza. Por outro lado, nada podia ser mais alheio ao espírito da Comuna do que substituir o sufrágio universal por uma investidura hierárquica. Em geral, as criações históricas completamente novas estão destinadas a ser tomadas como uma reprodução de formas velhas, e mesmo mortas, da vida social, com as quais podem ter certa semelhança. Assim, essa nova Comuna, que vem destruir o poder estatal moderno, foi confundida com uma reprodução das comunas medievais, que precederam imediatamente esse poder estatal e logo lhe serviram de base. O regime comunal foi erroneamente considerado como uma tentativa de fracionar numa federação de pequenos Estados, como sonhavam Montesquieu e os girondinos, aquela unidade das grandes nações que, se em suas origens foi instaurada pela violência, se converteu num poderoso fator da produção social. O antagonismo entre a Comuna e o poder do Estado tem sido apresentado como uma forma exagerada da velha luta contra o excessivo centralismo. Circunstâncias peculiares podem em outros países ter impedido o desenvolvimento clássico da forma burguesa de governo ao modo francês e ter permitido, como na Inglaterra, completar na cidade os grandes órgãos centrais do Estado com assembléias paroquiais (vestries) corrompidas, conselheiros negocistas e ferozes administradores da beneficência e, no campo, com juizes virtualmente hereditários. O regime comunal teria devolvido ao organismo social todas as forças que até então vinham sendo absorvidas pelo Estado parasitário, que se nutre às custas da sociedade e freia seu livre movimento. Bastaria esse fato apenas para dar início à regeneração da França. A burguesia provinciana da França via na Comuna uma tentativa para restaurar o predomínio que ela havia exercido sobre o campo sob Luís Felipe e que, sob Luís Napoleão, fora suplantado pelo suposto predomínio do campo sobre a cidade. Em realidade, o regime comunal colocava os produtores do campo sob a direção ideológica das capitais de seus distritos, oferecendo-lhes, nos operários da cidade, os representantes naturais de seus interesses. A simples existência da Comuna implicava, como algo evidente, um regime de autonomia local, porém já não como contrapeso a um poder estatal, que agora era supérfluo. Só na cabeça de um Bismarck que, quando não está metido em suas intrigas de sangue e de ferro, gosta de voltar à sua antiga ocupação, que tão bem corresponde a seu calibre mental, de colaborador do Kladderadatsch (o Punch de Berlim) só numa cabeça como essa poderia caber o atribuir à Comuna de Paris a aspiração de reproduzir aquela caricatura da organização municipal francesa de 1791, que é a organização municipal da Prússia, onde a administração das cidades fica rebaixada ao papel de simples engrenagem secundária do aparelho policial do Estado prussiano. A Comuna converteu numa realidade essa palavra de ordem das revoluções burguesas, que é um. "governo barato" ao destruir os dois grandes fatores de gastos: o exército permanente e a burocracia do Estado. Sua existência mesma pressupunha a não existência da monarquia que, pelo menos na Europa, é o apoio normal e o disfarce indispensável da dominação de classe. A Comuna dotou a República de uma base de instituições realmente democráticas. Mas nem o "governo barato" nem a "verdadeira República" constituíam sua meta final. Não eram senão seus corolários. A variedade de interpretações a que tem sido submetida a Comuna e a variedade de interesses que a explicam em seu benefício, demonstram que era uma forma política perfeitamente flexível, diferentemente das formas anteriores de governo, todas elas fundamentalmente repressivas. Eis o seu verdadeiro segredo: a Comuna era, essencialmente, um governo da classe operária, fruto da luta da classe produtora contra a classe apropriadora, a forma política afinal descoberta para levar a cabo a emancipação econômica do trabalho. Sem essa última condição, o regime comunal teria sido uma impossibilidade e uma impostura. A dominação política dos produtores é incompatível com a perpetuação de sua escravidão social. A Comuna devia servir de alavanca para extirpar os fundamentos econômicos sobre os quais se apóia a existência das classes e, por conseguinte, a dominação de classe. Uma vez emancipado o trabalho, todo homem se converte em trabalhador, e o trabalho produtivo deixa de ser um atributo de classe. É um fato estranho. Apesar de tudo o que se falou e se escreveu, com tamanha profusão, durante os últimos sessenta anos, a respeito da emancipação do trabalho, mal os operários, não importa onde, tomam o problema em suas mãos, volta de logo a ressoar toda a fraseologia apologética dos porta-vozes da sociedade atual, com os seus dois pólos, o capital e a escravidão assalariada (hoje, o latifundiário não é mais do que o sócio comanditário do capitalista), como se a sociedade capitalista se achasse ainda em seu mais puro estado de inocência virginal, com seus antagonismos ainda em germe, com suas ilusões ainda encobertas, com suas prostituídas realidades ainda não desnudadas. A Comuna - exclamam - pretende abolir a propriedade, base de toda civilização! Sim, cavalheiros, a Comuna pretendia abolir essa propriedade de classe que converte o trabalho de muitos na riqueza de uns poucos. A Comuna aspirava à expropriação dos expropriadores. Queria fazer da propriedade individual uma realidade, transformando os meios de produção, a terra e o capital, que hoje são fundamentalmente meios de escravização e exploração do trabalho, em simples instrumentos de trabalho livre e associado. Mas isso é o comunismo, o "irrealizável" comunismo! Contudo, os indivíduos das classes dominantes bastante inteligentes para perceber a impossibilidade de perpetuar o sistema atual - e não são poucos erigiram-se nos apóstolos enfadonhos e prolixos da produção cooperativa. Se a produção cooperativa for algo mais que urna impostura e um ardil; se há de substituir o sistema capitalista; se as sociedades cooperativas unidas regularem a produção nacional segundo um plano comum, tomando-a sob seu controle e pondo fim à anarquia constante e às convulsões periódicas, conseqüências inevitáveis da produção capitalista - que será isso, cavalheiros, senão comunismo, comunismo "realizável"? A classe operária não esperava da Comuna nenhum milagre. Os operários não têm nenhuma utopia já pronta para introduzir "por decreto popular". Sabem que para conseguir sua própria emancipação, e com ela essa forma superior de vida para a qual tende irresistivelmente a sociedade atual, por seu próprio desenvolvimento econômico, terão que enfrentar longas lutas, toda uma série de processos históricos que transformarão as circunstâncias e os homens. Eles não têm que realizar nenhum ideal, mas simplesmente libertar os elementos da nova sociedade que a velha sociedade burguesa agonizante traz em seu seio. Plenamente consciente de sua missão histórica e heroicamente decidida a atuar de acordo com ela, a classe operária pode sorrir diante das grosseiras invectivas dos lacaios da pena e do patronato recheado de doutrinas burguesas de beneficência, que derramam suas ignorantes vulgaridades e suas fantasias sectárias com uni tom sibilino de infalibilidade científica. Quando a Comuna de Paris tomou em suas próprias mãos a direção da revolução; quando, pela primeira vez na história, os simples operários se atreveram a violar o monopólio de governo de seus "superiores naturais" e, em circunstâncias extraordinariamente difíceis, realizaram seu trabalho de modo modesto, consciente e eficaz, com salários o mais alto dos quais representava uma quinta parte da soma que, segundo uma alta autoridade científica, é o vencimento mínimo do secretário de um conselho escolar de Londres, o velho mundo contorceu-se em convulsões de raiva ante o espetáculo da Bandeira Vermelha, símbolo da República do Trabalho, ondeando sobre o Hôtel de Ville. No entanto, era essa a primeira revolução em que a classe operária foi abertamente reconhecida como a única classe capaz de iniciativa social, inclusive pela grande massa da classe média parisiense - lojistas, artesãos, comerciantes com a única exceção dos capitalistas ricos. A Comuna os salvou, mediante uma sagaz solução da permanente fonte de discórdias dentro da própria classe média: o conflito entre credores e devedores. Esses mesmos elementos da classe média, depois de haver colaborado no esmagamento da insurreição operária de junho de 1848, foram sacrificados sem cerimônia aos seus credores pela Assembléia Constituinte de então. Mas não foi esse o único motivo que os levou a cerrar fileiras em torno da classe operária. Sentiam que tinham de escolher entre a Comuna e o Império, qualquer que fosse o rótulo sob o qual este ressuscitasse. O Império arruinara-os economicamente, com sua dilapidação da riqueza pública, com a escroquerie financeira que fomentou e com o apoio prestado à centralização artificialmente acelerada do capital, que pressupunha a expropriação de muitos dos seus componentes. Suprimira-os politicamente e os escandalizara moralmente com suas orgias; insultara o seu voltarianismo ao entregar a educação de seus filhos aos frades ignorantes, e sublevara seu sentimento nacional de franceses ao lançá-los precipitadamente a uma guerra que só ofereceu uma compensação para os desastres causados: a queda do Império. Com efeito, logo que a alta "boemia" bonapartista e capitalista fugiu de Paris, o autêntico partido da ordem da classe média surgiu sob a forma de "União Republicana", colocou-se sob a bandeira da Comuna e pôs-se a defendê-la contra as desfigurações premeditadas de Thiers. Só o tempo dirá se a gratidão dessa grande massa da classe média resistirá às duras provas atuais. A Comuna tinha toda razão quando dizia aos camponeses: "Nossa vitória é a vossa única esperança." De todas as mentiras incubadas em Versalhes e difundidas pelos ilustres mercenários da imprensa européia, uma das mais tremendas era a de que os "rurais" representavam o campesinato francês. Imaginai o amor que sentiriam os. camponeses da França pelos homens a quem, depois de 1815, foram obrigados a pagar um bilhão de indenização! Aos olhos do camponês da França, a simples existência de grandes latifundiários já é uma usurpação de suas conquistas de 1789. Em 1848 a burguesia gravou seu lote de terra com o imposto adicional de 45 cêntimos por franco, mas então o fazia em nome da revolução. Enquanto que agora fomentava uma guerra civil contra a revolução, para lançar sobre os ombros dos camponeses a carga principal dos cinco bilhões de indenização que devia pagar aos prussianos. De outro lado, a Comuna declarava, em uma de suas primeiras proclamações, que as despesas da guerra deviam ser pagas pelos seus verdadeiros responsáveis. A Comuna teria redimido o camponês da contribuição de sangue, ter-lhe-ia dado um governo barato, teria convertido aos que hoje são seus vampiros - o tabelião, o advogado, o coletor e outros dignitários judiciais que lhe sugam o sangue - em empregados comunais assalariados, eleitos por ele e responsáveis ante ele. Tê-lo-ia libertado da tirania do guarda florestal, do gendarme e do prefeito; o ensino pelo mestre escolar teria substituído o embrutecimento pelo cura. E o camponês francês é, antes de tudo, um homem que calcula. Ele consideraria extremamente razoável que o pagamento do padre, em vez de ser arrancado dele pelo cobrador de impostos, dependesse exclusivamente dos sentimentos religiosos dos paroquianos. Tais eram os grandes benefícios que o regime da Comuna - e só ele - oferecia como coisa imediata aos camponeses da França. Seria supérfluo, portanto, fazer aqui um exame detido dos problemas mais complexos, mais vitais, que só a Comuna era capaz de resolver - e que, ao mesmo tempo, estava obrigada a resolver - em favor dos camponeses, a saber: a dívida hipotecária, que pesava como uma maldição sobre seu pedaço de terra; o proletariado do campo, que crescia constantemente, e o processo de sua expropriação da terra que cultivava, processo cada vez mais acelerado em virtude do desenvolvimento da agricultura moderna e a concorrência da produção agrícola capitalista. O camponês francês elegeu Luís Bonaparte presidente da República, mas o partido da ordem criou o Império. O que o camponês francês queria realmente, começou ele mesmo a demonstrar em 1849 e 1850, ao opor o seu alcaide ao prefeito do governo, seu mestre escolar ao padre do governo e sua própria pessoa ao gendarme do governo. Todas as leis promulgadas pelo partido da ordem em janeiro e fevereiro de 1850 foram descaradas medidas de repressão contra o camponês. O camponês era bonapartista porque a grande revolução, com todos os benefícios que ele havia conquistado, se personificava para ele em Napoleão. Mas essa quimera, que se ia esfumando rapidamente sob o Segundo Império (e que era, por natureza, contrária aos "rurais"), esse preconceito do passado, como teria resistido ele ao apelo da Comuna aos interesses vitais e às necessidades mais prementes dos camponeses? Os "rurais" - tal era, em realidade, a sua principal preocupação - sabiam que três meses de livre contato de Paris da Comuna com as províncias bastariam para desencadear uma sublevação geral de camponeses; daí sua pressa em estabelecer o bloqueio policial de Paris para Impedir que a epidemia se propagasse. A Comuna era, pois, a verdadeira representação de todos os elementos sãos da sociedade francesa e, portanto, o governo nacional autêntico. Mas, ao mesmo tempo, como governo operário e campeão intrépido da emancipação do trabalho, era um governo internacional no pleno sentido da palavra. Ante os olhos do exército prussiano, que havia anexado à Alemanha duas províncias francesas, a Comuna anexou à França os operários do mundo inteiro. O Segundo Império fora o jubileu da trapaça cosmopolita: os escroques de todos os países atenderam pressurosos ao seu apelo para participar em suas orgias e na pilhagem do povo francês. E ainda hoje o braço direito de Thiers é Ganesco, o velhaco abjeto, e seu braço esquerdo Markovski, o espião russo. A Comuna concedeu a todos os estrangeiros a honra de morrer por uma causa imortal. Entre a guerra exterior, perdida por sua traição, e a guerra civil, fomentada por sua conspiração com o invasor estrangeiro, a burguesia achava tempo para dar provas de patriotismo, organizando batidas policiais contra os alemães residentes na França. A Comuna nomeou um operário alemão seu ministro do Trabalho. Thiers, a burguesia, o Segundo Império haviam enganado constantemente a Polônia com aparatosas manifestações de simpatia, quando em realidade a atraiçoavam aos interesses da Rússia, aos quais prestavam os serviços mais vis. A Comuna honrou os heróicos filhos da Polônia, colocando-os à frente dos defensores de Paris. E, para marcar nitidamente a nova era histórica que conscientemente inaugurava, a Comuna, ante os olhos dos conquistadores prussianos, de um lado, e do exército bonapartista comandado por generais bonapartistas, de outro, jogou por terra aquele símbolo gigantesco da glória guerreira que era a Coluna de Vendôme. A grande medida social da Comuna foi a sua própria existência, o seu trabalho. Suas medidas concretas não podiam senão expressar a linha de conduta de um governo do povo pelo povo. Entre elas figuram a abolição do trabalho noturno para os padeiros e a proibição penal da prática corrente entre os patrões de reduzir os salários impondo a seus operários, sob os mais diversos pretextos, processo esse no qual o patronato reúne as funções de legislador, juiz e agente executivo e, além disso, embolsa o dinheiro. Outra medida desse gênero foi a entrega às organizações operárias, sob reserva de domínio, de todas as oficinas e fábricas fechadas, tanto no caso de os patrões terem fugido, como no caso de terem preferido suspender o trabalho. As medidas financeiras da Comuna, notáveis por sua habilidade e moderação, tiveram de limitar-se necessariamente ao que era compatível com a situação de uma cidade sitiada. Tendo em conta o latrocínio gigantesco desencadeado sobre a cidade de Paris pelas grandes empresas financeiras e os empreiteiros de obras sob a tutela de Haussmann, a Comuna teria tido motivos incomparavelmente melhores para confiscar seus bens do que Luis Bonaparte para confiscar os da família de Orléans. Os Hohenzollern e os oligarcas ingleses, boa parte de cujos bens provinha do saque da Igreja, ficaram naturalmente escandalizados quando a Comuna recolheu apenas 8 mil míseros francos da secularização. Enquanto o governo de Versalhes, assim que readquiriu um pouco de ânimo e de forças, empregava contra a Comuna as medidas mais violentas; enquanto afogava a livre manifestação do pensamento por toda a França, até ao ponto de proibir as assembléias de delegados das grandes cidades; enquanto submetia Versalhes e o resto da França a uma espionagem que deixava nos cueiros o Segundo Império; enquanto queimava por meio de seus gendarmes inquisidores todos os jornais publicados em Paris e violava toda a correspondência que procedia da capital ou partia dela; enquanto na Assembléia Nacional as mais tímidas tentativas de aventurar uma palavra em favor de Paris eram esmagadas com alaridos que não se ouvia nem mesmo da Chambre introuvable de 1816; com a guerra selvagem dos versalheses fora de Paris e suas tentativas de corrupção e conspiração, poderia a Comuna, sem trair ignominiosamente sua causa, conservar todas as formas e aparências de liberalismo, como se governasse em tempos de tranqüila paz? Se o governo da Comuna se assemelhasse ao de M. Thiers, não teria havido mais razões para suprimir em Paris os jornais do partido da ordem do que para suprimir em Versalhes os jornais da Comuna. Era verdadeiramente irritante para os "rurais" que a incrédula Comuna revelasse os segredos do convento de Picpus e da igreja de Saint-Laurent, precisamente no instante em que eles preconizavam o retorno ao seio da Igreja como o único meio de salvar a França. E era uma zombaria para M. Thiers que a Comuna destituísse e prendesse os seus generais à menor suspeita de negligência no cumprimento do dever, quando ele fazia chover grandes cruzes sobre os generais bonapartistas como prêmio por sua mestria ria arte de perder batalhas, assinalar capitulações e fumar bons cigarros em Wilhelmshöhe. A expulsão de seu seio e. a detenção pela Comuna de um dos seus membros, que se havia infiltrado nela sob nome suposto e que, em Lyon, fora preso durante seis dias por uma simples falência, não era isso porventura um deliberado insulto ao falsário Jules Favre, então ainda ministro do Exterior da França e que continuava vendendo o seu país a Bismarck e dando ordens àquele incomparável governo da Bélgica? A verdade é que a Comuna não pretendia possuir o dom da infalibilidade, que se atribuíam sem exceção todos os governos do velho tipo. Em todas as revoluções, ao lado dos verdadeiros revolucionários, aparecem homens de outra têmpera. Alguns deles, sobreviventes de revoluções passadas, que conservam sua devoção por ela, sem visão do movimento atual, porém donos ainda de sua influência sobre o povo, por sua reconhecida honradez e valentia, ou simplesmente por força da tradição; outros são simples charlatães que, em virtude de repetir ano após ano as mesmas objurgatórias estereotipadas contra o governo do dia, conseguiram fazer-se passar por revolucionários de pura cepa. Também após o 18 de março vieram à tona homens desse tipo, que em alguns casos conseguiram desempenhar papéis preeminentes. Na medida em que seu poder o permitia, dificultaram a verdadeira ação da classe operária, do mesmo modo que outros de sua espécie haviam obstado o pleno desenvolvimento de todas as revoluções anteriores. Constituem um mal inevitável; com o tempo são afastados; mas a Comuna não pôde dispor desse tempo. Que maravilhosa foi, na verdade, a mudança operada pela Comuna em Paris! Daquela Paris prostituída pelo Segundo Império nada mais restava. Paris já não era o rendez-vous de latifundiários ingleses, dos absenteístas irlandeses, antigos escravistas e mercenários norte-americanos, ex-proprietários russos de servos e boiardos de Valaquia. Já não havia cadáveres no necrotério, nem assaltos noturnos, nem simples furtos. Pela primeira vez desde os dias de fevereiro de 1848, podia-se andar com segurança pelas ruas de Paris, e isso sem que existisse polícia de nenhuma espécie. "Já não se ouve falar - dizia um membro da Comuna - de assassinatos, roubos e agressões. Dir-se-ia que a polícia levou consigo para Versalhes todos os seus amigos conservadores". As meretrizes haviam encontrado o rastro de seus protetores, fugitivos homens da família, da religião e, sobretudo, da propriedade. Em seu lugar, voltavam a aparecer as autênticas mulheres de Paris, heróicas, nobres e abnegadas como as mulheres da antigüidade. Paris trabalhava e pensava, lutava e dava o seu sangue; radiante no entusiasmo de sua iniciativa histórica, dedicada a forjar uma sociedade nova, quase se esquecia dos canibais que tinha às suas portas. Frente a esse mundo novo de Paris estava o mundo velho de Versalhes - aquela assembléia de legitimistas e orleanistas, vampiros de todos os regimes mortos, ávidos de nutrir-se dos despojos da nação, com o seu rabo de republicanos antediluvianos, que sancionavam com sua presença na Assembléia o motim dos escravistas, confiando a manutenção de sua República parlamentar à vaidade do senil saltimbanco que a presidia e caricaturando a revolução de 1789 com suas reuniões de espectros no "Jeu de Paume". Assim era essa assembléia, representação de tudo o que havia de morto na França, só mantida com uma aparência de vida graças aos sabres dos generais de Luís Bonaparte. Paris toda verdade, Versalhes toda mentira, e uma mentira exalada da boca de Thiers. "Dou-lhes a minha palavra, a que jamais faltei", disse Thiers a uma comissão de alcaides do departamento de Seine-et-Oise. Na Assembléia Nacional afirmou que "é a Assembléia mais livremente eleita e mais liberal que já existiu na França". Disse à sua colorida soldadesca que é "a admiração do mundo e o melhor exército que a França já possuiu". Disse às províncias que o bombardeio de Paris, que ele realizou, é um mito: "se foram feitos alguns tiros de canhão, não foi pelo exército de Versalhes, mas por alguns insurrectos, para fazer crer que lutam, quando de fato não se atrevem a aparecer". Pouco depois disse às províncias que a artilharia de Versalhes não bombardeia Paris, mas simplesmente a canhoneia". Declarou ao arcebispo de Paris que as pretensas execuções e represálias (!) atribuídas às tropas de Versalhes não passam de uma mentira. Afirmou a Paris que só anseia libertar-vos dos horríveis tiranos que vos oprimem" e que Paris da Comuna não é, em realidade, "mais que um punhado de criminosos". Paris de M. Thiers não era a verdadeira Paris da "vil multidão", mas uma Paris fantasma, a Paris dos "fugitivos", a Paris masculina e feminina dos bulevares, a Paris rica, capitalista; a Paris dourada, a Paris ociosa, que agora corria em tropel para Versalhes, Saint-Denis, Rueil e Saint-Germain, com seus lacaios, seus escroques, sua boemia literária e suas meretrizes. A Paris para a qual a guerra civil não era senão um divertido passatempo, a que acompanhava as batalhas por meio de binóculos, contando os tiros de canhão e jurando por sua própria honra e a de suas prostitutas que aquele espetáculo era muito melhor do que os que representavam em Porte-Saint-Martin. Ali, os que caíam eram mortos de verdade, os gritos dos feridos eram verdadeiros também e, além do mais, tudo era tão intensamente histórico! Essa era a Paris de M. Thiers, da mesma forma que o mundo dos emigrados de Coblença era a França do senhor Calonne. IVA primeira tentativa da conspiração dos escravistas para subjugar Paris e conseguir sua ocupação pelos prussianos fracassou diante da negativa de Bismarck. A segunda tentativa, a de 18 de março, terminou com a derrota do exército e a fuga do governo para Versalhes, ordenando a todo o aparelho administrativo que abandonasse seus postos e o acompanhasse na fuga. Mediante a simulação de negociações com Paris, Thiers ganhou tempo para preparar a guerra contra ela. Mas, onde conseguir um exército? Os restos de regimentos de linha eram escassos em número e inseguros quanto à moral. Seu desesperado apelo às províncias para que viessem em ajuda a Versalhes com suas guardas nacionais e seus voluntários foi rechaçado por completo. Só a Bretanha: mandou alguns chouans que combatiam sob uma bandeira branca, com um coração de Jesus em pano branco sobre o peito a reunir a toda pressa uma malta variada, composta por marinheiros, soldados de infantaria naval, zuavos pontifícios, gendarmes de Valentin e guardas municipais e espiões de Piétri. Mas esse exército teria sido ridiculamente ineficaz sem a incorporação dos prisioneiros de guerra Imperiais que Bismarck foi entregando parceladamente em quantidade que bastasse para manter viva a guerra civil e conservar o governo de Versalhes em abjeta dependência com relação à Prússia. Durante a própria guerra a polícia de Versalhes tinha que vigiar o exército versalhês, enquanto os gendarmes eram obrigados a arrastá-los à luta, colocando-se sempre nos postos de perigo. Os fortes que caíram não foram conquistados, mas comprados. O heroísmo dos federais convenceu Thiers de que para vencer a resistência de Paris não bastavam o seu gênio estratégico nem as baionetas de que dispunha. Enquanto Isso, suas relações com as províncias tornavam-se cada vez mais difíceis. Não chegava uma só mensagem de adesão para estimular Tires e os "rurais". Muito ao contrário, de toda parte chegavam delegações e mensagens pedindo, num tom que tinha de tudo menos de respeitoso, a reconciliação com Paris sobre a base do reconhecimento inequívoco da República, das liberdades comunais e da dissolução da Assembléia Nacional, cujo mandato já expirara. Essas mensagens afluíam em tal número que em sua circular de 23 de abril aos procuradores, Dufaure, ministro da Justiça de Thiers, dava-lhes ordem para considerar como um crime o "apelo à conciliação". Apesar disso, em face das perspectivas desesperadas que se abriam ante sua campanha militar, Thiers decidiu mudar de tática, ordenando que a 30 de abril se realizassem eleições municipais em todo o país, sobre a base da nova lei municipal ditada por ele mesmo à Assembléia Nacional. Utilizando, segundo os casos, as intrigas de seus prefeitos e a intimidação policial, estava seguro de que o resultado da votação nas províncias lhe permitiria ungir a Assembléia Nacional com aquele poder moral que jamais tivera, e obter afinal das províncias a força material de que necessitava para a conquista de Paris. Thiers preocupou-se desde o primeiro momento em combinar sua guerra de bandidos contra Paris - glorificada em seus próprios boletins, - e as tentativas de seus ministros para instaurar de um extremo a outro da França o reinado do terror, com uma pequena comédia de conciliação, que deveria servir-lhe para mais de uma finalidade. Tratava-se com isso de enganar as províncias, de seduzir a classe média de Paris e, sobretudo, de oferecer aos pretensos republicanos da Assembléia Nacional a oportunidade de esconder sua traição contra Paris por trás de sua fé em Thiers. No dia 21 de março, quando ainda não contava com um exército, Thiers declarava diante da Assembléia: "Haja o que houver, jamais enviarei tropas contra Paris". A 27 de março, interveio mais uma vez para declarar: "Deparei-me com a República como um fato consumado e estou disposto firmemente a mantê-la". Em verdade, em Lyon e Marselha (44) esmagou a revolução em nome da República, enquanto em Versalhes os uivos de seus "rurais" abafavam a simples referência ao seu nome. Depois dessa façanha, rebaixou o "fato consumado" à categoria de fato hipotético. Os príncipes de Orleans, que Thiers havia afastado de Bordéus por precaução, podiam agora fazer intrigas em Dreux, o que constituía flagrante violação da lei. As concessões prometidas por Thiers, em suas intermináveis conversações com os delegados de Paris e das províncias, embora variassem constantemente de tom e de cor, segundo o tempo e as circunstâncias, reduziam-se sempre, no fundo, à promessa de que sua vingança se limitaria ao "grupo de criminosos envolvidos nos assassinatos de Lecomte e Clément Thomas"; bem entendido, sob a condição de que Paris e a França aceitassem sem reservas o senhor Thiers como a melhor das Repúblicas possíveis, como ele havia feito em 1830 com Luís Felipe. Mesmo essas concessões, tinham o cuidado de pô-las em dúvida através dos comentários oficiais que fazia por intermédio de seus ministros na Assembléia Nacional. E havia Dufaure para agir. Dufaure, velho advogado orleanista, fora o poder judiciário supremo de todos os estados de sítio, tanto agora, em 1871, sob Thiers, como em 1839, sob Luís Felipe, e em 1849, sob a presidência de Luís Bonaparte. No período em que esteve fora do ministério, reunira uma fortuna defendendo os pleitos dos capitalistas de Paris e acumulara capital político demandando contra leis contra ele mesmo elaboradas. Agora, não contente em fazer com que a Assembléia Nacional votasse a toda pressa uma série de leis repressivas que, depois da queda de Paris, haveriam de servir para extirpar os últimos vestígios das liberdades republicanas na França, traçou de antemão o destino que Paris teria de percorrer, ao abreviar as tramitações dos tribunais de guerra, que ainda lhe pareciam demasiado lentos, e ao apresentar uma nova lei draconiana de deportação. A revolução de 1848, ao abolir a pena de morte para os delitos políticos, substituiu-a pela deportação. Luís Bonaparte não se atreveu, pelo menos em teoria, a restabelecer o regime da guilhotina. E a Assembléia dos "rurais", que ainda não ousava nem insinuar que os parisienses não eram rebeldes, mas assassinos, não teve outro remédio senão limitar-se, na vingança que preparava contra Paris, à nova lei de deportação de Dufaure. Sob todas essas circunstâncias, Thiers não teria podido continuar representando sua comédia de conciliação, se essa comédia não houvesse arrancado, como ele próprio queria, gritos de raiva entre os "rurais", cujas cabeças ruminantes não podiam compreender a farsa, nem tudo o que à farsa exigia em hipocrisia, tergiversação e dilações. Em face da iminência das eleições municipais de 30 de abril, no dia 27 Thiers representou urna de suas grandes cenas conciliatórias. Em meio a unia torrente de retórica sentimental, exclamou da tribuna da Assembléia: "A única conspiração existente contra a Republica é a de Paris, que nos obriga a derramar o sangue francês. Não me cansarei de repetir: que aquelas mãos soltem as armas infames que empunham e o castigo se deterá imediatamente por um ato de paz do qual só um pequeno número de criminosos ficará excluído " E como os "rurais" o interrompessem violentamente, replicou: "Dizei-me, senhores, vos suplico, se estou errado. Deplorais realmente que eu diga aqui serem uns criminosos um pequeno grupo? Não é uma felicidade em meio às nossas desgraças, que os homens capazes de verter o sangue de Clément Thomas e do general Lecointe não seriam mais que umas poucas exceções?" Contudo, a França fez-se muda àqueles discursos que Thiers acreditava serem um canto de sereia parlamentar. Dos 700 mil conselheiros municipais eleitos nos 25 mil municípios que a França ainda conservava. os legitimistas, orleanistas e bonapartistas coligados não obtiveram senão 8 mil. As diferentes votações suplementares trouxeram resultados ainda mais hostis. Desse modo, em lugar de obter das províncias a força material de que tanto necessitava, a Assembléia perdia até o seu último título de força moral: o de ser expressão do sufrágio universal da nação. Para arrematar a derrota, os ajuntamentos recém-eleitos ameaçaram abertamente a Assembléia usurpadora de Versalhes com a convocação de uma contra-Assembléia em Bordéus. Chegara afinal para Bismarck o tão esperado momento de lançar-se à ação decisiva. Ordenou peremptoriamente a Thiers que enviasse a Francort plenipotenciários para assinar definitivamente a paz. Obedecendo com humildade ao chamado do seu senhor, Thiers se apressou a enviar seu fiel Jules Favre, assistido por Poyer-Quertier. Poyer-Quertier, "eminente" fiandeiro de algodão de Rouen, fervoroso e até servil partidário do Segundo Império, jamais havia descoberto neste nenhuma falha, exceto o tratado comercial com a Inglaterra, prejudicial ao seu próprio negocio. Mal se instalara em Bordéus, como ministro da Fazenda de Thiers, denunciou esse "nefasto" tratado, sugeriu sua imediata revogação e teve até o descaramento de tentar, embora em vão (não levou em conta Bismarck em seus cálculos) o pronto restabelecimento das antigas tarifas protecionistas contra a Alsácia, onde, segundo ele, não existia o obstáculo de nenhum tratado internacional anterior. Esse homem, que via na contra-revolução um meio de rebaixar os salários em Rouen, e na entrega à Prússia das províncias francesas um meio para majorar os preços de seus artigos na França - não era esse homem predestinado para ser escolhido por Thiers, em sua última e fulminante traição, como digno auxiliar de Jules Favre? À chegada a Francfort dessa magnífica parelha de plenipotenciários, o brutal Bismarck os recebeu com este dilema categórico: "Ou a restauração do Império ou a aceitação sem reservas de minhas condições de paz!" Entre essas condições figura a de reduzir os prazos para o pagamento da indenização de guerra e a prorrogação da ocupação dos fortes de Paris pelas tropas prussianas enquanto Bismarck não estivesse satisfeito com o estado de coisas reinante na França. Dessa maneira, era a Prússia reconhecida como o árbitro supremo da política interna francesa. Em troca disso, oferecia libertar, para que exterminasse Paris, o exército bonapartista que mantinha prisioneiro e prestar-lhe o apoio direto das tropas do imperador Guilherme. Como penhor de sua boa fé, acedia em que o pagamento da primeira parte da indenização fosse subordinado à "pacificação" de Paris. É desnecessário dizer que Thiers e seus plenipotenciários lançaram-se avidamente sobre esse prato. O tratado de paz foi por eles firmado a 10 de maio, sendo ratificado pela Assembléia de Versalhes a 18 do mesmo mês. No intervalo entre a conclusão da paz e a chegada das tropas bonapartistas, Thiers se acreditou obrigado a retomar sua comédia de conciliação, tanto mais porque os republicanos, seus instrumentos, estavam necessitando desesperadamente de um pretexto que lhes permitisse fechar os olhos aos preparativos da carnificina de Paris. Ainda a 8 de maio respondia a uma comissão de conciliadores pequeno-burgueses: "Logo que os insurrectos se decidam a capitular, as .portas de Paris se abrirão de par em par, durante uma semana, para todos, com a única exceção dos assassinos dos generais Clément Thomas e Lecomte". Poucos dias depois, interpelado energicamente pelos "rurais" acerca dessas promessas, negou-se a dar qualquer espécie de explicação, mas sem deixar de fazer esta alusão significativa: "Digo-vos que há entre vós homens impacientes, pessoas que têm demasiada pressa. Aguardai- oito dias, ao fim dos quais o perigo terá passado e a tarefa estará à altura de vossa valentia e capacidade." Assim que Mac-Mahon pôde garantir-lhe que dentro em pouco poderia entrar em Paris, Thiers declarou à Assembléia que "entraria em Paris com a lei na mão e exigiria uma punição completa para os miseráveis que haviam sacrificado vidas de soldados e destruído monumentos públicos". Ao aproximar-se o momento decisivo, disse à Assembléia: "Serei implacável! "; a Paris, que ela estava condenada; e a seus bandidos bonapartistas, que tinham carta branca para vingar-se de Paris como bem entendessem. Por último, quando, a 21 de maio, a traição abriu as portas da cidade para o general Douay, Thiers pôde revelar, no dia 22, aos "rurais", o "objetivo" de sua comédia de reconciliação, que tanto se haviam obstinado em não compreender: "Disse-vos há poucos dias que nos estávamos aproximando de nossos objetivos; hoje, venho dizer-vos que o objetivo foi alcançado. O triunfo da ordem, da justiça e da civilização foi conseguido por fim !" Assim era. A civilização e a justiça da ordem burguesa aparecem em todo o seu sinistro esplendor onde quer que os escravos e os párias dessa ordem ousem rebelar-se contra os seus senhores. Em tais momentos, essa civilização e essa justiça mostram o que são: selvageria sem máscara e vingança sem lei. Cada nova crise que se produz na luta de classes entre os produtores e os apropriadores faz ressaltar esse fato com maior clareza. Mesmo as atrocidades cometidas pela burguesia em junho de 1848 empalidecem diante da infâmia indescritível de 1871. O heroísmo abnegado com que a população - homens, mulheres e crianças - lutou durante oito dias desde a entrada dos versalheses na cidade reflete a grandeza de sua causa, do mesmo modo que as façanhas Infernais da soldadesca refletem o espírito inato dessa civilização da qual é ela o braço vingador e mercenário. Gloriosa civilização essa, cujo grande problema consiste em saber como desprender-se dos montões de cadáveres feitos por ela, depois de cessada a batalha! Para encontrar um paralelo com a conduta de Thiers e seus cães de fila é necessário remontar aos tempos de Sua e dos triunviratos romanos. As mesmas matanças em massa a sangue frio; o mesmo desdém, na matança, pela idade e o sexo; o mesmo sistema de torturar os prisioneiros, as mesmas proscrições, mas agora de toda uma classe; a mesma caça selvagem dos chefes na clandestinidade, a fim de que nenhum escape; as mesmas delações de inimigos políticos e pessoais; a mesma indiferença diante do massacre de pessoas alheias à luta. Não há senão uma diferença: os romanos não dispunham de metralhadoras para despachar em massa os proscritos e não agiam "com a lei na mão" nem com o brado de "civilização" nos lábios. Após esses horrores, voltemos as vistas para outra face, ainda mais repugnante, dessa civilização burguesa, tal como sua própria imprensa a descreve: "Enquanto ao longe - escreve o correspondente parisiense de um jornal conservador de Londres - ouvem-se disparos esparsos e entre as tumbas do cemitério de Père-Lachaise agonizam infelizes feridos abandonados; enquanto 6 mil insurretos aterrados vagam numa agonia de desespero no labirinto das catacumbas e pelas ruas se vêem ainda infelizes arrastados para ser abatidos pelas metralhadoras, torna-se revoltante ver os cafés cheios de devotos do absinto, do bilhar e do dominó, ver como as mulheres viciadas circulam pelos bulevares e ouvir como o estrépito das bacanais nos reservados dos restaurante ricos turvam o silêncio da noite." O senhor Edouard Hervé escreve no Journal de Paris, diário de Versalhes suprimido pela Comuna: "O modo como a população de Paris (!) manifestou ontem sua satisfação era mais do que frívolo, e tememos que isso se agrave com o tempo. Paris apresenta agora o ar de um dia de festas, lamentavelmente pouco adequado. Se não quisermos que nos chamem de "parisienses da decadência" deveremos pôr fim a tal estado de coisas." E, em continuação, cita a passagem de Tácito: "Entretanto, na manhã seguinte daquela horrível batalha e mesmo antes de terminar, Roma, degradada e corrompida, começou a chafurdar-se de tal modo na lama da voluptuosidade que destruía o seu corpo e manchava a sua alma: alibi proelia et vulnera, alibi balnea popinaeque (aqui, combates e feridas; ali, balneários e festins)." O senhor Hervé só se esquece de esclarecer que a "população de Paris" de que ele fala é, exclusivamente, a população de Paris do senhor Thiers: os franc-fileurs que voltavam em tropel de Versalhes, SaintDenis, Rueil e Saint-Germain, a Paris "da decadência". Em cada um de seus triunfos sangrentos sobre os abnegados paladinos de uma sociedade nova e melhor, essa infame civilização, baseada na escravização do trabalho, afoga os gemidos de suas vítimas num clamor selvagem de calúnias, que encontram eco em todo o mundo. Os cães de fila da "ordem" logo transformam em um inferno a serena Paris operária da Comuna. E que demonstra essa tremenda mudança nas mentes burguesas de todos os países? Demonstra, simplesmente, que a Comuna se amotinou contra a civilização. O povo de Paris, cheio de entusiasmo, morre pela Comuna em quantidade não igualada por nenhuma batalha da história. Que demonstra isso? Demonstra, simplesmente, que a Comuna não era o governo próprio do povo, mas a usurpação do poder por um grupo de criminosos. As mulheres de Paris dão alegremente as suas vidas nas barricadas e diante dos pelotões de fuzilamento. Que demonstra isso? Demonstra, simplesmente, que o demônio da Comuna converteu-se em Megeras e Hécates. A moderação da Comuna durante os dois meses de seu domínio indisputado só se iguala ao heroísmo da sua defesa. Que demonstra isso? Demonstra, simplesmente, que durante vários meses a Comuna ocultou cuidadosamente sob uma máscara de moderação e humanidade a sede de sangue de seus instintos satânicos, para dar-lhe rédea solta no momento de sua agonia. No instante do heróico holocausto de si mesma, Paris operária envolveu em chamas edifícios e monumentos. Quando os escravizadores do proletariado esquartejam seu corpo vivo, não devem abrigar a esperança de retornar em triunfo aos muros intactos de suas casas. O governo de Versalhes brada: "Incendiários!" e sussurra essa palavra de ordem a todos os seus agentes, mesmo na aldeia mais remota, para que acossem os seus inimigos, por toda parte, como incendiários profissionais. A burguesia do mundo inteiro, que assiste com complacência a essa matança em massa depois da luta, treme de horror ante a profanação do ladrilho e do tijolo. Quando os governos dão autorização de Estado aos seus marinheiros para "matar, queimar e destruir", dão ou não carta branca aos incendiários? Quando as tropas britânicas ateiam fogo alegremente no Capitólio de Washington ou no palácio de verão do Imperador da China, são ou não incendiárias? Quando os prussianos, não por motivos militares, mas por mero espírito de vingança, fazem arder com a ajuda do petróleo povoações inteiras como Châteaudun e inúmeras aldeias, são ou não incendiários? Quando Thiers bombardeia Paris durante seis semanas, sob o pretexto de que só quer atingir com o fogo as casas habitadas, é ou não incendiário? Na guerra, o fogo é uma arma tão legítima quanto qualquer outra. Os edifícios ocupados pelo inimigo são bombardeados para incendiá-los. E se os seus defensores se vêem obrigados a evacuá-los, eles próprios os incendeiam para evitar que os atacantes se apoiem neles. Ser pasto das chamas tem sido sempre o destino iniludível dos edifícios que se situam na frente de combate de todos os exércitos regulares do mundo. Mas eis que na guerra dos escravizados contra os escravizadores - a única guerra justificada da história - esse argumento já não é válido, em absoluto! A Comuna serviu-se do fogo pura e exclusivamente como um meio de defesa. Utilizou-o para sustar o avanço das tropas de Versalhes por aquelas avenidas amplas e retas que Haussmann abrira expressamente para o fogo da artilharia; empregou-o para cobrir a retirada, do mesmo modo que os versalheses, ao avançar, empregaram suas granadas que destruíram, pelo menos, tantos edifícios como o fogo da Comuna. Ainda não se sabe ao certo que edifícios foram incendiados pelos defensores e quais o foram pelos atacantes. E os próprios defensores não recorreram ao fogo senão depois que as tropas versalhesas deram início à matança em massa de prisioneiros. Ademais, a Comuna havia anunciado, há muito tempo, que, compelida ao extremo, se enterraria entre as ruínas de Paris e faria desta capital uma segunda Moscou. Coisa que o governo da defesa havia também prometido fazer, claro que só como disfarce para encobrir a sua traição. Trochu preparara o petróleo necessário para essa eventualidade. Sabia a Comuna que aos seus inimigos não importavam as vidas do povo de Paris, mas que em troca lhes importavam muito os edifícios parisienses de sua propriedade. Por outro lado, Thiers já fizera saber que seria implacável em sua vingança. Mal viu de um lado o seu exército em ordem de batalha e, do outro lado, os prussianos fechando a saída, exclamou: "Serei inexorável! O castigo será completo e a justiça severa!" Se os atos dos operários de Paris foram de vandalismo, era o vandalismo da defesa desesperada, não um vandalismo de triunfo, como aquele de que os cristãos deram prova ao destruir os tesouros artísticos, realmente inestimáveis, da antiguidade pagã. Mas inclusive esse vandalismo foi justificado pelos historiadores como um acidente inevitável e relativamente insignificante, em comparação com aquela luta titânica entre uma sociedade nova que surgia e uma sociedade velha que se arruinava. E ainda menos se parecia ao vandalismo de um Haussmann, que arrasou Paris histórica para dar lugar à Paris dos ociosos. Mas, e a execução pela Comuna dos 64 reféns, com o arcebispo de Paris à frente? A burguesia e seu exército restabeleceram em junho de 1848 um costume que havia desaparecido há muito tempo das práticas da guerra: o de fuzilar os prisioneiros indefesos. Desde então, esse costume brutal vem encontrando a adesão mais ou menos estrita de todos os esmagadores de comoções populares na Europa e na Índia, demonstrando com isso que constitui um verdadeiro "progresso da civilização". Por sua vez, os prussianos restabeleceram na França a prática de fazer reféns: pessoas inocentes, a quem se obrigava a responder com suas vidas pelos atos de outros. Quando Thiers, como vimos, pôs em prática, desde o primeiro momento do conflito, o humano costume de fuzilar os federais prisioneiros, a Comuna viu-se forçada a recorrer, para proteger suas vidas, ao hábito prussiano de fazer reféns. Eram réus responsáveis, repetidas vezes, pelos incessantes fuzilamentos de prisioneiros feitos pelos versalheses. Quem poderia continuar garantindo suas vidas após a carnificina com que os pretorianos de Mac-Mahon (45) celebraram sua entrada em Paris? Devia converter-se também numa burla a última garantia - os reféns - contra a desenfreada ferocidade dos governos burgueses? O verdadeiro assassino do arcebispo Bardoy é Thiers. A Comuna propôs reiteradas vezes a troca do arcebispo e de inúmeros sacerdotes por um único prisioneiro, Blanqui, que Thiers mantinha então em suas garras. E Thiers negou-se obstinadamente. Sabia que com Blanqui dava a Comuna uma cabeça e que o arcebispo serviria melhor aos seus fins como um cadáver. Thiers agia aqui segundo o precedente de Cavaignac. Porventura, em junho de 1848, Cavaignac e seus homens da ordem não haviam lançado gritos de horror, estigmatizando os insurretos como assassinos do arcebispo Affre? E eles sabiam perfeitamente que o arcebispo fora fuzilado pelas tropas do partido da ordem. Jacquemet, vigário geral do arcebispo, que assistira à sua execução, informara-o Imediatamente após o ocorrido. Todo esse coro de calúnias que o partido da ordem, em suas orgias de sangue, jamais deixa de levantar contra suas vítimas, demonstra apenas que o burguês dos nossos dias se considera o legítimo herdeiro do antigo senhor feudal, para quem todas as armas eram boas contra os plebeus, enquanto que em mãos destes toda arma constituía por si só um crime. A conspiração da classe dominante para esmagar a revolução por meio de uma guerra civil apoiada no patronato do invasor estrangeiro - conspiração que temos acompanhado desde o 4 de setembro até a entrada dos pretorianos de MacMahon pela porta de Saint-Cloude - culminou na carnificina de Paris. Bismarck deleita-se ante as ruínas de Paris, nas quais viu talvez o primeiro passo daquela destruição geral das grandes cidades que fora seu sonho dourado quando não era senão um simples "rural" na Chambre introuvable prussiana de 1849. Deleita-se diante dos cadáveres do proletariado de Paris. Para ele isso não é somente o extermínio da revolução; é também o aniquilamento da França, que agora fica decapitada de fato, e por obra do próprio governo francês. Com a superficialidade que caracteriza todos os estadistas afortunados, não vê senão o aspecto exterior desse formidável acontecimento histórico. Quando ofereceu a história o espetáculo de um conquistador que coroava seu triunfo convertendo-se, já não no gendarme, mas no sicário do governo vencido? Não havia guerras entre a Prússia e o governo de Paris. Pelo contrário, a Comuna havia concordado com as condições de paz, e a Prússia se declarara neutra. A Prússia, portanto, não era beligerante. Desempenhou o papel de um espadachim; de um espadachim covarde, pois não arrostava nenhum perigo de aluguel, porque se estipulara de antemão que o pagamento de 500 milhões tintos de sangue não seria feito senão depois da queda de Paris. Revelava-se finalmente, desse modo, o verdadeiro caráter da guerra, daquela guerra mandada pela Providência como castigo da Impia e corrompida França pela moral e piedosa Alemanha. E essa violação sem precedente do direito das nações, inclusive na interpretação dos juristas do velho mundo, em vez de levantar os governos "civilizados" da Europa para declarar fora da lei internacional o vil governo prussiano, simples instrumento do governo de S. Petersburgo, leva-os unicamente a perguntar se as poucas vítimas que conseguirem escapar do duplo cordão formado em torno de Paris não deverão ser entregues também ao governo de Versalhes! O fato inédito de que, na mais tremenda guerra dos tempos modernos, o exército vencedor e o exército vencido confraternizem na matança comum do proletariado, não representa, como pensa Bismark, o esmagamento definitivo da nova sociedade que avança, mas o desmoronamento completo da sociedade burguesa. A empresa mais heróica de que é ainda capaz a velha sociedade é a guerra nacional. E fica provado agora que é ela uma pura mistificação dos governos, destinada a retardar a luta de classes, e da qual se prescinde logo que essa luta eclode sob a forma de guerra civil. A dominação de classe já não pode ser disfarçada sob o uniforme nacional; todos os governos nacionais são um só contra o proletariado! Após o domingo de Pentecostes de 1871 já não pode haver paz nem trégua aceitável entre os operários da França e os que se apropriam dos frutos de seu trabalho. O punho de ferro da soldadesca mercenária poderá submeter durante certo tempo essas duas classes, mas a luta voltará a eclodir muitas vezes, em proporções sempre crescentes. Não pede haver dúvida sobre quem será afinal o vencedor: se os poucos que vivem do trabalho alheio ou a imensa maioria que trabalha. E a classe operária francesa não é senão a vanguarda do proletariado moderno. Ao mesmo tempo em que comprovam, assim, diante de Paris, o caráter internacional de sua dominação de classe, os governos da Europa investem contra a Associação Internacional dos Trabalhadores - a contra-organização internacional do trabalho face à conspiração cosmopolita do capital -como a fonte principal de todos esses desastres. Thiers denunciou-a como déspota do trabalho que pretende ser seu libertador. Picard determinou que fossem rompidas todas as ligações entre os internacionais franceses e os do estrangeiro. O conde de Jaubert, uma múmia que foi cúmplice de Thiers em 1835, declara que o extermínio da Internacional é o grande problema de todos os governos civilizados. Os "rufais" urram contra ela, e a imprensa européia adere unanimemente ao coro. Um honrado escritor francês, inteiramente alheio à nossa Associação, exprime-se rios seguintes termos: "Os membros do Comitê Central da Guarda Nacional, assim como a maior parte dos membros da Comuna, são as cabeças mais ativas, inteligentes e enérgicas da Associação Internacional dos Trabalhadores... Homens absolutamente honrados, inteligentes, sinceros, abnegados, puros e fanáticos no bom sentido da palavra." Naturalmente o espírito burguês imbuído de policialismo, encara a Associação Internacional dos Trabalhadores como urna espécie de conspiração secreta com um organismo central que, de quando em vez, ordena explosões em diferentes países. Na realidade, nossa Associação não é mais que a ligação internacional entre os operários mais avançados dos diversos países do mundo civilizado. Onde quer que a luta de classes adquira certa consistência, sejam quais forem as formas e as condições em que o fato aconteça, é lógico que os membros de nossa Associação apareçam na vanguarda. O solo de onde brota a nossa Associação é a própria sociedade moderna. não é possível exterminá-la, por maior que seja a carnificina. Para fazê-lo, os governos teriam que exterminar o despotismo do capital sobre o trabalho, base de sua própria existência parasitária. Paris dos operários, com sua Comuna, será eternamente exaltada como o porta-bandeira glorioso de uma nova sociedade. Seus mártires têm seu santuário no grande coração da classe operária. Quanto a seus exterminadores, a história já os cravou para sempre num pelourinho, do qual todas as preces de seus clérigos não conseguirão redimi-los. Londres, 30 de maio de 1871.
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