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TEXTOS Paulo Eduardo Arantes |
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“Não podemos excluir a hipótese de aniquilação recíproca”, |
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ENTREVISTA DO PROFESSOR PAULO
ARANTES a Danilo Cesar, jornal BRASIL DE FATO, 01 de junho de 2004, São
Paulo.
Paulo Eduardo Arantes é
atualmente um dos poucos intelectuais brasileiros ativos que problematizam as
questões relevantes de nosso tempo buscando não amenizá-las, procurando evitar
qualquer tipo de mistificação mais ou menos deliberada. Apenas para citar
exemplos recentes, foi assim no auge de euforia do governo FHC, quando
destrinchou a debandada a crítica e bem financiada
de grande parte da intelectualidade paulistana para as salas e institutos de
puxa-sacos do tucanato anterior (ver
Diccionario de bolso do Almanaque
Philosophico Zero à Esquerda, Ed. Vozes, 1997);
tem sido assim também ao longo do governo Lula, não menos eufórico inicialmente,
quando apontou em diversas ocasiões que, a despeito de todo o espetáculo festivo
e boa intenção de alguns, o que realmente importava era o fato do governo e sua
corte de ex-sindicalistas diariamente
“beijarem
a cruz”
do capital financeiro internacional, sabendo ou não que efetivamente o fazem
(ver artigo “Beijando
a Cruz” em
www.outrobrasil.net,
2003).
Nesta entrevista proposta por
e-mail, com respostas manuscritas devolvidas dentro de uma embalagem de
pizza delivery, o professor do Departamento
de Filosofia da USP tece mais uma vez, a partir do momento atual da Guerra no
Iraque, uma análise instigante sobre os infinitos excessos de violência que
marcam o estado atual das coisas, e que viraram norma do centro rico às
periferias do globo. Nos seus termos, um
“estado
de guerra permanente”,
“um
mundo orwelliano em que guerra é paz”,
e no qual não podemos desconsiderar, por se tratar de
“pré-história”
em termos materialistas, a possibilidade de
“aniquilação
recíproca”.
Para chegar a tais conclusões, entretanto, além de retomar termo de
Kautsky, superimperialismo,
só que agora com “o
necessário poder desproporcional de um só país”,
não faltaram exemplos mais específicos da generalização. Neste sentido abordou
casos ilustrativos do caráter extra-legal desse novo
poder, onde a “tortura
e outros trabalhos flexíveis”
são a regra, bem como tratou das situações limites da Palestina e dos
homens-bombas espalhados pelo mundo, verdadeiros
“não-sujeitos
descartáveis”
sob a ótica do consumo ilimitado dos consumidores norte-americanos. Além
de passar também pelo pano de fundo comum às vendidas
“diferenças”
entre a doutrina Bush e as
“viúvas
do humanismo militar de Clinton”,
nas quais se inclui o tucanato brasileiro, agora com
“nova
butique”.
Não faltou também alusão ao
“governo
Lula”;
ou melhor, apesar da insistência do entrevistador, preferiu não
“acender
vela para mau defunto”,
não abordar já abordando uma coisa que
“não
existe –
e que a mídia insiste em chamar de governo Lula”.
Enfim, certamente vale a pena
se embrenhar no estilo rebuscado das respostas abaixo, pela sensatez
impressionante, por sua ironia concreta destoante da irracionalidade e violência
banalizadas globalmente.
1. Com o fim da chamada
“guerra
fria”
e com a Primeira Guerra do Golfo (1992), os EUA deixaram claro para o mundo todo
que haviam conquistado poder desproporcional: um verdadeiro império global. De
lá para cá as guerras se multiplicam em todos os continentes (Kosovo,
Colômbia, Afeganistão, Iraque etc) e foram intensificadas depois do 11/09, além
da intensificação das próprias guerras civis internas aos países pobres.
Enquanto o império não for ao menos questionado internacionalmente estamos todos
fadados a viver em guerra generalizada e crescente?
Você disse bem,
“poder
desproporcional”. Se
quisermos entender alguma coisa do atual estado do mundo, devemos começar por
essa desmedida que caracteriza a potência militar americana. Não por
acaso, o José Luis Fiori numa entrevista recente para o Brasil de Fato (ed. 63),
também sublinhou este aspecto, a ausência de limites no exercício desse poder
global inédito na história, como se o uso excessivo da força tivesse se tornado
uma característica das políticas de estado hoje em dia, a começar pelo mais
colossal deles, acrescido do fato neste último caso, que esse poder excessivo
não gera equilíbrio: pode-se destruir um país como o Iraque sem saber muito o
quê fazer depois. Em tempo: se fosse simplesmente por petróleo, bastava
suspender o embargo e tocar os negócios, como sempre. Também não digo que não
seja, e tudo indica que as guerras no futuro serão sobretudo
por recursos – de água a terras agriculturáveis. Mas o que salta aos olhos é a
brutal desproporção entre meios e fins. Não foi nem uma nem duas vezes no
Afeganistão e no Iraque, por exemplo, que uns tiros para o alto numa festa de
casamento provocaram uma retaliação de fogo aéreo que lembram os bombardeios
estratégicos da Segunda Guerra. Na base dessas retaliações desmedidas as guerras
atuais vão apodrecendo, evoluindo invariavelmente para pior. Faz tempo que
vitória militar deixou de significar paz, mesmo em sua acepção negativa de
cessação da violência. No horizonte de tudo isso, a desproporção de que
estou falando, seguindo sua sugestão. E ela não é apenas a expressão de uma
disparidade incomensurável e irreversível no domínio militar. É toda a sociedade
capitalista global que está mergulhada numa verdadeira cultura do excesso,
cujo foco é sem dúvida o poder sem limites do capital vencedor, a assimetria que
ele institui como norma. Há desproporcionalidade em tudo, a começar por uma
guerra total contra uma tática, o terrorismo. Aliás a
atual doutrina americana da guerra é a encarnação mesma dessa desmedida de fundo
de um poder cujo excesso na prepotência se traduz na procura do risco zero, a
guerra sem baixa nas próprias fileiras tendo como contrapartida a morte banal e
em massa de seus inimigos de turno, o que por sua vez
trivializa e generaliza – outra desproporção maior – o recurso a
violência militar. Poderia haver algo mais excessivo do que a declaração de uma
guerra sem fim, sem nenhuma limitação no espaço e no tempo, travada em qualquer
parte do globo e sem prazo para acabar? Maior desproporção
entre meios e fins, repito, do que numa guerra sem objetivo definido
porque tudo tornou-se alvo potencial, fonte de ameaça? Proporcionalidade quer
dizer também senso de medida, razoabilidade. Daí a violência
irracional que o incomensurável e inalcançável poder militar americano vai
semeando pelo mundo, o paradoxo de uma hegemonia produtora de caos. Tanto mais
paradoxal por se tratar de guerras travadas em nome da ordem.
Com isso chego, não sem tempo,
a segunda parte de sua pergunta, a vida
–
se é que se pode falar assim
–
num ambiente de guerra permanente, num mundo orwelliano
em que guerra é paz. Continuamos a empregar a mesma palavra, mas
“guerra”
mudou de sentido, por mais que o planejamento estratégico americano alegue estar
se preparando para vencer qualquer guerra clássica num futuro não tão remoto
assim, inclusive colonizando o espaço cósmico, não se trata mais da mesma coisa
que conhecemos na Idade Moderna. O estado de guerra permanente que se confunde
hoje com o mundo do capitalismo vencedor não vai mais desaguar numa guerra
interimperialista entre formas rivais de acumulação
como nos conflitos passados em torno da hegemonia mundial. Não ignoro que o que
estou dizendo é contra-intuitivo: estão aí o cisma do
Ocidente ante a guerra do Iraque; o cerco geopolítico da Rússia e da
China pelos EUA; a retomada do Grande Jogo na Ásia Central; o dinheiro mundial,
o dólar americano, desafiado etc. Se for para raciocinar em termos clássicos,
fico com o ultraimperialismo de
Kautsky, com a diferença que o governo do mundo pelos monopólios
coordenados estaria encarnado no necessário poder desproporcional de um só
país, que portanto atuaria privadamente na gestão do capitalismo
global, inclusive como estado rentista e
ultraviolento, para continuarmos no reino dos
superlativos, do excessivo.
Sei que estou lhe devendo uma
explicação “materialista”
para este estado de coisas. Diria apenas o seguinte, e não sou o único a
dizê-lo: a assim chamada guinada neoliberal se parece muito com um novo regime
de acumulação primitiva
– veja a
economia de pilhagem no Iraque ou as
“privatizações”
na periferia -, com seu natural cortejo de violência e guerra, afinal se trata
de um novo processo de expropriação de coletividades e fundos públicos, só que
dessa vez não estamos mais no limiar de coisa nenhuma, de um novo
take off
planetário, qualquer desempregado estrutural desconfia disso. É parte essencial
desse cenário a reprivatização da guerra
– lembre-se das antigas
companhias mercantilistas coloniais e seus exércitos particulares. Vamos ao
exemplo máximo: as forças armadas americanas hoje são um corpo profissional de
empreendedores com interesses próprios no
establishment central, comandando uma tropa assalariada e
no geral terceirizada, sem falar nos demais serviços de intendência. Só no
Iraque ocupado, atuam em torno de 20 mil seguranças privados. Não exagero
se concluir que o poder de fogo americano é um poder mercenário a serviço dos
interesses privados dos compadres de plantão na Casa Branca e serviços secretos
adjacentes. Não se lutam mais as guerras da nação, como se dizia no antigo
vocabulário cívico daquele país. Por isso lembrei que a palavra guerra hoje quer
dizer outra coisa. Sendo o Estado americano ao mesmo tempo um Estado cujo
negócio são os negócios, e a maior empresa de segurança
privada do mundo, podemos tirar nossas conclusões.
2. O governo e exército dos
EUA têm demonstrado claro desprezo por todas instituições e tratados
internacionais, inclusive com apoio de importantes países europeus, a ponto de
noticiarmos recentemente a prática disseminada de tortura no Iraque e em
Guantânamo. O fortalecimento da União Européia e o
crescimento econômico da China, além de acordos entre estes blocos e países
periféricos como o Brasil, representam um contraponto à lógica de guerra do
império estadunidense, ou a perspectiva possível de novas guerras entre os
blocos continentais?
Vejo que me antecipei à sua
segunda pergunta. Um “poder
desproporcional”
como o que acabamos de retratar não pode por definição óbvia deixar se amarrar
por qualquer tratado ou convenção internacional que comprometa um milímetro
sequer da sua liberdade de movimento. Um poder excedente assim é
extra-legal. Ou melhor, o seu poder de fato é a
própria norma. Uma constatação em linha com o poder de emitir a moeda financeira
mundial tendo como lastro sua máquina de guerra. É verdade que financiada esta
última, bem como o consumo do edifício rentista que
se ergueu sobre ela, pelos asiáticos. Só mesmo por um impulso suicida Japão e
China tentariam quebrar os EUA. No entanto, não é menos verdade que o
capitalismo hoje se parece cada vez mais com uma pulsão de morte planetária.
Nada mais insider do que os vários ramos da
família Bin Laden.
Guerra entre blocos? Racha no Ocidente? Um complexo industrial-militar como o
americano, constituído ao longo dos 30 anos de crescimento do capitalismo desde
1945 (sem falar no keynesianismo militar dos anos
Reagan), não esta mais ao alcance de nenhum orçamento num futuro previsível do
capitalismo. Proliferação nuclear é outra coisa, não é um sistema social
coerentemente ordenado para a guerra, como o complexo sistema de armas
americano. A menos que consideremos a hipótese da guerra privada entre
“blocos”,
entre as mega-milícias das várias oligarquias regionais e seus clientes no mundo
lumpen internacional. Brasil contraponto
geopolítico? Francamente.
3. Imediatamente depois do
atentado de 11/03 em Madri e da retirada das tropas espanholas do Iraque, Israel
passou a lançar mísseis contra líderes do Hamas,
incentivando ainda mais o ódio contra os estados israelense e norte-americano.
Em que medida novos atentados terroristas estatais e a
política oficial do ódio subseqüente podem ser utilizados para aumento de
apoio, popularidade e votos em Israel, EUA etc?
Novamente é como você diz,
“política
oficial do ódio”,
mas levando-se em conta os novos atores não-estatais que entraram em cena no
mundo, seria melhor dizer, o ódio como política. Ao que parece só o ódio
mobiliza hoje. Bem no fundo do tacho, o que se vê é perdedores atirando contra
perdedores, nas zonas desconectadas do mundo como nos guetos da normalidade
capitalista. No topo, todas as variantes desta política oficial do ódio, que se
expressa sobretudo no confronto com as populações
sedentarizadas e confinadas em espaços literalmente
sitiados –
e não só no Oriente Médio. Alguém observou que o eclipse de uma alternativa
pós-capitalista intensificou exponencialmente o ódio como vínculo social
preponderante – se é que
se pode falar assim. Como se na ausência da regulação moral associada às idéias
socialistas, as pessoas se sentissem livres para odiar, como num
desrecalque coletivo, enfim descarregar em novas
vítimas a expiação da crise. Às vezes penso que seria mais apropriado falar em
desprezo e crueldade quando nos referimos ao sentimento de classe
dos ganhadores globais, exercido num contínuo que vai
do trabalho atroz nas cadeias produtivas terceirizadas pelo mundo às prisões
iraquianas. No olho do furacão, os territórios ocupados na Palestina.
Continuamos a falar do mesmo princípio de desproporção, o ódio mora no coração
do excesso que o define, e na resposta a que estão condenados os que afrontam
essa situação limite de nosso tempo. Por isso já se disse muito bem que a fúria
tranqüila dos homens-bomba se deve à percepção do equilíbrio a ser restaurado
nessa assimetria no sofrimento. Mas isso não é política, quando muito a sanção
de seu esgotamento. Em termos materialistas ainda vivemos na pré-história, e por
isso mesmo não podemos excluir a hipótese de que ela se encerre sem superação
com a aniquilação recíproca dos dois campos em luta.
4. A grande mídia sempre
teve papel fundamental na legitimação da guerra imperial. A publicação, em
grandes meios de comunicação, de fotos nas quais soldados britânicos e
norte-americanos torturam prisioneiros iraquianos significa passo importante na
desmistificação do discurso oficial da
“guerra
cirúrgica, democrática e até civilizada”
do império, ou apenas uma jogada eleitoral efêmera dos opositores de Bush?
A imagem da tortura no Iraque
certamente confiscará a aura de inocência que os EUA haviam recuperado no 11/09
–
desde o Vietnã puderam pela primeira vez posar de vítima com alguma
verossimilhança. Mas não confiemos demais nalgum desencanto social mais
profundo. As revelações se deram à revelia da mídia, que se beneficiou de
vazamentos deliberados por motivo de disputa de poder palaciana. Nada a ver com
um esforço cidadão como na guerra do Vietnã. De lá pra cá só se aprofundou a
invulnerabilidade do consumidor americano
–
disposto a defender à bala o seu direito de sugar todos os recursos do mundo
–
à imagem da humilhação e sofrimento dos homens supérfluos do planeta. Não nos
esqueçamos que foi o trauma provocado pela visão do atoleiro vietnamita que
precipitou a mudança de rumo na origem do atual militarismo americano, a começar
pela transformação da guerra num assunto de peritos contratados para tal fim.
Bush não é uma anomalia na qual se tornou fácil demais bater. Só o cretinismo
atévico das viúvas de Clinton
–
com especial destaque para a tucanagem brasileira
–
explica a cegueira para o buraco negro da globalização, com ou sem sociedade
civil mundial e outras baboseiras. A saber, que a abertura do mundo para o livre
movimento do capital exige um equivalente controle da segurança total desses
mesmos fluxos de extração de mais-valia mundo afora, cuja gama disciplinar
culmina no estado de guerra permanente de que estávamos falando. Pois foi nos
anos Clinton que a política da
“guerra
humanitária”
se alastrou. A mudança de regime em série planejada para o Oriente Médio pela
administração Bush vai na mesmíssima direção.
Multilateralistas e
unilateralistas divergem apenas quanto aos meios para o mesmo fim
ultraimperialista. Em nenhum momento do patético
debate que antecedeu a invasão do Iraque alguém se referiu ao que todos sem
exceção vinham fazendo com a população iraquiana nos últimos dez anos de embargo
e bombardeio rotineiro –
como sempre tudo em nome da famigerada comunidade internacional.
Ainda ontem (22/05), Bill
Clinton em pessoa passando por São Paulo para a inauguração de mais uma butique
do circuito Elisabeth Arden de
Governança Global, cometeu como sempre um ato falho desses que dizem
tudo. Declarou sem maiores considerações que a guerra do Iraque não era sobre
imperialismo e petróleo, mas sobre unilateralismo e
cooperação. Ou seja, quanto ao primeiro ponto estamos de acordo, o que está em
discussão –
entre os cachorros grandes e não obviamente entre os
poodles do auditório local
–
é se formamos um cartel ou não. Essa a substância do humanismo militar
consagrado pelos juristas e filósofos da Era Clinton
–
que por certo virão requentar sua marmita nos desfiles da referida butique.
5. O governo brasileiro
sempre se manifestou contra a Guerra do Iraque e qualquer intervenção armada que
ferisse a soberania de outros povos. O interesse na colaboração da polícia
brasileira com as ações militares do governo colombiano e o envio de tropas
brasileiras para o Haiti, ambas intervenções coordenadas claramente pelos EUA,
representa um retrocesso em relação à postura inicialmente tomada por Lula?
6. Ainda sobre a política
externa do governo Lula: se continuar a haver descompasso entre o que muitas
vezes diz o Presidente Lula no plano internacional, e
medidas como o envio de tropas ao Haiti ou a própria política econômica
governamental, mais ortodoxa do que o próprio FMI pede, medidas claramente
alinhadas com os interesses norte-americanos, então Lula pode virar uma espécie
de diplomata legítimo dos EUA para a periferia do mundo?
7. Em relação
especificamente à política-econômica do governo Lula: você acha que há
possibilidade do governo alterar o sentido tomado até agora? É possível reverter
os prejuízos que traria a implantação da ALCA apenas com outros pactos de
livre-comércio, sem tocar na questão da dívida externa, controle dos fluxos de
capitais e nos acordos com o FMI?
(5,6 e 7) A essa altura já
estou começando a achar que insistir em entrevistas sobre o governo Lula é
gastar vela com mau defunto. Vamos deixá-lo morrer em
paz e cuidar da vida. Por isso deixemos de falar de algo que não existe
–
e que a mídia costuma chamar de governo Lula
–
para estudar com lupa e muita luta social o interregno assegurado por uma
administração interina que em 2006 devolverá,
civilizadamente é claro, o poder aos seus donos, detentores do
copyright do roteiro original acerca da plataforma de valorização financeira
e exportação de commodities em que nos transformaram.
Se é para reinventar, ou reencontrar, a esquerda, está na hora de mudar o
disco.
8. Quais iniciativas devem
realizar os movimentos sociais brasileiros visando multiplicar a resistência
tanto do governo nacional como da população de uma forma geral em relação ao
“estado
de sítio global”
financeiro e militar promovido pelo império em todos as regiões do mundo,
principalmente nas mais pobres?
O que fazer? Só diria se fosse
paranóico. Salvo é claro o que é da obrigação elementar de um socialista, e cada
um sabe da sua. Mas com certeza não basta recomeçar pelas boas verdades de
sempre, mais pelas coisas novas e ruins. Uma coisa ruim, mas não tão nova assim,
e que tem a ver com o elenco de patologias próprias do Novo Imperialismo, é o
fato de compelir os explorados a cerrar fileiras com os exploradores. A
reconstrução do Iraque – previamente destruído para tanto – está sendo vendida
para os trabalhadores americanos como uma nova fronteira – o que de fato é, no
pior sentido do termo – de expansão do emprego. Como é um emprego como outro
qualquer a tortura terceirizada de Abu Gharib. Não
por acaso – como já falamos de passagem a respeito – o mundo
precarizado do trabalho hoje
tornou-se um dos principais laboratórios de crueldade social, a real e
originária escola do abuso e da humilhação. É ali que se soltam os cachorros e a
coleira é de rigor..
De volta ao miolo de sua
pergunta, novamente estou de acordo com o diagnóstico de época sugerido pelo
enunciado do “estado
de sítio global”
em que estamos ingressando. Que bicho é esse? Não se trata de mero sinônimo
atualizado para ditadura militar e tanque nas ruas a três por dois. Tem tudo a
ver é claro com os poderes que o Executivo americano se concedeu a pretexto de
combater o terrorismo e toda a legislação excepcional que se seguiu, ameaçando
os raros direitos que ainda não cancelou. Mas não é só isso, não se restringe a
esse efeito colateral embora represente de fato um colapso jurídico de
proporções inéditas e a caminho desde muito antes. Para dar um exemplo tirado
dos jornais do dia. Com o escândalo das torturas americanas no Iraque e
Afeganistão, vazou um memorando da consultoria jurídica da Casa Branca sobre o
“amaciamento”
de prisioneiros, (o qual) considera que tal prática seja exercida em
“zonas
jurídicas de penumbra”,
algo como o “equivalente
jurídico ao espaço sideral”.
Como era a América para os liberais ingleses nos tempos da colonização, um vazio
jurídico permanente. Como a guerra sem fim pela qual principiamos essa
entrevista. Nada mais excepcional do que uma guerra; agora que virou a regra,
nada descreve melhor a exceção em que passamos a viver. A marcha batida do
capitalismo vencedor então é isso, região após região do globo e seus
assentamentos humanos vão sendo desconectados por falta de interesse econômico.
À inevitável situação de emergência social que se segue, o novo poder soberano
que decide ser esse o caso, também declara tais zonas sinistradas, áreas de
anomia povoadas por não-sujeitos descartáveis. À
pergunta “o
que fazer?”
nessas circunstâncias
–
ou o seu análogo nos anos 30 do século passado
–
um filósofo marxista alemão, interpretando a tradição dos oprimidos, para os
quais o estado de exceção que então se vivia sempre foi a regra, respondia que
“a
nossa tarefa é criar um verdadeiro estado de emergência”.
Mas isso num tempo em que sabíamos o que era a Revolução.
(Entrevista concedida em
23/05/2003)
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