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Christy Ganzert Pato
ARANTES, Paulo. Zero à esquerda. São Paulo: Conrad, 2004.
Já ouvi de muita gente ilibada comentários cáusticos sobre a trajetória de
Paulo Arantes. Afinal, como é que alguém com uma tese brilhante sobre
Hegel[1], defendida em 1973 na Universidade de Paris X, sob a batuta de
Jean-Toussaint Desanti, descamba para reflexões acerca do nosso tupiniquim
Cruz Costa?
Se o afã pela Inquisição não fosse tão presente entre nossos pares do
Partido Intelectual, semelhante comentário seria ignorado, tão logo
proferido, não só pelo notório ranço de cosmopolita colonizado, mas pela
simples obviedade de que nosso patusco (anti)filósofo em nenhum momento
largou Hegel.
Mas antes de prosseguir na toada, e até mesmo para melhor esclarecê-la,
convém lembrar a tarefa prazerosamente ingrata que é resenhar Paulo Arantes.
Sim, caro leitor, já que estamos no terreno hegeliano do contraditório, nada
mais natural do que prazeres ingratos. Defronte-se o leitor com um texto
cuja potência está não em informações passíveis de um simples escabulhar,
bem ao gosto da nossa leitura estrutural, nem tampouco naquelas frases de
efeito, que sempre ficam vistosas quando nosso pedantismo as apropria como
epígrafes, e logo se dará conta de que se está diante do mais clássico
busílis: falar sobre a Fenomenologia do Espírito é recontá-la por inteiro!
Pronto. Eis o segredo de Paulo, que não é João, nem II, mas que ainda
arrasta alguns devotos - apesar do fim da seita dos "zero à esquerda". Sua
mandraca é a do próprio Hegel, compreendida em toda sua potência, pois não
mais limitada ao mero saber profissional produtor de teses, e do qual Paulo
Arantes teria decaído segundo seus críticos.
E eis, portanto, o sentido do prazer ingrato em resenhar Paulo Arantes. Tal
como em seu O Fio da Meada[2], não temos como recontar sua história sem
desenrolar o novelo todo. Paulo Arantes, como sempre, faz sistema, ainda que
seu Zero a Esquerda seja a compilação de artigos esparsos: "o que deu para
pôr no papel durante os anos de 1997 a 2001", período ao longo do qual
coordenou, juntamente com Iná Camargo Costa, a coleção Zero à Esquerda, da
Editora Vozes.
Diante do que foi exposto, falar de Paulo Arantes por certo que demandaria
uma simples resenha desaforada: "leiam-no, pois de outra forma é impossível
compreendê-lo". Ao que muitos revidariam, acusando-me de cínico: - Paulo
Arantes, compreensível pela simples leitura?
Portanto, nada mais me resta que adotar o mesmo expediente do nosso mais
eminente fracassomaníaco. Paulo Arantes sempre fala de algo que, em verdade,
não se limita apenas àquilo sobre o qual se debruça - e que a nós parece ser
o foco principal. Ao apontar o dedo para o visível, de fato o que lhe
interessa é justamente o invisível. Aliás, mais do que isso, sua preocupação
é o indizível. Paulo Arantes discorre sobre o que vemos para que, quem sabe
com muita insistência pavloviana, possamos finalmente sentir aquilo que não
percebemos e que, correndo às nossas costas, é o que realmente nos diz
respeito.
Certa feita, por ocasião de um seminário em homenagem a Roberto Schwarz,
encerrada a fala de Paulo Arantes alguém da platéia se levantou: "Mas
afinal, você vai ou não falar do Roberto?". E como Paulo Arantes consegue a
façanha de falar tal como escreve, tal episódio se revela bastante didático
para os nossos propósitos. Afinal, de que maneira alguém consegue ficar uma
hora discorrendo sobre um assunto que, na aparência, está a léguas de
distância do foco em questão? Ei-la, meus caros, a mandinga hegeliana. Se
fossemos esmiuçá-la por sua lógica, diríamos que o indizível assim o é
porque não está posto. O que não quer dizer que ele não esteja lá. E ele
sempre está; mas sempre em pressuposição. Contudo, tentar dizer esse
indizível é justamente reduzi-lo a um outro e, portanto, desfigurá-lo. Logo,
a única saída possível é precisamente não dizê-lo, mas dizê-lo por esse
outro que, de fato, é sua negação (Aufhebung). Mas Paulo Arantes vai além,
pois evita justamente essas tentações cientificistas de se enquadrar a
dialética tal como se ela fosse uma cartilha. Paulo Arantes simplesmente nos
diz o mundo, e o faz através do único discurso possível a esse que é, em si,
um objeto contraditório. Com Paulo Arantes temos sim a dialética levada a
sério e, por isso mesmo, como não mais que uma façon de parler, "uma máquina
discursiva de moer significações até elas confessarem que não são nada". Por
isso, sua linguagem, que constantemente desnorteia o leitor, nada tem de
desnecessária bizarrice estilística. De fato, ela é a forma necessária e,
sem ela, o que é dito através dela não poderia ser dito. Tal é o jogo.
Paulo, portanto, nos diz o mundo por insinuações. E em não sendo capazes de
vê-lo, somos conduzidos pela máquina discursiva de Paulo que, procurando
dizer o indizível, o máximo que pode fazer é nos apontar os contornos do
mundo, rodeando-lhe. Essa a sua filosofia do samba miúdo - ou melhor, em pé
de valsa, afinal, somos um departamento francês de ultramar.
E é este, pois, o sentido de cada uma das figuras sobre as quais Paulo
Arantes se debruça. O que ele faz é, de fato, a mais fina Fenomenologia do
Espírito na periferia do Capital! Não à toa, sua figura predileta é o
Intelectual: essa figura kojèviana através da qual podemos perceber o
andamento do Espírito. Por isso, quando ele glosa o tucanato bem pensante
invocando a máxima adorno-horkheimniana do "como é estúpido ser
inteligente", ou ainda quando decifra a conversão do petismo ao ritual da
mortificação perante a cruz, é claro que suas intenções não se limitam à
crônica de momento. Jornalismo de ocasião por certo que não é a sua praça.
Tais temas, ainda que fundamentais à compreensão da política do dia-a-dia,
em si mesmos não são mais do que aquele rodear o mundo da máquina discursiva
de Paulo Arantes. Os personagens de cada uma dessas tragédias (ou comédias,
a depender do freguês) por certo têm suas razões, embora as desconheçam. E
são essas as que verdadeiramente interessam a Paulo Arantes: as razões que
desconhecemos, embora as sigamos. Ou seja, sem o apontar diretamente, o que
Paulo Arantes procura desvelar é o próprio chão bruto donde emerge a
experiência da consciência, mesmo quando discorre sobre algo aparentemente
tão inofensivo como as ONGs.
Mas como já adiantei, passar em revista o argumento de Paulo Arantes, tal
como em nossos fichamentos escolares, é recontar-lhe por inteiro. Por isso,
aos mais cartesianos não posso mais do que fazer essas pequenas pinceladas,
e sugerir aquela que julgo ser a melhor porta de entrada ao livro. À guisa
de introdução, talvez seja melhor começar pelo capítulo "A fratura
brasileira do mundo" - artigo originalmente publicado em 2001 no livro de
José Luis Fiori e Carlos Medeiros, Polarização mundial e crescimento - onde,
partindo do mito do país de encontro marcado com o futuro, Paulo nos mostra
como nos tornamos efetivamente a vanguarda do processo. Neste, somos, por
fim, a cabeça-de-ponte da modernização, mas uma modernização cujo novo
desenlace pressupõe justamente a brasilianização do mundo. A acumulação
flexível sendo plasmada pela dialética da malandragem.
Feita a sugestão, resta a advertência. Gilles Deleuze costumava dizer que
Nietzsche sempre lhe fugia ao controle, e que era ele quem acabava por lhe
fazer filhos pelas costas. Não sei se Paulo Arantes se sentiria confortável
sendo colocado lado a lado com as metáforas um tanto sex shop de Deleuze,
mas não custa avisar aos mais recatados que, da mesma forma que Nietzsche,
Paulo Arantes também nos toma de assalto - para ser mais casto - justamente
quando estamos distraídos; principalmente se você for marxista.
Christy Ganzert Pato
Mestre em Ciência Política (USP)
Doutorando em Filosofia (USP)
Professor do departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de
Uberlândia (UFU)
[1] Hegel: a ordem do tempo. São Paulo: Polis, 1981; reeditado em 2000 pela
Hucitec.
[2] O Fio da Meada: uma conversa e quatro entrevistas sobre filosofia e vida
nacional. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.
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