TEXTOS

Outros

A realidade contemporânea é economicista

 

Paulo Eduardo Arantes

 entrevistado por Marcos Cripa e Adilson O. Citelli

 

Professor de Filosofia Contemporânea na USP, Paulo Eduardo Arantes avalia como catastrófica a possibilidade de Fernando Henrique Cardoso – a quem se refere como professor Cardoso – permanecer mais quatro anos na presidência da República. Porém, acredita na reeleição de FHC em conseqüência da desarticulação da esquerda e da eficiente implantação de um processo de chantagem social, que faz com que a população se sinta ameaçada com a possibilidade da volta da inflação. Para o filósofo Paulo Arantes, tem-se a impressão de que não existem mais diferenças entre esquerda e direita porque a economia se transformou em algo autônomo em relação à sociedade. Ele critica também o Partido dos Trabalhadores e afirma que a legenda está interessada apenas em ganhar eleições e eleger deputados. No âmbito da universidade, Paulo Arantes critica os grupos que se apoderam da chancela ‘USP’ para vender serviços e cursos. “Aqui é uma  universidade de país pobre, indiano, a gente tem de dar cursos de graduação e pós. Não temos uma missão de interferência na política de formar grandes diplomatas”, afirma Paulo Arantes. 

 

Adusp - Faz sentido discutir atualmente direita e esquerda?

 

Paulo Arantes - Vou começar fazendo uma brincadeira quanto a essa distinção supostamente sepultada, enterrada, entre direita e esquerda. Eu não queria falar desse indivíduo, mas o próprio professor Cardoso (Fernando Henrique Cardoso), nosso presidente da República, volta e meia entrevista para dizer que ele é de esquerda. Diz: “A esquerda não é a esquerda, eu é que sou de esquerda”, veja ! Então, mesmo do ponto de vista semântico, histórico, esse vocabulário que está correndo por ainda serve para discriminar mesmo, inclusive contra a esquerda feita pelo próprio presidente quando diz: Eu sou de esquerda e você...”, “A esquerda é conservadora, é atrasada, não é de esquerda”. Esquerda está significando, nessa linguagem oficial, progressiva. Esse progressismo se coloca a favor das forças produtivas mundiais, desencadeando de maneira fantástica a revolução microeletrônica e assim por diante. Então, esquerda começa a virar sinônimo de determinismo tecnológico, de terceira revolução industrial. Isso é confusionismo do presidente. Não de caso pensado, porque acho que é espontâneo, e acredito que, sinceramente, ele se considera de esquerda. Então, continua havendo essa distinção e no caso dele, no caso desse novo establishment, está operando aquela coalizão conservadora que é o novo regime. Todos eles, quase sem exceção, vieram da esquerda e continuam raciocinando em termos de esquerda. Portanto, acho que há uma grande insensatez e uma falta de clarividência total nessa história. Ele (FHC) não é neoliberal. Neoliberal é o Roberto Campos, que sempre foi liberal mas em momentos históricos estratégicos deixou de ser liberal e foi desenvolvimentista. Eles são muito pragmáticos e flexíveis em questão ideológica. No caso, ele (FHC) não é neoliberal. Ele raciocina em termos de desenvolvimento, de classes sociais, de economia, e assim por diante. É toda a forma mental da nossa tradição progressista.

 

Adusp - Defina essa nova esquerda.

 

Paulo Arantes - O presidente diz que é de esquerda, é a favor do progresso, da fabricação de automóveis, de microcomputadores e assim por diante. Ser de esquerda é isso; num certo sentido, para esse novo pensamento estabelecido e quase que oficial de estar prestando um serviço extraordinário. Para a nossa direita convencional, isso caiu do céu. Ser de esquerda significa ser a favor daquilo que existe de progressista no sentido histórico do termo do capitalismo novo contra o capitalismo velho. Então, as grandes centrais sindicais, todos os movimentos populares fazem parte do capitalismo velho e quem é de esquerda deve estar do lado do capitalismo novo, como Marx n’O Manifesto. É claro que estou brincando. Isso tudo se trata de uma comédia ideológica. Fora dessa comédia, é preciso perguntar: por que se tem essa impressão de que não existe mais diferença entre esquerda e direita? Porque a economia se transformou em algo autônomo em relação à sociedade e essa “autonomização” do econômico faz com que o tema seja tratado como se fosse uma segunda natureza. Não se pode governar e, portanto, tem que se ajustar. E todo mundo, diante disso, se ajusta de maneira igual porque ela é soberana, ela é irregulável, ela é uma força cega que se tornou independente da regulação política, do controle social. Do ponto de vista ideológico, das convicções de valores, de justiça, de igualdade, de liberdade, todo esse palavrório que teve substância, agora já não tem mais. Independentemente disso, se você chegar lá, vai fazer a mesma coisa, senão os mercados financeiros internacionais sancionam qualquer desvio e você está morto. Portanto, é uma questão de sobrevivência, dada essa “autonomização” das forças econômicas que se desencadearam de maneira endoidecida, ensandecida. Baseada nesta independentização do econômico, todo mundo está no mesmo barco e não tem muita alternativa a não ser se ajustar e se adaptar. Tem-se a impressão de que os outros fazem a mesma política do Balladier, de um Chirac, e o Schroeder vai fazer a mesma do Kohl, e o Blair vai fazer a mesma da Margareth Thatcher, o Clinton, a mesma do Bush, e quem vier depois de FHC vai fazer a mesma coisa. Se for o Lula, ou mesmo um outro, o Ciro (Ciro Gomes) por exemplo, vai fazer a mesma coisa. Estamos diante de um bicho que se chama economia, mercado in- ternacional, economia mundializada. E diante do qual pouco resta a fazer, a não ser se adaptar. E todo mundo se confunde.

 

Adusp - A quem interessa essa confusão? Quem se beneficia?

 

Paulo Arantes - Qualquer arranjo no capitalismo internacional beneficia sobretudo quem está lá em cima e, dependendo do tipo de arranjo a turma de baixo sobe um pouco. Sempre foi assim. Mas acho que tem de ter um processo objetivo que é essa, digamos, “autonomização” do econômico contra a sociedade, e que Viviane Forrester chama de Horror Econômico. Isso é um dado objetivo, não é uma invenção. O capital é isso, é um processo devastador que perdeu as suas virtualidades civilizatórias — se é que as teve alguma vez —, e transforma-se num processo contínuo de destruição social ao mesmo tempo em que acumula riqueza. É esse o panorama: somos esmagados e regulados por esse processo, sendo a vida por ele pautado. Tem-se a impressão de que outras alternativas como projeto de sociedade capitularam, foram sepultadas, caducaram, se tornaram obsoletas. Mas não importa, não obstante isso tudo, existe uma confusão ideológica entre esquerda e direita e que, no meio de campo, acaba beneficiando aqueles que sem saber muito o porquê, simplesmente se adaptando, se beneficiam desse processo aparentemente regular, mas que, na verdade, é irregular.

 

 Adusp - Qual, então, é a agenda da direita?

 

Paulo Arantes - Estabilidade monetária, abertura comercial e desregulamentação dos mercados. Isso permite ganhar eleição e, é claro, competitividade da economia nacional e redução do “Custo Brasil”, que é um custo social. Então você tem essa agenda que todo mundo reconhece que é da classe dominante. Só que a classe dominante está subordinando o suposto interesse dos cidadãos da República à meta da estabilidade monetária. Dizem eles: “Você aí com a sua reivindicação salarial, com essa mania de seguridade social, está prejudicando o valor agregado daquilo que transita pelo Brasil. Então corta um pouquinho em nome da competitividade, que é um desiderato na- cional sem o que o país quebra. Com inflação, desorganiza novamente a economia brasileira e vocês serão penalizados”. Trata-se de chantagem. O pensamento de direita é esse pensamento que discrimina a população no sentido de reconhecer, recortar, como um fato natural, que dois terços da população estão se encaminhando para a insolvência. Ou seja, não são mais rentáveis, tornaram-se um peso econômico. Isto é direita. Não se tem notícia em lugar nenhum do mundo que “flexibilização” do mercado de trabalho gera emprego. Se fosse assim, por que franceses, alemães, italianos, espanhóis e ingleses não encontraram a “fórmula mágica” até agora?

 

 Adusp - E a agenda da esquerda?

 

 Paulo Arantes - A agenda da esquerda deve pensar na reprodução em termos civilizados de uma sociedade republicana que tem cidadãos com direitos iguais e ao mesmo tempo não sejam chantageados por esta agenda economicista no sentido reducionista que o termo sempre teve no marxismo. É exatamente isso, como é que você pode dizer: “Olha, não estou nem aí com a sua competitividade, não estou nem aí com a sua estabilidade monetária. Ah, então você deseja a inflação?” Essa vantagem é fatal. Depois de trinta anos de hiperinflação, as pessoas estão na lona, é um inferno. Temse o limite da dor, não se sabe mais o momento em que essa balança vai se desequilibrar. A encrenca da esquerda é essa. É conseguir romper esse círculo vicioso da chantagem social em que a própria vítima acha que ela, ao reivindicar direitos, é desviante do ponto de vista racional, está indo contra o progresso científico, contra a telemática, contra a informática, contra a moeda sólida e contra os mercados que fazem uma alocação racional de recursos.

 

Adusp - Existem no Brasil partidos de esquerda com condições de romper com esta realidade?

 

Paulo Arantes - Tem um partido de esquerda que está interessado em ganhar eleições, eleger deputados. Acontece que depois de um apogeu, não entendeu as razões desse apogeu e quer simplesmente sobreviver, marcar posição e ser hegemônico à esquerda enquanto máquina capaz de eleger deputados que, bem ou mal, se você compara com a selva parlamentar brasileira, parecem até deputados suíços. Civilizados e racionais, mas que se tornaram completamente inócuos. Esse partido tem de ser passado a limpo.

 

Adusp - Você se refere ao Partido dos Trabalhadores?

 

Paulo Arantes - Isso. É o único partido, o resto não merece o nome de partido.

 

Adusp - Ao fazer esse tipo de política, o PT serve aos interesses da elite brasileira?

 

Paulo Arantes - Não que ele sirva à elite, aí seria uma absoluta injustiça com o PT. Nunca, jamais, diria que ele serve à elite. Mas a verdade é que ganhar a eleição para a presidência está fora de cogitação em qualquer circunstância. O apogeu de 89, no qual o Lula quase ganhou do Collor, não vai se repetir. Na verdade, o PT não tem mais o que propor porque agora propõe coisas específicas. O auge do PT se deu nos dez primeiros anos de sua fundação. Tinha-se organização popular, apoio e mobilização para alguma coisa. As pessoas tinham a sensação de que a liderança petista entrando em campo isso aqui poderia virar talvez uma democracia. Poderíamos ter salário decente, seguridade social, empregos não podres, direitos, enfim, o Brasil poderia ser um país viável. A indefinição programática do PT, que as pessoas sabiam dizer que não era um partido tradicional, tinha novos sindicalistas, setores da igreja, intelectuais, jornalistas, etc. Era uma coisa nova que estava surgindo debaixo da ditadura. Sentia-se um sopro novo na vida nacional e esse sopro passava pelo PT.

 

Adusp - O PT ainda pode reconstruir o partido que disputou a primeira eleição em 1982?

 

Paulo Arantes - Acho que sim. Ele é um embrião de estrutura para acontecer alguma coisa se, num certo momento, é claro, ele voltar a essa indefinição e começar a mostrar que pode ser diferente da política tradicional. O partido não pode dizer: “Vou fazer assentamento assim ou assado; vou apressar a reforma agrária assim ou assado; tenho um plano de saúde assim ou assado; um plano da previdência assim ou assado”. Desta forma ele es- tá aceitando a chantagem. Ele não tem de vir a público com um calhamaço de quinhentas páginas pautada pelo governo: reforma do Estado, estatuto do funcionalismo, Previdência etc. Não vai dar! Dois cardápios para justamente se adaptar ao que está acontecendo.

 

Adusp - O PT sempre foi acusado de não ser propositivo.

 

Paulo Arantes - No momento em que ele detalhou o seu projeto, entrou na vala comum dos políticos.

 

Adusp - A reorganização do capital, no nosso caso concreto, está envolvida por uma lógica discursiva legalizada intelectualmente pela mídia e mesmo por setores das universidades. Será que o projeto dominante, esse que muita gente chama de “pensamento único”, ganhou a parada no território da constituição simbólica?

 

Paulo Arantes - Vou fazer duas observações, uma geral e outra particular sobre o Brasil, inclusive esta adesão simbólica que eu também às vezes chamo de ajuste intelectual. Uma das coisas mais interessantes que estão ocorrendo no plano mundial é que a mundialização tem vários cenários. Para explicá-la não vamos discutir se isso vale A ou B, o que é globalização, o que é hegemônico ou a transnacionalização produtiva. O novo é a globalização financeira, e ela tem um pólo: é americano. Vamos ter outro cenário do que está por trás desse aparente caos e que possui uma ordem fortemente hierarquizada, assimétrica e nada convergente quando se considera a concentração de poder e dinheiro em alguns pólos privilegiados. Portanto, essa bobagem de civilização universal é conto da carochinha. Independentemente desse cenário, voltamos àquela questão da aparente e por outro lado efetiva autonomização da economia. Significa, na linguagem dos nossos clássicos, que a abstração real — e a abstração real mata mesmo —, mata de fome as pessoas: aquela abstração real que você está fora do mercado, você não passa pelo buraco da agulha. O mercado, tudo aquilo que você produz é nada, então você vai morrer. Você morre porque existe essa abstração real que é a produtividade média.

 

Adusp - A pessoa morre se sentindo culpada.

 

Paulo Arantes - Morre se sentindo culpada, morre com remorso: “Eu não sou nada”, “Sou inútil”. Aquele paradigma do trabalho ainda é o paradigma da comunicação: “Você é anticientífico”, e assim por diante. De modo que existe essa “autonomização” do econômico; o capitalismo é isso e tende cada vez mais a isso. Só que isto agora é um fenômeno, digamos, empiricamente palpável, as pessoas concordam com isso, reconhecem esse fenômeno, a prioridade é isso. Portanto, o fundamento em primeira, média e última instância da reprodução da vida social em todos os planos é econômico. Marx disse isso há 150 anos; agora é uma banalidade cotidiana. Portanto, o marxismo crítico perdeu o gume porque a realidade tornou-se marxista vulgar. Esse é que é o problema. Quer dizer, a direita tornou-se “marxista vulgar” e diz que, no frigir dos ovos, o que decide é a racionalidade econômica, a reprodução material da vida cujas forças produtivas são pujantes, como estamos vendo a revolução microeletrônica. Elas estão sendo freadas, barradas por essas relações sociais de produção retrógradas, baseadas nos termos do “welfare state”. Você diminui a produtividade, você emperra a revolução tecnológica e diz: “Vocês são supérfluos, são budistas”. Então você tem uma caricatura involuntária, uma paródia satânica, por assim dizer, de mau gosto do que foi o marxismo no seu sentido mais elementar, como revolução. As pessoas não sabiam que a reprodução da vida, em última instância, era uma reprodução material e que lá é que se dava o conflito. Portanto, você abria as consciências através da crítica, vo- cê vai lá que nós vamos resolver a parada, não é espírito, não é civilização, não é o progresso, não é caminhar o direito da liberdade, não é nada, é lá. Agora as coisas mudaram. Então você tem um discurso, que eu chamo de pensamento único, e que os outros chamam de neoliberal. Ele é único porque engloba tudo. A esquerda sempre pensou assim, veja só, e agora a direita também.

 

Adusp - O pensamento é único porque é imposto?

 

Paulo Arantes - Ele é justamente imposto por essa nova realidade... A realidade se tornou marxista... A realidade se tornou materialista vulgar, a realidade diz: “Eu sou a economia”.

 

Adusp - A nova revolução mundial.

 

Paulo Arantes - Isso: “Eu sou a economia. A história está avançando e ela passa sempre com o sacrifício humano, mas depois virá um futuro radioso”. De modo que qualquer atrocidade, qualquer, digamos, bagatela moral, ética ou social é uma nota de rodapé. Como um verdadeiro bolchevique diria na época: “Campo de concentração, direitos... olha, o que tem pela frente é uma coisa tão enorme, grandiosa, que isso é banalidade”.

 

Adusp - A idéia da razão cínica desaparece? Não tem mais o cínico?

 

Paulo Arantes - O cinismo passou a ser segunda natureza, ninguém esconde nada. Vamos pegar o Proer como exemplo. Se nós estivéssemos no tempo da Rainha Vitória, seguramente um socorro do Banco da Inglaterra a algumas casas bancárias em dificuldade, seria, digamos, justificado. Seria uma medida civilizatória da Rainha Vitória para manter o império inglês coeso, porque estava civilizando o mundo. Agora, no Brasil o sujeito vai à televisão e diz que o Proer é dinheiro público. É claro que é dinheiro público para garantir a intermediação bancária para que não haja uma crise na intermediação, já que é preciso salvaguardar as contas dos correntistas. É dinheiro público financiando banqueiro, e banqueiro, hoje é gênero de primeira ne- cessidade para a população. Tudo bem, eu não quero que o Econômico quebre, que o Banco Nacional quebre e assim por diante. E todo mundo explica isso. Então, não há o menor pudor, não tem mais o decoro. Um ministro vitoriano jamais falaria isso.

 

Adusp - Além de oposição, faltam quadros técnicos para enfrentar esta situação?

 

Paulo Arantes - Queimaram os quadros técnicos para operar o capitalismo no Brasil, operar não, dirigir, dominar é outra coisa. Então você tem essa nova anomalia, uma aberração, mas é uma singularidade histórica que merece ser estudada do ponto de vista sociológico, antropológico e ideológico que não existe no mundo. Enfim, capricharam, digamos estilizaram, à enésima potência o barbarismo operado por quadros de esquerda de sólida formação, inclusive com passagem pelo marxismo. Não que eles sejam venais, possivelmente não são, mas quando descobrem, estão enterrados até o pescoço porque de arrego em arrego se chega lá um dia. Nenhum deles tem intenção de enriquecimento ilícito, nem o professor Cardoso. O professor Cardoso só quer uma coisa: entrar para a história como segundo Vargas. Aí faz qualquer negócio.

 

Adusp - No simbólico?

 

Paulo Arantes - No terreno simbólico, evidentemente. Então existem estes novos quadros técnicos que substituem os quadros clássicos. Eles não são neoliberais porque não nasceram neoliberais, não dá para ser da noite para o dia ainda que estejam aplicando, gerindo e administrando uma agenda que não tem nada de novo, e que está sendo aplicada por 60 ou 70 países no mundo inteiro. Se você der uma de marxista ou de sociólogo progressista, como o professor Cardoso, ele lhe dá uma aula porque você não está dizendo nada que ele não saiba, esse é o problema. Você não pode fazer uma análise marxista arrasadora do governo FHC. Ele diz: “Já conheço, está chovendo no molhado e pense bem se essa análise marxista arrasadora não é o que eu estou fazendo”.

 

Adusp - Qual a sua opinião sobre os intelectuais que estão no governo Fernando Henrique?

 

Paulo Arantes - Diria que tem a turma que pertence ao reino mineral: não pensa, é burocrata, escreve abobrinhas no jornal, e que repete como realejo; e tem os bem intencionados que acham que vamos reformar o Estado brasileiro. E mais, acham que não será um Estado mínimo. Acontece que eles não estão conseguindo fazer; o capitalismo não deixa mais, é esse o problema. Mas eles são, nesse sentido, bem-intencionados, só que inteiramente equivocados e estão emburrecendo, ajustandose. Mas o que pensam eles? Tem um novo surto de desenvolvimento que não tínhamos no sentido antigo. Portanto, temos de ter um Estado empreendedor, ágil e forte que seja um Estado neomercantilista, como são os grandes estados dos países centrais, e que simplesmente sirva, digamos, de caixeiroviajante, que venda o Brasil. Então o Brasil é uma empresa. Você imagine o intelectual pensando a sociedade brasileira sendo ajustada e se transformando numa grande empresa... Não dá mais para chamar de intelectual. Enfim, lembra um pouquinho, digamos, os nossos déspotas soviéticos fazendo industrialização privada na União Soviética, colonizando o próprio povo, escravizando o próprio povo para chegar lá, e raciocinaram já como um gerente terrorista de uma grande empresa chamada União Soviética, que tinha um grande patrão que de vez em quando decepava cabeças. No imaginário deles é isso que estão fazendo e é o dever de todos nós. “O quê que vocês querem, meus caros? Que eu passe para o lado do povão, que seja do lado do atraso e vá apostar nos setores que não têm chance histórica?”

 

Adusp - Criar direito social...

 

Paulo Arantes - Não, não, não. Eles dizem o que o professor Cardoso diz a toda hora nas entrevistas e tem outra vantagem: não precisa mentir. Em sociedades coloniais você não precisa mentir, você pode dizer. Então ele diz com todas as letras: “Um terço dos cidadãos brasileiros vai ficar de fora”. Se um presidente francês disser isso, ele será “impichado” no dia seguinte com revoltas populares. Não pode dizer. Um alemão não pode dizer: “Sinto muito, mas alguns cidadãos alemães — ou franceses — estão fora do barco. São cidadãos de segunda categoria, viverão da caridade pública, assistência social.” Não pode dizer isso; embora esteja acontecendo, não pode dizer. Aqui pode porque sempre tem uma chance de que uma pequena fatia desses extranumerários tenha alguma chance de se incluir e isso é outra suposição dele: o capitalismo não é um modo de produção, é um sistema de geração de empregos. Então, na visão deles, é bom à GM e à Renault instalarem fábricas para gerar empregos. Não gera empreo, mas corre-se atrás da miragem.

 

Adusp - Vamos agora falar da universidade. A USP vem cumprindo o seu papel?

 

Paulo Arantes - Se a função é preparar profissionais competentes, num certo sentido, a USP, por enquanto, é uma escola respeitável. Não dá para imaginar o estado de São Paulo ou o Brasil sem a USP. Agora, não é possível vulcanizar a universidade e dizer para cada um: “Vai procurar a sua própria linha de financiamento”. Aí começam as aberrações, cursos financiados com inscrição a mil dólares.

 

Adusp - Mas isso já é uma prática em vários institutos.

 

Paulo Arantes - Isso é o fim, não é mais universidade, acabou. As pessoas deveriam, então, montar os seus centros privados de pesquisa, como se faz nos Estados Unidos. Deveriam ir atrás do mercado vendendo seus serviços, mas não com a chancela “USP”. A USP é patrimônio acumulado, duas gerações de trabalho intelectual coletivo e socializado. Estão se beneficiando disso. É também o que vem ocorrendo na escola privada, que pega um professor com trinta anos na USP. Ele foi formado e pago pelo Estado e vai para os “Objetivos” da vida ganhando vinte mil reais. As universidades privadas podem pagar até mais porque para ela o profissional sai de graça, já que aquele professor não foi formado por ela. É de graça! Atrai gente! Se é assim, sai da USP, abre um escritório na avenida Paulista, põe placa na porta e anuncia na Gazeta Mercantil: “Vendemos curso de política internacional, 1.000 dólares a inscrição”. Claro que não vão fazer isso. A partilha é feita internamente. Claro que eles não vão largar nunca esse osso. Mas é preciso propor: “Aqui é uma universidade de país pobre, indiano, a gente tem de dar cursos de graduação e pós. Não temos uma missão de interferência na política de formar grandes diplomatas, grandes panoramas de política internacional”.

 

Adusp - Se essa atitude não for proposta pelo reitor, como é que a comunidade deve resistir? Existe um caminho?

 

Paulo Arantes - Não sei, talvez os órgãos colegiados, por onde passam esses canais, pudessem fazer algo. É claro que para implantar um curso de mil dólares de inscrição essa decisão deve passar por algum órgão colegiado, já que não está na clandestinidade e não é um setor informal. Então alguém tem de vetar.

 

Adusp - Como formar cidadãos diante desta realidade?

 

Paulo Arantes - Primeiro temos de descobrir em que sociedade estamos. Não temos mais a grande sociologia do Brasil que se fez nos anos 60 e 70, aquela geração não é só do Florestan, mas em torno do Florestan, em torno de toda a escola sociológica da qual saiu o novo establishment. Não conhecemos mais o Brasil direito e como as classes se relacionam. O governo vai no fácil, que é a aposta nas tendências regressivas, que é o consumo imediato da demanda reprimida a ponto de, por exemplo, reprimir os representantes do velho capitalismo — veja a última greve dos petroleiros. Claro que a receita é internacional; a Thatcher fez assim com os mineiros, o Reagan fez assim com os controladores. Quebra-se a espinha dorsal das grandes centrais sindicais e acabou. Então é uma questão de vida ou morte. O governo sabe que o planeta, do ponto de vista social, deu uma guinada para a direita. Há uma espécie de aspiração mundial ao capitalismo como facilidade de consumo. Portanto, a nossa função é mostrar como é execrável essa sociedade à qual todos aspiram, inclusive esquerda e direita, num certo sentido. Então, portanto, temos de começar a estudar qual é a dinâmica nova disso. O governo sabe que a sociedade é regressiva e nós temos de saber também. Não podemos ter grandes planos mirabolantes progressistas e, digamos, esclarecer a população de maneira geral e partir para o confronto em nome do progresso que vem da regressão social.

 

Adusp - O que fazer diante deste quadro?

 

Paulo Arantes - Temos de começar levando em consideração esse quadro que traçamos. Uma coisa simples, mas da mais completa dificuldade: reinventar uma espécie de sentido histórico de oposição. Oposição não é simpatia abstrata com a classe operária, que nós não sabemos nem onde está. Seguramente, volta e meia, está negociando, como o Vicentinho, com o governo a cabeça dos outros que ficaram de fora.

 

Adusp - A perspectiva de Fernando Henrique ficar, no mínimo, mais quatro anos no governo é ruim para o país?

 

Paulo Arantes – Não é ruim, é catastrófica. Resta saber como vai ser o Brasil, porque o economicismo significa que o ciclo de negócios garante, digamos, a recomposição da sociedade. Pelo contrário, vai aprofundar a decomposição porque a economia se descolou. Não adianta ter dez assentamentos de GM, Renault, Ford, Volkswagen no Brasil porque isso não forma tecido social. O desmantelamento daquilo que o Robert Castell chama de sociedade salarial é o desmantelamento da sociedade, não é de grupos corporativistas beneficiados pela proteção paternal do Estado às custas do contribuinte etc. Acaba a sociedade, esse é o problema. Então nós temos de reinventar o sentimento histórico da oposição na inteligência brasileira e, por outro lado, engrenar esse sentimento numa idéia de reconstituição da sociedade enquanto tal.

 

Adusp - Quem, ou quais grupamentos, pode(m) puxar essa discussão?

 

Paulo Arantes - Pela velocidade da desintegração do nacional tem muita coisa que não está aparecendo e que está nas universidades. No Brasil, pequenos núcleos estão estudando a nova pobreza brasileira, a nova sociedade que está se formando. Eu sou sozinho; meu escritório e um conjunto de amigos, mais nada. Creio que quando a universidade chegar à beira de morte, às vésperas da extinção, as pessoas vão começar a reagir e vão começar a aparecer coisas que estão sendo feitas e que nós não sabemos. Aí surgirão os grupos que estão pesquisando urbanismo, saúde pública, base energética, reprodução da economia brasileira, etc. Tem muita gente pesquisando, o Brasil não é burro, a esquerda não é atrasada e burra. Isso a mídia diz, mas não é verdade. Tem muita gente bem formada, que conhece a sua profissão, sabe o que faz, e tem consciência de que o país e a sociedade tornaram mais complexos do que o Estado. O presidente ainda vai morrer pela boca, exatamente pelo que ele fala.

 

Revista Adusp, abril de 1998.

 

 

Contato:
antivalor@bol.com.br