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Filósofo Paulo Arantes lança
livro, enterra o PT
e diz que discussão sobre a
viabilidade do país caducou
Entrevista concedida à Fernando de Barros e Silva
O livro se chama
"Zero à Esquerda" e integra uma coleção de nome "Baderna" (editora Conrad). O
primeiro de seus 17 textos é o ensaio "Apagão", de 1997, no qual o autor decreta
o embotamento do pensamento progressista brasileiro sob o impacto da era FHC. O
epílogo do livro, de 2003, intitula-se "Beijando a Cruz" e pode ser lido como um
obituário do governo petista, pelo menos enquanto promessa de transformação
social.
Provocação é o que não falta à obra recente do filósofo Paulo Arantes, 61. Seria
simples se fosse possível folclorizá-lo como mais um "fracassomaníaco" de
plantão ou, pior, o mais ilustre representante do "babaísmo de cátedra".
O que vai no recheio deste livro, porém, embalado pela irreverência calculada e
emoldurado pelo atestado de morte do tucano-petismo, é um conjunto de textos tão
difíceis quanto desconcertantes. Arantes renova a tradição marxista brasileira
lançando luz sobre aquele que sempre foi seu ponto cego _a crítica radical do
mundo colonizado pelo capital.
É por isso que pode identificar nos progressistas de ontem, hoje ajustados à
ordem liberal, os condutores do que ele chama de "bloco histórico da crueldade
social". Aos colegas intelectuais que ainda pensam que o governo Lula está "em
disputa", Arantes não só lembra que entramos na nossa "terceira década perdida",
como responde que discutir hoje se somos ou não um país viável "não faz mais o
menor sentido".
Equivale a dizer que a idéia de que nossa modernização seria uma obra incompleta
é, como se sempre foi e não sabíamos, totalmente furada, que nossa "integração"
ao mundo contemporâneo é essa que aí está, não tem "resto".
Professor aposentado da USP, autor de livros como "Sentimento da Dialética na
Experiência Intelectual Brasileira" (Paz e Terra, 1992) e "O Fio da Meada" (Paz
e Terra, 1996), Arantes idealizou e coordenou entre 1997 e 2001 a coleção Zero à
Esquerda, da editora Vozes, que reúne cerca de 30 títulos. Jornalista diletante,
o filósofo é há um ano e meio responsável pelos dossiês temáticos da revista
"Reportagem", uma publicação mensal de esquerda. E lançou no final do ano
passado a coleção Estado de Sítio, pela Boitempo. Atividades, como ele diz
ironizando seus críticos, de "um fatalista que baniu a política do horizonte".
Folha - O seu
livro começa com o "Apagão" da era tucana e se encerra com o governo petista
"Beijando a Cruz", isto é, capitulando. O tom dos dois ensaios é de catástrofe,
e nela a tradição do pensamento progressista brasileiro vai pelo ralo junto com
o país. Não estão muito carregadas essas tintas?
Paulo Arantes - Estou vendo que vou ter que me reexplicar. Voltemos à
extinção da inteligência dos inteligentes. Tanto faz se cardosistas ou lulistas,
graúdos ou miúdos, a vala é comum, a alternância é a do sempre igual, a
hegemonia ora incha ora emagrece, mas é a de sempre, a viagem é redonda, como
diria Raymundo Faoro.
Recomecemos pelo Febeapá que procurei dicionarizar [no "Diccionário de Bolso do
Almanaque Philosophico Zero à Esquerda", de 1997], e o repertório poderia se
estender ao mundo-provérbio do capitalismo lulista. A novidade é que os
cocorocas da predileção de Stanislaw Ponte Preta provinham então da fina flor da
inteligência estabelecida.
O desastre social não se abatera pelas mãos de desclassificados como Menem e
Fujimori, mas por um primeiro time de intelectuais e assemelhados. A comissão de
frente materialista do refrão "não há alternativa". O buraco negro do pensamento
já começa nesse grau zero de imaginação.
Não é pouca coisa a chuva de estereótipos, o realejo de clichês da parte das
mais sutis e avançadas inteligências. Do tipo "se aumentar o mínimo, quebra a
Previdência" _acho que este nos acompanhará até a próxima glaciação.
Folha - É o que você chamou de ajuste intelectual, a adaptação forçada ou
consentida do pensamento de esquerda à maré liberal?
Arantes - O eclipse do pensamento se exprime no automatismo destes
estereótipos do dia, no geral adiantadinhos, na onda de todas as superações e
quebras de barreiras, somatória de clichês de uma "sociedade de risco" em pleno
deslanche, por isso proteção social é encosto. É nesse mingau que foi ficando
cada vez mais difícil distinguir os juízos peremptórios dos "marxistas
distraídos" [expressão inspirada no ensaio "O Pensamento Único e o Marxista
Distraído", que consta do novo livro de Arantes] e as idéias feitas encontráveis
em qualquer almanaque da globalização acerca dos constrangimentos sistêmicos de
toda sorte, algo como uma cosmogonia da asneira com legendas em português
progressista.
Folha - Mas
isso que você descreve e critica é a chamada Terceira Via, uma vertente política
e intelectual que toma corpo com a queda do Muro de Berlim e não é propriamente
brasileira. Dá para explicar melhor onde entram as legendas em português?
Arantes -
Estou chegando à sua questão. O ponto é que o juízo de atribuição da desgraça
social corrente à inexorabilidade de uma causalidade sistêmica, compartilhada
por marxistas invulgares e idiotas da globalização, não é de modo algum uma
inferência cognitiva. Na opinião de um psicanalista francês, Christophe Dejours,
num caso como este em que a crassa asneira assinala a suspensão da faculdade de
julgar, seria mais apropriado falar de uma estratégia psicológica defensiva,
graças à qual, escorados em clichês deterministas, vai se cristalizando algo
como uma convivência normalizadora com o horror econômico já naturalizado.
O ajuste intelectual tucano-petista é a incorporação da estupidez
marxo-progressista ao atual consentimento coletivo na injustiça e no sofrimento
das populações, na expansão da tolerância com o intolerável, conforme foi se
avolumando a maré sinistra das vulnerabilidades. Quantos "sacos de maldades"
foram abertos de lá para cá? A estupidez cresce no buraco deixado pela ausência
de pensamento dos nossos inteligentérrimos. Ela é cruel, socialmente cruel,
restando pesquisar o que saiu de cena, o essencial que nos fazia pensar,
entendendo por pensamento uma regulação silenciosa que se persegue para evitar a
contradição, a exceção para si mesmo.
Folha - E o
que saiu de cena e nos impediria de pensar?
Arantes - Algo
que na experiência brasileira nos fazia pensar foi definhando, estancou a
imaginação e abriu as comportas da idiotia triunfante e bem-pensante. É só
reparar nas falas familiares com que os de cima vão se irresponsabilizando
socialmente no vocabulário da moda, como se pode ver até cegar num filme
espantoso, inclusive pela ambivalência, como "Cronicamente Inviável", de Sérgio
Bianchi. Formou-se um bloco histórico da crueldade social.
A capacidade de julgar e refletir por si mesmo que no vértice superior se
eclipsou sob a capa do mais crasso cinismo. É assim _e ponto. E na base é mero
embotamento defensivo, uma falta de juízo que anula a vontade de agir
coletivamente diante da experiência bruta do sofrimento, da desgraça que se está
infligindo aos outros, enquanto é atribuída a uma calamidade sistêmica.
O psicanalista francês mencionado atrás dá mais uma volta no parafuso na procura
da junção material entre a banalização da injustiça social e a desnecessidade do
pensamento até esbarrar, na sua prática clínica, na evidência de que é pela
mediação do sofrimento no destroçado mundo do trabalho que afinal se forma mais
do que o consentimento, a colaboração com o serviço sujo da exploração. Sublinhe
colaboração _não estamos brincando!
A mesma colaboração do civilizado povo alemão naquilo que se sabe, sem falar na
dos países ocupados. Com todas as ressalvas, mais do que óbvias, não estava
abusando da careta assustadora, fazendo número fora de hora, quando comecei pela
revelação da estupidez da inteligência no Terceiro Reich segundo Adorno e
Horkheimer.
Folha - Mas
nosso apagão é bem distinto da tragédia nazista. Você parece anunciar uma
catástrofe maior que aquela oferecida pelo nosso suave fiasco histórico, onde
afinal nada acontece.
Arantes - De
fato, não é uma catástrofe frankfurtiana. Nosso suave fiasco histórico, onde
afinal nada acontece. Gostei da sua fórmula. Vamos inverter os papéis. Acabei de
ler o seu "Chico Buarque" [Publifolha, 2004], mera coincidência. A propósito,
fiasco é uma expressão traiçoeira, herda um pouco da síndrome carcomida do
Brasil país-errado. Evoca o vexame, o papelão diante do mundo lá fora, ou, em
versão bossa-nova, a promessa de felicidade que o nosso paraíso musical ainda
está devendo ao mundo. Estou sendo injusto, você não pensa assim.
Quem sabe o correto low profile do seu personagem não contaminou um pouco o
livro, são de fato "suaves" os tons em que se apresentam o sem-número de
variações do tema recorrente "colapso de um projeto nacional". Veja como é forte
a tentação, mal e mal eu também o acompanho "vagando sobre escombros", num país
insolvente, esquecido de si mesmo, à beira da anomia social, ... n vezes
"inviabilizado", outra palavrinha traiçoeira com a qual aliás joga o tempo todo
o filme do Bianchi.
É verdade que você distingue com nitidez o regozijo caetanista, de quem se deu
bem no remelexo desta desagregação toda, do discreto e persistente mal-estar do
seu objeto de estudo. É tudo muito em surdina, confesso que preferia a
estridência de suas crônicas sobre TV _e não pelo gosto do grotesco pelo
grotesco. Em confronto, o desmanche do Chico é muito estilizado, quase bom-moço.
Mas não é o ponto onde quero chegar te entrevistando.
Folha -
Voltemos então aos papéis de origem. Como ficamos?
Arantes -
Também estou procurando identificar o vetor desagregador de todas estas
mudanças, como você diz. Não é de hoje a sensação de que o país anda em
círculos, quando não se estafa e sacrifica uma geração inteira justamente para
não retroceder. A sensação segundo você de que algo anda sem sair do lugar,
figurada nas canções de Chico Buarque, entra em cena, para citar dois modelos
extremos, no enorme girar em falso entre animação e fastio identificado pelo
Roberto Schwarz na hélice que empurra a narrativa machadiana em direção à coisa
nenhuma, nulidade porém de uma classe proprietária confortavelmente instalada
entre dois mundos, e culmina no movimento delirante de "Cidade de Deus" (o
romance de Paulo Lins, não o filme!), que também não leva a lugar algum, como me
lembro de Vilma Arêas [crítica literária, professora da Unicamp] ter comentado,
referindo-se a um poder neutralizador dos esforços tanto lícitos quanto ilícitos
dos pobres para mudar de situação, ali também as coisas não andam e nada
acontece.
Tudo isto é verdade e otimamente bem achado e melhor ainda formulado. Mesmo
assim fico pensando. Quanto aos artistas e sua função sismográfica, tudo bem,
mas e nós?
Folha - O
entrevistador é que pergunta.
Arantes - O
país está entrando em sua terceira década perdida, quase uma geração, e o melhor
de nossa crítica, uma vez enunciado esse teorema crucial, por sua vez parece que
passou a andar em círculo, mimetizando as obras comentadas. Não me pergunte o
que fazer, que não sou bobo assim a ponto de responder.
Ou por outra, quem sabe com a mão de gato do outro Chico _o de Oliveira, o homem
do "Ornitorrinco" [título do posfácio escrito em 2003 ao livro "Crítica à Razão
Dualista", de 1973]. Acho que com o esquema dele levamos alguma chance de sair
desse redemoinho conceitual em que rodopia o "nosso suave fiasco histórico". É
certo que a evocação de tal bichinho anômalo é o derradeiro tributo que este
Chico de agora ainda presta aos antigos esquemas de emparelhamento na escala
evolutiva das nações. Mas só. A sociedade derrotada do outro Chico _o Buarque_
também comparece, mas a cena agora é escancaradamente materialista, e as coisas
pelo menos mudam de lugar. A começar pelo entorse cavalar na tradição crítica do
Brasil-em-construção, sem jogar fora, digamos, as suas conquistas, submetidas a
uma triagem das mais drásticas.
O tal colapso deixa de ser um naufrágio na praia, uma desconexão imerecida, para
exprimir uma integração total, perversa a mais não poder, porém sem resto. O
"nosso" trabalho informal em metástase anuncia o futuro do setor formal mundo
afora, está aqui um dos grandes laboratórios em que Terceira Revolução
Industrial, regime financeiro da acumulação etc. precipitaram a universalização
de trabalho abstrato.
Num artigo recente, Mike Davis [urbanista norte-americano] descreveu este
panorama avassalador como um mundo-favela atravessado pelo tumulto de um
gigantesco proletariado informal. Tudo em linha com a versão crítica _pois há
uma apologética_ da tese da brasilianização do mundo, algo como a extensão
planetária da nossa fratura.
Espero estar conseguindo sugerir que a questão de saber se somos ou não
"viáveis" não faz mais o menor sentido. Que mesmo a idéia substantiva de
desenvolvimento supõe um quadro de normalidade capitalista que tampouco resiste
ao menor teste de realidade, que o digam as horrendas sociedades que são as
máquinas chinesa e indiana de crescimento.
Vivemos num estado de emergência econômica permanente, não é por nada que lá no
centro do mundo volta e meia alguém proclama que o planeta está maduro para uma
nova recolonização, dos territórios relevantes, é claro. No resumo da economista
Leda Paulani, a melhor imagem deste "admirável mundo novo do trabalho", como
quer Ulrich Beck, é a da brasileiríssima empregada doméstica vivendo da mão para
a boca, sem registro e direitos quase nenhum, jornada de trabalho elástica e
indefinível, porém proprietária de um celular. Novamente não me pergunte o que
fazer. Só sei que a base de uma nova política é essa. Ou é melhor falar de outra
coisa.
Folha de São Paulo, 18/07/2004.
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