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TEXTOS Antonio Candido |
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DEPOIMENTO SOBRE CLIMA |
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É curioso pensar que estamos num recinto universitário, onde estudantes e licenciados jovens, de papel e lápis na mão, se dispõem a tomar notas sobre uma revista que um grupo de estudantes e jovens licenciados, como eles, fizeram nesta mesma Faculdade há trinta e poucos anos. Essa importância dada a uma publicação e a um grupo que nunca se consideraram importantes é um pouco divertida para nós. A princípio, achei que se tratava de uma espécie de encontro de redatores de Clima, todos, atualmente, professores da Universidade de São Paulo, e só esta semana fiquei sabendo que devia dar um depoimento pessoal. Teria sido talvez mais útil reunir uma espécie de mesa redonda de participantes da nossa velha revista. mas creio que do grupo só estão presentes Lourdes Machado, Cícero Cristiano de Sousa e eu. Clima começou a circular em maio de 1941 com data de abril, porque houve atraso no lançamento. A idéia da sua criação foi de Alfredo Mesquita, que, mais velho do que nós, já não era estudante, mas freqüentava os cursos e as atividades culturais da Faculdade, ligando-se a nós. Ele próprio disse mais de uma vez que, vendo tantos moços que pareciam capazes de dizer e fazer alguma coisa no campo da cultura, imaginou fundar com eles urna revista que lhes servisse de oportunidade para se definirem e de veículo para se manifestarem. Alfredo já era escritor conhecido, com três livros e uma peça publicados. E já tinha começado a sua importante atividade de renovação teatral, com base no amadorismo disciplinado.
Sem ele, acho que nunca teríamos feito a revista, embora os estudantes acabem sempre pensando nisso. Lembro que no fim de 1940, conversando com Lourival Gomes Machado, tínhamos concordado que talvez valesse a, pena pensar numa publicação pequena, provavelmente mimeografada e de circulação restrita, para dar curso a pontos de vista do nosso grupo de Faculdade, na qual ele era Assistente e eu aluno do 2o ano de Ciências Sociais. Mas, repito, é muito provável que sem Alfredo Mesquita nunca teria saído uma publicação sistemática e relativamente ambiciosa, destinada a correr a sorte junto ao público.
A esse propósito, devo dizer honestamente que não sou o mais indicado para falar das origens de Clima. Eu estava de férias na casa dos meus pais, em Minas, quando recebi cartas de Alfredo e Lourival, não apenas participando que se ia publicar uma revista, ainda sem nome, mas, ainda, que eu seria encarregado da seção de livros; e indicando quais seriam os outros encarregados: Teatro, Décio de Almeida Prado, Cinema, Paulo Emílio Salles Gomes: Artes Plásticas, Lourival Gomes Machado; Música, Antonio Branco Lefèvre, Ciências, Marcelo Damy de Sousa Santos. Em seguida, juntou-se Economia e Direito, com Roberto Pinto de Sousa. Como companheiros nas tarefas e colaboradores de dentro, Gilda de Moraes Rocha, Cícero Cristiano de Sousa e Ruy Coelho. Não sei se então ou mais tarde, informaram que Mário de Andrade seria convidado para fazer a apresentação, e que haveria em cada número um colaborador de nome feito, para dar prestígio e peso. Como se vê, fui apenas informado, inclusive da atribuição que teria grande importância no meu futuro, pois de certo modo Alfredo e Lourival me definiram como crítico literário.
Isso deve ter sido em janeiro de 1941 . Logo depois tive uma primeira possibilidade de discutir diretamente o assunto com Antonio Branco Lafèvre, estudante de medicina que freqüentava as aulas da Faculdade de Filosofia e pertencia ao nosso grupo. Ele apareceu na cidade onde eu morava, deu pormenores e observou com razão que esse negócio de jovem fazer revista tinha os seus perigos, porque juventude não deve servir de pretexto para cobrir inexperiência e incapacidade; e que portanto era preciso levar a coisa a sério.
Quando voltei das férias, em março, tudo já estava em andamento, mesmo os anúncios que deveriam assegurar a base material e foram quase todos arranjados por Alfredo, com promessas de serem mantidos por 6 ou 12 números. Suamos para encontrar um nome, afinal descoberto por Lourival, autor do projeto da capa e diretor por sugestão do Alfredo, com apoio de todos nós. Foi ele que estabeleceu a feição do material da revista, cuja redação teve por sede oficial ,a sua casa até o número 12 (Rua Franco da Rocha, 402, Perdizes). O primeiro número foi o mais volumoso e custou 4 contos de réis, sendo a tiragem de 1.000 exemplares. Como os 11 seguintes, foi impresso na Revista dos Tribunais. Os quatro últimos foram na Edigraf.
Assim, pode-se dizer que a fundação, o lançamento e a estrutura inicial de Clima foram devidos sobretudo a Alfredo e a Lourival, cabendo a iniciativa ao primeiro. Houve o problema do registro, que por lei devia ser feito no famoso e temido DIP, Departamento de Imprensa e Propaganda, órgão controlador da vida cultural. Em matéria de censura, acho que a ditadura daquele tempo era mais estrita que a de agora. Quem conseguiu a licença, nada fácil de obter, foi o poeta Augusto Frederico Schmidt, graças à mediação de um jovem médico do Rio de Janeiro, chamado Virgílio Miguel-Pereira. A demora dessa formalidade fez com que o primeiro número, já pronto e datado de abril, saísse na verdade em maio.
A revista era feita um pouco ao léu, no meio da nossa falta de experiência; mas com tanta boa vontade, que foi possível tirá-la mensalmente durante oito números. Ela se ligava à nossa alegre vida de grupo e ia se fazendo como atividade a mais. Nós nos reuníamos quase todas as tardes na Confeitaria Vienense, a antiga, que ficava em frente da atual, mas no andar térreo. Conversávamos, ríamos muito, inventávamos coisas, discutíamos as aulas e os professores, freqüentávamos concertos, procurávamos filmes esquecidos em cinemas de bairro, íamos passear em Santo Amaro, o que naquele tempo significava uma excursão fora da cidade. Éramos um grupo alegre, sociável, irreverente, diverso da relativa circunspecção da revista, que no começo teve um ar sério e massudo, provocando em Oswald de Andrade o apelido de "chato-boys" com que procurou nos caracterizar e nos gozar.
Lançada Clima, Alfredo se afastou discretamente logo no começo dos trabalhos de organização e fatura material e Lourival passou a cuidar mais da sua secção. A partir creio que do número 3, a confecção da revista ficou a cargo de um casal de bons samaritanos, Ruth e Décio de Almeida Prado, que faziam o grosso das tarefas de secretaria a redação, ajudados por alguns de nós. Graças a eles a revista pôde funcionar. tendo como sede de trabalho a casas deles, na Rua Itambé, esquina de Mato Grosso.
A tarefa não era fácil. Imaginem montar todas os meses. sem qualquer apoio profissional, um número de mais de 100 páginas, desde reunir matéria até providenciar a distribuição, passando pela cobrança de anúncios e a obtenção de anúncios novos, a revisão de provas, as relações com a tipografia e sobretudo a caça de colaboradores. Resistimos no ritmo mensal até o número 8; aí, paramos dois meses, e de abril a agosto de 1942 tiramos o 9, 0 10 e o 1 l, em ritmo bimestral. Nessa altura, acabou praticamente o que se pode chamar a primeira fase, que vou caracterizar daqui a pouco. Fizemos nova parada, esta de oito meses, e o número 12 só saiu em abril de 1943, com estrutura bastante modificada por insistência minha. Mas paramos de novo, embora com intenção de recomeçar e muitos projetos a respeito. Paulo Emílio, que fora trabalhar na "Batalha da Borracha", parte do esforço de guerra, mandava do Amazonas apelos veementes apelos pela não-extinção, propondo-se inclusive, na sua larga generosidade, a entrar com dinheiro mais abundantes que o das nossas magras cotizações periódicas. No entanto, a solução só apareceu mais de um ano depois, através de Lourival, que foi sempre o diretor responsável. Havia uma pequena empresa de conhecidos dele, ligada à publicidade, que se interessou em custear certo número de publicações de pouco lucro, mas que no conjunto poderiam dar algum, Pensaram em incluir Clima no esquema; nós aceitamos e ela voltou à vida em agosto de 1944, com redação oficialmente no escritório deles, mas com o mesmo tipo de trabalho de antes, todo feito por nós. Com a fórmula do número l2 apurada e flexibilizada, a revista saiu afinal excelente como organização e legibilidade. Tiramos quatro números até novembro, quando a empresa se desinteressou e nós encerramos as atividades de uma vez por todas. Tínhamos produzido 16 números, entre abril de 1911 e novembro de 1944. Como acontece freqüentemente na vida, aprendemos a trabalhar quando o fim estava perto.
Quanto à circulação, alguns números tiveram grande saída, como o 1 e o 13; outros tiveram saída razoável, sobretudo na segunda fase. Mas a maioria encalhou e os números restantes, empilhados nos porões das nossas casas, acabaram se perdendo. Hoje, uma coleção completa deve ser coisa muito rara. E com isso fica feito o histórico, meio por cirna. Quanto à orientação, houve duas fases tão distintas que quase se poderia falar de duas revistas, com exagero e tudo. A primeira fase foi do número 1 ao 11; houve uma transição no número 12 e depois uma segunda fase do 13 ao 16. Para compreender isso, e para compreender a orientação do chamado "grupo de Clima", é preciso ler três documentos publicados em momentos diferentes: o "Manifesto" do número I, assinado "Redação", mas escrito por Alfredo Mesquita; a "Declaração" do número 11, escrita por Paulo Emílio e assinada por todos os redatores; e o "Comentário" longo do número 12, sem assinaturas, também, da autoria de Paulo. Eles fazem compreender o trajeto contraditório mas não inesperado de uma revista que começou apolítica, preocupada com o trabalho puramente intelectual, e foi se politizando lentamente, ficando cada vez mais radical. até uma atitude francamente empenhada. É o que tentarei mostrar.
Vejamos para começar a orientação inicial, que durou até o número 11 . O que chama logo a atenção é o fato de Clima ser eventualmente severa com acontecimentos intelectuais e artísticos, do momento, e no geral, respeitosa, explícita ou implicitamente, do passado imediato. Isso está claro no "Manifesto", com o seu ar de certa ingenuidade, que era a nossa. Nos dias de hoje, pode parecer estranho que um grupo de jovens começasse a vida intelectual tão sem rebeldia; mas houve motivos para isso. O primeiro era a presença viva da grande geração modernista e dos escritores firmados depois de 1930, que despertavam o nosso respeito e eram para nós os reveladores da arte, da literatura e do próprio país. Convém não esquecer que a Semana de Arte Moderna datava de menos de vinte anos; que a revelação dos ficcionistas do Nordeste estava se processando; que Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes ainda levantavam o vôo. O que se chama Modernismo, nas artes, na literatura, só então estava ficando pão cotidiano, sob nossos olhos, e a posição natural era admirar. O peso do passado imediato era enorme, reforçado pela presença física dos escritores e artistas que o tinham configurado, e naquele tempo ainda havia um traço que desapareceu quase inteiramente: a reverência literária, o respeito sagrado pela literatura e a arte, mesmo com o tempero do sarcasmo e da irreverência. A nossa geração teve a sorte de ver e observar de perto os artistas e escritores famosos que admirava, ou que formavam o top set da cultura, numa cidade que acabava de completar um milhão de habitantes e em cujo centro concentrado (se for possível falar assim) as pessoas se conheciam de vista. Nós nos acotovelávamos Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Sérgio Millet, Lasar Segall, Guilherme de Almeida, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Flávio de Carvalho, Di Cavalcanti, Cassiano Ricardo, Menotti del Picchia, Monteiro Lobato, Caio Prado Júnior, além dos que moravam no Rio mas andavam sempre por aqui, como Augusto Frederico Schmidt e José do Rego. Tinha para todos os gostos e a gente os via a todos, a toda hora, o ano inteiro, carregados de mitologia. Alguns apareciam na Confeitaria Vienense ou na antiga Livraria Jaraguá, onde havia um canto de conversa e, no fundo, uma sala de chá. Essa presença e o respeito pelos recentes movimentos literários, ainda em fase de conquista do público, favoreciam a nossa atitude de acatamento, como escolha do que nos parecia novo e bom. Aliás, o Modernismo nos interessava sobretudo como atitude mental, ao contrário de hoje, quando nos interessa mais como criação de uma linguagem renovadora. Para nós, esta era veículo. Veículo das atitudes de renovação crítica do Brasil; do interesse pelos problemas sociais; do desejo de criar uma cultura local com os ingredientes tomados avidamente aos estrangeiros. E é preciso repetir que para nós o Modernismo abrangia também a geração de 1930, com a qual essas preocupações vieram para primeiro plano. Daí o desejo de seguir, de admirar os que tinham aberto caminho; daí também a opção, como fiador da revista, por Mário de Andrade, em cuja obra era mais patente o ânimo construtivo. Mário estava passando naquele momento pela fase que se pode chamar didática, - muito crente no papel social e na força das luzes, na função de instituições como a Universidade e o Departamento de Cultura, que ele organizara e vira se esfrangalhar em parte. Andava preocupado com a consolidação da vida intelectual no Brasil e relativamente crítico em relação aos aspectos lúdicos da Semana de Arte Moderna. Creio que a presença dele talvez tenha confirmado a nossa atitude de admiração por todo o movimento que representava e que abrangera os dois decênios anteriores. Por isso, a ele pedimos patrocínio , através de Alfredo Mesquita, seu amigo. Aliás, havia um grupo uma sua parenta, Gilda de Moraes Rocha, e através de ambos nós nos aproximamos do grande escritor, sempre com certa cerimônia, seja dito. Ele foi generosíssimo e nos apoiou integralmente, escrevendo para o primeiro número um documento importante na história intelectual do Brasil contemporâneo, a "Elegia de Abril", recolhida depois no seu livro Aspectos da literatura brasileira.(1) E com isso penso ter exposto a primeira parte do meu ponto de vista sobre a nossa atitude, isto é, essa espécie de respeito pelo passado imediato.
Um segundo fator neste sentido foi a nossa ligação essencial com a Faculdade de Filosofia, que naquele tempo era novidade recente, pois começara a funcionar em 1934. E nós fomos o primeiro grupo que lançou no terreno da cultura literária c artística alguns resultados do espírito que se definiu com ela. Praticamente todos nós lhe pertencíamos, como alunos, ex-alunos ou ouvintes. Pertencíamos. portanto, a uma instituição que despertava o nosso fervor pela novidade da sua força renovadora. Admirávamos os professores, todos estrangeiros, alguns de alta qualidade, e admirávamos a contribuição que traziam. Reverência. portanto, de todos os lados; ainda não era chegado o momento em que os alunos precisariam contestar os professores e as estruturas docentes, que naquela altura pareciam encarnar o que tinha de melhor no progresso cultural do país.
Imaginem uma cidade provinciana, como era São Paulo, recebendo de repente um grupo de intelectuais estrangeiros de categoria, ou que viriam a ser de categoria e aqui mostraram o de que eram capazes. Para ficar no setor das Humanidades, que nos interessa, basta lembrar que em São Paulo começou a carreira e lançou as sementes da sua obra Claude Lévi-Strauss; que ensinaram aqui Fernand Braudel e Roger Bastide, que seriam dos grandes do seu tempo em história e sociologia. Que durante muitos anos ensinou literatura e conviveu conosco Giuseppe Ungaretti, um dos maiores poetas modernos. É claro que tais homens despertavam respeito, favoreciam uma atitude de aceitação dos valores que nos precediam.
Mas, curiosamente, o professor que influenciou mais direta e profundamente o nosso grupo não foi um dos famosos que citei. A nossa concepção de vida e de trabalho intelectual sofreu um impacto decisivo de Jean Maugüé, professor de Filosofia, de acentuada impregnação marxista, que, assim como o seu mestre Alain, como o seu colega e amigo Sartre, não acreditava muito nas convenções universitárias. Maugüé se alistou em 1944 nas tropas francesas livres, no Norte da África, fez a guerra até o fim e passou depois à diplomacia, que acabou abandonando, ou tendo de abandonar, devido ao seu inconformismo fundamental. Voltou então a ser professor de liceu em Paris e como tal se aposentou faz alguns anos. Mas em São Paulo, na jovem Faculdade, esse então jovem professor (tinha trinta anos quando veio) exerceu uma influência decisiva sobre nós e outros grupos de estudantes.
Maugüé tinha uma inteligência prodigiosa e um extraordinário dom de ensino. Se não quis ser um filósofo eminente foi sem dúvida um mestre de qualidade rara. Provém dele muito de nossa atitude intelectual e, portanto, uma parte da tonalidade de Clima. Para ele a filosofia interessava sobretudo como reflexão sobre o quotidiano, os sentimentos, a política, a arte, a literatura. O nosso grupo incorporou profundamente este ponto de vista, que explica porque, sendo nós todos formados em filosofia e ciências sociais, acabamos, quase todos, críticos. Note-se bem: no grupo que fez a revista não havia um só licenciado em letras. Fomos licenciados em filosofia é em ciências sociais, mais alguns estudantes ou, graduados de outras áreas, que se tornaram críticos de arte, literatura, música, cinema. Naquela fase heróica da Faculdade, em que havia muito de pioneirismo e de diletantismo, Clima representou a reflexão do tipo preconizado por Maugüé, cujas aulas eram freqüentemente iniciadas por um comentário sobre o filme da semana, a última exposição de pintura, o noticiário dos jornais. Vejamos agora outro aspecto, que leva a definir a segunda fase, conforme a distinção feita acima. Refiro-me ao caráter apolítico da primeira fase de Clima, coisa difícil de imaginar hoje.
O grupo que fazia a revista era formado por jovens que se opunham à ditadura de então, e cujas idéias eram de democráticas para esquerdistas, como fica evidente pelas simpatias, mesmo platônicas, em relação aos traços politicamente decisivos do tempo. Éramos contra o fascismo, tínhamos manifestado adesão afetiva às Frentes Populares e à Espanha Republicana, alguns de nós se interessavam pelo marxismo e a história da Revolução Russa. No entanto, éramos muito pouco politizados e sem maior preocupação a respeito. Apenas Paulo Emílio, como exceção flagrante, tinha passado, experiência e cultura política; por isso, teria dentro de algum tempo influência marcada sobre a reorientação da revista e o comportamento ideológico de alguns de nós (embora, curiosamente, não tenha escrito nada para os números da fase final, politizada como veremos, para os quais arranjava, porém. matéria de terceiros(2)
O nosso relativo desligamento, além de corresponder a tendências pessoais, era favorecido provavelmente pelo momento. Depois de 1937 e do golpe que instaurou o Estado Novo, tinha sido suprimida toda a atividade política e houve incremento da perseguição às esquerdas. Logo depois, cm 1938, houve também a perseguição aos integralistas. De maneira que se criou um certo marasmo, a não ser para as vocações militantes firmes, que persistiam na clandestinidade. Foi nesse contexto que Clima acolheu em alguns números colaborações de rapazes de direita, que todavia não escreviam como tais, pois estavam, como nós, mais interessados nos problemas da cultura. De fato, nunca publicaram matéria de conotação ideológica, por leve que fosse, mas artigos críticos, poemas, ensaios filosóficos. E o mais interessante é que o promotor dessas aproximações foi Paulo Emílio, com a sua larga e generosa vontade de conhecer e entender. Mas também foi ele que, na hora das definições, deu a tônica e atuou com maior decisão e energia.
O pressuposto da nossa atitude era de cunho bastante idealista: a idéia de uma certa transcendência da cultura intelectual e artística, que estaria acima das divergências políticas. Era como se, acima dos antagonismos, das discussões, das tensões entre nós e os nossos colaboradores de direita, devesse reinar um campo ideal de entendimento. Mas é oportuno lembrar que a maioria deles, no fim de poucos anos, tinha abandonado as suas posições iniciais e passado a convicções democráticas e mesmo socialistas, - mostrando que, no fundo, havia mais afinidades entre eles e nós do que pareceria à primeira vista.
De repente a situação mudou, quando o Brasil entrou na guerra, em 1942. Os antagonismos refreados vieram à tona por causa da veemência com que se passou a atacar o fascismo, levando-nos a ser mais coerentes e tornando impossível a colaboração, mesmo literária, de esquerdistas e direitistas. O manifesto do número 11 era bastante duro, quando se pensa que na revista colaboravam rapazes que pelo menos tacitamente ainda eram integralistas, e outros, de orientação mais amplamente conservadora. Nele, dizia-se que os integralistas eram a "5ª coluna" local. Houve choques pessoais, desentendimentos orais e escritos, rupturas de algumas relações; mas a partir daí pusemos de lado aquela espécie de desligamento ideal e assumimos atitude mais coerente. Para ser exato, esta atitude só se manifestou um pouco mais tarde, porque naquela altura a revista sofreu a primeira interrupção longa, já mencionada, devido provavelmente a certo cansaço.
Resolvemos então modificar não apenas a orientação ideológica, que se tornou definida no sentido de um certo radicalismo de esquerda democrática, mas a estrutura, que, adquiriu maior flexibilidade. O Professor Maugüé, nas aulas e conversas, comentando Clima, censurava o seu todo de tijolo, feito de grandes blocos sem arejamento; e lembrava que uma revista começa a ser lida pelo fim, onde deviam estar notas curtas, notícias, material leve. A fórmula que adotamos neste sentido a partir do número 12 procurou corresponder a este ponto de vista. Os quatro últimos números eram vivos, legíveis, interessantes, com notas polêmicas, notícias e um divertido noticiário final, devido sobretudo a Décio de Almeida Prado.
Ideologicamente, demos seguimento ao que constava do manifesto do número 11, escrito por Paulo Emílio e assinado pelos redatores: "O grupo que fundou Clima em 1941 resolveu que nesta revista não seriam debatidos assuntos de política, nacional ou internacional. Esta orientarão foi escrupulosamente seguida até o número 10. Clima recebeu, pediu e publicou ensaios, críticas e poesias de intelectuais da mais variada procedência ideológica, desde que não contrariassem a norma de abstenção política estabelecida.
Isso nunca significou que os diretores, redatores e colaboradores mais íntimos de Clima não tivessem uma unidade de vistas diante dos problemas essenciais do nosso tempo.
Pura nós, moços intelectuais e logo soldados, que assinamos esta declaração, a guerra entre o Brasil, de um lado, e a Alemanha e a Itália do outro, é inseparável da guerra que se processa em escala internacional contra o fascismo". E por aí afora, sendo preciso lembrar que esta última proposição pretendia desmascarar (dentro das severas limitações impostas pela censura) o Estado Novo fascistizante, dissociando o país do seu governo.
No número 12 saiu o importante "Comentário" não assinado, também escrito por Paulo Emílio. Depois de uma ressalva aos integralistas que tinham largado o seu partido, ele procurava definir uma posição de socialismo independente, destacada das posições então vigentes do stalinismo e do trotskismo, bem como da Segunda Internacional. Pode-se dizer que foi a definição do rumo seguido pela Redação nos números subseqüentes, e que a partir daí alguns de ncís procuraram traduzir em militância política, primeiro clandestina, até o fim do Estado Novo; depois, na legalidade. Com mais boa vontade do que capacidade , seja dito. E, repito, quando a revista estava ideologicamente madura e estruturalmente bem composta, - acabou ...
Como grupo, fomos chamados em 1942 para colaborar na formação da Associação Brasileira de Escritores, Seção de São Paulo, onde houve certo esforço contra a ditadura, culminando pelo 1º Congresso Brasileiro de Escritores, cujo manifesto de janeiro de 1945 foi um marco democrático. Em tudo isso, Clima participou ativamente, bem integrada na luta ideológica do tempo, depois do desprendimento inicial.
Agora, acho que convém fazer um levantamento das que foram, a meu ver, as contribuições mais destacadas da revista. Primeiro é preciso dar relevo à matéria de alta qualidade, devida a escritores já consagrados, que atendiam ao nosso pedido de colaboração. De Mário de Andrade, a citada "Elegia de Abril" e o conto "O ladrão". Alguns poetas importantes como Carlos Drummond de Andrade, inclusive o decisivo "Procura da Poesia". Poemas ,também, de Cecília Meireles, sobretudo o "Lamento do oficial por seu cavalo morto". Poemas de Vinícius de Moraes, praticamente da nossa idade e nosso companheiro. De escritores da nossa geração que estavam começando, publicamos poemas de gente como Péricles Eugênio da Silva Ramos, Mário da Silva Brito, Ledo Ivo, Afrânio Zuccolotto; contos, entre outros, de Lígia Fagundes, Miroel Silveira, Almeida Fischer, Mário Neme; ensaios de Lauro Escorel, Luís Martins, Mário Schemberg, Vicente Ferreira da Silva, Fernando Sabino, Aluísio Medeiros, etc. Quanto ao nosso grupo, creio que no campo do ensaio o que houve de mais importante foi o de Ruy Coelho, "Marcel Proust e o nosso tempo" , no número 1. Mas no conjunto, é provável que a contribuição mais saliente tenha sido uma certa afirmação e mesmo renovação de atitudes críticas, em alguns setores, não em todos. A secção de música era especialmente alerta e participante, na esteira de Música, doce música , de Mário de Andrade. O fundador da seção, Antonio Branco Lafèvre, num tom de eficiente acidez polêmica, afirmava não apenas padrões de exigência, mas a necessidade dc renovar a pesquisa e a execução. Ao lado dele, as notas combativas de Álvaro Bittencourt destacavam a importância das tendências renovadoras, apoiando o movimento "Música viva" e satirizando o apego à tradição. O redator da segunda fase, Alberto Soares de Almeida, definia critérios de rigor e finura na apreciação dos espetáculos. Em Artes Plásticas, Lourival Gomes Machado lançou o comentário crítico longo, dando ao que costumava ser notícia uma consistência de ensaio. Foi particularmente importante a atenção que dedicou aos pintores de São Paulo que então começavam a aparecer e hoje são famosos. Neste setor, a revista fez uma coisa que talvez fosse inédita no Brasil: publicar em cada número, a partir do 11, como se fosse colaboração plástica, uma série de gravuras do mesmo autor: Cláudio Abramo, Lívio Abramo, Manoel Martins, Oswaldo Goeldi, Walter Levy. Em Teatro, Décio de Almeida Prado elevou a um nível até então pouco freqüente a reflexão crítica c a resenha de espetáculos, contribuindo para o movimento renovador de que ele próprio foi ativo participante. Muito inovadora foi a contribuição do setor de cinema, com os estudos longos, laboriosamente pensados de Paulo Emílio, que desse modo deu à crítica especializada uma densidade e um nível que praticamente ela não conhecera antes no Brasil, salvo algumas manifestações do "Chaplin Clube", do Rio de Janeiro. Nos números finais, a responsabilidade coube a Ruy Coelho, que, seguindo a nova fórmula da revista, adotou a técnica da notícia curta, de cunho informativo mas acentuado teor crítico.
Valeria a pena lembrar o desejo de participação cultural que animou o grupo e se projetou em âmbito mais amplo que o da revista, inclusive depois de ela ter acabado. Paulo Emílio fundou o Clube dc Cinema, de onde sairia mais tarde a Cinemateca Brasileira, também fundada por ele, sem contar a sua larga atividade crítica e doutrinação. Décio de Almeida Prado fundou e dirigiu o grupo Universitário de Teatro, exerceu depois em O Estado de São Paulo a crítica teatral durante muitos anos, participou sem eficácia das associações de classe e influiu na fase renovadora aberta em São Paulo com o Teatro Brasileiro de Comédia. Lourival Gomes Machado, que durante anos foi crítico dc Artes Plásticas da Folha da Manhã, não apenas renovou o ensino da Arquitetura, como Diretor da FAU no decênio de 1950, mas colaborou decisivamente na configuração e organização das Bienais de São Paulo, em sua grande fase. Mais tarde desempenharia na UNESCO funções culturais de importância, em plano internacional.
Clima teve as suas iniciativas, como o lançamento em São Paulo do jovem pintor suíço Jean-Pierre Chabloz, que fez uma exposição sob o nosso patrocínio. Muito importante foi o patrocínio do surrealista português Antônio Pedro, para cujo catálogo Ungaretti escreveu um ensaio notável. Registro ainda o debate de estética a propósito do filme Fantasia, de Walt Disney, ao qual se consagrou o número 5, por iniciativa e sob a orientação de Paulo Emílio, com artigos de Oswald de Andrade, Flávio de Carvalho, Sérgio Milliet e outros.
De maneira mais genérica, eu repetiria que uma contribuição importante foi a circunstância da nossa revista ter sido a primeira manifestação, no terreno da crítica e do movimento das idéias, da nova mentalidade definida pela Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo.
Quanto à participação ideológica, eu mencionaria a tentativa de definir, é verdade que à margem da revista, uma posição de intelectual de esquerda não dependente das organizações usuais, - processo em que Paulo Emílio teve papel central, com a sua experiência, a sua longa estadia na Europa antes da Guerra, a sua cultura em matéria política.
Falemos ainda dos laços que a revista permitiu estabelecer ou desenvolver com outros grupos de moços. Por exemplo, os "pesquisistas", de Santos: Miroel Silveira, Cassiano Nunes, Ney Guimarães, Francisco De Marchi, colaboradores que se ligaram a nós. Éramos ligados também com rapazes, de Belo Horizonte, tendo Fernando Sabino sido nosso colaborador. No Rio, o correspondente era Carlos Lacerda primeira fase, próximo de nós pelas idéias, assim como o seu grupo, formado entre outros por Moacir Werneck de Castro, Guilherme Figueiredo, Murilo Miranda. Em Recife, o nosso correspondente era Octavio de Freitas Júnior, jovem psiquiatra e crítico, para um de cujos livros Mário de Andrade escreveu, como prefácio, o "Segundo momento pernambucano". Tivemos bons contatos intelectuais com um grupo de Fortaleza, onde Aluísio Medeiros foi nosso correspondente e colaborador. Alguns anos depois esse grupo fundou a revista Clã, que tinha certas afinidades com a nossa, passando, como esta, da tentativa de neutralidade ideológica à opção política. Certa vez publiquei em Clima um "Manifesto grouchista", de que os rapazes cearenses gostaram; e Antônio Girão Barroso escreveu o "Segundo manifesto grouchista" (trata-se de Groucho Marx, um dos nossos ídolos).
Já que os ouvintes estão anotando dados, convém dar algumas informações sobre pseudônimos. Eu era Inácio Borges de Melo, Joaquim Carneiro e Fabrício Antunes (usado também uma vez por Ruy Coelho): Este último chegou a despertar a curiosidade e comentários, porque afetava saber russo e dava palpites sobre Maiakovski, Mário de Andrade, a par do segredo, se divertia imensamente. Alfredo Mesquita foi Aluísio Buarque Vieira; Lourival Gomes Machado, Teixeira Cavalcanti; Antonio Branco Lefèvre, F.A. Rolim; Aristides Lobo, A. Maranhão. Mas há outros, bem como algumas iniciais que não consigo mais identificar. E como esta nota pitoresca, dou por terminado o meu depoimento, marcado certamente pelas limitações do ângulo pessoal e as lacunas de uma memória que procura voltar para mais de trinta anos.
Notas
(1) Mas nos achava sérios demais; até representantes de uma certa falta de agilidade e graça, própria de São Paulo segundo ele, que contrasta com a leveza carioca e chama de "bestice" e "burrice", com ternura conformada. É o que se lê numa carta de 26. VI. 1941 a Paulo Duarte: "O artigo avulso saiu em Clima, revista de novos, um pouco pesada pra "novos" mas realmente de interesse". "E Clima é isso - a tradição desta sublime burrice lenta e grave dos Paulistas, de que tiro, afinal das contas, uma certa vaidade divertida. Grandeza e mal a S. Paulo"; havendo casos em que a leviandade dos outros o levava a dar "graças-a-Deus desta nossa maciça sensatez, ai!" Paulo Duarte, Mário de Andrade por ele mesmo, S. Paulo, EDART, 1971, p. 198 e 200.
(2) Mário de Andrade se alarmava com o nosso desligamento político inicial: "Há uma mentalidade notável, em rapazes e moças da Faculdade de Filosofia, mas também esta é desastrosa no momento, porque é uma mentalidade de tempo e paz, humanística, contemplativa, também o seu pouco cínica, incapaz de se interessar por um discurso de Hitler sem o converter pra um plano ideológico de todas as passividade". Paulo Duarte, ob. cit., p.235. Nessa altura, para Mário atitude modelar era a dos rapazes combativos, como Carlos Lacerda no Rio e os líderes estudantis da Faculdade de Direito em São Paulo: Germinal Feijó, Israel Dias Novais e outros que eram seus amigos.
Publicado em:
Antonio Candido Discurso, São Paulo: USP, 1978, pp. 183-193
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