TEXTOS

Antonio Candido

TODO O CÂNDIDO

 

Luís Augusto Fischer

 

                Uma série de felicidades converge na atual reedição da obra de Antônio Cândido de Mello e Souza, crítico literário que figura entre a restrita meia dúzia de pares realmente imperdíveis em língua portuguesa (em todos os tempos), professor aposentado da USP e da UNICAMP, militante político da esquerda não-totalitária desde a juventude, figura luminar no debate intelectual brasileiro e latino-americano. A primeira das felicidades podemos avaliar de longe: trata-se daquela que permite a um sujeito de obra larga revisar seus passos escritos, oferecendo ao leitor a versão mais consistente possível de seu pensamento. Quantos críticos e pensadores terão tido essa chance?

                Augusto Meyer não, Sérgio Buarque de Holanda não, Guilhermino César não. Esses três dependem agora da boa vontade dos pósteros, que precisam buscar parte de seus trabalhos nos improváveis sebos, ou do trabalho de herdeiros, familiares e discípulos mais e menos bem habilitados e/ou intencionados, que de vez em quando repõem em circulação a obra dos falecidos. Assim, não é pouca a vantagem de contarmos com a reedição da obra crítica completa de Antônio Cândido, nada menos que sete volumes, que o leitor culto de qualquer área deve conhecer e que o leitor ligado às artes, às letras e às humanidades não pode ignorar.

                O conjunto pode ser dividido em partes. Para começar, há um pequeno mas valioso panorama chamado Iniciação à literatura brasileira, de formato menor que os demais, escrito por Cândido com vistas ao leitor estrangeiro, para ser um capítulo de uma grande obra que comemoraria o quinto centenário da descoberta da América. Gorou o projeto, mas sobrou um ensaio de leitura agradável, culto e inteligente como sempre, organizado a partir da espinha dorsal que o mesmo Cândido inventou, quando escreveu seu clássico Formação da literatura brasileira, livro este que deve ser reeditado ainda este ano. Estamos falando da noção de sistema literário, que Cândido trouxe de sua formação sociológica, como aluno das primeiras turmas do curso de Ciências Sociais da USP.

                Merece um parágrafo o tema. Na altura dos anos 1940, o debate sobre origens e formatos da história da literatura no Brasil ainda era pautado na metafísica romântica, que mandava ver como brasileiro todo autor que interessasse à ideologia nacionalista em alta no momento. Cândido ofereceu um critério novo, sólido e capaz de repor o debate, agora em termos materialistas: para ele, existe literatura em um dado contexto assim que ela exista enquanto realização concreta, isto é, assim que haja autores, obras e público leitor em constante interação, a tal ponto que essa dinâmica forme uma tradição. É com esse conceito em mente que, na reedição acima mencionada, lemos, logo antes de uma declaração modesta de propósitos, perfeitamente afinada com o temperamento do autor – “Espero que ajude os interessados a apreender um dos modos possíveis de traçar o desenho da literatura brasileira no tempo” –, um índice de apenas três capítulos, I – Manifestações literárias, II – A configuração do sistema literário e III – O sistema literário consolidado. Nada da divisão convencional emescolas”, todo um passeio extraordinário pelo principal de nossa história literária.

 

                Outra felicidade da atual reedição se pode enxergar na leitura um volume que veio ao mundo com o singelo título Recortes, coleção de textos breves, muita coisa de circunstância, pronunciamento em congresso, apresentação de livro alheio, depoimento sobre amigos falecidos, lembranças pessoais. Nascido em família tradicional brasileira – no Brasil, família “tradicional”, como diz o irreverente Ivan Lessa, é aquela que conhece o avô, e Cândido conhece pelo menos cinco gerações antes da sua, incluindo o Conselheiro Tolentino, o funcionário da monarquia da obra acima mencionada –, nosso autor contou com pai e mãe leitores, com parentes militantes da vida letrada brasileira (uma prima de sua mãe era a alta figura de Lúcia Miguel Pereira) e com um conjunto enorme de amigos e parceiros intelectuais. Calcule o leitor: Cândido privou com Sérgio Buarque de Holanda, Paulo Emílio Salles Gomes, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, entre vários outros, e tem poema dedicado a si por ninguém menos que Carlos Drummond de Andrade.

                Pois em Recortes, talvez mais do que noutras obras, se a felicidade da enorme qualidade literária de seu texto. Cândido escreve muito bem, com clareza e grande capacidade de comunicação (a léguas da obscuridade mais ou menos programática de tantos acadêmicos pseudo-requintados); ele tem intimidade com os meios expressivos da língua, sem contar o fato nada secundário de que ele domina ativamente as principais línguas ocidentais, como se nos vários comentários sobre literatura francesa, italiana, inglesa e alemã que povoam seus livros. Nunca com pedantismo, sempre com funcionalidade, a favor da compreensão da literatura como um fenômeno inscrito irrenunciavelmente na vida real, aquela que conta com os indivíduos e com as classes. Cândido escreve bem, o que se percebe também no à-vontade com que aborda temas variados, sempre com agudeza, oferecendo matéria de interesse ao leitor mesmo ali onde não se poderia suspeitar nada de relevante.

                Daqui uma derivação importante, sobre a terceira felicidade da reedição: como poucos outros críticos em língua portuguesa, Cândido, que é crítico, não poeta nem ficcionista, lido em conjunto, nos dá a agradável sensação de que, primeiro, a crítica literária inteligente, como a dele, participa ativamente da vida cultural do país e, segundo, por isso mesmo rechaça tanto a atitude culposa, que acha que deve esconder a mão quando a pratica, quanto a atitude elitista, que se considera fora das contingências da vida cultural trivial. Cândido mergulha na história o tempo todo, e esta é talvez o mais forte dos temperos de sua atividade intelectual, figurando como uma espécie de pano de fundo, de baixo-contínuo audível ao largo da leitura.

 

                Os demais cinco livros agora reeditados podem ser considerados como participantes de uma mesma natureza. São livros que reúnem ensaios de maior fôlego sobre literatura e vida cultural. Alguns títulos o leitor mais avisado conhece bem: será o caso de Brigada ligeira, o primeiro livro solo de Cândido, publicado pela primeira vez no remoto ano de 1945, contendo ensaios que ganharam a condição de clássicos por méritos indiscutíveis. Um deles se chamaRomance popular” e versa sobre Erico Verissimo; começa assim: “Se há escritor popular no Brasil, é Erico Verissimo. Razão suficiente para as nossas elites delicadas torcerem o nariz ante a sua obra. As elites brasileiras são singularmente exigentes. Talvez por não terem base sólida em terreno algum, compensam o que têm de relativo por uma consciência exagerada da própria dignidade”. Segue apontando a bobagem das pseudo-refinadas elites nativas e os acertos (e os erros) do escritor sulino. Cândido sempre teve independência mental suficiente para evitar as armadilhas, mesmo as paulistanas, que muitas vezes impõem a exigência da vanguarda por sobre todas as indicações da realidade. Vale notar, suplementarmente, que Cândido e Érico compartilham mais de uma afinidade: guardadas as especificidades e os domínios, foram intelectuais corajosos, que exercitaram o pensamento leigo, agnóstico e de esquerda num tempo dominado pelo catolicismo conservador, que soube aborrecer bem aos dois – Érico sendo acusado de dissolvedor de costumes, Cândido perdendo um concurso para a mesma USP em que, anos depois, faria carreira.

                No mesmo tom correm os textos de O observador literário, outra obra remota que agora retorna e permite a leitura de uma pérola como “As cartas do voluntário”, pequeno ensaio que transcreve e comenta cartas de um jovem interiorano que foi à Guerra do Paraguai por idealismo e morreu antes de fechar os ciclos de sua vida. Grande crítico faz assim: pega uma matéria aparentemente menor, que daria vaza no máximo a uma visão sentimentalista da vida, mas dali extrai o suco da vida, oferecendo matéria de relevo para o leitor de hoje. De quantos comentadores de cultura se pode dizer isso, em qualquer tempo? Isso sem contar certas tiradas da mais funda intuição, como esta a propósito da poesia do primeiro Vinícius de Morais, poeta cristão naquela época: “Seus primeiros livros são afogados no longo verso retórico (...), com uma vontade quase cansativa de espichar o assunto e um certo complexo de antena, ou seja, o esforço de captar algo misterioso, fora da órbita normal”. Bingo.

                Outro título, dos menos conhecidos, é O albatroz e o chinês, que reúne textos bem recentes de Cândido e traz no estranho título um par de figuras paradoxal. O leitor vai às páginas iniciais e ali encontra a explicação: poemas da alta tradição francesa, como “O albatroz”, de Baudelaire, que medita sobre a ave acostumada aos espaços panorâmicos, lidos em contraste com certas imagens dedicadas ao mundo de espaços fechados, como o camponês chinês do título. Na terceira parte do livro, estão ali memórias de Cândido sobre Mário de Andrade e lembranças sobre o jovem Richard Morse, um brasilianista da melhor qualidade, que tem em Cândido um interlocutor desde tempos.

                Em Vários escritos, estão outros artigos clássicos, como a análise de O Uraguai, o “Esquema de Machado de Assis” e “Jagunços mineiros de Cláudio a Guimarães Rosa”, este um percurso de argüição sobre o tema do regionalismo. Na segunda parte, o volume traz um texto seu que se tornou célebre, por boas razões, “O direito à literatura”, uma apaixonada defesa republicana da literatura como um dos direitos humanos fundamentais, artigo que deveria ser lido como oração diária pelos professores de língua e literatura em toda parte.

                De todos os livros agora reeditados, o mais sólido, do ponto de vista conceitual mais exigente, é sem dúvida O discurso e a cidade, lançado em 92 e desde então incorporado aos debates acadêmicos relevantes. Na primeira parte, reúne quatro artigos dedicados a entender a trajetória da narrativa realista no Brasil e no Ocidente: começa comDialética da malandragem”, analisando as Memórias de um sargento de milícias, talvez o mais famoso de seus ensaios tópicos, que tornou célebre a dialética entre a ordem e a desordem que Almeida colheu na experiência social brasileira para transformá-la em regra de composição interna do romance; segue com “A degradação do espaço”, que vai ao romance L’assomoir, de Zola, para averiguar de que modo o espaço estrutura a narrativa do mais naturalista dos franceses; depois, acolhe, para surpresa do leitor, nada menos que Os Malavoglia, romance do italiano Giovanni Verga que Cândido analisa como representativo de um “mundo-provérbio”, o mundo da gente simples, que vive numa economia pré-monetária e que será engolida pela lógica do mercado assim que tentar sair do tranquito da pesca artesanal; munido dessas premissas, o quarto ensaio da seção enfrenta um enigma sem mistério, O cortiço, o clássico hoje escolar de Azevedo, em que Cândido enxerga, e demonstra, habilidade superior no registro da vida social e mental do período.

                Antipedante, anti-solene, antimistificador; erudito, profundo, original; grande escritor da língua, claro e comunicativo; pensador radical, freqüentador da mais alta cultura letrada disponível no Ocidente e simultaneamente empenhado em entender o destino da cultura popular; sempre interessado em reverter a condição dos excluídos; com uma carreira de estudos de Literatura sempre próxima da Sociologia e da História, área conceitual hoje em baixa e mesmo tida como anacrônica por cabeças de alfinete do pensamento acadêmico; crítico que, com o passar do tempo, será cada vez mais visto como uma referência da reflexão séria na América, ao lado de Edmund Wilson, Octávio Paz e poucos outros – Antônio Cândido teve a seu favor o fato de estar em São Paulo, centro pulsante da economia e da vida mental brasileira há uns 70 anos, com o Modernismo e a USP, circunstância que ele soube compreender e aproveitar no exercício do melhor pensamento dialético possível nesta periferia, realizando uma obra que agora volta ao convívio do público leitor, que precisa aprender a merecê-lo.

 

 

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