TEXTOS

Antonio Candido

PALAVRAS DO HOMENAGEADO

 

 

Creio que esta homenagem tão desvanecedora, expressa nas palavras mais do que generosas de Tania Franco Carvalhal, vai muito além do que eu possa eventualmente merecer.  Por isso, a minha gratidão é profunda.  E me sensibiliza muito pensar que ela provém da Associação Brasileira de Literatura Comparada, entidade que representa uma fase nova da disciplina em nosso meio.  A organização associativa dos especialistas é sinal de maturidade, e com certeza ajudará a Literatura Comparada brasileira a entrar na era do funcionamento sistemático, pois até agora ela tem sido uma atividade universitária ainda discreta e freqüentemente marginal, quase sempre subproduto das disciplinas de literaturas estrangeiras modernas.  O seu peso específico ainda não é grande, embora seja cada vez mais viva a sua presença.  Penso que a Associação Brasileira de Literatura Comparada, ABRALIC, encerra o período que começou pelas manifestações espontâneas, passou mais tarde à prática individualizada, antes de alcançar o reconhecimento institucional.  Sobre este percurso, gostaria de fazer algumas considerações.

 

Há mais de quarenta anos eu disse que "estudar literatura brasileira é estudar literatura comparada", porque a nossa produção foi sempre tão vinculada aos exemplos externos, que insensivelmente os estudiosos efetuavam as suas análises ou elaboravam os seus juízos tomando a estes como ponto de reparo.  Daí ter havido uma espécie de comparatismo difuso e espontâneo na filigrana do trabalho crítico desde o tempo do Romantismo, quando os brasileiros afirmaram que a sua literatura era diferente da de Portugal.

 

O primeiro sinal disso se encontra na mania de referência por parte dos críticos.  Eles pareciam sentir melhor a natureza e a qualidade dos textos locais quando podiam referi-los a textos estrangeiros, como se a capacidade do brasileiro ficasse justificada pela afinidade tranqüilizadora com os autores europeus, participantes de literaturas antigas e ilustres, que, além de influírem na nossa, vinham deste modo dar-lhe um sentimento confortante de parentesco.

 

De fato, praticamente desde as origens da nossa crítica até quase os nossos dias, um dos critérios para caracterizar e avaliar os escritores tem  sido a alusão paralela a autores estrangeiros.  Assim, Joaquim Norberto evoca Walter Scott a fim de justificar a transformação do índio em nobre cavaleiro; Fernandes Pinheiro qualifica os Cânticos fúnebres de Gonçalves de Magalhães comparando-os às Contemplações de Victor Hugo;  Franklin Távora puxa Gustave Aymard e Fenimore Cooper para desmerecer José de Alencar.  Nem faltou certo comparatismo disciplinar, expresso na volúpia tão brasileira de denunciar plágios, só igualada pela de reivindicar primazias; e foi o caso de Sílvio Romero apontando sete adaptações de VIctor Hugo, sem menção dos originais, na obras de João Salomé Queiroga.  Mesmo em análises mais recentes, feitas em momentos de maior auto-confiança nacional, a rferência surge como técnica de caracterização crítica.  É o caso de Ronald de Carvalho aproximando da irreverência e da boemia desbragada de François Villon o universo de Gregório de Matos.  E vejam que tudo isso não ocorria em contextos formalmente comparatistas, mesmo porque na maioria dos momentos a que aludo não se falava ainda de Literatura Comparada.  Tudo flui espontaneamente, ao correr da reflexão, como se o discurso crítico se constituísse por meio dessas aproximações reconfortantes.  Uma espécie de comparatismo não intencional, elementar e ingênito.  Essa tendência dos críticos correspondia ao comportamento dos escritores, sempre inclinados a apoiar-se nos textos das literaturas matrizes.  Sem falar das traduções, capítulo privilegiado nos estudos comparatistas, lembro, ainda no tmpo do Romantismo, o jogo abundante das epígrafes de autores estrangeiros contemporäneos.

 

O poeta dos períodos clássicos geralmente incorporava diretamente ao texto as evocações ou citações de autores nos quais desejava se amparar, fundindo-as com o seu próprio discurso, porque naquele tempo a imitação era timbre de glória, não havia o sentimento exacerbado de originalidade e as pessoas cultas tinham sempre em mente um certo estoque de alusões eruditas, que se podiam ajeitar como engastes.  Assim, Tomás Antônio Gonzaga incorporava diretamente os traços de Anacreont que lhe intressavam; Basílio da Gama transpunha para o Uraguai, quase ipsis litteris, versos de Vergílio, Petrarca ou Torquato Tasso, - o mesmo Tasso cujos versos sobre a Musa religiosa Frei Francisco de São Carlos costurou no Assunção. Tudo, é claro, sem menção dos originais.

 

Já o poeta romântico, filho de uma era que proclamava a singularidade de cada um e o valor da novidade, desliga do texto a referência e a empurra para o destaque da epígrafe, onde ela aparece com o nome do seu autor e a forma exata, assumindo plenamente o caráter de referência.  E sem descartar de todo os autores antigos, o romântico prfere os contemporâneos estrangeiros, revelando a impregnação direta das fontes externas e o novo universo do intercâmbio intelectual mais dinâmico.  Em Gonçalves Dias e Álvares de Azevedo, homens de muita leitura, mas também nos outros, de equipamento modesto, o texto poético é posto sob a tutela da epígrafe.  Por vezes, de várias epígrafes.  A moda veio de fora, e Victor Hugo foi useiro dela.  Mas no Brasil ela se transformou, repito, na referência sistemática aos autores europeus do tmpo, escolhidos como apoio.  Schiller, Goethe, Novalis, Jean-Paul, Hoffmann; Byron, Moore, Cowper; Lamartine, Vigny, Musset, Georges Sand, Victor Hugo - patrocinam textos nacionais.

 

Estes são exemplos de uma difusa tendência que favorecia o que pode chamar de ânimo compartista, mesmo antes da instauração e divulgação da Literatura Comparada.  Ou, em seguida, manifestada por quem não tinha informação sobre ela.  Mas há outra modalidade que coincide com a sua difusão e é algo mais sistemático, embora desligado do ensino e de atividades institucionais.  Refiro-me ao interesse pelo estudo monográfico de autor estrangeiro, marcando ainda aqui as obsessões da referência inevitável.  O ensaio de Sílvio Romero  sobre Êmile Zola, por exemplo;  o de Araripe Júnior sobre Ibsen; o de Tasso da Silveira sobre Romain Rolland; os de Tristão de Athayde e Jorge de Lima sobre Proust, - este último, aliás, tese de concurso.

 

Esses exemplos procuram mostrar a existência de uma vocação comparatista espontânea e informal, como algo coexistensivo à própria atividade crítica no Brasil.  Literatura Comparada propriamente dita, só quando o século XX já estava chegando à metade, apesar de ter havido manifestações anteriores, inclusive o uso um pouco novidadeiro da designação, por parte de quem pensava sem fundamento estar praticando a matéria, como foi o caso do agitado Almáquio Diniz.  Não conheço bem a marcha desses estudos, para falar a v erdade.  Tanto quanto sei, foram aparecendo por aí como Deus quis, com ou sem o rótulo específico, e todos dentro dos critérios tradicionais.  Lembro que um polígrafo inteligente e curioso, Afrânio Peixoto, se interessou por estas coisas, e nos anos de 1920 escreveu a respeito de eventuais influências d´O fidalgo aprendiz, de D.Francisco Manoel de Mello, sobre Le bourgeois gentilhomme, de Molière.  O mesmo Afrânio Peixoto, nos anos de 1940, quase aplicou corretamente  a categoria de Pré-Romantismo (que conhecia pelo livro de Van Tieghem, de 1924), ao estudar José Bonifácio e Borges de Barros nas suas relações com textos românticos e pré-românticos europeus.

 

Mas nessa altura já tinha entrado em cena outro baiano, que talvez possa ser considerado o primeiro comparatista propriamente dito na crítica brasileira: Eugênio Gomes, Comparatis, entenda-se, sem vínculo universitário nem etiqueta profissional, que começou publicando nos anos de 1930, aqui em Porto Alegre, um livro sobre escritores ingleses.  E que a partir do mesmo decênio começou a elaborar os notáveis estudos sobre influências inglesas em Machado de Assis.

 

Assim, viemos vindo desde as alusões espontâneas anteriores à disciplina até a sua prática regular, podendo-se concluir que a referência ao texto estrangeiro parece um modo constitucional da crítica brsaileira.

 

Quero agora aludir ao primeiro curso de Literatura Comparada de que tenho notícia no Brasil, e que aliás nem sei se passou de projeto.  Denominava-se Histõria Comparada das Literaturas Novo-Latinas e compunha o currículo da Faculdade Paulista de Letras e Filosofi, fundada noa no de 1931 sob a orientação de Antonio Piccarolo.  Ele próprio se encarregou da matéria, além de Língua e Literatura Latina, e em 1932 deu uma aula inaugural que servia a ambas, denominada "O parnasianismo na literatura romana".  É possível que a idéia de estabelecer a disciplina tenha decorrido do impacto causado pela presença de Arturo Farinelli no ano de 1927 em São Paulo, onde fez conferências que foram reunidas num volume em 1930.

 

Essa Faculdade acabou em 1934, quando se fundou a Universidade, que não incluiu no próprio currículo a Literatura Comparada. O que houve nela, bem mais tarde, foi o que se pode chamar de prática apendicular, isto é, a de fazer trabalhos de Literatura Comparada para atender a requisitos de outras disciplinas.  Como é agradável lembrar os nomes dos pioneiros na minha instituição, menciono que o começo foi em 1945, com uma tese de concurso à Cadeira de Literatura Brasileira, de Antônio de Salles Campos, meu excelente professor de Literatura no Colégio Universitário.  Como matéria de dissertações e teses de doutorado, ela aparece em primeiro lugar na de Keera Stevens, sobre viajantes ingleses em Portugal, orientada nos anos de 1950 junto à Cadeira de Literatura Portuguesa pelo Professor Fidelino de Figueiredo, que publicou naquela altura estudos comparatistas.  Para ficar nos decênios de 1950 e 1960, seguiram-se a de Carla de Queiroz sobre Metastasio e os árcades brasileiros, em Literatura Italiana; a de Marion Fleischer em Literatura Alemã, sobre obras publicadas nesta língua no Rio Grande do Sul; a de Onédia de Carvalho Barboza, em Literatura Inglesa, sobre traduções de Byron no Brasil; a de Maria Alice Faria, em Literatura Francesa, sobre Musset e Álvares de Azevedo, - e diversas outras.  Em meados dos anos de 1930, Tasso da Silveira regeu no Rio de Janeiro uma disciplina de Literatura Comparada cujo destino ignoro.  Em São Paulo, ela foi incluída no currículo em 1961, casada à Teoria Literária, mas só em 1969 foram dados os primeiros cursos regulares em nível de graduação, aliás, sem prosseguimento imediato.  Eles se consolidaram a partir de 1971 em nível de Pós-Graduação, aos cuidados de Onédia de Carvalho Barboza, que, além de assegurar a continuidade do ensino, orientou valiosas dissertações e teses.

 

A partir de então, o interesse e as atividades em Literatura Comparada começaram a se manifestar regularmente nas universidades brasileiras, das quais só mencionei o caso paulista, por desconhecer a situação em outros Estados.  Mas faltava algo importante, e eu diria decisivo: a consciência profissional específica, que se adquire e fortalece sobretudo pelo intercâmbio, os periódicos especializados e a vida associativa, marcada por encontros, simpósios e congressos.  Foi o que começou com a ABRALIC.  Por isso, penso que esta corresponde a uma certidão de maioridade da Literatura Comparada no Brasil.

 

 

Anais, Porto Alegre: abralic, 1988, pp. 17-20

 

 

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