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TEXTOS Antonio Candido |
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Antonio Callado
Ao escrever, em 1957, o Prefácio à primeira edição de Formação da literatura brasileira, Antonio Candido, diante do livro escrito e acabado, se penitencia pelo que considera, em sua composição, duas falhas. A primeira seria a exclusão do teatro, a qual "me pareceu", diz ele, "recomendável para coerência do plano, mas importa, em verdade, num empobrecimento". A seguir o autor escreve: "Outra falha me parece, agora, a exclusão de Machado de Assis romântico no estudo da ficção, que não quis empreender, como se verá, para não seccionar uma obra cuja unidade é cada vez mais patente aos estudiosos. Caso o livro alcance segunda edição, pensarei em sanar estas e outras lacunas". O livro, nos seus majestosos dois volumes num total de 792 páginas, ficou para sempre como estava, sem o teatro e sem o Machado romântico. Não sei se o teatro faz tanta falta assim, mas sei que a introdução precoce de Machado de Assis viria prejudicar o que me parece ser a própria estrutura estética da obra literária que é a Formação tem seu herói oculto, ou semi-oculto, preservado com astúcia e mestria. As qualidades desse herói são amealhadas, entesouradas, e se distribuem, ao longo da narração, com parcimônia, para que o herói surja, quando surgir, em sua completa e indiscutível glória. Todos sabemos que o grande tema da Eneida, por exemplo, é Roma, mas Roma permanece no horizonte do poema. E só aparece, assim mesmo como profecia, quando Enéias desce ao reino dos mortos. Mas olhemos antes, em sua generalidade, a Formação da literatura brasileira. O livro, fundamental como poucos outros serão em nossa cultura - do porte, digamos, de Um estadista do Império, Casa-grande e senzala, Raízes do Brasil -, é, antes de mais nada, uma história do Brasil. Mas uma história que se desenrola numa região mental diferente. Trata-se do Brasil pensando a si próprio. O monólogo interior do Brasil. O próprio Antonio Candido, na Introdução à segunda edição, estabelece: "A literatura do Brasil, como a dos outros países latino-americanos, é marcada por este compromisso com a vida nacional no seu conjunto, circunstância que inexiste nas literaturas dos países de velha cultura. Nelas, os vínculos neste sentido são os que prendem necessariamente as produções do espírito ao conjunto das produções culturais; mas não a consciência, ou a intenção, de estar fazendo um pouco da nação ao fazer literatura". É fácil pinçar, no próprio tecido da Formação, exemplos desta simbiose de literatura e história, e bastará talvez isolar um deles para caracterizar o fenômeno. O capítulo "O nacionalismo literário", do segundo volume, começa com a proposta de que
O movimento arcádico significou, no Brasil, incorporação da atividade intelectual aos padrões europeus tradicionais, ou seja, a um sistema expressivo, segundo o qual se havia forjado a literatura do Ocidente. Nesse processo verificamos o intuito de praticar a literatura, ao mesmo tempo, como atividade desinteressada e como instrumento, utilizando-a ao modo de um recurso de valorização do país [...] O período que se abre à nossa frente prolonga sem ruptura essencial este aspecto, exprimindo-o todavia de maneira bastante diversa, graças a dois fatores novos: a Independência política e o Romantismo [...] Assim como a Ilustração favoreceu a aplicação social da poesia, voltando-a para uma visão construtiva do país, a Independência desenvolveu nela, no romance e no teatro, o intuito patriótico.
Nesta última frase vemos como o autor, clarificada inteiramente sua idéia, quase leva o leitor a uma indagação: qual foi, entre Ilustração e Independência, o movimento histórico e qual o cultural? O fato é que uma sofrida história tem exercido despótica atração sobre a literatura e o pensamento no Brasil. O Brasil começou com a decadência de Portugal e essa decadência produziu, nas letras portuguesas, a mais barroca e literária das histórias nacionais, a de Oliveira Martins, que, como Eça de Queirós e Antero de Quental, fazia parte do grupo que se intitulava Vencidos da Vida. O embarque da família real portuguesa para o Brasil - acontecimento que, bem ou mal, nos tirou do porão do colonialismo e nos abriu as portas da percepção do mundo exterior - foi descrito por Oliveira Martins como uma sórdida catástrofe. Conta o historiador o que aconteceu, quando Junot invadiu Portugal:
Três séculos antes, Portugal embarcara, cheio de esperanças e cobiça, para a Índia: em 1807 (novembro, 29) embarcava um préstito fúnebre para o Brasil. A onda da invasão varria diante de si o enxame dos parasitas imundos, desembargadores e repentistas, peraltas e sécias, frades e freiras, monsenhores e castrados. Tudo isso, a monte, embarcava, ao romper do dia no cais de Belém. Parecia o levantar de uma feira, e a mobília de uma barraca suja de saltimbancos falidos: porque o príncipe regente, para abarrotar o bolso com louras peças de ouro, seu enlevo, ficara a dever a todos os credores, deixando a tropa, os empregos, os criados por pagar.
E que dizer, nesse capítulo da simbiose, entre nós, de história e literatura, de nosso mestre Capistrano de Abreu? Escrevendo, em 1903, a um amigo, Capistrano assim se referiu à sua esplêndida obra Capítulos de história colonial, 1500-1800: "Pretendo acompanhar cada volume do Varnhagen (serão três, o primeiro acaba na conquista do Maranhão) de uma introdução de cem páginas, fazendo a síntese do período correspondente. Se levar isto ao cabo, fica pronto o livro a que reduzi minhas ambições da História do Brasil, um volume de formato de um romance francês". Capistrano acabou a obra. E que romance saiu, enxuto, orgulhoso! Ele sequer menciona, em sua essência da história colonial, a Conjuração Mineira. Numa carta a Mário de Alencar, explicou, referindo-se à ausência do Tiradentes: "[...] nos Capítulos, dada a escala, não entrou porque não cabia". Aliás, as palavras com que Capistrano encerra esses Capítulos são o que há de sombrio na literatura brasileira: "Cinco grupos etnográficos, ligados pela comunidade ativa da língua e passiva da religião, moldados pelas condições ambientes de cinco regiões diversas, tendo pelas riquezas naturais da terra um entusiasmo estrepitoso, sentindo pelo português aversão ou desprezo, não se prezando, porém, uns aos outros de modo particular - eis em suma ao que se reduziu a obra de três séculos". Quanto ao próprio Vernhagen, visconde de Porto Seguro, ele encerrou sua bela História geral do Brasil embrenhando-se pela literatura, assim como, mais tarde, Antonio Candido deixaria a sociologia também pela literatura. Vernhagen, com um ar de alívio de escritor que se tranca em casa, enfia os chinelos e enfrenta o papel em branco, escreveu, no fim da sua História:
Depois de tantos afãs com a política interna e externa, de tanta lide nas cortes, nos gabinetes e ante-salas de ministros, e de tantas emoções nos campos de batalha, onde foram colher eternos louros muitos valentes brasileiros, recolhamo-nos ao próprio lar, e procurando imitar o inimitável Xavier de Maistre, espaireçamos a imaginação e dilatemos o coração pelo Império, contempolando-o nas obras de muitos nacionais e estrangeiros, cujos escritos, ora adornando nossas estantes, recomendam a memorável época do reinado, que mais ou menos diretamente protegeu os seus autores, favorecendo-os com cartas de recomendação aos capitães generais, e declarando até alguns pensionários do Estado, a pretexto de que enriqueceriam com amostras o museu nacional.
Entre os intelectuais mais estimados por Varnhagen figura Hipólito da Costa, por causa do Correio Brasiliense, e, dentro do Correio, pelo projeto que o jornal defendia, "o da mudança da capital do Brasil para o sertão, concebido, se pode dizer, pelos patriotas da conjuração mineira de 1789". Voltaremos ainda à capital do Brasil, mas é tempo, depois de termos visto como os historiadores da língua se imergem na literatura, de ver como a Formação de Antonio Candido, apesar de imersa na história, se sobrepõe a ela não por usar um estilo lítero-histórico e sim por montar uma estrutura de criação literária. Vale, porém, observar que, antes de recriar em si mesmo a literatura brasileira e de transmiti-la ao leitor como se estivesse sendo inventada no momento, Antonio Candido faz questão de estabelecer premissas com uma lucidez quase rude. Na primeira página da primeira edição de Formação, declara:
Há literaturas de que um homem não precisa sair para receber cultura e enriquecer a sensibilidade; outras, que só podem ocupar uma parte da sua vida de leitor, sob pena de lhe restringirem irremediavelmente o horizonte. Assim, podemos imaginar um francês, um italiano, um inglês, um alemão, mesmo um russo e um espanhol, que só conheçam os autores de sua terra, e, não obstante, encontrem neles o suficiente para elaborar a visão das coisas, experimentando as mais altas emoções literárias. Se isto já é impensável no caso de um português, o que se dirá de um brasileiro? A nossa literatura é galho secundário da portuguesa, por sua vez arbusto de segunda ordem no jardim das Musas...[...] Comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é ela, não outra, que nos exprime. Se não for amada, não revelará a sua mensagem; e se não a amamos, ninguém o fará por nós.
Este, portanto, é o roteiro da viagem, da virgiliana viagem empreendida por Antonio Candido e que dividiríamos em três etapas. Durante a primeira etapa divisamos do convés do seu navio as torres que ficaram para trás, as torres incendiadas de Tróia, ou, mais exatamente, daquela Lisboa de Oliveira Martins, onde já morrera o sonho imperial de transformar o idioma português em língua fraca; pela frente se estendem os mares, raramente navegados, de livros freqüentemente muito chatos; mas no fim, ah, no fim, ao desembarcarmos do navio pisamos não na terra da robusta esperança de Varnhagen ou do desalento de Capistrano. Desembarcamos, isto sim, na grande indeterminação, na terra da ambigüidade. O monólogo interior do autor da Formação da literatura brasileira se dissolve num outro monólogo, que até hoje nos perturba e nos fascina. Vamos usar agora a Formação não em sua rigorosa e bela concepção geral e sim como o diário de bordo de Antonio Candido enquanto reunia rochosos promontórios, desertas ilhas e doces angras para ir compondo o mapa da literatura do Brasil. O capítulo "Literatura congregada" começa assim: "O ambiente para a produção literária nos meados do século XVIII era, no Brasil, o mais pobre e menos estimulante que se pode imaginar, permanecendo a literatura, em conseqüência, um subproduto da vida religiosa e da sociabilidade das classes dirigentes. Neste sentido, as Academias foram a expressão por excelência do meio e dos letrados, sendo uma espécie de coletividade ao mesmo tempo autora e receptora da subliteratura reinante". Essas tristes academias produziram os primeiros daqueles livros, ou esboços, com medonhos títulos, como a Petreida, que celebraria Pedro Álvares Cabral, mas, mesmo do seio pétreo desses primeiros escolhos por onde passou, Antonio Candido via emergir de repente um frondoso coqueiro, ou uma ninfa. Assim é que, como vemos no capítulo quarto, da Academia dos Renascidos surgiu o poeta Cláudio Manuel da Costa, "que foi, no Brasil, ponte entre a herança cultista e os desígnios neoclássicos". Cláudio - que teve melancólico fim na Conjuração Mineira - é o grande primeiro nome a aparecer na Formação da literatura brasileira. Cláudio soube graduar sua sensibilidade, ajustar suas lentes de modo a ver através de uma cultura européia o cenário mineiro dos seus amores. Observa Antonio Candido: "[...] o fato é que permaneceu a vida escravo das primeiras emoções, como revela qualquer leitura cuidadosa, manifestando uma 'imaginação da pedra' (dir-se-ia à maneira de Bachelard) em que se exprime a fixação com o cenário rochoso da terra natal". (Fecho aspas para observar, entre parênteses, que também Antonio Candido conserva muito das pedras de Minas em sua memória, pois guardou nela tanto a "imaginação da pedra" de Bachelard quanto a "educação pela pedra", de João Cabral, que parodiou no título de outro livro seu, de ensaios, A educação pela noite.) Fecho os parênteses e volto ainda por um instante ao capítulo de Cláudio, pois nele, "depois de procelosa tempestade, noturna sombra e sibilante vento", como dizia outro marinheiro, Luís de Camões, Antonio Candido de fato deixa passar o tempo, recobrando forças, bebendo goles e goles de poesia pura. Pelo menos uma breve quadra de Cláudio quero reproduzir aqui, das muitas que mataram a sede do autor:
Destes penhascos fez a natureza O berço em que nasci: oh quem cuidara Que entre penhas tão duras se criara Uma alma terna, um peito sem dureza! Cláudio Manuel da Costa só perdeu o grande sopro poético quando adotou alexandrinos franceses para compor seu Vila Rica, de quem nem ele próprio, ao que parece, gostou. Há, no entanto, a desculpa, se assim podemos dizer, de Cláudio haver tentado, nesse poema, imitar o Uraguai, este, sim, grande poema, de Basílio da Gama. Me parece oportuno lembrar aqui que Formação da literatura brasileira tem um subtítulo, momentos decisivos, que é importante não perder de vista para uma compreensão ampla da obra. Como já vimos e ainda veremos, o autor não descuida jamais sua promessa de ir fundo nos pormenores, às vezes tediosos, da lenta cristalização da literatura do Brasil. Mas os vários momentos decisivos que adotou como subtítulo se espalham pelo livro todo e são o momento da ida à terra, da aguada, do reabastecimento da dispensa de bordo e dos reparos no navio, e, sobretudo, aquele em que o nauta, à sombra das bananeiras, debaixo dos laranjais, revê, dentro de si, o mar já percorrido. Cláudio foi o primeiro desses momentos e desemboca diretamente em outro, abordado no capítulo: "Uma nova geração", assim descrita:
São, de um lado, Basílio da Gama e Silva Alvarenga, acentuadamente pombalinos no pensamento e muito libertos na forma; de outro, Alvarenga Peixoto e seu parente Gonzaga, mais presos formalmente aos cânones arcádicos e à influência direta de Cláudio Manuel da Costa [...] Basílio da Gama transfunde musicalidade serena, mas calorosa, no decassílabo solto; Gonzaga dá admirável plasticidade à obra; Silva Alvarenga imprime nova orientação melódica ao verso, inventando o rondó; Caldas Barbosa empresta categoria literária à modinha [...] A sensibilidade natural começa a se tornar sentimental e procura as formas expressionais adequadas, que o Romantismo levará às últimas conseqüências.
O momento profundamente decisivo do romantismo já ficou aí prometido, mas o capítulo da "Nova geração" e os seguintes são dos mais belos da Formação e bom seria se, em lugar da minha apreciação do texto, ouvíssemos aqui o que ele cita desses grandes poetas e o que vai, aos poucos, destilando dos poemas. Marília de Dirceu, Marília de Gonzaga, está até hoje conosco (sobretudo aqui, neste campus) e foi, pode-se dizer, a primeira figura de mulher da literatura do Brasil. Referindo-se a ela diz Antonio Candido: "Temos desde uma presença física concretamente sentida, até uma vaga pastorinha incaracterística, mero pretexto poético"...Logo em seguida, porém, cita três setissílabos do Gonzaga que pregam para sempre na parede da poesia brasileira essa mulher inaugural: "Fito os olhos na janela,/aonde, Marília bela,/tu chegas ao fim do dia". Deixemos, na janela, Marília, no seu dia sem fim, e peguemos de novo, lá adiante, o navio, que atravessa agora mares de calmaria, céus calorentos e baixos, velas murchas. O capítulo sexto, denominado "Formação da rotina", é logo anunciado como um momento de estagnação, mas o autor se fotifica diante dele, escrevendo: "Para o crítico e o historiador tais fases apresentam bastante interesse, pois o estabelecimento da rotina importa em sugestiva dubiedade: a acentuação de características anteriores mistura-se a débeis sinais de mudança futura". Do ponto de vista crítico, o capítulo prende tanto quanto uma daquelas desesperadas calamarias de romance de Conrad, mas eu o deixo para os leitores da Formação da literatura brasileira em sua totalidade. Espero ter dado, até este ponto, uma idéia geral de como progride esta lenta meditação sobre a literatura brasileira, que se forma no livro não a duras marteladas, como as que fazem uma estátua sair de um bloco de pedra, mas num movimento vital, orgânico. Por isso, tanto quanto os momentos brilhantes, são igualmente postos a crescer diante dos nossos olhos os de rasa inspiração, os de rotina e cansaço, quase secretos atualmente, castigados pelo olvido geral, mas que foram, no seu dia, válidos, vivos como tubérculos na terra escura. Creio que podemos, a partir daqui, marchar para o cerne do livro, para o momento central do - se me permitem falar assim - seu enredo, da sua trama. Quem consultar o índice onomástico do primeiro volume só encontrará, com uma referência cada, dois indivíduos de nome Assis: Machado de Assis e São Francisco de Assis. A companhia é boa, mas a referência é parca. A grande apresentação de Machado de Assis ao leitor ocorre no segundo volume, no capítulo que cuida do romance no romantismo e que tem como título: "Um instrumento de descoberta e interpretação". Vou fazer uma citação mais longa, e sem qualquer interrupção, de um trecho desse capítulo porque, no meu modo de ver, ele é uma extraordinária síntese do momento fundamental da nossa formação literária. Além disso, Machado aqui já aparece em seu fulgor de deus Terminus. Mas (aviso a futuros leitores da obra) ele vai desaparecer de novo. Reaparecerá, é certo, aqui e ali, mas sempre breve, apenas entrevisto, e esperado, até sua misteriosa transubstanciação final. Vamos ao belo trecho do autor sobre o momento da consolidação do romance brasileiro:
[...] o nosso romance tem fome de espaço e uma ânsia topográfica de apalpar todo o país.Talvez o seu legado consista menos em tipos, personagens e peripécias do que em certas regiões tornadas literárias, a seqüência narrativa inserindo-se no ambiente, quase se escravizando a ele. Assim, o que se vai formando e permanecendo na imaginação do leitor é um Brasil colorido e multiforme, que a criação artística sobrepõe à realidade geográfica e social. Esta vocação ecológica se manifesta por uma conquista progressiva de território. Primeiro, as pequenas vilas fluminenses de Teixeira e Souza e Macedo, cercando o Rio familiar e sala-de-visitas, do mesmo Macedo e de Alencar, ou o Rio popular e pícaro de Manuel Antônio; depois, as fazendas, os garimpos, os cerrados de Minas e Goiás, com Bernardo Guimarães. Alencar incorpora o Ceará dos campos e das praias, os pampas do extremo sul; Franklin Távora, o Pernambuco canavieiro, se estendendo pela Paraíba. Taunay revela Mato Grosso; Alencar e Bernardo traçam o São Paulo rural e urbano, enquanto o naturalismo acrescenta o Maranhão de Aluísio e a Amazônia de Inglês de Sousa. Literatura extensiva, como se vê, esgotando regiões literárias e deixando pouca terra para sucessores, num romance descritivo e de costumes como é o nosso. Em um país caracterizado por zonas tão separadas, de formação histórica diversa, tal romance, valendo por uma tomada de consciência, no plano literário, do espaço geográfico e social, e ao mesmo tempo documento eloqüente da rarefação na densidade espiritual. Balzac, por exemplo, podia, sem sair de Paris, percorrer uma gama extensa de grupos, profissões, camadas, longamente amadurecidos, cuja interação vinha enriquecer, no plano do comportamento, aquelas opções e alternativas, já referidas, que são a própria carne da ficção de alto nível. No Brasil, riqueza e variedade foram buscadas pelo deslocamento da imaginação no espaço, procurando uma espécie de exotismo que estimula a observação do escritor e a curiosidade do leitor. Exotismo do Ceará para o homem do sul; exotismo da própria Itaboraí para os leitores cariocas de Macedo. O aprofundamento da análise vai se tornando viável pela sedimentação do material estudado no romance extensivo. O romance rural de Bernardo e Távora; o romance urbano de Macedo, Manuel Antônio e Alencar (mais refinado na análise à medida que se ia ampliando e diversificando a burguesia como classe) constituem por assim dizer a superposição progressiva de camadas, que ia consolidando o terreno para a sondagem de Machado de Assis. Em Machado, juntam-se por um momento os dois processos gerais da nossa literatura: a pesquisa dos valores espirituais, num plano universal, o conhecimento do homem e da sociedade locais. Um eixo vertical e um eixo horizonta, cujas coordenadas delimita, para o grande romancista, um espaço não mais geográfico ou social, mas simplesmente humano, que os engloba e transcende.
Encerrada, aqui, a citação, peço licença para uma digressão minha. No meu exemplar da Formação, escrevi, à margem das linhas finais dessa citação, "Lúcio e o risco de Brasília". A frase em que é descrito o espaço de Machado me fez pensar na de Lúcio Costa descrevendo o plano de Brasília: "Nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio Sinal da Cruz". Para escrever este texto, fui catar a frase de Lúcio e acabei por encontrá-lo no livro de Juscelino Kubitscheck intitulado Por que construí Brasília e de repente fiquei matutando, perdido em cismas. O antigo sonho brasileiro de mudar a capital do país para o interior não terá sua origem naquela mesma aflição de nosso romance, a da "fome de espaço e uma ânsia topográfica de apalpar todo o país"? E não foi o esforço de interiorização de nós mesmos que se encarnou nesse velho projeto nacional de interiorização da capital, finalmente realizado na forma de uma cidade bela, altamente artística, quase poderíamos dizer literária? E não é, sobretudo, curioso, que o mais extrovertido dos presidentes da República é que tenha acabado por introverter a capital dos brasileiros? Acontece ainda que Juscelino, se não chegou a escrever o poema, ou o romance de Brasília, nos legou o seu diário, que é exatamente Por que construí Brasília. Até milagres ocorreram durante a epopéia da construção, como ocorreram, por exemplo, na epopéia hagiográfica que é a Vida do venerável padre José de Anchieta, de Simão de Vasconcelos, S.J. Juscelino nos conta o que foi, em outubro-novembro de 1956, a faina da construção da primeira casa de Brasília, a casa do presidente, batizada Catetinho, com jipes, tratores, geradores trazidos de mil quilômetros de distância e postos a funcionar sem perda de tempo. Ouçamos o próprio JK contando o fim do primeiro dia de sobre-humana labuta:
Tudo isso fora feito no mesmo dia da chegada. Mais ou menos à meia-noite, os pioneiros, exaustos, resolveram tomar um uísque, antes de se recolherem para um descanso de umas poucas horas. Mas não havia gelo para refrescar a bebida, ainda morna de longa exposição ao sol do Planalto. Mal encheram os copos, o céu enfarruscou e uma violenta tempestade de granizo desabou sobre o acampamento. "Milagre!", gritavam os construtores, recolhendo as pedras de gelo, maiores do que uma bola de gude, caídas das nuvens. E o uísque, gelado com granizo, correu de mão em mão, festejando, com alvoroço, aquele primeiro dia de trabalho.
Encerro aqui minha digressão e doravante pretendo apenas rastrear, nas páginas do segundo volume da Formação, alguns dos instantes em que refulge a presença do grande ausente. Mas no intuito de acentuar uns traços no retrato do crítico Antonio Candido, que vai emergindo desta leitura que empreendo do seu livro maior, vou colocar aqui dois flagrantes: um, ligado à sua crítica de A Confederação dos tamoios, de Gonçalves de Magalhães, e outro ao Colombo, de Araújo Porto Alegre. O primeiro constitui um modelo de compreensão e tolerância; o segundo prova que tem limites mesmo a paciência do mais equânime dos críticos. O primeiro mostra como é fácil, superficial, a crítica baseada na pura injúria ou gozação; o segundo, como é vã e massacrante a tentativa de fazer arte por parte daqueles que não possuem o menor ânimo artístico. Gonçalves de Magalhães, tão esquecido hoje em dia, merece de Antonio Candido todo um capítulo, com o título algo brejeiro de "A viagem de Magalhães", mas com esta abertura, que espanta o leitor: "É provável que a maior influência individual jamais exercida sobre contemporâneos tenha sido, na literatura brasileira, a de Gonçalves de Magalhães. Durante pelo menos dez anos ele foi a literatura brasileira; a impressão de quem lê artigos e prefácios é que só se ingressava nela com o seu visto". Magalhães, que viveu de 1811 a 1882, foi poeta, homem culto, brilhante, diplomata, amigo pessoal do imperador d. Pedro II. Já estava coberto de louros quando deu, em 1856, o mau passo de publicar a epopéia de Confederação dos tamoios, "elaborada certamente", observa Antonio Candido, "no intuito de empolgar a primazia definitiva da nossa literatura". Não se deu bem, pois foi logo alvo de vigorosa crítica de ninguém menos que José de Alencar. A verdade é que, neste nosso expirante século XX, Confederação dos tamoios talvez só tenha sido lida, de ponta a ponta, por Antonio Candido. Não que ele aplauda o poema, longe disso, mas faz questão de escrever a seu respeito:
Não é contudo a nulidade referida por muitos críticos; as obras deste tipo são geralmente lidas de carreira, ou mal folheadas, com a intenção prévia de louvar ou denegrir. Nada mais fácil do que fazer espírito à sua custa, como Alcântara Machado, destacando versos ridículos e trechos fracos. Mas uma epopéia vale pelo conjunto; esta, apesar de medíocre e mesmo ruim, tem certa categoria na largueza da concepção, coerência do desenvolvimento, nobreza de muitas seqüências e alguns bons trechos...
Quanto ao poema Colombo, de Araújo Porto Alegre, Antonio Candido também o estuda com minúcia, aplicação, concentrado na leitura como um garimpeiro na bateia, tentando vislumbrar no caibro grosso algum vestígio de ouro. Aqui, no entanto, antes de nos introduzir na sua sofrida análise do poema, compõe para nós, sobre o poeta, o seguinte sereno anátema: "[...] daí nasceu o mais extenso poema da nossa literatura, o terrível Colombo, paquiderme de quarenta cantos, obra principal onde se compendiam os seus muitos defeitos e poucas qualidades. E chegamos ao derradeiro capítulo de Formação da literatura brasileira. Intitula-se "A crítica viva", que é, naturalmente, a província por excelência do autor. Começa assim: "Se procurarmos uma crítica viva, empenhando a personalidade do autor e revelando preocupação literária mais exigente, só a encontraremos em alguns poucos ensaios, prefácios, artigos, polêmicas, na maioria incursões ocasionais de escritores orientados para outros gêneros: Dutra e Melo, Junqueira Freire, Álvares de Azevedo, José de Alencar, Franklin Távora, Francisco Otaviano, Bernardo Guimarães, Gonçalves Dias; no fim do período, alguns artigos excelentes de Machado de Assis". Vem, a seguir, um estudo sobre a crítica tal como foi exercida por Álvares de Azevedo, e outro sobre a crítica de Alencar e Távora. No estudo sobre Alencar e Távora, que gira em grande parte sobre a grande polêmica nacional que se travou em torno da Confederação dos tamoios, o Autor registra, nos seguintes termos, a curiosa participação de um certo crítico entre aqueles que saíram, contra José de Alencar, em defesa de Gonçalves de Magalhães: "O acontecimento extraordinário (único no gênero em toda a história, ao que eu saiba) foi todavia o fato do próprio Pedro II tomar a pena e, sob o pseudônimo de 'Outro amigo do Poeta', alinhar seis artigos ponderados, comedidos e de invariável dignidade (reconhecida, aliás, pelo contendor), que honram seu amor às letras e estão à altura da boa crítica brasileira do tempo". Mas o imperador desse capítulo final não é nem José de Alencar nem seu imperial contendor e sim o imperador do livro inteiro. Só aqui Machado assume não só presença plena como voz. Trata-se de um artigo dele, "Instinto de nacionalidade", de 1873, escrito para um periódico então publicado em português nos Estados Unidos. Vou reproduzir aqui, no abrir e fechar de aspas que mal separa as palavras de Antonio Candido das de Machado de Assis, o trecho referente a "Instinto de nacionalidade":
Aí se explica o significado real do indianismo como útil presença do característico, e a necessidade de não se restringir a ele o escritor, a fim de poder atingir a maturidade que permite ser brasileiro, independente do tempo: "Não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região; mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a empobreçam. O que se deve exigir do escritor, antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço". Esta é a "outra independência" que "não tem Sete de Setembro nem Canto do Ipiranga"; que "não se fará num dia, mas pausadamente, para sair mais duradoura; não será obra de uma geração, nem de duas; muitas trabalharão para ela até perfazê-la de todo".
Depois disso, em poucas linhas suas, o autor encerra a Formação da literatura brasileira, que de fato acabava de ser encerrada por Machado de Assis. Com a cortesia que todos lhe conhecemos, Antonio Candido se afastou e cedeu o lugar à personagem central do seu grande livro.
Extraído do livro dentro do texto, dentro da vida. Ensaios sobre Antonio Candido. Maria Angela D'Incao & Eloísa Faria Scarabôtolo (orgs.). São Paulo: Companhia das Letras: Instituto Moreira Salles, 1992
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