TEXTOS

Antonio Candido

MÁRIO DE ANDRADE

Poesias - Livraria Martins Editora - São Paulo, 1941.

 

Antonio Candido

 

Não posso aproximar-me da poesia, como crítico, sem sentir um certo constrangimento.  Porque, para fugir a uma certa crítica detestável de impressões vagas e de tiradas sem sentido, o crítico vai se esforçando por se exprimir em conceitos, que são o resultado de análises em que o seu esforço foi - por mais que não o quisesse - o de intelectualizar as emoções. 

Submeter a poesia ao processo de expressão crítica é, de certo modo, sacrílego e perigoso.  Sacrílego, na mesma medida em que o é a crítica musical intelectualizada; perigoso, na medida em que o crítico sacrifica boa parte da sua experiência poética - passada em regiões e em termos inefáveis - e se intromete pela do leitor a dentro.  Ainda mais se tratando de um poeta como Mário de Andrade - poeta complexo, profundo, extremamente pessoal, em grane parte da sua obra. 

Poeta complexo, mas não desconcertante.  Poesias representam um balanço em toda a atividade poética de Mário d Andrade, e o que nós vemos por meio de tal balanço é uma grande coerência, que se manifesta através de uma precisão cada vez maior na sua maneira poética.  Esta maneira poética é o fruto da aventura do homem Mário de Andrade através da sua concepção do mundo, do homem e do objeto próprio da poesia. 

Em Mário de Andrade há uma qualidade mestra, que domina as outras e é responsável pela sua grandeza como poeta: a sua capacidade de descobridor. 

A poesia é, antes de mais nada, uma aventura de descobrimento.  É poeta aquele homem que vai descobrindo significações novas nas coisas velhas e, principalmente, sentidos novos em coisas novas - antes dele inexploradas. 

Esta faculdade de Mário de Andrade - que é, portanto, um poeta da mais alta significação - se junta a outra circunstância para explicar a essência de seu estado poética: o fato da sua poesia ser construída;  ser o fruto de um trabalho criador.  O poeta não se submete às emoções que lhe vêm de fora.  Ou apenas na medida em que sua humildade diante das coisas representa uma fase preparatória, necessária para a identificação com o objeto - mas à qual sucede outra atividade definitiva, de ação consciente sobre o material.  Versos como 

"me perdi pelas sensações, 

não sou eu, sou eus em farrancho"

 

 

exprimem essa primeira fase.  Não se sente nos seus versos aquela passividade de certos poetas que, transformando-se em registros, deixam a corrente poética passar através deles.  Quando o registro é genial, nascem os mediuns, os videntes (os Schmidts).  Em Mário de Andrade, porém, o dado das emoções é dominado, pensado, dirigido.  É uma esplêndida atitude de criador; de quem quer que a virtude criadora do homem seja o elemento significativo da criação.  Uma atitude, aliás, que reflete a sua concepção de vida, e que o leva a fazer a sua poesia da mesma maneira por que faz o seu destino: 

 

 

"Não és tu que me dás felicidade 

Que esta eu crio por mim, por mim somente 

Dirigindo sarado a concordância 

Da vida que me dou com o meu destino".

 

Este descobridor construtivo é um poeta de vários aspectos, várias maneiras, e vários temas. 

O seu primeiro aspecto, é o do poeta folclórico, fazendo a sua poesia se nutrir de lendas, casos e assuntos do nosso povo.  É principalmente o poeta do Clã do Jaboti, que deixa uma marca perene no poeta posterior. 

O segundo, é o do poeta do quotidiano - que constrói a sua poesia com os dados da vida de todo o dia, dados que são transfigurados e servem de ponto de partida para as suas mais belas aventuras poéticas.  É já grande parte de Paulicéia desvairada, é o Losango Cáqui e é muito do Remate de Males

Vem depois o poeta de si mesmo: o homem que dá mergulhos no fundo das suas águas e procura aprisionar com fios tenuíssimos as coisas inefáveis que viu por lá.  É o poeta espalhado por todo o "Remate", pelo "Grão Cão", pelo "Gira-sol da Madrugada" e pelo "Livro Azul".  Ao lado deste, e sempre agarrado a ele, está o poeta eu mais o mundo. 

E há enfim o poeta que procura novos meios de expressão para a sua aventura.  É o criador de Poética, que dá tanta amplitude à sua obra (e ao qual cabem um pouco, às vezes, aqueles versos: 

 

 

"Não é a minha amplidão que me desencaminha, 

Mas a virtuosidade...").

 

As suas maneiras são sobretudo três: 

A maneira de guerra, presente de modo especial em Paulicéia desvairada, e que representa a sua função dentro do modernismo. 

A fase de encantamento rítmico, mais concessiva às sugestões populares, cheia de trouvailles e de virtuosismos saborosos. 

A maneira despojada, que baixa o tom, esquece o brilho e busca o essencial com a respiração presa. 

É claro que não há sempre poesias correspondendo totalmente a uma só destas maneiras e daqueles aspectos, que se apresentam as mais das vezes combinados. 

Quanto aos temas, a sua variedade escapa a qualquer enquadramento.  O mais que se pode dizer é que há três ou quatro que chamam sobretudo a atenção: o tema Brasil; o tema do conhecimento amoroso (e do amor falhado); o tema do auto-conhecimento e da conduta em face do mundo. 

Esta esquematização, medrosamente aventurada, só a arrisquei com o fito de indicar uma riqueza que eu procuraria debalde fixar num curto ensaio crítico.  Para este, eu destaco apenas um aspecto de Mário de Andrade - uma só maneira: a do poeta que dsce em si mesmo e que se concentra em torno de sutilíssimas emoções, num tom esbatido de quem se contém para não trair a pureza da sua pesquisa poética.  É, sobretudo, o poeta dos "Poemas da negra" e do "Rito do irmão pequeno". 

Primeiro, uma observação: até o Remate de Males, Mário de Andrade é todo dominado por uma dupla preocupação de explorar temas brasileiros e de construir uma Poética.  A partir de então, o Brasil e a Poesia são postos mais à margem; o poeta lembra-se mais estritamente de si mesmo e como que se retira em si mesmo.  Não é ocioso notar que o "Remate" (quer dizer: uma nova fase que representará o apogeu poético de Mário de Andrade) começa pelo "Eu sou trezentos...": 

 

 

"Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta, 

Mas um dia afinal me encontrarei comigo..."

 

Este encontro se realiza com toda a sua pureza a partir do "Remate"; e nos "Poemas da negra", como no "Rito do irmão pequeno", se apresenta sob a forma agudíssima de uma extraordinária identificação com o inefável. 

Esta poesia não comporta os brilhos instrumentais, tão caros a Mário de Andrade.  Os grandes virtuosismos, as jongleries poéticas, calam-se  e se retiram, para restar um despojamento completo, uma nudez macia de expressão, que sugere coisas e mais coisas em virtud da sua proximidade com o silêncio. A poesia é aqui, em verdade, a 

 

 

"Musicienne du silence".

 

Poesia que participa de uma ordem de emoções daquelas que se experimentam de olhos fechados, numa longa aspiração de descer em si mesmo, de chegar às raízes escuras do próprio mistério.  Esta poesia, sim, é uma poesia de descobrimento; uma poesia que toca em pontos escondidos da alma e desliza pelas emoções em busca de mais profundidade, que não é aclarada nem se torna matéria de conhecimento intelectual, mas de conhecimento essencial, inexprimível, como o que balbuciam os versos admiráveis de Mário de Andrade: 

 

 

"O acesso já passou.  Nada trepida mais e uma acuidade gratuita 

Cria preguiças nos galhos, com suas cópulas lentíssimas. 

Volúpia de ser a blasfêmia contra as felicidades parvas dos homens... 

........................................................ 

Na vossa boca leve o suspiro gerou uma abelha. 

É o momento, surrupiando mel prás colméias na noite incerta." 

 

Mário de Andrade é um poeta que gosta sempre de impor a sua presença; de falar alto através dos seus modismos de expressão e de ser.  Nos poemas de que tratamos, ele se retira nas pontas dos pés, e deixa apenas o sortilégio da sua ausência, que se funde na poesia do silêncio e revela realmente ignorados aspectos d alma.  Aqui, pareceria profano o característico, que domina tantos poemas seus com o atrativo poderoso do seu pitoresco e a dispersão a que nos arrasta o seu colorido - porque estamos aqui no domínio do essencial, numa obra de dsecobrimento em profundidade que é a máxima finalidade da poesia.  A sua grande habilidade está em fazer falar o silêncio;  em apagar-se para fundir nele a sua poesia. 

 

"Quando 

Minha mão se alastra 

Em vosso grande corpo 

Você estremece um pouco..."  

 

A sua poesia se apresenta, aqui, despojada, perfeita (per-feita) contendo aqueles leves traços absolutamente indispensáveis para a emoção.  Nada de andaimes nem de linhas de construção. Mário de Andrade não usava apresentar assim a sua poesia, como o afloramento último de um grande trabalho interior ("Ô poésie, ô trésor, perle de la pensée"...); mas mostrava ao leitor todo o processo poético com as suas riquezas e as suas abundâncias.  Nos "Poemas da negra", porém, e da mesma maneira no "Rito" e em parte do "Grão Cão", ele é, como Manuel Bandeira, o poeta do produto extremo - do poema despido de circunstanciais.  Antes, o próprio fato de Mário de Andrade criar grande e soberana poesia com o dado quotidiano e com as riquezas da sua inspiração, afastava-nos dessas regiões de solidão e de recolhimento em que o fenômeno poético adquire um tão raro prestígio. 

E, circunstância excepcional (que estã na linha da sua conduta poética), Mário de Andrade não é dos tais que usam taboletas ou armadilhas para dar a impressão de que sua poesia é de fato essencial. Não escreve - "eu me dissolvo pelo mundo e comungo com a S.S.Trindade"; ou - "desço em mim mesmo para buscar a razão de ser das coisas".  Os "Poemas da negra", por exemplo, são cantos de amor, de experiência física, de ternura.  O "Rito do irmão pequeno" é um roteiro da sua própria alma - sem palavreado nem apocalipse.  É que a virtude poética, neste grande Mário de Andrade, não está no assunto, nem tão pouco nos jogos de palavras - mas no próprio ato de olhar as coisas e senti-las, quaisquer que elas sejam, e de trazê-las para um plano em que a sua experiência poética as transforma em fontes eternas de beleza.

 

Publicado na seção LIVROS; Clima, nº 8, S. Paulo, jan. 1942. São Paulo: Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, IEB, 1994, pp. 135-139.

 

 

 

 

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