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A
forma
literária
periférica
não
paga
pedágio à
precariedade das
formações
sociais
Salete de Almeida
Cara
Pelo
menos uma
coisa
hoje
em
dia é
certa: está
difícil
para o
crítico
literário
fazer
vista
grossa ao
andamento da
ordem mundial. Numa
impressão
rápida, parece
que as
condições desastrosas do
estágio
multinacional informático do
capital estão se impondo de
tal
modo
que virou
lugar-comum o
que
antes
era
motivo de
polêmica: há uma
ligação
particular
entre
literatura e
sociedade.
Com
que
então a auto-suficiência do
especialista,
com
sua
aposta numa
higiênica
ruptura
entre as complexidades das
formas
sociais e as das
formas literárias, estaria
definitivamente
abalada? A
negação dessas
conexões serviu
para
fazer
brilhar
gloriosamente a
independência
estética,
com o
efeito
perverso de
jogar na
lata do
lixo uma boa
pista no
esforço de
compreensão da
sociedade
contemporânea,
pois
até
mesmo uma
forma
literária
mal resolvida pode
revelar
alguns
desvãos da
realidade e dos
homens.
Dois
artigos publicados há
pouco na
edição do
Mais! de 16/11 (um de
Silviano Santiago,
outro de Luiz
Costa
Lima) mostram
bem o
que vem acontecendo. Os
dois tratam,
cada
um a
seu
modo, da
situação da
cultura e da
literatura no
mundo
hoje, e
por
isso vou tomá-los
como
exemplos
pontuais de
um
conjunto
maior e diversificado. O
quadro é
curioso,
não se restringe à
vida
intelectual
brasileira
nem
latino-americana e merece
atenção.
Objetos pulverizados - A
maior
dificuldade continua sendo
encontrar o
lugar de
onde
armar o
foco
crítico.
Preocupado
com a
fragmentação pós-moderna da
atividade
literária, Silviano Santiago se
nega a a
procurar os culpados,
para
não
cair
em "becos
sem
saída circunstanciais e individualizados".
Mas a
própria
enumeração
que faz dos
agentes
possíveis _a
vida pós-moderna, o
escritor, o
intelectual, o
leitor, os
meios de
comunicação de
massa, o
processo
democrático_
deixa
claro
que
respeita o
mandamento
hegemônico de
desconsiderar a
unidade
real (mas
não
igual,
como se sabe) do
mundo
capitalista.
De
modo
que
ele acaba
também pulverizando os
seus
objetos, ao
tratar de
cada
coisa
em
seu
lugar:
em
raias
diferentes, o
escritor
brasileiro exibe déficit
crítico
em
relação ao
mundo e à
língua, o
grande
escritor exibe
responsabilidade, o
escritor premiado tem
poucos
leitores, o
escritor de
sucesso vende a
realidade neoliberal e a
literatura
feminista e confessional _nicho
criado
pela
própria pulverização pós-moderna_, a priori e
para
sempre preservada da desilusão do
presente, explode
sozinha o
cânone
metafórico
ocidental!
A
armadilha fica
mais
clara
nos
arranjos de uma
argumentação. No
caso, os
conceitos de
centro e
periferia
são usados
para
dar
conta de
impasses
específicos, num e noutro
lugar, no
campo das
produções simbólicas.
Mas a
subdivisão de
critérios
independentes
entre
si (socioeconômicos
ou psicoculturais)
para
definir os
conceitos
mais a
escolha dos
segundos descartam as
conexões
entre
organização
social e
práticas culturais implícitas num
ponto de
vista materialista.
Centro e
periferia servem,
assim,
para
adaptar a
categoria "social" num
outro
contexto
teórico, atualizando
aquele
gesto de higienização do
especialista.
O
artigo de
Costa
Lima,
que comento
desde o
início deste
parágrafo, classifica procedimentos psicoculturais de
sujeitos
centrais e
periféricos,
em
razão das
diferenças
nos
usos
que fazem de
moldes culturais
já estabelecidos (manutenção
ou
exploração no
centro,
imitação
ou
explosão na
periferia), dando
um
pretenso
norte emancipatório
para o
sujeito
periférico. De
resto, a
explosão depende da
descontinuidade e dos
saltos
como
forma de percurso
histórico
próprio da
periferia, donde a
absoluta
falta de
importância da
razão
crítica
como
experiência
acumulada.
Se
um
uso provoca disrupção,
ele é
um
verdadeiro
milagre,
gênese
espontânea de
precursor na
arte e de
ativista na
política
que
já
nem dependem de estarem no Brasil, no Egito
ou
nos
Estados Unidos (como
no
comentário
sobre Edward Said).
Abalada a classificação
genérica, vem à
tona a
falácia de uma
apreensão
psicossocial da
periferia, desconectada de
suas
relações
com o
contexto de mundialização
capitalista, no
interior do
qual
ela é
elemento constitutivo
desde o
processo da colonização. Na boa
expressão de Francisco de Oliveira, trata-se do "caráter
'produtivo' do
atraso
como
condômino da
expansão
capitalista".
Aquele é
também o procedimento dos atualíssimos
esforços de Alberto Moreiras, da
Universidade Duke,
que
lida
com
espaços terceiro-mundistas
como "terceiro
espaço"
nem
central
nem
periférico,
onde surgem
obras literárias e
práticas culturais
alternativas
graças aos
códigos
locais de
recepção.
Armado o
lugar
mais
amplo do
foco, a
tarefa de
estabelecer as
conexões
entre
formas
sociais e
formas literárias, na
linhagem
crítica
aberta
por Antonio Candido, será, no
entanto,
trabalhosa.
Até
porque a
forma
literária
periférica
não
paga
pedágio à
precariedade das
formações
sociais (pode
haver
ótima
literatura
em
país atrasado),
não
porque
ela
pertença a
um
mundo à
parte, da
estética
ou dos
anjos,
mas
porque organiza de
modo
imprevisível as
formas da
experiência
prática,
individuais e coletivas,
ainda
que precárias.
No
auge da
euforia nacionalista do
período
militar, Antonio Candido
punha o
dedo nessa
ferida
justo
quando,
pela
esquerda, a "mística
terceiro-mundista"
era
alternativa ao
imperialismo e ao stalinismo. A
expressão é de Roberto Schwarz
nos
anos 80, encerrados
em
clima de desilusão
quanto ao
nosso
destino.
Apenas o
nosso? As
independências dos
países
africanos
ainda eram
recentes.
Nos
fins dos
anos 90,
ele
volta à
carga, lembrando
que
perda de
autonomia e perplexidades
já eram
evidentes
também
nos
países adiantados.
Se é
verdade
que os
resultados
mais
catastróficos do
capitalismo têm sido
visíveis,
em
primeira
mão, nas
sociedades
mais
problemáticas,
pelo
menos
já sabemos
que há alguma
coisa no
ar
além dos
aviões da United e da American Airlines.
Desmonte das
organizações político-partidárias e marginalização
social alimentam o
solo ideológico do
que pode
ser chamado
fragmentação pós-moderna (Silviano Santiago
observou
que o
solo
brasileiro fertilizou e conferiu universalidade ao
fenômeno Paulo
Coelho). O
que
mais?
Não foi à
toa
que
um
artigo de
Franco Moretti na "New Left Review" ("Conjectures
on World Literature") soou
como
provocação: o
critério
literário comparatista no
capitalismo mundial,
desigual e combinado, pressupõe o
moderno
romance
periférico a
exigir
novas
categorias de
análise e
novo
método
crítico.
Choveram
objeções: é
livre o
movimento de
formas e
temas
entre
centro e
periferias,
ou,
ainda, há
risco de
homologia
entre desigualdades do
mundo
econômico e dos
sistemas
literários. Moretti respondeu a todas no
último
mês de
março,
pela
mesma "New Left Review",
mas
sem
avançar no
assunto e
com boa
vontade
até
para
introduzir uma "semiperiferia"
como "área
transicional".
O
que pode
ter adiado
sua
ida ao
ponto,
que reconhece
ser uma
questão de
forma (social e
literária), citando
seu
interlocutor
periférico Roberto Schwarz. E
que ganharia
impulso
com uma
reflexão
funda
sobre o
ensaio de Antonio Candido "De
Cortiço a
Cortiço" (cuja
primeira
versão é, pasmem, de 1974!),
lição
teórica
seminal a
desafiar o
debate
sobre
método,
como
bem viu o
crítico
periférico
já citado,
mas
que,
além disso,
atento às
determinações do
tempo, é
fundamentalmente... uma
brilhante
análise
literária.
Salete de Almeida
Cara é professora de linguística da
Faculdade de
Filosofia,
Letras e
Ciências Humanas da USP e organizadora de "As
Melhores
Crônicas de
Machado de Assis" (Global).
Folha de São Paulo, 14/12/2003.
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