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Teoria Crítica da Sociedade e Estudos sobre o preconceito

 

José Leon Crochík

 

O objetivo deste texto é o de pensar os resultados de algumas pesquisas empíricas

sobre o preconceito, à luz dos estudos de Adorno e Horkheimer. Defende a neces-

sidade da continuidade de estudos na perspectiva utilizada no trabalho realizado

sobre a personalidade autoritária, em Berkeley, na década de 40 do século passado.

Nesse estudo, do qual Adorno foi um dos autores principais e Horkheimer um dos

coordenadores do conjunto de pesquisas financiadas pelo Comitê Judaico de Nova

York, entre elas a pesquisa em questão, foram utilizadas diversas técnicas das ciênci-

as humanas para se compreender a relação entre a adesão a diversas ideologias -

sintetizadas nas ideologias conservadora e liberal -, a configuração da personalidade

– se propensa ou não ao fascismo – e o preconceito - presente quer no anti-semitismo,

quer no etnocentrismo.

Para se estabelecer a relação entre a personalidade e a ideologia, presente tam-

bém nas escalas sobre o preconceito, e para analisar e interpretar os dados obtidos,

os autores – Adorno, Frenkel-Brunswik, Levinson, Sanford e outros - adotaram a

Psicanálise, para o estudo da configuração psíquica, e uma teoria da sociedade de

matiz marxista, visível nos capítulos assinados por Adorno e Levinson. Apesar das

diferentes especialidades que caracterizavam os coordenadores do trabalho, a posi-

ção política – crítica ao conservadorismo político-econômico e defesa da democra-

cia – e a metodológica, não os diferenciavam de forma marcante, o que permitiu a

vários deles escrever alguns capítulos em conjunto, além de se referirem, nos capí-

tulos que cada qual escreveu, aos dados e/ou análises contidos nos capítulos escritos

pelos outros. A forte presença da psicanálise nesse estudo, por sua vez, não destoa

da perspectiva dos frankfurtianos, antes é inerente a ela. Adorno (1986) defende a

psicanálise como: “...la única que investiga seriamente las condiciones subjetivas de

la irracionalidad objetiva”(p.36) [1] , ou seja, a psicanálise, segundo esse autor, permite

compreender as bases psíquicas da servidão voluntária.

Este ensaio está dividido em alguns fragmentos. Esses fragmentos são breves,

mas procuram fazer justiça ao seu objeto e se implicam mutuamente; o eixo que

os relaciona é a contraposição entre a teoria da sociedade e a investigação social

empírica, feita por Horkheimer e Adorno (1978b), que defendem, no estudo so-

bre o fascismo moderno, o uso de técnicas experimentais, com a concomitante

reflexão sobre os seus limites; da psicanálise, para interpretar a dinâmica psíqui-

ca; e da teoria da sociedade, para pensar a constituição da sociedade, do indivíduo

e da relação entre ambos. Como o intuito deste ensaio é o de defender a continui-

dade de estudos na perspectiva adotada no trabalho sobre a personalidade autori-

tária, deve-se, ainda que brevemente, responder algumas das principais críticas

feitas a esse trabalho, o que será feito na primeira parte, e apresentar a dois tipos

de interlocutores – alguns dos seguidores da teoria crítica da sociedade, que abri-

gam certa aversão à investigação social empírica, por supor que essa reduz os objetos

às suas técnicas, e os defensores da investigação social empírica, que elegem a

análise dos fatos coligidos na realidade estabelecida como o fórum último de suas

conclusões – parte da argumentação de Horkheimer e Adorno (1978b), autores

que defendem o uso de ambas as perspectivas para o estudo sobre as tendências

fascistas contemporâneas, desde que confrontadas uma com a outra, o que será

exposto na segunda parte deste trabalho. Esses dois tipos de consideração estarão

presentes na análise dos estudos sobre a hipótese do contato, que constará da ter-

ceira parte deste ensaio; esses estudos, que pertencem ao que se considera Inves-

tigação Social Empírica, parecem carecer de uma teoria da sociedade e de uma

teoria dinâmica da personalidade que lhes assinalem os limites de suas possibili-

dades. Nessa parte do trabalho, refletiremos sobre esses limites, tentando evi-

denciar que os referenciais teóricos presentes no estudo sobre a personalidade

autoritária e em diversas obras dos frankfurtianos poderiam levar a análises mais

aprofundadas. Na parte seguinte deste trabalho, serão apresentados alguns resul-

tados de uma pesquisa desenvolvida pelo autor, que intenta prosseguir os estudos

do grupo de Berkeley, mas que por isso mesmo, respeitando a perspectiva histó-

rica, analisa a relação entre um tipo de ideologia, que, por hipótese, está substitu-

indo as estudadas por eles – a ideologia da racionalidade tecnológica –, que foi

delimitada através de textos de Adorno (1986, 1995

a e 1995b) , Horkheimer e Adorno (1985), Marcuse (1981 e 1982) e Habermas (1983), as características narcisistas de personalidade, que segundo indicam alguns ensaios de Adorno (1986,

1995 a), pertencem à mesma constelação de fenômenos que a personalidade auto-

ritária, que, como pode ser notado em seu capítulo sobre tipos e síndromes do

livro ‘A Personalidade Autoritária’, não se configura de uma única forma, e a pre-

disposição ao preconceito, avaliada pela escala F. Esse último fragmento, além

dos dados e análise que apresenta sobre o tema em questão, serve como ilustração

do que o autor propõe como prosseguimento dos estudos do grupo de Berkeley,

sem que essa proposta signifique que outras formas de investigação sobre o pre-

conceito sejam inócuas.

Em suma, defende-se, neste ensaio, não só a continuidade dos estudos da re-

lação entre personalidade e ideologia, o que têm sido desenvolvido até hoje (ver

Schaller et al. , 1995 e Altemeyer, 1999, por exemplo), como a presença da psica-

nálise, para a interpretação das configurações psíquicas, e da teoria crítica da soci-

edade, para pensar a relação entre a ideologia e a propensão ao preconceito, que

não dispensa a ciência erigida por Freud e seus seguidores.

 

Considerações sobre as críticas ao trabalho ‘A personalidade autoritária’

 

A pesquisa sobre a personalidade autoritária, desenvolvida por Adorno et al.(1950),

ensejou vasta literatura que ora deu continuidade a essa pesquisa, ora, a partir de críti-

cas, buscou outras formas de avaliação e de interpretação das variáveis estudadas

(Carone, s/d e Vagostelos, 1997). Considerada por muitos já um clássico da literatura

da área, tem sofrido várias críticas; talvez a mais importante seja a de que esses autores

não deram ênfase às condições sociais em sua análise, privilegiando a configuração da

personalidade na análise da predisposição individual ao preconceito. Essa crítica pa-

rece desconsiderar uma série de fatores, desconsideração esta que, certamente, não

diz respeito a todos os críticos. Dentre esses fatores, destacamos:

 

a) O livro ‘A Personalidade Autoritária’ acentua, em sua conclusão, que se su-

põe representativa de todos os seus autores, que a ênfase em características psicoló-

gicas não significa o entendimento do preconceito como um fenômeno meramente

psicológico, como alguns dos seus críticos argumentam. Nas suas palavras:

 

“It seems obvious therefore that the modification of the potentially fascist structure

cannot be achieved by psychological means alone. The task is comparable to that

of eliminating neurosis, or delinquency, or nationalism from the world. These are

products of the total organization of society and are to be changed only as that

society is changed. It is not for the psychologist to say how such changes are to be

brought about” (p.975).

 

Essa consciência dos limites da explicação psicológica se apresenta de forma

nítida, sobretudo nos capítulos sobre a construção das escalas e nos que são assina-

dos somente por Adorno. De outro lado, os que contêm basicamente a análise psi-

canalítica – os capítulos elaborados por Else Frenkel-Brunswik, por exemplo – não

são desconsiderados naqueles que analisam a ideologia.

 

b) A ênfase dada nessa pesquisa não é unicamente voltada para a personalidade,

mas também para a ideologia, que se apresenta nas escalas de Anti-semitismo e

Etnocentrismo e na escala de conservadorismo político-econômico. Nessa última,

apresenta-se a ideologia política, nas primeiras, a contida em estereótipos. É a Esca-

la F que verificará com maior profundidade a personalidade. A esse respeito, argu-

menta Rouanet (1989):

 

“As escalas (AS, E e PEC), em outras palavras, mediam apenas os valores

ostensivos, e não os determinantes profundos, enraizados na estrutura da personalidade.

Não seria possível construir uma escala que atingisse, precisamente, esse nível

profundo?...Essa escala mediria algo como um síndrome F – uma estrutura latente de

personalidade que determinaria a receptividade do sujeito a ideologias racistas e

etnocêntricas” (p.165).

 

c) As relações que estabeleceram entre o potencial fascista, de um lado, e a

religião e a educação, de outro, em capítulos ora assinados por Levinson, ora por

Adorno, encaminham-se nesse mesmo sentido, ou seja, a ideologia, a sociedade e a

personalidade não podem ser entendidas separadamente, mesmo porque essa últi-

ma é considerada como produto social, conforme é explicitado em alguns textos de

Adorno (1986 e 1995 a) e de Horkheimer e Adorno (1978 a, 1985).

 

d) Outros textos sobre essa temática escritos por Adorno e/ou Horkheimer, na

mesma época, ou próxima do período do desenvolvimento da pesquisa em ques-

tão, raramente são citados pelos críticos. Entre esses textos, cabe destacar: “Elemen-

tos do Anti-semitismo”, de Adorno e Horkheimer, publicado na Dialética do Esclare-

cimento, em 1947; Mínima Moralia: Reflexões a partir da vida danificada, de Adorno, de

1951; Eclipse da Razão, de Horkheimer, de 1946. Esses textos, de uma forma geral,

consistem em crítica contundente às condições sociais que geraram o fascismo e,

dentro desse, à personalidade predisposta a preconceitos, e pelo menos levantaria

dúvidas sobre a questão de se a abordagem adotada na personalidade autoritária

baseia-se principalmente em questões psicológicas.

Esse fator nos parece importante, pois ainda que consideremos que o trabalho do

grupo de Berkeley não envolveu somente Adorno, esse fazia parte da equipe, e con-

tinuou a citá-lo em outros trabalhos seus e em conjunto com Horkheimer, tais como

“Preconceito” , “Educação Após Auschwitz”, “Notas marginais sobre Teoria e Práxis”,

de sorte que não se pode entender, a nosso ver, como uma pesquisa separada da obra

desses pensadores, mas como parte importante dela. O que nos pareceu problemático

é que essa desconsideração de outros trabalhos dos frankfurtianos possivelmente te-

nha contribuído para a não explicitação de um dos principais desconfortos dos críticos

em relação a ele: o uso da teoria, quer o da psicanálise, quer o da teoria da sociedade,

que caracterizam uma epistemologia distinta da utilizada pelos defensores da investi-

gação social empírica. Essa epistemologia, que se vale dos fatos, mas permite a espe-

culação no sentido hegeliano, contrapõe-se àquela adotada pela investigação social

empírica, que parece ser a posição dos críticos em questão; ou seja, como argumenta

Carone (s/d) esses críticos parecem representar a teoria tradicional, à qual a teoria

crítica se contrapõe. De outro lado, esse fator não deve ser considerado isoladamente,

pois, como foi explicitado, o próprio livro ‘A Personalidade Autoritária’ traz elemen-

tos que respondem às críticas. Mais do que isso, o debate científico necessita de uma

revisão ampla da literatura da área, como se justifica então, por exemplo, o ‘pretenso’

desconhecimento do texto ‘Elementos do Anti-semitismo’, que permitiria uma me-

lhor interpretação pelo menos das partes escritas por Adorno no trabalho de Berkeley?

A partir da explicitação desses fatores, passemos a verificar como alguns autores

consideraram o estudo sobre a personalidade autoritária.

Monteiro(1996), após citar estudos que fortalecem as conclusões do trabalho

em questão, apresenta algumas críticas feitas a ele. A crítica de Tetlock é direcionada

à hipótese de que o estilo autoritário esteja confinado às ideologias de direita. Ora,

as correlações medianas encontradas entre a escala F e a escala PEC indicam que a

relação nem sempre se dá no sentido esperado. Assim, o tipo denominado de ‘con-

servador genuíno’ mostra que há indivíduos que são politicamente conservadores,

mas não têm tendência fascista, ao contrário do pseudoconservador, que é favorável

ao ideário conservador mas não à democracia. Ainda que quase não tenham sido

encontrados na amostra sujeitos que possam ser definidos como pseudoliberais,

Adorno, no estudo sobre a ideologia, presente nesse trabalho, argumenta que quase

não há distinção entre eles e o pseudoconservador, posto que em ambos os tipos o

que se apresenta é a tendência antidemocrática; a adesão à ideologia, nesses casos,

não se dá por sua racionalidade, mas por outros fatores. Certamente, os autores

argumentaram que os conservadores genuínos, com o acirramento das contradições

sociais, tenderiam a se tornar liberais, mas isso mostra que os fatores sociais são

fundamentais para eles. De outro lado, um tipo de pseudoconservador – escore alto

na escala de etnocentrismo e médio na escala de conservadorismo político-

econômico – pode evidenciar, segundo Levinson escreve no capítulo “Estudo da

ideologia etnocêntrica”, que a manifestação de ideais democráticos não é suficiente

para dizer que o indivíduo não tenha tendências fascistas, pois, ao contrário, como

argumenta, alguns sujeitos poderiam ter concordado, por exemplo, com a interfe-

rência do Estado na economia, não porque julgavam que essa interferência pudesse

acarretar maior justiça social, mas porque eram contrários à livre manifestação dos

sindicatos dos trabalhadores e de outros grupos sociais. Há que se referir também

ao tipo analisado por Adorno, no capítulo Tipos e Síndromes, denominado Baixo

Rígido. É um tipo de indivíduo que, apesar de baixos escores em ambas as escalas

(F e PEC), apresenta uma visão estereotipada do mundo, ou seja, no intuito de

julgar que todos são iguais, não percebe as diferenças que de fato, e não imagina-

riamente, existem entre as pessoas e entre as culturas.

Monteiro (1996) cita também a crítica de Billig:

 

 “Esta implicação (de que um preconceito podia ser erradicado se os indivíduos

autoritários fossem ‘tratados’ e se curassem das suas preferências irracionais) está

em profunda contradição com a perspectiva de que existem profundas razões

históricas para o desenvolvimento de ideologias preconceituosas em determinados

lugares e em determinadas épocas; e está também em contradição com a perspec-

tiva segundo a qual o preconceito em relação a grupos de estranhos é uma mera

conseqüência de uma perturbação psicológica de alguns indivíduos, estando antes

vinculado a forças sociais básicas” (p.316).

 

O primeiro comentário em relação às considerações de Billig é que os autores

do livro “A Personalidade Autoritária” não disseram que o preconceito poderia ser

erradicado com o tratamento das personalidades autoritárias, conforme pode-se con-

cluir da leitura da citação da conclusão desse trabalho, que apresentamos anterior-

mente. O segundo comentário diz respeito à primeira contradição apontada por

Billig. Levinson inicia o capítulo sobre o estudo da ideologia anti-semita, caracteri-

zando-a como ideologia social e como um movimento social organizado que re-

presenta uma séria ameaça à democracia; além disso, diz que ela é devida, em gran-

de parte, a razões político-econômicas, que não cabia, nesse texto, analisar. De ou-

tro lado, deve-se lembrar que a funcionalização dos conceitos de ideologia e de

personalidade, adotados em ‘A personalidade autoritária’, é resultado de sua neces-

sária operacionalização, para que possam ser avaliados por escalas; se essa redução é

necessária para a realização da pesquisa, ela não corresponde, necessariamente, ao

entendimento teórico que esses autores têm deles. Conforme se argumentou antes,

a postura política deles é marcada pela crítica ao conservadorismo político-

econômico e pela defesa da democracia. Além disso, a referência que Adorno faz

sobre a educação no capítulo ‘A política e a economia nas entrevistas’, dizendo que

o fato de ela dar muita atenção a cifras e números auxilia na criação de uma menta-

lidade preconceituosa, mostra que eles não simplificaram o fenômeno da forma

que Billig, tal como seu pensamento foi apresentado na citação, entende. Por fim, a

última contradição explicitada pode ser respondida também com a citação dos au-

tores em sua conclusão, enunciada anteriormente. A ênfase que os autores dão nesse

trabalho é à relação que existe entre as necessidades psicológicas e a adesão à ideo-

logia, ou seja, o estudo de características psicológicas individuais é importante, não

como elemento isolado para se entender uma questão que os autores insistem ser

de gênese social, mas para evidenciar como a ideologia se reproduz a partir da in-

corporação individual, mediada por necessidades psíquicas. Mesmo essas necessi-

dades psíquicas são históricas, como mostra o capítulo de Adorno denominado

 “Tipos e Síndromes”. A estruturação psicológica é fruto das condições históricas da

sociedade. Se, no fenômeno estudado, a configuração psíquica fosse desconsiderada,

ele dificilmente poderia ser entendido e, portanto, combatido.

O trabalho do grupo de Berkeley contrapõe-se a dois tipos de reducionismos:

o ‘psicologismo’ e o ‘sociologismo’. Quanto ao primeiro, os autores, por diversas

vezes, algumas enunciadas neste ensaio, mostram que o fenômeno é social, quanto

à segunda forma de ‘reducionismo’, os autores, ainda que não ignorem outras fon-

tes sociais importantes, tais como as instituições: família, escola, igreja, contra-

põem-se a uma forma abstrata e, portanto, ideológica, de entender o fenômeno

estudado, que desconsidera o papel que o indivíduo, como produto social, tem na

reprodução, mas também na resistência, ao totalitarismo. A idéia de que só o todo

é verdadeiro e que o indivíduo é somente seu representante, que deve se sacrificar

por ele, faz parte do ideário fascista. Neste sentido, mesmo a ideologia liberal do

século XIX (ver o capítulo “Tipos e Síndromes”) está mais próxima da liberdade,

por reconhecer a importância do indivíduo, do que as ideologias estudadas por

eles. Assim, a desconsideração pelo estudo do indivíduo, na área do preconceito, é,

dos pontos de vista político e científico, problemática, porque a ausência de preo-

cupação com os obstáculos ao pleno desenvolvimento do indivíduo impede tam-

bém o conhecimento de alguns fatores que obstam o surgimento de uma sociedade

livre, pois, o estudo do indivíduo e a constatação de seu desamparo, de sua falta de

autonomia, denúncia a sociedade fascista. Considere-se também que a filosofia

social de Hegel (1992), que influenciou decisivamente o pensamento de Marx

(1978), conforme ele mesmo atesta nos seus Manuscritos Econômicos-Filosófi-

cos, e se apresenta de maneira marcante no pensamento dos frankfurtianos, enfatiza

constantemente a relação entre o particular e o todo, e Marx, ao que parece, não

pode ser acusado de desconhecer a história.

Duckitt (1992) também apresenta o estudo de Adorno et al., como sendo basi-

camente voltado para características individuais. Analisando o paradigma sobre o

preconceito na década de 50, na qual o trabalho mais influente foi o sobre a perso-

nalidade autoritária, nos diz o autor: “The most influential answer to this question

was the theory of the authoritarian personality..., wich described a basic personality

dimension determining the degree to which individuals would be generally prone

to prejudice. This theory was formulated partly in psychodynamic terms and

concepts” (p. 1186).

Ainda que Duckitt (1992) argumente nesse texto que os diversos paradigmas

sobre o preconceito sejam complementares, não deixou de definir o trabalho de-

senvolvido em Berkeley como um estudo da personalidade. Claro que o trabalho

em discussão se refere também à personalidade, mas isso não significa que essa seja

a única ou mesmo a principal variável em questão. Além disso, a personalidade, segun-

do Adorno (1986), não pode ser abstraída do contexto social, tal como a filosofia

liberal, da qual os frankfurtianos são críticos, pregava.

Brown (1995) apresenta o estudo de Adorno et al. também centrado na perso-

nalidade e vários estudos que fortalecem as hipóteses desses autores. Indica, no en-

tanto, outros estudos que apontam no sentido contrário. Ao dizer do grande inte-

resse apresentado por esse estudo, elenca críticas metodológicas e teóricas. Uma

delas se refere às correlações obtidas entre o autoritarismo, de um lado, e inteligên-

cia, escolaridade, classe social, de outro, que obtiveram valores ainda mais altos em

pesquisas posteriores. Isso leva o autor a perguntar se essas variáveis não explicari-

am melhor o autoritarismo do que os problemas de personalidade. Cabe pensar na

introdução de Horkheimer e Flowerman a esse trabalho, que indica a educação

como sendo uma área importante para auxiliar no combate ao preconceito, algo que

também foi sugerido por Adorno (1995

a), em seu texto “Educação após Auschwitz”,

da década de 60. Além disso, em outro texto de Adorno (1971) – ‘Teoría de la

seudocultura’ – o autor define a formação do indivíduo, de sua subjetividade, como

a apropriação individual da cultura. Ou seja, formação e educação não podem ser

dissociadas e, assim, os autores da pesquisa não desconsideraram a escolaridade, a

classe social e a inteligência, mas não as tomaram como variáveis desvinculadas da

personalidade. Por fim, Brown (1995) faz a seguinte questão: “A second theoretical criticism

of The Authoritarian Personality was that it dealt with only one variant of authoritarianism –

namely, right-wing authoritarianism. Could it not be that people with other political views are

also authoritarian and hence prejudiced” (p. 26). Como dito antes, o fato de sujeitos

etnocêntricos defenderem alguns ideais liberais implica a possibilidade da existên-

cia do autoritarismo de esquerda.

Certamente, os autores referidos também tecem elogios ao trabalho em ques-

tão, mas a forma que apresentam a pesquisa, calcada basicamente na personalidade,

e as críticas formuladas a ela parecem-nos pouco adequadas, o que pode acarretar

um uso inadequado dos resultados encontrados pelo grupo de Berkeley.

 

Sobre a investigação Social Empírica

 

Conforme foi escrito, na introdução deste ensaio, Horkheimer e Adorno (1978b)

defendem a presença da teoria da sociedade e da investigação social empírica nos

estudos sobre o preconceito e outras atitudes. Não é um mero ecletismo o que os

autores defendem, mas a contraposição entre as duas perspectivas:

 

“Quem sente uma responsabilidade teórica deve fazer frente, sem meios

termos, às aporias da teoricidade e à insuficiência do simples empirismo; e o fato de

se atirar alegremente nos braços da especulação só poderá servir para agravar a

situação atual. Diante da investigação sociológica empírica, é tão necessário o co-

nhecimento profundo dos seus resultados quanto a reflexão crítica sobre os seus

princípios” (p. 122).

 

A teoria da sociedade é caracterizada, pelos autores, por um elemento imanente:

a crítica social; ela é herdeira da filosofia política da sociedade. A análise da estru-

tura social e sua relação com diversas instituições tem sido o seu objeto de refle-

xão. Já a investigação social empírica, não é considerada como um setor da socio-

logia, mas como um método, assemelhado ao das ciências naturais; nesse sentido,

busca, em suas pesquisas, o caráter exato e objetivo de seus dados, tentando elimi-

nar o que é considerado como subjetivo – a especulação contida nas teorias e a

subjetividade do investigador que, por sua vez, não difere do objeto estudado. Uma

das críticas que fazem à investigação social empírica é exposta a seguir:

 

“Com efeito, a investigação social empírica, diante dos principais problemas da

estrutura social, de que depende a vida dos homens, nada mais tem sido, até agora,

que o estudo de setores bastante limitados. A restrição a objetos extraídos do contex-

to social e rigorosamente isolados – o que, justamente, constitui a aproximação da

investigação social às ciências naturais, inspirada pela sua exigência de exatidão e

tendente a criar condições de investigação laboratorial – faz com que o tratamento

da sociedade, como totalidade, continue excluído, não só temporariamente mas por

uma questão de princípio. Daqui deriva o caráter periférico e de relativa infecundidade,

ou de informação útil para meros fins administrativos, de que se revestem os resul-

tados da investigação social empírica, quando não se inserem, desde o início, numa

problemática teoricamente relevante” (p.123-124).

 

A teoria da sociedade pode ter confrontados os conceitos formulados na acade-

mia com os dados obtidos pela investigação social empírica; essa última, por sua

vez, pode ser claramente delimitada por aquela, evidenciando que os dados obti-

dos representam além da consciência imediata, e que essa mesma consciência é

determinada por outros fatores, que só podem ser apreendidos pela especulação

teórica, mas especulação no sentido hegeliano.

Horkheimer e Adorno (1978c) escreveram sobre o papel que a utilização de

métodos empíricos racionalmente entendida pode ter na compreensão e com-

bate a fenômenos regressivos presentes na nossa cultura, sem deixar de apre-

sentar a contradição envolvida:

 

 “..., quem deseja oferecer a ajuda da ciência na sociedade atual, deve usar tais métodos,

alheados do imediatamente humano, entrincheirados atrás dos grandes números, das

leis estatísticas, dos questionários e dos testes, entre outros símbolos semelhantes de

desumanização. Mas este paradoxo não pode ser evitado, melhor dizendo, é necessário

reconhecê-lo na prática” (p. 172-173).

 

Esse uso, segundo esses autores, deve visar a uma consciência crítica da socieda-

de e ao conseqüente combate à violência. Essa consciência crítica, portanto, não se

limita a ser objetivo da teoria da sociedade, mas deve ser, ao menos, de todas as

ciências humanas.

Quanto à teoria da sociedade, Adorno (1972) indica a sua tendência a tornar-se

dogmática:

 

“Si la teoría no quiere, de todos modos, caer en ese dogmatismo cuyo

descubrimiento llena siempre de júbilo al escepticismo, un escepticismo que se

considera en suficiente grado de progreso como para prohibir el pensamiento,

deberá procurar no darse por satisfecha con ello. Debe convertir los conceptos

que traía de fuera en conceptos que la cosa tenga de sí misma, en lo que la cosa

quisiera ser por sí, confrontándolo com lo que la cosa es. Tiene que disolver la

rigidez del objeto fijado hoy y aquí en un campo de tensión entre lo posible y lo

real: cada uno de ellos remite al outro simplemente para poder ser” (p. 82).

 

Ao que parece, parte da análise do que a coisa é deve ser feita pela investigação

social empírica. Essa deve coligir dados sobre a configuração atual do sujeito e sobre

sua consciência, não os considerando como sendo o próprio objeto, mas um de seus

momentos. E por ser um dos momentos do objeto, a crítica à desumanização pre-

sente nos métodos empíricos é refletida por Adorno (1972):

 

“Allí donde a consecuencia de la presión de las condiciones los hombres se

ven obligados, de hecho, a reaccionar ‘como batracios’, reducidos a consu-

midores forzosos de los medios de masas y de otros goces no menos regula-

dos, la investigación de opiniones, que tanta indignación provoca en el

humanismo lixiviado, resulta, en realidad, más adecuada que una sociología

‘comprensiva’, por ejemplo, en la medida en que en los propios sujetos el

substrato de la comprensión, es decir, la conducta humana unívoca y com

sentido, es sustituida por un mero y simple ir reaccionando. Una ciencia

social a un tiempo atomista y clasificatoriamente ascendente desde los áto-

mos o generalidades es el espejo de medusa de una sociedad simultáneamente

atomizada y organizada de acuerdo con unos principios classificatorios abstrac-

tos: los de la administración” (p.87).

 

O método, proveniente da investigação social empírica, detém algo similar ao

objeto estudado, isto é, a ‘coisificação’, devida à sociedade administrada. O antídoto

para que, através de seu uso, não se perpetuem as condições a ser combatidas, pre-

sentes nos atos que levam à desumanização, é a crítica, a auto-reflexão, e não a con-

sideração de que aquilo que se obteve deva ser fruto exclusivamente dos indivíduos

examinados, pois, como visto, Adorno (1972) defende que os dados obtidos pela

investigação social empírica devam ser pensados à luz das condições sociais que os

geraram. Neste sentido, observa-se que, no trecho citado, o próprio objeto estuda-

do – o indivíduo – transformou-se. A consciência que, segundo o Liberalismo, ca-

racterizava e dignificava o indivíduo, no limite, cedeu lugar a uma ação de adesão

imediata, de não reflexão, e isso ocorreu devido às mudanças sociais, principalmen-

te, à transformação do capitalismo concorrencial em capitalismo dos monopólios, e

à concomitante perda da relativa autonomia que as instituições da superestrutura

social tinham no século XIX. Assim, não é o método que reduz o entendimento do

objeto, mas é o próprio objeto que foi reificado. (Adorno também faz essa discussão

no capítulo “Tipo e Síndromes”, contido no livro “A personalidade Autoritária”).

Adorno (1972) combate a dissociação entre a análise qualitativa e a quantitativa:

 

“La contraposición entre análisis cuantitativo e cualitativo no es absoluta; no es

ningún limite, ninguna frontera última de la cosa. En la cuantificación hay que

comenzar siempre por prescindir, como se sabe, de las diferencias cualitativas

de los elementos; y todo particular social lleva en sí las determinaciones generales

válidas para las generalizaciones cuantitativas. Sus propias categorías son, de

todos modos, cualitativas. Un método que no les haga justicia y que rechace, por

ejemplo, el análisis cualitativo como incompatible com la esencia del campo plu-

ral, hace violencia a aquello, precisamente, que debería someter a estudio”(p.89).

 

Parece-nos que são visíveis, ao menos, duas possibilidades, apontadas nesse

trecho, de relação entre as análises qualitativa e quantitativa. A primeira, ainda

que absorva dados das duas análises, separa-as, ou seja, são feitas com dados

coligidos separadamente, utilizando-se, por exemplo, de escalas para a parte

quantitativa e entrevistas para a parte qualitativa. Aquilo que se perde nas análi-

ses realizadas separadamente é reposto em uma análise posterior que considera

os dados em conjunto. A segunda percebe a qualidade na quantidade, possível

desde que se constate a mediação universal presente em cada particular, o que

permite a generalização, e a quantidade na qualidade, posto que a análise do parti-

cular permite o aprofundamento do entendimento do universal. Como Adorno

(1972), nesse trecho, utiliza o termo ‘análise’ e não ‘método’, a segunda interpreta-

ção nos parece mais adequada. Ao que tudo indica, essa consideração vale também

para o trabalho conjunto dos diversos autores sobre a personalidade autoritária,

uma vez que nos estudos sobre a ideologia, através das escalas, buscava-se também

uma análise qualitativa.

Em síntese, não há incompatibilidade entre o referencial teórico adotado neste

trabalho e o emprego de métodos experimentais, ainda que a contradição entre a

defesa do particular e a não diferenciação entre particulares presente nos métodos

experimentais, sobretudo, os quantitativos, permaneça. Mais do que isso, segundo

esses autores, a ação isolada de ambas as perspectivas – teoria da sociedade e inves-

tigação social empírica – empobrece o entendimento do objeto, pois a primeira

tende ao dogmatismo e a última, ao relativismo, por não ter uma perspectiva dialética

da história, que permita compreender que os dados obtidos por suas técnicas repre-

sentam parcela do objeto estudado, que só pode ser entendido à luz de suas modi-

ficações históricas.

 

Estudos sobre o preconceito e a hipótese do contato

 

Esta parte do texto, conforme referido em sua introdução, intenta examinar es-

tudos sobre a hipótese do contato, que consideramos representantes da investigação

social empírica, tendo em vista as formulações da teoria crítica da sociedade. Lem-

bremos que Horkheimer e Adorno (1978 b) caracterizam a investigação social

empírica como um método assemelhado ao das ciências naturais, que busca a exatidão

e objetividade de seus dados; isso não implica, todavia, que, nas pesquisas a que se

aplica, a teoria esteja ausente, mas que ela é secundária frente aos dados obtidos.

Nas palavras dos autores:

 

“Nenhum representante sério da investigação social empírica sustenta, por certo,

que o seu trabalho seja possível sem teoria, que o instrumental da investigação

esteja reduzido a uma tabula rasa isenta de todo o ‘preconceito’ e colocada ante os

fatos que terá de coletar e classificar...Entretanto, a teoria é admitida como um

mal necessário, como ‘hipótese figurada’, não reconhecida plenamente como ins-

tância legítima. São considerações apologéticas, admissões forçadas, as que se

apresentam habitualmente à investigação social empírica, no tocante ao papel que deve

caber à teoria” (p. 123).

 

Se associarmos, ao conteúdo dessa citação, a ausência da análise da estrutura social

como própria a esse tipo de pesquisa, não nos parece inadequado considerar a perspec-

tiva adotada pelos estudos sobre a hipótese do contato como sendo, basicamente,

caracterizados pela investigação social empírica, o que não é incompatível com o fato

de os seus autores poderem ser críticos da injustiça social existente; suas críticas,

contudo, não visam, em geral, à transformação social, mas, no sentido liberal, a luta por

reformas sociais, que, se são desejáveis, não combatem as fontes objetivas da violência:

a própria estrutura social.

Segundo Horkheimer e Adorno (1985), o preconceito não se relaciona

imediatamente com o seu alvo, pois é mediado por necessidades psíquicas e sociais,

assim, o contato do preconceituoso com o objeto, real ou potencial, de seu preconcei-

to, não pode ser plenamente satisfatório, ainda que sejam seguidas as condições favo-

ráveis a ele, conforme apresenta a literatura da área. As necessidades psíquicas das

pessoas envolvidas, assim como fatores associados mais diretamente à contradição

social, podem impedir que a diminuição do preconceito ocorra. Certamente, caracte-

rísticas de personalidade são consideradas como um fator importante nos estudos so-

bre a hipótese do contato, mas essas, segundo o referencial frankfurtiano, não devem

ser consideradas independentemente da sociedade.

Na literatura portuguesa da década passada sobre o preconceito [2], dois temas são

predominantes: o preconceito contra migrantes e o preconceito contra deficientes.

O primeiro tipo de preconceito tem sido estudado em vários países da Europa,

tendo entre outros o trabalho de Meertens e Pettigrew (1999) sobre o racismo sutil,

que abrange diversos países europeus. Com o fim dos impérios coloniais e com o

movimento da globalização, a migração de grandes camadas da população de ex-

colônias e de países pobres tem aumentado, gerando problemas de preconceito e

discriminação. Vala et al.(1999) expõem dados do Eurobarómetro, n.º 41, de 1997,

que são preocupantes:

 

“...apenas 55% dos europeus consideram que os imigrantes legalizados, de países

não-europeus, devem ter o direito a ter consigo a sua família, 59% consideram

que as minorias (de outra raça, religião ou cultura) abusam do sistema de segu-

rança social, 63% consideram que contribuem para aumentar o desemprego, e

45% que são uma das causas de insegurança. Portugal (76%), Irlanda (77%),

Bélgica (76%), Áustria (75%), Alemanha (73%), Luxemburgo (72%), e o

Reino Unido (70%) são os países onde um maior número de pessoas concordam

com a seguinte proposição: ‘Todos os imigrantes ilegais, sem excepção, devem ser envi-

ados para os seus países de origem’”(p.9-10).

 

No estudo desenvolvido em Portugal por Vala et al.(1999), foram construídas duas

escalas para avaliar a percepção que portugueses brancos tinham dos negros como uma

ameaça social, sendo que uma delas referia-se à ameaça econômica e outra à ameaça à

segurança individual e pública. Essas escalas foram aplicadas a uma amostra represen-

tativa de Lisboa composta de 600 pessoas e os resultados indicaram que se a média das

respostas à escala de segurança econômica estava abaixo do ponto médio, o contrário

ocorreu em relação à outra escala, ou seja, os sujeitos tenderam a perceber o negro mais

como uma ameaça à segurança do que como ameaça econômica, o que também é um

dado preocupante.

A questão em relação aos negros é distinta em Portugal e em países como o

Brasil e os EUA. Segundo Bastos e Bastos (1999), em Portugal:

 

“Entre o século XVI e o século XIX, o comércio de escravos deu origem à formação de

minorias étnicas africanas que parecem ter-se ‘dissolvido’ na massa geral da população,

durante o século XIX, ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos ou no Brasil,

onde se mantiveram (ou foram mantidas) como minorias étnicas culturalmente organiza-

das ou susceptíveis de auto-reorganização identitária” (p.15).

 

Ou seja, o problema deles em relação aos negros parece ser mais proveniente

das relações entre colonizador e colonizado do que da relação escravo-senhor. De

outro lado, mesmo um país, de algum modo semelhante ao Brasil, no que se refere

às desigualdades regionais, como a Itália, passou, na última década, a ter um novo

problema: “O recente fluxo de imigração proveniente de África alterou dramatica-

mente a situação. Os italianos descobriram o seu racismo: a ‘etnia’ tornou-se rapi-

damente numa dimensão importante de categorização, e as distinções internas tor-

naram-se menos evidentes” (Arcuri e Boca, 1999: 63)

Já o segundo tipo de preconceito – contra deficientes – parece mais uniforme

nos diversos países. O estudo de Monteiro et al. (1999) compara atitudes de cri-

anças sem deficiência em relação a crianças com deficiências, quando estão em

escolas segregadas – escolas que não aceitam deficientes - e em escolas integradas

– escolas que aceitam crianças deficientes. Concluiu que as crianças das escolas

segregadas têm um conceito de si mais próximo da deficiente do que as crianças

da outra escola, assim como uma avaliação mais positiva do deficiente do que as

crianças da escola integrada. As autoras consideraram que o simples contato

com crianças deficientes, sem nenhum apoio institucional, aumenta as atitudes

contrárias aos deficientes. Retomaremos essa questão mais adiante, pois aborda

diretamente a hipótese do contato; no momento, contudo, queremos realçar que a

problemática desse estudo não é estranha a nós, brasileiros, pois possuímos os dois

tipos de escola e uma legislação como a de lá que possibilita a inclusão de crianças

deficientes em classes regulares.

Em relação a esses dois problemas, os portugueses, e os demais europeus de uma

forma geral, têm feito esforços que passam principalmente pela educação. Em Portu-

gal, o Ministério da Educação tem o projeto ‘entreculturas’ (Cotrim, 1997), que

consiste em classes compostas por migrantes e não migrantes, nas quais dados da

história e da cultura dos migrantes são valorizados, trabalhos conjuntos são incenti-

vados, e está implantando o projeto de educação inclusiva da UNESCO, que in-

centiva também os trabalhos em conjunto de crianças com necessidades especiais e

crianças sem essas necessidades (Ainscow et al., 1997), assim como um ensino volta-

do para o cumprimento dos objetivos do currículo que deixa de se centrar nas difi-

culdades individuais, ainda que essas não sejam negligenciadas.

O primeiro desses projetos já tem uma avaliação, que mostra que o rendimento

dos alunos migrantes melhorou, enquanto os dos não migrantes continuou seme-

lhante. O outro projeto não tem ainda uma avaliação formal, mas análises realizadas

em outros países mostram o acerto da proposta. Nos dois projetos, nota-se a pre-

sença da idéia de que o convívio de pessoas com características distintas pode dimi-

nuir o preconceito, que é a idéia subjacente à hipótese do contato.

A hipótese do contato surge, segundo Monteiro (1996), do pressuposto da atração

interpessoal, ou seja, o contato entre membros de grupos distintos permitiria veri-

ficar as semelhanças existentes quanto aos valores, idéias, emoções, permitindo

reelaborar a percepção inicial de diferenças. Essa hipótese implica que o preconcei-

to é um julgamento estabelecido na ausência da experiência, o que fortalece a tese

de Horkheimer e Adorno (1985), a qual sustenta que o anti-semitismo não decorre

do contato do anti-semita com o judeu e que esse é um objeto, de certa forma,

imaginário para o preconceituoso, criado sem nenhuma base na realidade. Esses

autores, no entanto, fornecem dados para evidenciar que esse fenômeno pode ser

também ilusório, ou seja, pode consistir numa deformação da percepção do objeto:

características adquiridas por motivos sociais seriam naturalizadas e universalizadas

para todos os indivíduos que pertencem a determinado grupo, o que explicaria, em

parte, as concepções dos nazistas de raça e de anti-raça.

O estudo citado de Monteiro et al.(1999), contudo, mostra que o mero contato

não basta, e, de fato, Allport já salientava as condições para que ele fosse frutífero:

freqüência, diversidade, duração, o estatuto dos grupos dos membros em relação, se

essa é competitiva ou cooperativa, se é de dominação ou de igualdade, se é voluntária,

se é real ou artificial, o tipo de personalidade dos indivíduos e as áreas do contato.(Cf.

Monteiro, 1996). Amir (1969) e Vala et al.(1999) dizem que, quando essas condições

não existem, o contato pode ser ineficaz para a redução do preconceito ou ainda apre-

sentar efeitos negativos.

Duas dessas condições, ao menos, chamam a atenção, em relação ao estudo da

personalidade autoritária: relação de dominação-dominado e relação de competi-

ção ou de cooperação. A primeira evoca parte da estrutura da personalidade autori-

tária: a necessidade da hierarquia, da heterodeterminação; claro, ao que parece, Allport

se refere à dominação real, mas é interessante pensar na necessidade da dominação

desenvolvida por indivíduos que vivem em uma sociedade na qual a adaptação é

quase sinônimo de dominação, conforme Horkheimer e Adorno (1985) desenvol-

veram na “Dialética do Esclarecimento”.

Um exemplo drástico disso é o campo de concentração de Theresienstadt, des-

crito por Bosi (1997), que serviu como propaganda para os nazistas da forma como

tratavam os judeus. Esse campo de concentração abrigava intelectuais, artistas, cien-

tistas e outras pessoas eminentes, principalmente, mas não só, judeus. Era adminis-

trado pelos judeus que desenvolveram uma comunidade na qual a presença da arte

e da justiça interna era notável. Tal como nos outros campos, contudo, o extermínio

estava presente, e o que se mostrou mais cruel é que um judeu tinha de ser designa-

do para fazer a lista daqueles que deveriam ser deportados, ou seja, assassinados. A

necessidade da sobrevivência, ao que parece, leva-nos a ser cruéis. No limite, o

poder de escolha de quem vai morrer se relaciona à própria sobrevivência. No ní-

vel social, como a conclusão do estudo da personalidade autoritária indica, só a trans-

formação social que elimine ou, ao menos, minimize a necessidade de competição

e fortaleça a cooperação é capaz de eliminar o preconceito. Assim, um dos limites

importantes à tentativa de diminuição do preconceito através do contato é o fato de

que a necessidade de dominação é imanente ao nosso sistema social; dominação

essa que, segundo Horkheimer e Adorno, é resposta à ameaça constante que paira

sobre nós, caso não nos adaptemos aos preceitos vigentes, sendo que um desses

preceitos é a constante competição.

Monteiro (1996) cita o estudo de Worchel et al que testa o efeito de trabalho

cooperativo ou competitivo e fracasso ou sucesso em atividade cooperativa sobre a

redução do preconceito. Os autores concluem que se os indivíduos trabalharam

anteriormente em situação cooperativa, um novo trabalho nessa mesma situação

independe do fracasso ou sucesso da atividade, no que se refere à alteração das rela-

ções grupais, enquanto que se em uma primeira situação os indivíduos trabalham

em um contexto competitivo, o sucesso ou o fracasso de uma atividade realizada

posteriormente em conjunto afeta a atração pessoal. Certamente, só a situação de

cooperação não garante a não violência em relação ao outro. Primo Levi (1971), ao

descrever a sua experiência em Auschwitz, mostra que a cooperação forçada para atin-

gir objetivos alheios não impede a competição entre os indivíduos na luta pela sobre-

vivência.

Vala et al. (1999), em seu estudo sobre o racismo em Portugal, observaram o efeito

do grau de intimidade do português branco com o negro - vizinhança, amizade -, do

estatuto social relativo e da agradabilidade das relações sobre as emoções e os estere-

ótipos sobre o negro. Verificaram, inicialmente, que o fato de os sujeitos terem vivido

na África não afetou os resultados. Concluíram que ter ou não vizinhos negros, por si

só, não afetou a atribuição de emoções e estereótipos aos negros. Contudo, para aque-

les que tinham vizinhos negros e declararam que o estatuto social do negro é seme-

lhante ao seu, a atribuição de emoções positivas era maior, o mesmo ocorrendo para

aqueles que tiveram boas relações com os vizinhos. Na atribuição de traços positivos

–estereótipo-, só a variável estatuto revelou ser significante. Já o contato por amizade,

é efetivo quer na atribuição de emoções quer na de traços positivos. Entre aqueles que

têm amigos negros, o estatuto atribuído ao negro não teve importância, pois a quanti-

dade de emoções e de traços positivos atribuídos a ele não diferiam, tendo em vista

essa variável. Esses resultados levaram os autores a concluir que: na relação de vizi-

nhança, o estatuto atribuído ao negro – semelhante ou inferior ao do sujeito – foi

significante, assim como a qualidade das relações; na relação de amizade, não há im-

portância do estatuto atribuído. Interpretam esses dados à luz das hipóteses de Smith,

alegando que a amizade está integrada na representação do self e assim: “... se o

endogrupo do amigo é uma parte do seu self, ter um amigo de um exogrupo incorpo-

ra indirectamente esse grupo no self do próprio, facilitando uma imagem positiva do

mesmo grupo”(p.99). Mais do que isso, o que deveria ser considerado é que se a

competição pela sobrevivência está na base de nossa sociedade, a própria atribuição

de estatuto lhe é necessária; assim, dificilmente, mesmo a amizade, tem chances de

sobreviver por muito tempo; a ilustração, feita acima, do campo de concentração,

mostra essa situação, que se aos nossos olhos parece exagerada, em condições de exceção

não o é, indicando um estado psíquico que provavelmente se apresenta de forma

latente mesmo em tempos considerados normais.

Rofé e Weller(1981) analisaram a hipótese do contato em relação com a ameaça

que é percebida no exogrupo. Partiram da hipótese, estudada já por outros autores,

de que o contato pode ser positivo se a ameaça representada for pequena e que não

reduz o preconceito se for grande. Construíram um diferencial semântico e uma

escala de distância social para verificar a atitude de estudantes israelenses em relação

a árabes que vivem pacificamente e trabalham no país, a árabes que vivem em seus

países, aos inimigos árabes, aos árabes em geral. Verificaram que há diferenças

significantes no sentido esperado, ou seja, os sujeitos atribuíram características mais

positivas e a possibilidade de um contato mais próximo aos árabes que vivem em

Israel, apresentando o inverso em relação aos outros árabes, particularmente em

relação aos árabes inimigos e aos que vivem em territórios árabes. Além disso,

pesquisaram se o tipo de personalidade – se tem uma ‘abertura’ ou não para a huma-

nidade – afeta as variáveis dependentes. Os resultados também confirmaram o que

era esperado. Tal como no estudo de Vala et al.(1999), citado anteriormente, a per-

cepção da ameaça é uma variável preditora da manifestação de atitudes frente ao

exogrupo, mas as características de personalidade também. De qualquer forma, esses

dados fortalecem a hipótese da ameaça ligada à dominação, tal como desenvolveram

Horkheimer e Adorno (1985), na Dialética do Esclarecimento.

Outra questão relacionada à hipótese do contato é a de saber se as condições

adequadas devem dizer respeito ao contexto social alargado ou à situação delimita-

da em que ele ocorre. As posições dos pesquisadores se dividem. De um lado, se-

gundo Monteiro (1996), Allport, Krammer e Pettigrew defendem que o contato em

situação delimitada permite que o preconceito diminua, enquanto Riordan e Cohen

defendem a outra alternativa. Apesar das posições e dos resultados experimentais

distintos, ora fortalecendo uma ora outra hipótese, parece cabível afirmar que ambas

são procedentes, ou seja, deve-se trabalhar teórica e experimentalmente nos dois

níveis, mas cabe lembrar que, segundo Adorno(1995 a), se tentativas podem e de-

vem ser feitas para atenuar a violência existente, voltando-se sobretudo para os as-

pectos subjetivos do problema, como a violência é fruto de fatores objetivos, isto é,

sociais e políticos, somente a transformação social poderia eliminá-la.

Monteiro (1996) ilustra a importância do apoio social envolvente, através da

crítica ao nazismo e à segregação racial sul-africana. Segundo a autora:

 

“A percepção de semelhança necessária à emergência da atracção ficaria, como

afirma Allport (1954).... basicamente comprometida se, apesar da equivalência

de estatuto ou dos papéis sociais na situação, e da existência de um objetivo co-

mum a alcançar, as normas sociais externas reguladoras dos valores e das atitudes

em relação ao outro grupo fossem contrárias à redução do preconceito” (p.337).

 

Mas se a segregação ou a ausência do apoio social ao contato dificultam a dimi-

nuição do preconceito, a presença desse apoio não necessariamente implica essa

diminuição. Adorno et al.(1950) enfatizaram que o clima cultural geral americano

era contrário ao anti-semitismo, devido ao seu caráter democrático e, no entanto,

nem por isso a tendência ao fascismo deixou de existir.

A dessegregação entre os grupos em conflito, por si só, segundo Monteiro (1996),

parece não resolver o problema. Pettigrew, citado por essa autora, diferencia

dessegregação de integração. A primeira refere-se ao apoio legal e institucional ao

contato entre os grupos, a última, a um apoio efetivo na relação entre os grupos baseado

na igualdade de estatuto e na cooperação. O estudo de Luiz e Krige (1981), com alunas

adolescentes sul-africanas brancas e negras, considerando as condições adequadas para

estabelecer o contato, trouxeram resultados confirmatórios dessas condições. Reuni-

ram alunas de colégios segregacionistas, um basicamente só de alunas brancas e outro,

de negras. Estabeleceram três tipos de pares para trabalhar, conversar e comer juntas:

branca-branca, branca-negra e negra-negra. Formaram pares de acordo com a idade e

com a inteligência. Verificaram que, após o contato do tipo branca-negra, alterou-se a

atitude racial positivamente, não havendo nenhuma alteração de atitude em relação ao

próprio grupo.

Paralela a essa dicotomia, Monteiro (1996) apresenta a que foi explicitada por

Sagar e Schofield, entre outros: assimilação e pluralismo. A primeira se refere a que

o grupo minoritário se assemelhe à maioria dominante (que nem sempre é a maio-

ria numérica), a segunda afirma a diversidade cultural. No que se refere aos dois

tipos de preconceito, assinalados anteriormente – contra os migrantes e contra os

deficientes -, parece que a tendência em relação ao combate ao primeiro é empre-

gar a diversidade cultural e em relação ao segundo, a assimilação. Ou seja, o defici-

ente deve ser ‘normalizado’ e o migrante apreciado por sua diversidade. Se as pro-

postas de combate ao preconceito contra o migrante voltam-se para a valorização da

cultura e da história do povo em questão, a defesa do estudo inclusivo, em geral,

acentua as vantagens do deficiente, mas muito pouco as dos que não são deficientes,

que se beneficiam, basicamente, por aprenderem mais cedo a lidar com a difícil

realidade.

No estudo de Monteiro et al.(1999) sobre as crenças das mães de crianças não

deficientes sobre o ensino integrado, que como foi dito inclui crianças deficientes e

não deficientes, encontram-se as seguintes expectativas positivas para os seus filhos:

1 - aumentam a sua auto-estima ao se compararem com a criança portadora de deficiên-

cia; 2 - diversificam precocemente o contato com pessoas diferenciadas; 3 - alargam as

suas competências, a partir do apoio, da ajuda e proteção; 4 - aprendem o respeito pela

diferença. Como se vê, não há nenhuma indicação para essas mães do que a criança

portadora de deficiência possa trazer de si própria que possibilite um ganho para a

criança normal; todas as vantagens se dão pela desigualdade, ou seja, o estatuto entre os

grupos não é igual, mesmo após o convívio. Em síntese, se o branco pode aprender

com o negro, o não judeu com o judeu, o alemão com o turco, o não deficiente não tem

o que aprender com o deficiente, a não ser desenvolver habilidades que marcam a

distinção, que pode ser propensa ao preconceito.

Nos estudos em questão, o conceito de identificação com o mais frágil não é

adotado, tal como o é por Adorno (1995

a), em seu texto Educação após Auschwitz, no

qual argumenta que se o algoz se identificasse com a vítima não haveria nem algoz

nem vítima. É a hipótese da atração pessoal, com base na semelhança da condição

humana que permite a sua diversificação, que precisaria ser ressaltada; todavia é

difícil em uma sociedade que valoriza a força, identificar-se com o que é frágil,

ainda mais quando está em questão a competência que remete novamente à adapta-

ção para a sobrevivência e, portanto, para o fortalecimento da estrutura de nossa

sociedade. O conceito de identificação com o mais frágil permitiria ao

preconceituoso, real ou potencial, refletir sobre a sua própria fragilidade e assim

fazê-lo renunciar à necessidade de sempre ter de aparentar ser forte, o que em geral

leva à violência, ainda que sutil. A necessidade de ter de ser melhor do que os

outros, que responde à necessidade de sobrevivência, pode ser refletida no contato

com o deficiente, e assim tornar mais humano aquele que reflete. Mais do que isso,

o contato com o deficiente pode fortalecer uma das marcas da humanidade: a

superação dos limites dados pela natureza; superação essa que, se pode ser visível

no indivíduo – deficiente ou não deficiente – , é sempre uma façanha coletiva.

Segundo Duckitt (1992), o preconceito contra os negros passou a ser entendi-

do como um problema social e psíquico no início deste século, o que fortaleceu o

seu combate, e isso se deveu, em parte, à luta dos negros por direitos civis; pode-

ríamos pensar que algo semelhante está ocorrendo com os homossexuais que pas-

sam a lutar por seus direitos. Se assim é, caberia aos deficientes e às pessoas de seu

convívio também ampliarem o movimento contra o preconceito, para que não

sejam considerados plenamente como menores de idade, mas claro que mesmo

essa luta, assim como a dos negros e a dos homossexuais, esbarra nos limites de

uma sociedade, cuja organização, voltada mais aos interesses do capital que aos dos

homens, leva à constante luta de todos contra todos.

Certamente, os dois tipos de alvo em questão – os migrantes e os deficientes –

implicam situações diversas, mas no limite ambos se referem à questão da adapta-

ção. Se a cultura, que é básica no conflito com os migrantes, pode ser considerada

como um conjunto de valores, crenças, hábitos que se destina a normatizar os com-

portamentos e explicar os fenômenos da vida, ela não é independente das condi-

ções sociais, que estão mais imediatamente associadas com as questões de sobrevi-

vência, isto é, de adaptação. Em relação aos deficientes, por sua vez, a questão que

mais diretamente se põe é a da dificuldade de adaptação, de autonomia para a so-

brevivência.

A luta pelo direito à diferença é legítimo. Adorno (1986) defende que a essên-

cia é a diferença, mas ao mesmo tempo mostra que a sociedade existente não é

propícia a ela; em 1944, em conjunto com Horkheimer, afirma que as condições

objetivas existentes ligadas às forças produtivas já poderiam prescindir da domina-

ção, exercida sobretudo na relação entre as classes sociais através da obrigatoriedade

do trabalho. Ou seja, já existem condições técnicas e econômicas suficientes para

eliminar a miséria da face da terra; mas para a perpetuação da dominação, os prin-

cipais beneficiados defendem a necessidade da manutenção das condições de tra-

balho e de vida estabelecidas. Ora, uma das questões principais relacionadas ao

trabalho é a adaptação da espécie e do indivíduo, a partir da criação de riquezas

sociais e de reprodução da vida individual; se a riqueza e a técnica existentes já

poderiam reduzir o trabalho a um mínimo, sem comprometer a existência da hu-

manidade, continuamos a viver sob a égide da necessidade do trabalho. Em uma

sociedade de carências, o trabalho é necessário, em uma sociedade de abundância,

não o é. Assim, se a diferença é possível e desejável numa sociedade que conseguiu

superar a necessidade de sobrevivência imediata, sob a marca da dominação exis-

tente pela exigência do trabalho que fortalece cada vez mais o capital e não a vida

humana, a diferença só deveria existir como negação determinada, contudo,

atualmente, sob a forma de pluralismo, ela pode se tornar parte da ideologia, ou

seja, a ocultação das condições já existentes para o verdadeiro pluralismo: a igual-

dade social na ausência de dominação. A atual defesa do pluralismo, em algumas de

suas formas de expressão, implica em igualdade de poder, mas assim mantém o

poder que é contrário à existência das diferenças, e a necessidade de dominação, de

poder, segundo Horkheimer e Adorno (1985), deveria ser dissolvida:

 

“Hoje, quando a utopia baconiana de ‘imperar na prática sobre a natureza’ se

realizou numa escala telúrica, tornou-se manifesta a essência da coação que ele

atribuía à natureza não dominada. Era a própria dominação. É à sua dissolução

que pode agora proceder o saber em que Bacon vê a ‘superioridade dos homens’.

Mas, em face dessa possibilidade, o esclarecimento se converte, a serviço do pre-

sente, na total mistificação das massas” (p.52).

 

A luta pelo direito à diversidade acusa a sociedade intolerante, e nesse sentido é

uma luta necessária, mas não se deveria desconhecer que ela não pode existir em

uma sociedade calcada na dominação, e que essa deve ser combatida e não

reproduzida, caso contrário, a luta pela liberdade auxilia a perpetuação das condi-

ções de opressão, ou seja, conforme foi dito, torna-se ideológica.

Em síntese, os dados experimentais dos estudos citados indicam que o contato

entre grupos conflitantes tende a ser profícuo, desde que garantidas algumas condi-

ções: cooperação, amizade, ilustração, um clima cultural geral adequado... Mas será

que, uma vez cumpridos esses requisitos, as determinações objetivas e subjetivas não

continuarão incidindo sobre essas relações permitindo um tipo de discriminação mais

sutil? O otimismo de Allport e o pessimismo de Amir, que poderiam ser aplicados,

alternadamente, aos diversos estudos sobre a hipótese do contato, em conformidade

com seus resultados, por prescindirem de uma análise mais aprofundada da sociedade

e de sua relação com os indivíduos, não estariam delimitados por uma concepção de

objeto que lhes retira a sua constituição histórica, ou seja, não estariam, nos limites,

indicados por Horkheimer e Adorno, da Investigação Social Empírica? De outro lado,

Freud (1986) argumentou que a cultura consegue dar conta da violência mais visível,

mas não da mais sutil, e Horkheimer e Adorno (1985) localizam marcas de Auschwitz

nas maiores aquisições culturais humanas, o que dificulta ser otimista em relação à

diminuição do preconceito através do contato, ainda que esses autores não deixem de

defendê-lo, pois a formação envolve a experiência das contradições existentes. Se o

otimismo e o pessimismo dos estudiosos da hipótese do contato é alternado e varia,

também, em função dos resultados obtidos nas pesquisas, Freud e os frankfurtianos, a

partir da análise dos conflitos psíquicos e das contradições sociais, podem delimitar a

experiência possível no mundo existente e afirmar a sua necessidade para a constitui-

ção de uma consciência crítica, posto que a formação em nossos dias alcança o seu auge

e o seu limite na resistência aos falsos apelos, mas também na percepção do que já

poderia ser possível, como liberdade, e ainda não o é: a possibilidade de viver num

mundo no qual o preconceito não precise existir. Os estudos sobre a hipótese do

contato trazem essa perspectiva, mas não expõem os seus limites.

 

Relação entre ideologia, personalidade e predisposição ao preconceito

 

Baseado no estudo da personalidade autoritária, Crochík (1999) pesquisou a

relação entre a ideologia da racionalidade tecnológica, que, se já era visível e de-

limitada naquele estudo, parece cada vez mais se sobrepor às ideologias tradicio-

nais; características narcisistas de personalidade, pois julgou-se que a regressão psí-

quica que Adorno et al. estudaram estivesse relacionada com o narcisismo, analisa-

do por Adorno nesse e em outros trabalhos posteriores (Adorno,1986, 1995); e a

predisposição ao preconceito, avaliada pela escala F.

O conceito de ideologia da racionalidade tecnológica e a elaboração dos itens da

escala que avaliou a adesão a essa ideologia tiveram como base os textos de Adorno

(1972, 1991, 1995a e 1995c), Horkheimer e Adorno (1985), Marcuse (1981 e 1982) e

Habermas (1983). Esses itens tentam expressar os conceitos e as características que

serão descritas a seguir. A ideologia da racionalidade tecnológica traz como paradigma

a razão subjetiva ou instrumental, tal como a define Horkheimer (1976), e se expressa

na ciência positivista e na técnica, que desde o século passado, segundo Marx

(1984), já contribuíam para a substituição de mão-de-obra viva pelas máquinas. O

que rege essa ideologia é a lógica formal ou lógica da identidade, que abstrai de

diversos particulares os seus elementos comuns em busca da classificação, ordena-

ção, quantificação etc. A ausência da percepção das contradições e a tendência a

sistematizar os fatos são características dessa ideologia. A realidade tal como pode ser

captada é tida como o referente último, sem se perguntar pela sua gênese e

potencialidades de transformação; ela é naturalizada e eternizada; disso resulta um

hiper-realismo que se alia com a busca pragmática dos resultados, e a percepção

imediata passa a se destacar da realidade como a sua verdade. A ênfase na competência

e, portanto, na solução dos problemas imediatos, passa a ser a tônica para a adaptação

ao mundo atual. Assim, os problemas políticos tornam-se problemas administrati-

vos; os problemas sexuais, disfunções que apontam para falhas do desempenho indi-

vidual; as questões educacionais tornam-se falhas do sistema de ensino ou do apren-

diz; os problemas econômicos convertem-se em falhas do sistema; os problemas

familiares são reduzidos à psicologia; os valores se conformam à realidade estabelecida,

não são refletidos, a não ser pelo grau de adaptação que permitem; o lazer e o trabalho

devem ser organizados tendo em vista a perpetuação do existente.

O conceito de narcisismo baseou-se em alguns trabalhos dos frankfurtianos

(Adorno, 1969, 1986; Marcuse, 1981 e 1982), em alguns textos de Freud (1959,

1974a ,1974b, 1976 e 1986), nos textos de Lasch (1983), de Green (1988) e de Cos-

ta (1984). Para a construção da escala de características narcisistas da personalida-

de, elaborada em conjunto com Maria de Fátima Severiano, os itens foram apre-

sentados na primeira pessoa do singular, para que os sujeitos pudessem se

posicionar mais diretamente frente a eles. Algumas questões apresentam a idéia

do tempo; se o narcisismo tende a abolir a noção do tempo, o presente deve ser

mais valorizado do que o passado e o futuro; de forma similar, a morte deve ser

negada, assim como a velhice ou tudo aquilo que possa implicar mudança. Outras

questões apresentam a valorização do corpo saudável, a afirmação da aparência,

posto que para o narcisista a apreciação dos outros é importante. Outras dizem

respeito aos seguintes temas: relacionamentos superficiais; o consumo desenfrea-

do, que indica uma tentativa de resposta ao sentimento de vazio interior; a necessi-

dade de modelos, ensejada pela ausência de um eu bem estabelecido; e sentimentos

de inadequação e insatisfação.

Os sujeitos dessa pesquisa foram primeiro-anistas de cursos da Universidade

de São Paulo. Foram feitas duas coletas de dados dos alunos do curso de enferma-

gem, uma em 1996 e outra em 1997, obtendo-se respectivamente amostras de 39 e

43 sujeitos. Outras duas amostras foram obtidas, em 1997, no curso de Psicologia -

62 sujeitos - e no curso de Fonoaudiologia - 18 sujeitos. Ao todo, fizeram parte da

pesquisa 162 sujeitos. A idade média dos sujeitos foi a de 21 anos, com desvio padrão de

2 anos. Com exceção da amostra da Psicologia, que continha sujeitos de ambos os sexos

( 20 sujeitos do sexo masculino e 42 sujeitos do sexo feminino), as demais eram com-

postas unicamente de sujeitos do sexo feminino. Nessa amostra, não houve diferenças

significantes entre os dois sexos em relação aos escores obtidos nas duas escalas

construídas: escala da ideologia da racionalidade tecnológica (t = 0,51, 60 g. l. e p

<0,01) e escala de características narcisistas de personalidade (t= 0,95, 60 g. l. e p<

0,01), razão pela qual foi possível analisá-los conjuntamente.

As duas escalas - ideologia da racionalidade tecnológica (escala I) e caracterís-

ticas narcisistas de personalidade (escala N) – foram construídas com itens tipo

Likert; cada item tem seis alternativas de resposta e, de forma similar às de Ador-

no et al. (1950), a pontuação varia de um a sete pontos; quanto maior for a pontu-

ação, maior, respectivamente, a adesão à ideologia da racionalidade tecnológica e

maior o número de características narcisistas de personalidade. A escala da ideo-

logia da racionalidade tecnológica foi composta de 46 itens e a escala de caracte-

rísticas narcisistas de personalidade, de 42 itens. Para as amostras consideradas em

conjunto foram obtidos os seguintes Alphas de Cronbach: Escala I: 0,92 e Escala

N: 0,91. A estabilidade temporal dessas escalas foi verificada em duas aplicações

feitas a 49 primeiro-anistas de Enfermagem, no intervalo de três semanas; obtive-

mos as seguintes correlações de Pearson: escala I: 0.90; escala N: 0,94.

Para o cumprimento dos objetivos desta pesquisa utilizamos também a

escala F, que segundo pode-se inferir das correlações obtidas, por Adorno et

al. (1950), entre essa escala e as escalas de anti-semitismo e etnocentrismo,

avalia a predisposição ao preconceito. Foi aplicada à amostra da psicologia (62

sujeitos) e a uma das amostras da enfermagem (43 sujeitos). Adotamos a últi-

ma configuração da Escala F (forma 40/45) formulada e testada por seus auto-

res. Ela foi traduzida para o português, mas não precisou ser adaptada, pois

quase todos os seus itens fazem sentido para a nossa cultura. O item 22 - ‘It is

best to use some prewar authorities in Germany to keep order and prevent

chaos” - não foi utilizado por requerer conhecimento histórico que lhe dê

sentido. Assim, a escala compôs-se de 28 itens. O alpha de Cronbach obtido

nesse estudo para a escala F foi o de 0,81.

Os desvios padrões médios obtidos nas três escalas não diferenciaram as amos-

tras e tiveram magnitude próxima a dois pontos (deve-se lembrar que a escala pos-

suía sete pontos); a menor média de escores obtida nas três escalas foi a da amostra

da Psicologia (escala I= 3,4; escala N=3,3; e escala F=2,9); os alunos do curso de

Fonoaudiologia tiveram as maiores médias nas duas escalas construídas nessa

pesquisa (Escala I= 4,3 e escala N= 3,6); por fim, os estudantes de enfermagem –

amostra de 1997 – obtiveram, em média, maiores escores que os da psicologia (Escala

F= 3,9).

As correlações entre ideologia da racionalidade tecnológica e características

narcisistas de personalidade variaram, em função das amostras, entre 0,45 e 0,54, sendo

que a menor delas se refere aos estudantes de enfermagem da amostra de 1996 e a maior,

aos estudantes de enfermagem de 1997. As outras correlações variaram pouco entre si;

as correlações obtidas entre a escala F e a escala da ideologia da racionalidade tecnológica

foram 0,64 e 0,66; e as obtidas nas correlações entre a escala de características narcisistas

de personalidade e a Escala F, 0,56 e 0,58. Todas essas correlações são significantes ao

nível de 0,01.

Assim, as hipóteses da pesquisa foram confirmadas. Os sujeitos que aderem à ide-

ologia da racionalidade tecnológica tendem a ter um maior número de características

narcisistas e vice-versa. A percepção do mundo de forma sistemática, técnica, visando

à eficiência e à perfeição de diversas esferas da realidade é, em certa medida, o

contraponto do desvio da atenção por parte do indivíduo do mundo para si mesmo,

possibilitando a hipótese de que a visão tecnológica da realidade pretende evitar a per-

cepção do sofrimento, gerado constantemente pela nossa cultura, tal como o descreveu

Freud em Mal-estar na civilização. Em outras palavras, a técnica, e suas características, to-

mada como fim e não como prolongamento das capacidades humanas, permite desco-

nhecer que os objetos aos quais ela se aplica não se identificam com ela. Mais do que

isso, o apego a si mesmo e a quase ausência de afetos dirigidos aos outros se coadunam

com a catexia da técnica, tal como Adorno alegou em Personalidade Autoritária a respeito

do tipo descrito por ele como Manipulador. Se esse autor dizia que a tendência era a de

que esse tipo fosse cada vez mais freqüente, devido à racionalização técnica das diversas

esferas da vida, os dados obtidos nessa pesquisa tendem a confirmar a sua previsão. As

correlações obtidas entre as escalas F e de características narcisistas de personalidade

também evidenciam essa tendência, e assim, em nossa época, há indivíduos, cujo

apego à técnica responde a necessidades sadomasoquistas, também avaliadas pela

escala F, segundo Rouanet (1989), e/ou narcisistas. A nossa sociedade valoriza o

desenvolvimento desse tipo de indivíduo quer pela ideologia da racionalidade

tecnológica, quer pela ênfase na competência técnica, que se é necessária, pode

trazer consigo não só a solução de problemas, mas também o desejo de destrui-

ção. Além disso, se é próprio do preconceituoso utilizar categorias de classifica-

ção para discriminar os seus alvos, a tecnologia também opera por categorias lógi-

cas de classificação. Evidentemente, a tecnologia e o preconceito não se constitu-

em num único objeto, mas têm aspectos comuns que podem levar a uma aproxi-

mação perigosa.

Os resultados mostram, também, a relação entre a adesão ou não à ideologia da

racionalidade tecnológica e a predisposição aos preconceitos, avaliada pela escala F.

Por trás da idéia da neutralidade da técnica e da sistematização de diversas esferas da

vida pelas categorias da lógica formal, parece que se mantêm os impulsos destrutivos

que se expressariam, entre outras formas, por essas categorias, que, além disso, por

serem formas, prescindem do contato com o objeto para se constituírem. Assim, o

afeto, destituído de vazão imediata, que caracteriza a paixão, reapareceria em uma

forma socialmente aceita e, mais do que isso, necessária para a sobrevivência social e

individual, como preconceito. A apatia, a neutralidade, seriam a sombra da paixão,

ou, de outro modo, a ausência da racionalidade ou o seu excesso estariam implica-

dos, ainda que de maneiras diversas, no preconceito. Desse modo, além de se dar

ênfase ao narcisismo contemporâneo, o que tem sido feito por alguns pesquisadores

(Lasch, 1983; Costa, 1984), caberia continuar a refletir sobre o sadomasoquismo e a

sua relação com a exacerbação da técnica em nossa cultura. De um jeito ou de outro,

dever-se-ia pensar em medidas que, sem prejuízo do aprendizado de técnicas, pu-

dessem contemplar a reflexão sobre elas, no que têm de determinante na (de)formação

individual e social

Certamente esses dados devem ser refletidos a partir da contradição pre-

sente no progresso, indicado por Horkheimer e Adorno (1985). Os avanços

tecnológicos, se têm possibilitado, cada vez mais, as condições da libertação

humana do reino da necessidade, mantêm as condições que geram a injustiça

social. Nesse sentido, defender o desenvolvimento da tecnologia, do progresso,

como fim em si mesmo, contribui para a perpetuação das contradições sociais

existentes. De outro lado, se, como Adorno (1986) afirmou, em cada época, a

sociedade leva os indivíduos às regressões psíquicas que necessita para a sua

reprodução, os desejos e as características narcisistas e sadomasoquistas, que

podem estar associados com a defesa ideológica da técnica, implicam as confi-

gurações individuais necessárias para a reprodução social. O combate a essas

configurações psíquicas que as concebe como falhas individuais e não determi-

nadas socialmente, determinação essa que não ocorre de forma imediata, cola-

bora também para a manutenção social. Mais do que isso, segundo Adorno (1969),

as críticas ao narcisismo individual podem levar ao narcisismo coletivo. Além

disso, a ideologia da racionalidade tecnológica pode auxiliar a expressar o pre-

conceito, em sua forma asséptica, conforme indicam os dados acima apresenta-

dos, o que ilustra a tese de Horkheimer e Adorno (1985) de localizar o fascismo

na gênese e no desenvolvimento de nossa cultura e não como um acidente da

história, ou seja, de mostrar a presença da violência mesmo no movimento que

tenta extirpá-la.

Conforme podemos concluir dos resultados obtidos, mesmo após meio século,

o preconceito continua a estar associado à ideologia que o indivíduo defende e às

características de personalidade. Assim, essas variáveis não não deveriam ser ig-

noradas nos estudos sobre o preconceito, como serem entendidas como marcas subs-

tanciais desse fenômeno. a presença delas, contudo, não é suficiente, conforme

vimos argumentando neste ensaio, é necessário também um entendimento desses

conceitos à luz das contradições sociais e dos conflitos psíquicos.

Por fim, cabe mencionar que as correlações obtidas, ainda que significantes

ao nível de 0,01, são de magnitude mediana e que as amostras estudadas não são

representativas da população, o que leva à necessidade de outros estudos que

confirmem, ou não, os encontrados nessa pesquisa. Isso, no entanto, não invali-

da o que estamos defendendo neste ensaio.

 

Considerações Finais

 

As conclusões dos estudos, que se referem à hipótese de contato, têm sido e

devem continuar a ser postas em prática. Ainda que o preconceito possa ser estabe-

lecido na ausência do objeto, ou se configure como uma deturpação da experiência,

o contato com o alvo da violência, real ou potencial, talvez possa, ao menos, atenuá-

lo, ou alterar a sua forma mais violenta. Essas conclusões, no entanto, precisam ser

pensadas também à luz da ideologia e dos medos e desejos que constituem o indi-

víduo, para que não se obtenha o efeito contrário ao que é esperado, isto é, fortale-

cer a ideologia que colabora com a discriminação, ainda que manifeste o oposto, e

dar novos conteúdos e formas para os desejos se manifestarem, sem que sejam mo-

dificados. Assim, se o preconceito independe da experiência, ou seja, do contato

com o alvo, a mera aproximação entre o potencial ou real algoz e a sempre vítima,

mesmo com as condições adequadas, pode não resolver o problema. O arrolamento

das condições propícias para um bom contato e a sua realização parecem não ser

suficientes no combate ao preconceito, pois a ênfase em condições circunstanciais –

situações de cooperação, apoio social e institucional contra a violência -, arbitraria-

mente criadas, deixa de lado a estrutura social que as impede de surgir espontanea-

mente, e a ênfase no estatuto, nas informações, no sentimento de ameaça, nos este-

reótipos, desvinculada da ideologia e de características de personalidade, impede

que sejam percebidos e combatidos os determinantes sociais e psíquicos da violên-

cia. Claro, como Horheimer e Adorno (1978b) afirmaram, é melhor algum escla-

recimento do que nenhum, e certamente os estudos em questão indicam variáveis

importantes na constituição do preconceito, mas esse esclarecimento não pode ser

entendido como resolução do problema. Nas palavras desses autores:

 

“Oferecer receitas tem escassa utilidade. Mas quem teve em conta os feitos a que os agitadores são

propensos e adquiriu consciência disso talvez já não sucumba igualmente aos seus falsos apelos;

e o que conhece as motivações ocultas do preconceito resistirá a ser um joguete nas mãos dos que,

para libertarem-se do peso que os oprime, voltam-se contra os que são mais débeis do que eles...A

luta eficaz contra os movimentos totalitários não é possível, certamente, sem o conhecimento das

suas causas, sobretudo se quisermos que essa luta atinja as raízes do totalitarismo, as condições

que lhe são propícias na sociedade. Uma concepção acertada e capaz de ser, ao mesmo tempo,

interpretada de forma racional das estruturas essenciais em jogo, que é missão da ciência formular,

não bastará por si só para fazer o necessário mas constitui, sem dúvida, uma contribuição

insubstituível à resolução do problema” (p. 182).

 

A crítica aos estudos sobre a hipótese do contato não visa, assim, retirar a sua

importância, mas mostrar os seus limites; sem a percepção desses limites, como foi

dito, correm o risco de fortalecer o que estão combatendo, uma vez que os obstácu-

los a ser enfrentados, por não serem visíveis, continuam a alimentar as tentativas

que combatem os seus frutos, mas não esses obstáculos. As propostas de combate à

violência enunciadas por Adorno não fogem às determinações sociais, e, dessa ma-

neira, pode parecer contraditório utilizar de seu pensamento para a crítica daqueles

estudos. Essa contradição, contudo, não é do pensamento, mas da realidade, e como

tal deve ser entendida; a sua superação só parece ser possível, tal como defenderam

Adorno et al., com a superação das contradições sociais, isto é, com a alteração da

estrutura de nossa sociedade, enquanto isso não for possível deve-se continuar a

tentar, ao menos, atenuar a violência existente.

 

 

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Notas

 

 

1 Para a discussão sobre a intensa presença da psicanálise nos escritos dos frankfurtianos ver Rouanet (1989).

 

2 Em janeiro de 2000, fiz uma pesquisa bibliográfica dos estudos sobre o preconceito em Portugal, no Laboratório de Psicologia Social do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa. Essa pesquisa limitou-se à publicação da década passada. Devido a isso, a literatura portuguesa sobre esse tema terá relevo neste trabalho.

 

 

 

 

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