TEXTOS

Outros

Manuscritos da juventude

Publicada postumamente, obra de Marx foi escrita em 1844

 Jorge Grespan

 Numa edição muito bem cuidada, o público brasileiro pode contar finalmente com o texto completo dos Manuscritos econômico-filosóficos, escritos na juventude de Marx, em Paris, no ano de 1844, e publicados postumamente em 1932. É difícil descrever o impacto que a publicação tardia causou no marxismo do século 20, acostumado ao pensamento de O Capital, diferente no conteúdo e na forma.

Se talvez pela força desse costume os Manuscritos tenham chamado pouca atenção nos anos imediatamente seguintes à sua publicação, eles não tardaram a provocar uma intensa polêmica, quando se destacou a diferença entre as suas formulações e o que se conhecia e se reconhecia até então como sendo o marxismo.

Em linhas muito gerais, houve aqueles que os consideraram expressão de uma visão humanista mais tarde abandonada por Marx, caracterizando uma diferença essencial, talvez até uma ruptura entre as duas fases da sua obra. Os partidários desta tese dividiram-se, por sua vez, conforme preferissem o humanismo da primeira fase em detrimento do que seria a visão mais economicista ou cientificista própria da chamada obra de maturidade, ou conforme, por outro lado, acreditassem ser esta última mais representativa do projeto e da realização teórica de Marx.

Como essa era a perspectiva dos partidos comunistas, que afirmavam a cientificidade do marxismo, pode-se imaginar a gravidade do desafio que o humanismo lançava a eles. Todo o significado da crítica marxista à sociedade moderna e das práticas políticas daí decorrentes estava posto em questão.

Mas houve também quem insistisse numa continuidade, mesmo que relativa, entre os Manuscritos e a obra posterior. Isso implicava reinterpretá-los a partir desta segunda, como se eles fossem basicamente uma preparação para ela, ou ainda reinterpretá-la através deles, buscando-se nos textos de O Capital, por exemplo, elementos já configurados desde a juventude do autor.

De fato, também nos Manuscritos, e aliás pela primeira vez, aparece uma crítica à economia política e ao capitalismo, numa forma bastante distinta da desenvolvida na obra de maturidade de Marx: não se trata tanto, como nesta última, de uma reexposição dos conceitos econômicos, para explicitar sua contradição inerente e os limites do desenvolvimento capitalista; mas sim da revelação da alienação profunda do homem moderno, criada pela propriedade privada e pelo regime de trabalho assalariado.

Tal diagnóstico é realizado através de formulações brilhantes, em que o trabalho alienado aparece ''concedendo vida ao objeto'' de sua atividade, que daí ''se lhe defronta'' como poder ''hostil e estranho''. Assim, a relação do trabalhador moderno com seu trabalho se configura ''como atividade estranha não pertencente a ele, a atividade como miséria, a força como impotência, a procriação como castração''.

Como pode o homem realizar-se através de seu trabalho, encontrar-se consigo no produto de suas mãos, se ambos não lhe pertencem? A propriedade privada justamente priva o não proprietário do direito de uso e de venda do produto ou do instrumento de trabalho. Este não só se torna alheio, como constitui o poder social que emprega o assalariado, gerando sua miséria material, ou pelo menos a espiritual.

A partir desta idéia de base, Marx desenvolve uma primeira crítica à ciência econômica de seu tempo, que encobriria o fenômeno da alienação em conceitos nos quais ele aparece como relação contratual perfeitamente justa e normal entre o trabalhador e o capitalista. Marx não se dedica, então, como fará mais tarde, a reelaborar tais conceitos: basta aqui apresentá-los tal como aparecem principalmente na obra de Adam Smith, e apontar sua insuficiência. Do ponto de vista metodológico, faltariam à economia política categorias complexas que pudessem apreender o caráter conflituoso do seu objeto.

Por outro lado, é justamente a tematização desse objeto que permite a Marx se contrapor também aos filósofos alemães que o haviam inspirado com seu método crítico. É o caso claro de Hegel, cuja dialética é recusada em sua dimensão idealista, ou seja, conciliatória dos conflitos reais. Mas é o caso, menos claro, também de Feuerbach, de quem Marx começa já a se afastar na sua dupla crítica a Hegel e aos economistas clássicos.

É no cruzamento destas três contraposições que vai se determinando o objeto do próprio Marx. Não é o simples estudo da sociedade civil-burguesa, mas a sua crítica, que lhe confere uma perspectiva própria diante de Hegel e de Feuerbach; e não é sua formação filosófica, mas a crítica dela, que enseja a sua contraposição aos economistas.

Realizada pelo conceito de alienação, esta última não é, nos Manuscritos, mera aplicação à economia da crítica feuerbachiana à religião; assim como não será, em O Capital, transposição da dialética hegeliana que a virasse de cabeça para cima mas conservasse a forma lógica. A novidade do projeto de Marx se faz sentir, de modo e intensidade diferente, em ambas as fases de sua obra. Entre a alienação dos Manuscritos e o fetichismo de O Capital há uma relação complexa, mas também positiva.

Trata-se aqui certamente de um dos nós mais difíceis na compreensão do sentido dos Manuscritos. Mas é ele justamente que define o sentido desse texto como chave de compreensão de toda a obra de Marx, isto é, de um dos diagnósticos ainda mais poderosos e férteis em significado da sociedade contemporânea.

De qualquer forma, o leitor tem agora em mãos os meios para chegar às suas próprias conclusões. A edição da Boitempo, como dissemos inicialmente, é esmerada: nos rodapés há notas eficientes, comentários valiosos e a importante inclusão das citações de Marx no original. E a tradução em geral é competente, embora às vezes insista em se ater ao significado de palavras em detrimento do nexo mais amplo: devem ser destacadas soluções que considero muito felizes, ao lado de outras de que discordo e que faria de outro modo. Os desacordos, porém, tal como ocorre no contexto da própria polêmica sobre os Manuscritos, são absolutamente inevitáveis.

 

Manuscritos econômico-filosóficos

Karl Marx

Boitempo

178 páginas

 

 

 

Contato:
antivalor@bol.com.br