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TEXTOS Roberto Schwarz |
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PERCURSO DE HERDEIRO: ALMANAQUE — CADERNOS DE LITERATURA E ENSAIO* |
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Renata Telles**
O tempo do "aprender a viver", um tempo sem presente tutor, consistiria nisto, o exórdio nos encaminha para isto: aprender a viver com os fantasmas, no encontro, na companhia ou no corporativismo, no comércio sem comércio dos fantasmas. A viver de outro modo e melhor. Não melhor, mais justamente. Mas com eles. Não há estar-com o outro, não há socius sem este com que para nós, torna-se o estar-com em geral mais enigmático do que nunca. E este estar-com os espectros seria também, não somente, mas também, uma política da memória, da herança e das gerações. Jacques Derrida
Ao entrar para o projeto "Poéticas contemporâneas", recebi a tarefa de indexar e analisar Almanaque — cadernos de literatura e ensaio, revista organizada por Walnice Nogueira Galvão e Bento Prado Jr., durante os anos de 1976 a 1982.
O minucioso trabalho de fichamento da revista deu visibilidade a uma maioria absoluta de ensaios, nos quais a presença da literatura, seguida de perto pela filosofia, é esmagadora. Uma revista escrita por críticos literários brasileiros do porte de Roberto Schwarz, Lígia Chiappini Moraes Leite e Walnice Nogueira Galvão, e que não traduz crítica literária. Um conjunto que se agrupa sob as palavras-chave "crítica", "literatura" e "ideologia", e que cita, recorrentemente, Antonio Candido e Adorno. Terminada a indexação, terminavam as regras. Devia agora ultrapassar a descrição desenhada pelos dados extraídos dos 160 artigos. Devia aprender a ler com Almanaque — cadernos de literatura e ensaio, a responder as perguntas que o material me fazia: como articular uma miscelânea, como combinar ensaios de crítica literária, ficções, poesia, manifestos e produzir uma dissertação? Como organizar um relato a partir de tantos fragmentos? Como fugir da descrição óbvia de uma revista acadêmica, que marca claramente o lugar de professores de uma universidade central em um país periférico, a Universidade de São Paulo, e que explicita a linha de análise sociológica da literatura? Como enfim aprender a viver com Almanaque — cadernos de literatura e ensaio? O material que me fazia tantas perguntas também continha respostas. O aparentemente múltiplo da miscelânea dirigia o meu olhar para os textos que fugiam à classificação do banco de dados, discursos irônicos e satíricos que se apresentavam como ensaios, manifestos, cartas, resenhas, jogos e quebravam a previsibilidade da escrita acadêmica. A diversidade desses textos produzia, por sua vez, um enunciado único que deslegitimava um opositor e estabelecia relações com densos ensaios críticos que legitimavam um exemplo. Concentrados nos sete primeiros números da revista, que circularam nos anos de 76 a 78, esses fragmentos explicitavam uma pedagogia da guerra, na qual o adversário não falava com a própria voz, era caricaturado, em que o manifesto calava a polêmica e definia um modelo e um antimodelo. Esse pequeno conjunto de textos compunha uma narrativa das aventuras e desventuras da crítica literária brasileira no final dos anos 70, do estruturalismo e da dialética sociológica, da indústria cultural e do lugar da literatura. Para aprender com Almanaque — cadernos de literatura e ensaio era preciso mais do que encontrar uma narrativa organizada com título, enredo, protagonistas e antagonistas, e analisar suas partes. Era necessário reconhecer nessa narrativa um testamento da crítica literária brasileira e assumir a responsabilidade de herdeiro, ensaiando um diálogo com uma geração que se colocava ao mesmo tempo diante de mim e antes de mim. Para entrar criticamente na narrativa dos grandes, Roberto Schwarz, Lígia Chiappini Moraes Leite, Walnice Nogueira Galvão, Gilberto Vasconcelos e José Miguel Wisnick, perseguindo a argumentação e propondo contra-argumentos, tive que esquecer a sua presença na cena contemporânea e o tamanho de sua obra, e me deter unicamente no legado deixado nas páginas da revista. Traçados todos esses limites e tomadas essas precauções, me aproximo pela extremidade, pelo título estampado na capa: Almanaque — cadernos de literatura e ensaio. Uma escolha deliberada que põe em movimento todos os sentidos e histórias do nome e determina uma direção para a narrativa que nomeia. O almanaque controla o tempo e a dívida na antiguidade, a vulgarização do conhecimento racional e científico da enciclopédia moderna, a popularidade dos conselhos úteis, informações e entretenimento, a circulação e o alcance das revistas de variedades da indústria cultural. Os cadernos de literatura apontam para o território das belas letras, a separação entre a literatura e o almanaque, a defesa da hierarquia e da diferença entre a alta cultura e a indústria cultural. O ensaio convoca a escrita híbrida, entre arte e ciência, escapando da classificação inequívoca e conclusiva do saber científico e da facilitação do almanaque. A convivência da matéria perecível da indústria cultural com o valor imperecível da alta cultura, a junção da leitura facilitada e divertida com a escrita reflexiva e crítica, a escolha de um oxímoro como título, mantém presente a tensão entre os opostos contidos no mesmo nome e revela uma percepção aguda das transformações que afetam diretamente o lugar e a função do crítico literário: a de legislar valores e separar o almanaque dos cadernos de literatura e ensaio. O efeito de indeterminação e indefinição causado pela aproximação do almanaque e dos cadernos de literatura e ensaio, do erudito e do popular, na crítica literária do final dos anos 70, provoca uma reação que coloca em movimento valores, estratégias de ataque e defesa, de exclusão e inclusão, definindo posições no novo cenário diagnosticado. Procuro então a postura e as estratégias discursivas da crítica de Almanaque diante do fato anunciado pelo título. A narrativa dos cadernos é inaugurada por um ensaio que define a diferença entre o almanaque e a literatura. Ao analisar Helena, (1) Roberto Schwarz distingue a "grande literatura" do folhetim de Machado de Assis, estabelecendo como critério de valor a denúncia da contradição entre ideologia dominante e realidade social na forma literária. Sem negar o valor do denso ensaio de Schwarz, que privilegia a leitura da sociedade, busco respostas para essa crítica privilegiando a leitura que Helena faz da literatura e da possibilidade do falso circular como verdadeiro, (2) encontrando um valor aonde ele havia sido negado e mostrando que uma interpretação de herança nunca é única. A verdade do critério de valor definido no ensaio inicial é reafirmada pela apresentação de seu oposto. Sob o disfarce de cartas assinadas pelos leitores Rieman Jakobson e W. Benjamin, (3) o almanaque guarda para os leitores das suas charadas o prêmio da revelação: o outro de Almanaque. Representado como a inversão dos valores defendidos, o antagonista é caracterizado como impostura e erro, como um estruturalista de discurso obscuro e jargão incompreensível, que despreza o leitor e ignora a realidade social. O devedor assim inscrito no almanaque, aquele que não paga tributo e não reconhece o valor estabelecido, movimenta a narrativa mais uma vez e uma recita de sucesso fácil, intitulada "19 princípios para a crítica literária", (4) precisa a caracterização do impostor local. A crítica brasileira adversária, como o folhetim de Machado de Assis desvalorizado no ensaio inicial, é acusada de importar acriticamente teorias estrangeiras distanciando-se da realidade, e, como o confuso estruturalista das cartas, é denunciado pelo jargão artificial e descompromissado com o social. Uma caracterização ampla o suficiente para conter todas as variantes teóricas que questionam a exclusividade do critério social — Chomsky e Propp, linguística moderna, new criticism, fenomenologia, teoria francesa, estruturalismo — e reduzida o bastante para conter as diferenças — Afrânio Coutinho e Haroldo de Campos, nomeadamente, e Luís Costa Lima, Silviano Santiago, Affonso Romano de Santana — no mesmo rótulo. O próximo capítulo da narrativa se organiza em torno de três textos distintos — uma resenha de uma suposta dissertação de mestrado sobre os três primeiros de Almanaque, (5) um jogo de vocabulário (6) e um ensaio de autocrítica (7) — que afirmam ser o mesmo. O aparente absurdo de tal afirmação se desfaz diante da ridicularização do estruturalismo, da semiologia e do trânsito Europa-Brasil, operada pelo pastiche de resenha, do lugar de perdedor reservado para os que apostam na disseminação dos discursos pelo jogo que se diz "racionalista", e do menosprezo pelos que se prendem aos "limites do texto", explicitado pelo ensaio, representando o adversário, ainda mais uma vez, como desligado da realidade, da racionalidade e da humanidade, e, portanto, irreal, irracional e artificial. A insistência na exclusão do estruturalismo, sinônimo de teoria acrítica e impostura, a repetição que quer se convencer de que o que se deseja morto está de fato morto, termina por dar visibilidade ao adversário nas páginas de Almanaque e por revelar o grande incômodo causado pelo avanço dos que criticam o seu critério de valor, a certeza do compromisso social, que distingue a "grande literatura" e a "verdadeira crítica literária". Ao lado da univocidade na defesa desse valor, surge uma voz que retoma o impasse do título para problematizar a rígida distinção entre o almanaque e os cadernos de literatura e ensaio. Mantendo a validade do critério para denunciar a falsa crítica literária, a autocrítica proposta por Lígia Chiappini e Flávio Aguiar reivindica a flexibilização na definição do objeto de estudo, defendendo a necessidade de uma nova postura diante do surgimento das massas, da imprensa independente e do fim do apoio estatal. A rigidez da distinção entre arte crítica e ideologia, que separa a literatura e o almanaque, é responsabilizada agora pelo elitismo que exclui o "gosto da maioria". Mantendo afastado o perigo externo, a auto-intitulada "crítica militante" propõe que se olhe para os outros discursos, adaptando-se ao novo cenário detectado precisamente, sem, no entanto, abrir mão da função de "falar pelas massas". Ao trazer para o centro da narrativa a música popular brasileira, as posições em torno do argumento teórico que sustenta a barreira entre o almanaque e os cadernos de literatura e ensaio, indústria cultural e arte, se radicalizam. A importação acrítica de teorias, característica imputada repetidamente ao adversário, é usada por José Miguel Wisnick (8) para mostrar a inadequação da crítica de Adorno às condições locais. Para além da tímida proposta de flexibilização e longe da resistência à ambivalência dos contrários, o professor de literatura se apóia nas palavras de um músico de sucesso e na antropologia para afirmar a possibilidade de arte na indústria cultural e a impraticável separação do almanaque e dos cadernos de literatura e ensaio na realidade brasileira. A rebeldia em relação ao critério de valor defendido e demonstrado na narrativa de Almanaque não fica sem resposta. Rejeitando qualquer possibilidade de conciliação, Roberto Schwarz (9) ergue categoricamente a barreira entre arte e indústria cultural, reafirmando que a função do crítico literário é a de fazer distinção entre almanaque e literatura, revelando a falsa aparência democrática do nivelamento na escrita complexa do ensaio que se distancia da facilitação do almanaque. Roberto Schwarz interrompe assim sua participação na revista, os ataques irônicos desaparecem e a música popular nunca mais retorna. Os números seguintes passam a ser temáticos, a capa sofre profundas alterações. A curta narrativa que permitiu a leitura da defesa de uma posição na crítica literária brasileira pelo ataque ao adversário e que apontou para uma aguda percepção do momento através da centralidade do debate sobre arte e indústria cultural, se encerra bruscamente, no momento em que ameaçava perder o rumo definido. Almanaque — cadernos de literatura e ensaio contém todos os sentidos, os que ele controla e os que ele não controla: o rumo e o ritmo da história no calendário, a lista de devedores no livro de contas; a popularidade, a diversão e a informação; a enciclopédia que expulsa a ambigüidade; o lugar da elite que escreve a leitura facilitada e pedagógica para as massas. Almanaque contém os cadernos de literatura e ensaio: as belas letras e a capacidade de discerni-las; o erudito e a arte; o oposto do almanaque; a escrita entre a arte e a ciência, argumentação que rechaça o exaustivo e a certeza, o oposto da enciclopédia. Almanaque dá visibilidade ao complementar e ao antagônico, guarda o almanaque, a literatura e o ensaio. As respostas para o crescimento dos almanaques que desestabiliza os cadernos de literatura são articuladas nos ensaios, que trabalham o limite e a fluidez entre o almanaque e a literatura, na resistência, na adaptação e na transformação. Num último lance típico de almanaque, a atualidade das questões que movimentam a narrativa poderia ser lida também como um horóscopo. Através do estudo da posição dos astros num determinado momento e lugar seria possível antever temas centrais do debate atual.
Ao chegar ao final do trabalho, depois de recortar uma narrativa da miscelânea e de ensaiar um diálogo crítico com essa herança, percebo que, em alguns momentos, posso ter colocado a questão em termos de um "Fla x Flu" e assumido a postura do adversário para criticar a revista. Mas gostaria de terminar reconhecendo que além do almanaque e dos cadernos de literatura e ensaio a revista continha uma grande lição, através da qual eu aprendi a respeitar a atualidade de sua herança: na sua ridicularização da crítica adversária, ela me alertou para o perigo da adaptação do objeto à teoria e para o equívoco da generalização; na sua prática, ela me chamou a atenção para a leitura do presente no texto.
NOTAS * Texto apresentado na defesa da dissertação de mestrado "Glória póstuma: Almanaque objeto de estudo", em 19 de novembro de 1999, perante a banca composta pelas professoras doutoras Eneida Maria de Souza (UFMG), Ana Luiza Andrade (UFSC) e Maria Lucia de Barros Camargo (UFSC — orientadora). ** Doutoranda em Teoria Literária — UFSC. (1) SCHWARZ, Roberto. "Só as asas do favor me protegem". Almanaque — cadernos de literatura e ensaio 1. São Paulo: Brasiliense, 1976. Um ano mais tarde, o ensaio aparece como um capítulo do livro Ao vencedor as batatas, com o título "O paternalismo e sua racionalização nos primeiros romances de Machado de Assis". (2) Cf. DERRIDA, Jacques. Dar el tiempo I. La moneda falsa. Barcelona: Paidós, 1995. (3) "Cartas dos leitores" Almanaque — cadernos de literatura e ensaio 1. São Paulo: Brasiliense, 1976. (4) SCHWARZ, Roberto. "19 princípios para a crítica literária" Almanaque — cadernos de literatura e ensaio 2. São Paulo: Brasiliense, 1976. (5) "Glória precoce: Almanaque objeto de estudo" Almanaque — cadernos de literatura e ensaio 6. São Paulo: Brasiliense, 1978. A autoria do texto, publicado sem crédito na revista, é assumida por Walnice Nogueira Galvão e Lígia Chiappini Moraes Leite, quando republicado em GALVÃO, W. N. Gatos de outros sacos: ensaios críticos. São Paulo: Brasiliense, 1981. (6) "O jogo de almaqneu". Almanaque — cadernos de literatura e ensaio 3. São Paulo: Brasiliense, 1977.
(7) AGUIAR, Flávio e
(8) WISNICK, José Miguel.
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(9) SCHWARZ, Roberto. "
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