TEXTOS

Roberto Schwarz

O Papel das Idéias

 

A nova geração freqüenta os escritores da ciência,' não há aí poeta digno desse nome. que não converse um pouco, ao menos, com os naturalistas e filósofos modernos.
 Machado de Assis, "A nova geração"

A presença abundante de teorias científicas e filosóficas nas Memórias refletia um assunto de atualidade. Conforme a expressão pitoresca de Sylvio Romero, os anos 70 do século passado haviam visto chegar ao país' 'um bando de idéias novas". Positivismo, Naturalismo e diversas formas de Evolucionismo disputavam a praça com outras escolas. A sua terminologia, tão prestigiosamente moderna quanto estranha à vida corrente, anunciava rupturas radicais; prometia substituir o mecanismo atrasado da patronagem oligárquica por espécies novas de autoridade, fundadas na ciência e no mérito intelectual.
Era natural que os entusiastas transformassem o espírito científico em panacéia e no contrário dele mesmo. Já Machado percebeu as ironias latentes na situação e tratou de explora-las sistematicamente. Onde os deslumbrados enxergavam a redenção, ele tomava recuo e anotava a existência de um problema específico. No contexto brasileiro, a leitura e propagação das novas luzes européias ocorria de modo particular, com ridículos também particulares.
O ensaio sobre" A nova geração", de 1879, insistia justamente na maneira pouco apropriada pela qual os poetas vinham assimilando a tendência européia recente. Aqui e ali, procurando explicitar impropriedades, Machado encontrava fórmulas para a comicidade objetiva deste processo. O conjunto das anotações esboça uma problemática de muito alcance, e compõe, ou abstrai, no que diz respeito ao funcionamento da vida intelectual, a matéria literária das Memórias.
Por exemplo, a rapaziada "manifesta certamente o desejo de ver alguma coisa por terra", embora não saiba bem o quê. Na falta de objetivo exato, o ímpeto demolidor faz figura descabelada, o que não o impedia, paradoxalmente, de traduzir "otimismo, não só tranqüilo, mas triunfante", pois "a ordem geral do universo parece-lhe (à mocidade) a perfeição mesma". Isso porque "a teoria da seleção natural dá a vitória aos mais aptos", assim como "outra lei, a que se poderá chamar seleção social, entregará a palma aos mais puros".
O progressismo alvar não seria uma exclusividade brasileira, nem a nota dominante daqueles anos. Contudo, associado ao atraso ambiente, ele adquire feição patética e um quê localista. Com efeito, só fazendo abstração completa da realidade, ainda que em nome de uma lei natural ilustre, seriam possíveis o mencionado otimismo e o correspondente contentamento de si. Machado duvidava do aggiornamento repentino por obra da ciência, e tampouco acreditava na independência intelectual súbita. “A atual geração, quaisquer que sejam os seus talentos, não pode esquivar-se às condições do meio; afirmar-se-á pela inspiração pessoal, pela caracterização do produto,
mas o influxo externo é que determina a direção do movimento; não há por ora no nosso ambiente, a força necessária à invenção de doutrinas novas.
É ilustrativa, a propósito, a súmula machadiana da revisão que Sylvio Romero empreendia da cena contemporânea. Este "examina uma por uma as bandeiras hasteadas, e prontamente as derruba; nenhuma pode satisfazer as aspirações novas. A revolução foi parca de idéias, o Positivismo está acabado como sistema, o Socialismo não tem sequer o alto sentido filosófico do Positivismo, o Romantismo transformado é uma fórmula vã, finalmente o idealismo metafísico equivale aos sonhos de um histérico; eis aí o extrato de três páginas". Idéias modernas aqui são tudo - não há nada além delas - e. nada - como indicam as execuções sumárias. Abrangência e irresponsabilidade da crítica, ambas totais, mal ou bem desenhavam um tipo de estudioso e uma situação cultural. Como qualificar a imensidade e o vazio de tais aspirações? Machado descobria para a literatura estes modos de ser, e os fixava para a reflexão.


(Um mestre ma periferia do capitalismo, pp 143-145)

 

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