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A nova geração freqüenta os escritores da ciência,'
não há aí poeta digno desse nome. que não converse um pouco, ao menos, com os
naturalistas e filósofos modernos.
Machado de Assis, "A nova geração"
A presença abundante de teorias científicas e
filosóficas nas Memórias refletia um assunto de atualidade. Conforme a expressão
pitoresca de Sylvio Romero, os anos 70 do século passado haviam visto chegar ao
país' 'um bando de idéias novas". Positivismo, Naturalismo e diversas formas de
Evolucionismo disputavam a praça com outras escolas. A sua terminologia, tão
prestigiosamente moderna quanto estranha à vida corrente, anunciava rupturas
radicais; prometia substituir o mecanismo atrasado da patronagem oligárquica por
espécies novas de autoridade, fundadas na ciência e no mérito intelectual.
Era natural que os entusiastas transformassem o espírito científico em panacéia
e no contrário dele mesmo. Já Machado percebeu as ironias latentes na situação e
tratou de explora-las sistematicamente. Onde os deslumbrados enxergavam a
redenção, ele tomava recuo e anotava a existência de um problema específico. No
contexto brasileiro, a leitura e propagação das novas luzes européias ocorria de
modo particular, com ridículos também particulares.
O ensaio sobre" A nova geração", de 1879, insistia justamente na maneira pouco
apropriada pela qual os poetas vinham assimilando a tendência européia recente.
Aqui e ali, procurando explicitar impropriedades, Machado encontrava fórmulas
para a comicidade objetiva deste processo. O conjunto das anotações esboça uma
problemática de muito alcance, e compõe, ou abstrai, no que diz respeito ao
funcionamento da vida intelectual, a matéria literária das Memórias.
Por exemplo, a rapaziada "manifesta certamente o desejo de ver alguma coisa por
terra", embora não saiba bem o quê. Na falta de objetivo exato, o ímpeto
demolidor faz figura descabelada, o que não o impedia, paradoxalmente, de
traduzir "otimismo, não só tranqüilo, mas triunfante", pois "a ordem geral do
universo parece-lhe (à mocidade) a perfeição mesma". Isso porque "a teoria da
seleção natural dá a vitória aos mais aptos", assim como "outra lei, a que se
poderá chamar seleção social, entregará a palma aos mais puros".
O progressismo alvar não seria uma exclusividade brasileira, nem a nota
dominante daqueles anos. Contudo, associado ao atraso ambiente, ele adquire
feição patética e um quê localista. Com efeito, só fazendo abstração completa da
realidade, ainda que em nome de uma lei natural ilustre, seriam possíveis o
mencionado otimismo e o correspondente contentamento de si. Machado duvidava do
aggiornamento repentino por obra da ciência, e tampouco acreditava na
independência intelectual súbita. “A atual geração, quaisquer que sejam os seus
talentos, não pode esquivar-se às condições do meio; afirmar-se-á pela
inspiração pessoal, pela caracterização do produto,
mas o influxo externo é que determina a direção do movimento; não há por ora no
nosso ambiente, a força necessária à invenção de doutrinas novas.
É ilustrativa, a propósito, a súmula machadiana da revisão que Sylvio Romero
empreendia da cena contemporânea. Este "examina uma por uma as bandeiras
hasteadas, e prontamente as derruba; nenhuma pode satisfazer as aspirações
novas. A revolução foi parca de idéias, o Positivismo está acabado como sistema,
o Socialismo não tem sequer o alto sentido filosófico do Positivismo, o
Romantismo transformado é uma fórmula vã, finalmente o idealismo metafísico
equivale aos sonhos de um histérico; eis aí o extrato de três páginas". Idéias
modernas aqui são tudo - não há nada além delas - e. nada - como indicam as
execuções sumárias. Abrangência e irresponsabilidade da crítica, ambas totais,
mal ou bem desenhavam um tipo de estudioso e uma situação cultural. Como
qualificar a imensidade e o vazio de tais aspirações? Machado descobria para a
literatura estes modos de ser, e os fixava para a reflexão.
(Um mestre ma periferia do capitalismo, pp 143-145)
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