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Renata Telles
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Desde que haja alguma coisa em comum aos trabalhos, sou a favor desse tipo de mistura, que a especialização acadêmica e o purismo das teorias literárias foram pondo de lado. A crítica que se fechou na literatura e se desinteressou do resto, não saiu melhor ou mais científica, nem, aliás, mais artística [4]
Um
Conforme explicava um professor meu, há uma certa reversibilidade própria aos estudos literários, que permite chegar a uma visão aprofundada da realidade a partir da forma, e vice-versa. Seja como for, você vê que o meu livro continua alinhado no campo da mistura. [5] O que há de comum na mistura forma um conjunto inequívoco que contém a trajetória intelectual de Schwarz e suas publicações no suplemento da Folha de São Paulo: graduação em ciências sociais e pós-graduação em literatura; seminários de Marx, “O sentido da colonização” de Caio Prado Jr., a lição de Antonio Candido; ensaios de análise social, política e literária. Uma mistura que rejeita a “monstruosa salada” de um Euclides da Cunha e que busca, na reversibilidade aprendida com o mestre, a “matéria brasileira”, assim definida para explicar a construção de seu livro: Dito isto, postas lado a lado, as duas obras tornam tangível o que se poderia chamar de “matéria brasileira”: um conjunto de relações altamente problemático, originário da colônia, solidamente engrenado, incompatível com o padrão da nação moderna, ao mesmo tempo que é um resultado consistente da própria evolução do mundo moderno, a que serve de espelho ora desconfortável, ora grotesco, ora utópico (nos momentos de euforia). A tenacidade desta estrutura é ponto assentado de nossa historiografia. O que procurei indicar no livro é que vários momentos fortes da inteligência brasileira, inclusive as invenções literárias mais originais, lhe respondem de forma também estrutural e lhe devem a relevância. [6] Matéria brasileira que atravessa os variados textos de Schwarz sobre literatura no Mais!: a “dimensão referencial e realista” do livro de Jean-Claude Bernadet [7]; os “constrangimentos práticos” refletidos em Capitu [8]; a “história que opera dissociação análoga” ao livro de Helena Morley [9]; os “nexos em que sentimos o peso inexorável da história contemporânea” em Cidade de Deus de Paulo Lins [10]; “a especificidade nacional que toma feição negativa” nos romances de Machado [11]; a “exploração da experiência histórica brasileira” nos contos do mesmo autor [12]. Matéria brasileira que, conformando o que há de comum na mistura, é explicitada nos ensaios não literários: “a inerência do nosso processo cultural à cena contemporânea” no debate com Frederic Jameson [13]; a “esperança meio complacente e meio ingênua” explicada a Susan Sontag [14]; a “dialética entre globalização e desagregação” no ensaio sobre engajamento [15]; “o fim das ilusões” provocado pela “desintegração do projeto nacionalista” em palestra proferida na universidade de Yale [16]; a explicação do “dado estrutural” da sociedade brasileira na entrevista; as “relações entre atraso, progresso e produção de mercadorias” na análise retroativa dos tempos de estudante [17]; o “presumido encerramento” de um ciclo histórico na apresentação de Robert Kurz, o ensaísta alemão tão citado [18]. Além de dar coerência à trajetória e algo de comum à mistura, o conjunto de textos marca a diferença entre a aposta de Machado em um sintoma de mudança e a desilusão de Schwarz com a desintegração de um projeto, o passar de um século, e, também, a continuidade da preocupação, nos dois autores, com a matéria brasileira e a desigualdade social. Enquanto Machado via na discussão e diálogo proporcionados pelo jornal uma transgressão à organização desigual, um ganho, Roberto Schwarz encontra nas transformações que atingem as condições de possibilidade do discurso crítico uma incorporação ao sistema, uma perda. Ao tratar da história do conceito de engajamento e, portanto, de intelectual, e seu desenrolar no Brasil, Schwarz desenha a dimensão e a razão desse extravio. Pela definição, a decisão do engajamento envolvia uma “nota de aventura e escândalo”: Com efeito, ao engajar-se o intelectual cometia uma traição de classe. Não só passava para o outro lado, como colocava os seus conhecimentos e preparo cultural a serviço dos despossuídos, ou, ainda, redirecionava a cultura burguesa contra o seu fundamento de privilégio. [19] Pela história, passando pelo exemplo de Joaquim Nabuco, da “idéia sob medida para o Brasil desenvolvimentista” e da radicalização dos anos de 1962 a 1964, a decisão do engajamento envolve, a partir das greves do final dos anos 70, mudanças que o impossibilitam: as guerras de libertação nacional que deixam sem objeto o terceiro mundismo; as conquistas dos grandes sindicatos na Europa e sua integração política e cultural; a expansão violenta da lógica da mercadoria que acompanha a campanha ideológica do fim do marxismo; a adoção do “horizonte teórico pacificado” dos países ricos; a tecnificação da sociedade e o aumento do número de especialistas. Em cenário tão negro, Schwarz detecta a absorção institucional e conseqüente perda de função crítica do engajamento: Quase todos estamos empenhados, suponhamos, na administração pública, nalgum partido, num departamento da universidade, numa firma de pesquisa, num sindicato, numa associação de profissionais liberais, no ensino secundário, num setor de relações públicas, numa redação de jornal etc, com o objetivo nem sempre crível de usar nossos conhecimentos em favor de alguma espécie de aperfeiçoamento e modernização. Assim, um dos impulsos essenciais à idéia de engajamento, que mandava trazer a cultura dita desinteressada ao comércio dos interesses comuns, se realizou plenamente. O que não ocorreu foi a esperada diferença democrática que esta descida à terra faria. Na falta dela, o compromisso social dos especialistas, incluída aí a dose normal de progressismo, é o mesmo que ir tocando o serviço, e a combatividade do engajamento pode ter algo de um lobby de si próprio. [20] A promessa traída é índice histórico. Em palestra proferida na universidade de Yale sobre as ilusões da modernidade brasileira, Roberto Schwarz demarca o início do nosso “Fim de século” nos anos 80, momento em que o “nacional desenvolvimentismo entrava em desagregação” e adquiria “um peso de catástrofe real”. Dessa forma, as ilusões perdidas da modernização brasileira nos colocam, relembrando Caio Prado Jr., como parte integrante de um sistema, e, relembrando os seminários, como peça da engrenagem capitalista. Considerada deste ângulo, aliás, a desintegração nacional não é uma questão nacional, e sim um aspecto da inviabilização global das industrializações retardatárias, ou seja, da impossibilidade crescente, para os países atrasados, de se incorporarem enquanto nações e de modo socialmente coeso ao progresso do capitalismo. [21] Delineada a impossibilidade, Schwarz termina o seu ensaio com uma pergunta que, na reversibilidade, aponta para a cultura e a estética: A pergunta não é retórica: o que é, o que significa uma cultura nacional que já não articule nenhum projeto coletivo de vida material, e que tenha passado a flutuar publicitariamente no mercado por sua vez, agora como casca vistosa, como um estilo de vida simpático a consumir entre outros? Essa estetização consumista das aspirações à comunidade nacional não deixa de ser um índice da nova situação também da ... estética. Enfim, o capitalismo continua empilhando vitórias. [22] Um capitalismo monstruoso e insaciável que engole não só a mídia televisiva, mas também o espaço que o crítico utiliza, os jornais. Em conversa com Susan Sontag, Roberto Schwarz expõe o problema:
Acho que há alguns lugares onde a baixeza própria à sociedade moderna se acumula e se condensa. A televisão certamente é um deles, os jornais são outro. São lugares que levam a experimentar o caráter inextricável da enrascada em que vivemos. Por isso mesmo o sentimento de impotência e perplexidade frente à TV ou instituições parecidas é uma experiência crucial, que poderia ser didática, se os espíritos oposicionistas fossem menos acomodados. (...) A simpatia e a tolerância com que ela (TV) conta na intelectualidade brasileira é um indício seguro da nossa falta de espírito crítico. [23] O presente parece ser insuportável e inviável. O monstro que devora tudo e cospe mercadoria, ao se mostrar mais faminto e já sem medo de oposição, desmancha a ilusão e revela a desagregação de um projeto, uma catástrofe real. Como bem percebe Roberto Schwarz nos seus ensaios publicados no suplemento do jornal, a democracia que Machado entrevia no diálogo não foi realizada. Ela surge no presente como traição: um jornal sem espaço para o espírito crítico, um suplemento de jornal que é igual ao livro, um jornal que convém à desigualdade social. Experiência de impotência. Se o presente representa a traição do passado, a promessa não cumprida, se aquilo que desejamos já foi prometido e nunca realizado, é porque ele permanece como promessa e conservamos sua memória, como algo ainda pensável. A memória, no entanto, não pode devolver o passado tal como ele foi, mas pode restituir-lhe possibilidade. Recordando Machado de Assis, veremos que não se trata de nostalgicamente lamentar o aniquilamento do antigo, de recuperar uma perda, mas de perceber nesse fim anunciado, o sintoma de uma outra possibilidade, ou seja, de encontrar no presente o passado e o futuro. Lembramos assim que Machado não fala sobre uma democracia de fato e sim sobre o seu sintoma e sua potência, investindo na força da desagregação entre o passado e o presente, na energia do aniquilamento e no vigor da erupção, no risco aberto pelo diálogo e no chamado à responsabilidade para com o futuro que sua traição representa. Um jornal que deve ser combatido no jornal, na expressão de sua limitação e na afirmação de uma promessa. Esse moer contínuo do espírito, que faz da inteligência uma fábrica de Manchester, repugna à natureza da própria intelectualidade. Fazer do talento uma máquina, e uma máquina de obra grossa, movida pelas probabilidades financeiras do resultado, é perder a dignidade do talento e o pudor da consciência. Procurem os caracteres sérios abafar esse estado no estado que compromete a sua posição e o seu futuro. [24]
Notas: [1] MACHADO DE ASSIS. “O jornal e o livro”, publicado no Correio Mercantil em 10 e 12 de janeiro de 1859, incluído em “Miscelâneas” Obras Completas v.3. Rio de Janeiro: Aguilar, 1973, p.948. [2] MACHADO DE ASSIS. “Aquarelas — II O Parasita”, publicado em O Espelho de 11 e 18 de setembro de 1859, incluído em “Miscelâneas” Obras Completas v.3. Rio de Janeiro: Aguilar, 1973, p.953. [3] MACHADO DE ASSIS. “A reforma pelo jornal”, publicado em O Espelho de 2 de 3 de outubro de 1859, incluído em “Miscelâneas” Obras Completas v.3. Rio de Janeiro: Aguilar, 1973, p.964. [4] “Duas Meninas na periferia do capitalismo”. Entrevista concedida a Fernando de Barros e Silva. Mais!. 01/Junho/1997, p.5.
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[12] “A pulga no cachorro”. Mais!, 28/março/1999. [13] “A permanência do marxismo”. Mais!, 23/outubro/1992. [14] “Sontag encontra Chaui e Schwarz”. Mais!, 25/julho/1993. [15] “Nunca fomos tão engajados”. Mais!, 26/junho/1994. [16] “Fim de século”. Mais!, 04/dezembro/1994. [17] “Um seminário de Marx”. Mais!, 09/outubro/1995. [18] “Uma prosa de ensaio”. Mais!, 14/dezembro/1997. [19] “Nunca fomos tão engajados”. Mais!, 26/junho/1994.
[20]
[21] “Fim de século”. Mais!, 04/dezembro/1994. [22] Idem. [23] “Sontag encontra Chauí e Schwarz”. Mais!, 25/julho/1993. [24] MACHADO DE ASSIS. “Aquarelas”, publicado em O Espelho de 11 e 18 de setembro de 1859, incluído em “Miscelâneas” Obras Completas v.3. Rio de Janeiro: Aguilar, 1973, p.951.
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