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TEXTOS
Roberto Schwarz
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Schwarz reúne
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JOSÉ CASTELLO
A reunião em livro de artigos e ensaios breves publicados dispersamente na imprensa diária se transformou numa prática cada vez mais comum no Brasil. O que pode parecer só uma estratégia de oportunismo editorial é, ao contrário, um forte vitalizante, com efeitos positivos em toda a produção intelectual. A razão é simples: numa época em que a literatura ensaística parece contaminada por uma linguagem cada vez mais cifrada, os textos escritos para a imprensa, menos tensos e de estilo mais direto e elegante, se transformaram muitas vezes num verdadeiro oásis não só de clareza, mas de lucidez. É o que se encontra em Seqüências Brasileiras, coletânea de artigos do crítico literário e professor paulista Roberto Schwarz. O livro, lançado pela Companhia das Letras, reúne 23 ensaios sobre temas tão abrangentes e diversos como a estética marxista, o engajamento, a poesia contemporânea, a prosa de Chico Buarque e a originalidade na crítica literária. Sempre fiel à tradição crítica do marxismo, Schwarz faz uma análise bastante dura da vaga de frivolidade e exibicionismo que se dissemina hoje na cultura brasileira. Em Seqüências Brasileiras, ele exercita, mais uma vez, sua perspectiva crítica peculiar, na qual a observação estética não se afasta um só momento do pano de fundo social e a literatura é vista, sempre, em sua relação direta com o mundo real. E, se esse mundo é complicado e se desagrega, mais afiada a crítica deve ser. Na entrevista que se segue, Schwarz discute alguns dos temas abordados no livro. Faz a defesa de Cidade de Deus, o polêmico romance de Paulo Lins, aponta um preconceito que estaria em vigor contra artistas como Chico Buarque e Caetano Veloso no momento em que eles decidem dedicar-se à literatura e reafirma, mais uma vez, a atualidade inesgotável de Machado de Assis.
Roberto Schwarz - A minha impressão é que não falta gente interessada em literatura nas redações de jornal nem nas faculdades. Mas é verdade que os cadernos culturais, que se concebem em função do consumo e do lazer, dificilmente deixam brecha para a formação do juízo independente e argumentado. A mercantilização da cultura depois de certo ponto barra o exercício da reflexão crítica. O processo se completa quando os artistas também passam a se entender como funcionários do show, quando então deixa de haver o que criticar. Não faço essas constatações em espírito saudosista e sei que nessas coisas não há volta atrás. O passo à frente consiste em não fazer o jogo do contente, em tomar consciência do desastre e da degradação que a comercialização maciça representa. Esse é um dos assusntos de meu livro.
Schwarz - É preciso distinguir entre marxismo e ideologia dos partidos comunistas. Esta última tem parte em algumas das aberrações políticas e estéticas deste século. Entretanto, se você considerar o marxismo independente, o balanço é outro. Até onde vejo, o conjunto contraditório formado por Adorno, Benjamin, Brecht e Lukács, com Marx ao fundo, pôs na mesa muito do que havia a dizer sobre a arte do século 19 para cá. O marxismo é uma teoria crítica do processo de capitalização e de mercantilização das relações humanas. Esse processo hoje atingiu um predomínio e uma intensidade nunca vistos. Sob esse aspecto, o marxismo é mais atual agora que no tempo de seu nascimento e, apesar da maré contrária, é difícil achar uma perspectiva que rivalize com ele a sério.
Schwarz - No essencial, o engajamento diz respeito à relação entre os intelectuais e os excluídos. A idéia é que os intelectuais, educados nos princípios civilizatórios da ordem burguesa, consideram intolerável a exclusão social de uma parte da população e se engajam ao lado dela contra a sua classe de origem. O ideal do engajamento começou a morrer, aliás, nos países que integraram socialmente as suas classes operárias. À medida que estas passavam a negociar normalmente um quinhão no progresso material do capitalismo, a opção heróica dos intelectuais perdia o propósito. No Brasil, onde essa integração não ocorreu senão muito parcialmente, a tese de que a vida intelectual não deva tomar as dores de outras classes e deva restringir-se a disputas de ibope e financiamentos representa a morte do espírito.
Schwarz - Se eu tivesse uma editora e recebesse o Estorvo, de Chico Buarque, sem a indicação do autor, publicaria imediatamente, com a emoção de estar dando a público um grande livro, notável pelo engenho literário e pela representatividade nacional. Há na praça um preconceito segundo o qual um cantor popular não pode ser também um escritor. A Verdade Tropical, de Caetano Veloso, foi vítima do mesmo preconceito. Os dois livros foram muito lidos, mas não tiveram o reconheciumento devido na área literária. Ambos fazem empalidecer boa parte da produção comparável vinda do estrablishment. A crítica, além disso, anda com dificuldades - talvez lhe faltem os conceitos - para reconhecer a dimensão nacional onde quer que ela esteja.
Estado - O sr. foi uma voz quase solitária no elogio do rromance Cidade de Deus, de Paulo Lins, outro tema de seu livro. Continua a considerá-lo um romance importante? Schwarz - Se Chico Buarque foi objeto de um preconceito de corporação, o Paulo Lins é objeto de preconceito de classe propriamente dito. A matéria de Cidade de Deus é mais que poderosa. É um universo novo, que interessa e nos afeta de maneira decisiva e que ele conhece a fundo. A expansão do crime ligado ao narcotráfico é vista de dentro, sem exotismo, sem complacência romântica com os criminosos, mas também sem moralismo. A escrita incorpora a brutalidade dos criminosos, a do sensacionalismo jornalístico e até a linguagem sociológico-administrativa, mas refunde tudo num jorro lírico, que deve algo a uma variante meio popular da poesia concreta e é uma recusa da degradação. É um ponto de vista dos mais substantivos. Dito isso, se alguém sair catando desigualdades de fatura, vai encontrar.
Estado - A análise da obra de Machado está esgotada? Quais são os aspectos nela ainda hoje menosprezados? Schwarz - A obra de Machado não só não está esgotada como rejuvenesceu. O rejuvenescimento data mais ou menos de 1964, ano a partir do qual começaram a se dissipar as ilusões antigas a respeito do compromisso da elite brasileira com a nossa população pobre. A partir daí, o chamado niilismo de Machado, que fazia dele um clássico da psicologia e do idioma, mas não da compreensão do País, começou a ser encarado como clarividência histórica. Um escritor da estatura dele de tempos em tempos se renova com as mudanças do mundo.
Folha, 8 de
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