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[O texto a seguir, publicado na Revista USP, foi originalmente redigido para o Diccionario Enciclopédico de las Letras de América Latina da biblioteca de Ayacucho. Traça-se um panorama do primeiro crítico literário brasileiro preocupado com a relação entre forma literária e processo social e teve o devido cuidado - ao mediar os elementos formais com a realidade extra-literária - de manter-se afastado dos extremos do formalismo e do sociologismo literário. Dois ensaios fundamentais, citados neste verbete, podem ser lidos na seção do sítio dedicada a Antonio Candido, assim como a introdução da obra Formação da Literatura Brasileira]
Roberto Schwarz
Antonio Candido (de Mello e Souza)
(n. 1918).
O
A
“ Dito isso, o lugar da Formação na estante fica ao lado das obras clássicas de Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda e Caio Prado Jr. Como estes mestres haviam feito para os padrões da sociabilidade e da vida econômica, AC historia o vir-a-ser do sistema literário nacional, relativamente estável, auto-referido, com dinamismos e problemas próprios, que cabe identificar e estudar. Neste sentido tangível, trata-se de um livro fundador. Pelo que representaram de conquista no ambiente, vale a pena destacar ainda a exigência da fatura e o ponto de vista esclarecido. A erudição literária e histórica, impecável e sóbria, firma um padrão novo. As influências estrangeiras são estudadas sem ofuscação colonizada nem arrepios nacionalistas. O livro renova e aprofunda a leitura de praticamente todos os autores de que trata, que são muitos. Possui em alto grau a arte do perfil e da caracterização breve, também de figuras menores. E trouxe a uma disciplina comparativamente atrasada e enumerativa como a história das literaturas nacionais a preocupação com a unidade susbstancial e articulação interno do objeto, que as ciências sociais mais elaboradas então cultivavam. Em palavras do Autor, a Formação busca reconstituir a história dos brasileiros no seu desejo de terem uma literatura. Esta aliança de esforço artístico e missão nacional, um fato de época, relevante e definidor, obriga a crítica a atender às duas dimensões, ou seja, a praticar a análise interna das obras bem como a salientar o seu papel na edificação da cultura pátria. A propósito seja dito que a ironia acompanhando expressões como esta última é característica do livro, emprestando distância e acerto literário à sua prosa, às voltas com uma empreitada história inseparável de certa dose de oficialismo. Nos ensaios posteriores, espalhados em revistas e sucessivos volumes, AC adota um ângulo diferente. Ainda usando a sua terminologia, o interesse agora se concentra nos processos de estruturação, onde elementos da realidade externa se tornam forças ordenadoras internas à obra, aí correndo o seu destino estético, revelando dimensões que escapam ou divergem da ideologia e das intenções deliberadas do artista. Em conseqüência, a prioridade passa para a análise formal, ligada à configuração objetiva da obra, em cujo âmbito as intenções do criador não passam de um elemento a mais, freqüentemente recontextualizado de modo imprevisto, revelador, e até comprometedor. O exame atento a tudo e ao mínimo na organização interna de um romance ou poema, apoiado na convicção da relevância cognitiva da elaboração artística, descobre relações que têm, além da potência artística, valor heurístico para a exploração da realidade histórica. Estamos diante da inversão do esquema “reducionista”, onde a realidade explica as obras. Em “Dialética da malandragem” (1970), ensaio característico a esse respeito e central para a crítica brasileira dos últimos decênios, a análise formal permitiu a AC mostrar: a) a qualidade notável de um romance tido como menor (as Memórias de um Sargento de Milícias (1854), de Manuel Antônio de Almeida); b) a sua posição central na literatura e cultura do país, colocando em foco uma linha de força – a malandragem – até então despercebida, que vem da Colônia e é retomada em algumas obras-primas do Modernismo; c) uma conexão estreita entre a sua originalidade formal e uma peculiaridade da estrutura de classe da sociedade brasileira, esta última salientada e revista a partir de seu papel matricial na organização profunda da narrativa, à qual portanto coube a função heurística, de estrutura-guia; d) a consideração comparativa daquela “originalidade nacional”, ponderada no âmbito da humanidade contemporânea, no caso através de um esboço de confronto entre a “malandragem” do Sargento de Milícias e o rigorismo puritano da Scarlet Letter (1850) de Hawthorne. Cada um destes passos traz um avanço, seja pela dimensão inédita posta em evidência. Trata-se, enfim, da realização exigente e não-dogmática do programa dialético na crítica, um programa muito proposto e nunca cumprido, que é, sem exagero, uma das aspirações intelectuais deste século. A inspiração geral é marxista, ao passo que o instrumental é elaborado com independência, no quadro do debate corrente nas ciências sociais e na crítica literária dos anos 50 a respeito de um estruturalismo desenvolvido por conta própria, de inspiração antropológica e sociológica, em oposição ao marxismo vulgar, mas em todo caso anterior à moda estrutural de inspiração lingüística, à qual discretamente os trabalhos de AC se opuseram como uma alternativa de esquerda. Igualmente notável, nesta linha de crítica, é o ensaio “De Cortiço a Cortiço”, onde se estudam comparativamente O cortiço (1890) de Aluísio Azevedo e L’Assommoir de Zola. A partir dos fins dos anos 60, AC começa a publicar ensaios onde se combinam a análise e o depoimento exato. São escritos que abrem mão da terminologia e exposição científica, mas não da disciplina mental e dos conhecimentos correspondentes. Apoiado na excelente memória, onde está repertoriada a experiência nesta altura já longa do estudioso da literatura e da sociedade, o ensaísta circula reflexivamente entre anedotas, testemunhos, decênios, explicações, teorias, numa prosa precisa e ágil. A leitura do prefácio-homenagem à 5ª. edição de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, bem como da “Digressão Sentimental sobre Oswald de Andrade” ou das reflexões sobre “A Revolução de 1930 e a Cultura” produz o efeito de uma forma literária própria, difícil, realizada à perfeição. Em 1960, ao dar um curso em Montevidéu, AC fez amizade com Angel Rama, cuja militância latino-americana o impressionou. O desconhecimento recíproco entre hispano-americanos e brasileiros bem como o esforço necessário para superá-lo passam a figurar entre as suas preocupações. O estudo pioneiro sobre “Literatura e Subdesenvolvimento” é um resultado desta perspectiva unificadora. A importância do professor, cujas aulas são legendárias pela clareza e elegância, é tão grande quanto a do crítico. A posição de relativo destaque dos estudos literários no debate intelectual do país se deve em parte a seus esforços atualizadores. Foi dos primeiros a introduzir a Teoria Literária no currículo universitário, em 1961. Na mesma época passava a dar curso de pós-graduação sobre autores brasileiros modernos, que até então não eram objeto de pesquisa acadêmica.
Publicado em Revista da USP, São Paulo, número 17, p. 176-179, março-abril-maio de 1993.
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